Notas iniciais
Espero que gostem, tanto quanto eu gosto de escrevê-la.

01 — Prólogo

Pov. Joe:

Eu comecei a tropeçar por causa dos meus cardarços desamarrados. Parei meu trajeto para corrigir isso. Enquanto fazia os laços, Santiago ficou ao meu lado, impaciente.

Nós estávamos no auge dos dez anos com uma mente perturbada pela vida no subúrbio. Perturbados pelas gangues.

Os mais velhos , nos deixavam acreditar que fazíamos parte dos Touros como qualquer outro membro, mas eu sabia que erámos apenas peões invisíveis. Um policial, não pararia duas crianças andando pela rua. Mesmo que estivessem carregando um pacote suspeito, o que era a situação.

Abrir o pacote é proibido. Todos os que já foram ou são aviões, sabem disso. Há dedos-duros em toda esquina.

Quando terminei o laço e levantei, Santiago me entregou o pacote. Segui-o, em silêncio, de volta ao sobrado.

— Hey. — Santi chamou, e quase bati meu corpo no seu. Ele parou subitamente. — Aquele não é seu irmão?

Meus olhos seguiram a ponta de seu dedo até uma viela, entre uma loja de doces e um brechó. Aquela viela, marcava a separação dos territórios das gangues. O lado da loja de doces, pertencia aos Touros (gangue do meu irmão) e o outro lado aos Romenos.

Apesar da rivalidade, todas as gangues mantinham um acordo sobre as fronteiras: Sem derramar sangue sobre elas.

Axl estava com os cabelos loiros despenteados e com uma expressão séria no rosto. Vestia a tipica jaqueta vermelha e jeans escuros. Estranhei sua presença naquela viela e também a sua companhia: Kevin. Kevin não dava as caras há semanas.

— Ele não expulsou Kevin do nosso território? — perguntou Santi antes de ficar ao meu lado. Ficamos imovéis observando-os conversar. — Será uma retaliação?

Com Axl não havia retaliações.

— Não sei.. Axl odeia Kevin — e portanto o havia expulso dos Touros.

— Kevin é nosso melhor-amigo. — senti sua dúvida. — Né?

— Sempre seremos.

Os dois pareciam alterados, e tão focados na discussão que nem notavam as pessoas passando ao redor com um misto de pressa e medo no rosto. Kevin estava trêmulo e com o olhar confuso, cada vez que Axl abria a boca para falar, ele parecia que ia desabar em lágrimas.

Movi minha cabeça para o carro de Axl, estacionado perto deles. Santiago entendeu e atravessamos a rua, nos escondendo abaixo da traseira. Me mantive próximo a roda, observando-os discutir.

Você me pertence! E vai voltar.

Jamais voltaria para aquele inferno! Eu sou herdeiro dos Romenos. Kevin deu um passo para frente e me surpreendi por se posicionar tão firme. Ele nunca havia, até então, desafiado Axl. Seria esse o motivo das brigas entre ambos? Um dia, será maior que os Touros.

Só quando eu estiver morto. Então entre logo na porra do carro!

A porta do brechó foi aberta e dois Romenos surgiram. Um deles usava uma bandana presa ao pulso, típico para se identificar. E foi justamente ele, que se colocou entre Axl e Kevin.

— O que está acontecendo? — perguntou a centímetros do rosto do meu irmão. Axl o empurrou.

— Se você se aproximar de novo, vai se arrepender. — rugiu Axl.

O outro Romeno passou o braço pelo pescoço de Kevin, o puxando para trás e colando seus corpos. Sussurrou algo em seu ouvido, fazendo meu amigo ficar imóvel.

O cara da bandana riu, e acertou um gancho de direita em Axl. Meu irmão teve poucos segundos para reagir e se defender, de outros socos que vieram em seguida.

Olhei para os lados em busca de ajuda. As pessoas se esconderam dentro dos comércios. A rua completamente vazia.

— AXL! — gritei por impulso e correndo em sua direção. Esse foi meu erro. Meu irmão desviou a atenção para mim e seu oponente aproveitou para o acertar com uma faca que sacou em poucos segundos. As memórias daquele dia são turvas.

— Vá para casa! — Axl trovejou com a mão sobre a faca, cravada em sua barriga. Pela primeira vez, eu o vi assustado. O Romeno se afastou com um sorriso no rosto. — Qual o problema de vocês? As fronteiras são neutras! — ele puxava a faca lentamente para fora e o sangue corria por sua mão.

Eu fiquei horrorizado e parado há alguns centímetros dele.

É difícil manter a neutralidade quando o líder dos Touros está na minha frente sem defesa alguma. — o Romeno respondeu com o olhar sobre mim. — Não fazemos mal a crianças, mas posso mudar de ideia, se não saírem daqui.

— Kevin é um Romeno agora, nós o defenderemos. — gritou o cara que o segurava.

— Parem! Não podem derramar sangue aqui. Isso iniciará uma guerra. — Kevin soltou o que estava entalado em minha garganta.

— Deixem as crianças fora disso. — Axl pediu e finalmente tirou a faca da barriga. Seu corpo balançou, mas ele se manteve em pé e sacou seu revólver, apontando diretamente para Kevin. — Ele é um de vocês? E se ele morrer?

— Axl pare, você precisa de um médico! — Kevin alertou encolhido sobre os braços do cara. Meu irmão olhou rapidamente para mim e atirou na parede como um alerta.

Eu joguei o pacote na direção do dono da faca e pulei sobre ele. Não percebi que Santiago estava atrás de mim, até vê-lo sobre o mesmo cara. Kevin conseguiu se soltar devido ao susto. Eram três garotos com toda a sua raiva esvaindo sobre dois adolescentes.

Um tiro soou. Procurei meu irmão, que mantinha a arma baixada e o olhar fixo sobre o meu. Então, seu corpo foi de encontro ao chão.

O terceiro Romeno estacionado na frente do brechó apontava a arma para nós. Kevin e Santiago desistiram e foram dominados.

Eu corri para Axl e o abracei com toda a força que restava em mim. Seus olhos azuis encaravam os meus, mas não com o calor de sua recepção ao encontrá-lo, com a frieza da vida esvaindo de seu corpo.

— AXL! — gritei. Meu corpo reagiu ao impulso e acordei de sobressalto. Sentado sobre a minha cama de casal, eu sentia minha respiração descontrolada. — Axl... — murmurei com as lágrimas deixando os meus olhos. Fitei minhas mãos. As letras de seu nome estavam marcadas em mim para sempre. Assim como a angústia de cada noite sonhada com sua morte.

Meu pesadelo me fez perder o sono e me levou a cozinha, onde tomei um copo de água e comecei a preparar um chá para me acalmar. Enquanto a água aquecia, eu chorava pela desgraça na qual me encontrava. Seria diferente se Axl estivesse comigo?

A campainha tocou repetidas vezes. Atravessei o corredor limpando as lágrimas na camiseta que vestia. Pelo buraco na porta, eu avistei Hasegaya. Meu velho amigo, vestia uma camisa de gola alta preta, e na Yakusa, isso significava morte.

— Quem morreu? — indaguei antes de abrir a porta. Um baque me jogou para trás com força. A porta bateu.

— Você! — ele prendeu minha atenção sobre suas pálpebras caídas. — Escute, foi jurado e se não sair de Las Vegas esta noite, sua cabeça vai ser a nova decoração do hall dos Miyazaki's.

— Como...

— Hiro descobriu tudo. — anunciou antes de andar por todo o meu apartamento procurando algo. Esperei uns segundos, até que retornasse a sala. — Sua cabeça está valendo cem mil doláres.

— Você veio buscá-la?

Me deu um tapa na cara. Eu balancei a cabeça, concordando com a atitude.

— Eu te vi crescer, e não quero estar aqui quando for morrer.

— É só deixar o apartamento. — sugeri. Ele me encarou incrédulo com a piada. — Desculpe.

— Arrume suas coisas, enquanto eu enrolo meus companheiros.

Caminhei para a cozinha atordoado e desliguei a água. Ouvi a porta sendo escancarada.

— Encontrou ele? — ouvi uma voz desconhecida. Meus dedos se fecharam sobre a alça do bule e o levei comigo até o batente da porta. A sala se conectava a cozinha através de um corredor, então se alguém surgisse, eu notaria. — O chefe está impaciente.

— Não vi nada. Acho que ele já fugiu. — Hasegaya respondeu friamente. Eu invejava sua habilidade de encenação.

— Eu não confio em japoneses. — desta vez eu reconheci a voz. Miyazaki queria me ver morto mesmo, para chamar John para a caça. O homem tinha dois metros e sua mão, o tamanho da minha cabeça.

— Vou dar uma olhada. Ele deve ter deixado pistas. — O desconhecido foi sensato.

Ouve um breve silêncio. Então ouvi passos no corredor. Instantaneamente, meu coração acelerou a cada toque da sola do sapato social no piso de madeira. Os sons me davam uma noção da distância dele e julgando que Hasegaya só usava tênis, assim que vi o vulto sobre o batente, levantei a tampa do bule e derramei a agua fervente sobre seu rosto. Um urro suou pelo apartamento, eu o empurrei e corri para o quarto.

— Eu sabia!. — John rugiu na sala.

O homem no corredor gritou e esperneou até seu corpo tombar no chão.

No quarto, eu acendi a luz e deslizei sobre a cama pegando o revólver sobre o criado-mudo. Me abaixei ao lado da cama, e procurei as balas na gaveta do movél. Eu não podia falhar, se não seria morto.

— Peter! — a porta do quarto foi chutada e meu coração quase saiu pela boca. Tentei me manter em silêncio com o revolver sobre o peito. Só havia uma bala. — Não é muito educado ao receber visitas.

— Desculpe, eu não limpei a casa, sabe. — me ergui com a mira sobre seu rosto feio. John era conhecido pela sua força e seu tamanho de gigante. Ele abriu um sorriso mostrando os dentes podres. Carregava apenas uma faca que pegou na cozinha. — Eu sou rápido no gatilho. — tentei não me abalar. Minhas mãos tremiam.

— Será? — ele moveu a mão esquerda para o interruptor de luz e o abaixou. Meus olhos mal piscaram e seu corpo estava sobre o meu no piso. — Sou imprevisível.

Tentei me livrar de seu peso ao socá-lo, mas foram meus dedos que ficaram feridos. Suas mãos passaram pelo meu corpo de uma forma sexual e ao mesmo tempo violenta até que se fecharam ao redor do meu pescoço. Eu movi minhas mãos com muito custo para seu rosto. Antes que enfiasse o dedo em seu olho, o aperto na minha tráquea me sufocou ao ponto de eu acreditar no meu fim.

Ele riu. Como todo sádico, não ia me matar tão rápido. Soltou meu pescoço e por alguns segundos eu pude respirar. A faca entrou no meu abdômen e lentamente a senti rasgando cada camada da minha pele.

— Ah... — soltei com o olhar sobre o seu. A iluminação dos postes da rua, caia diretamente sobre seu rosto sem expressão. Ele havia perdido as contas das vezes que matou alguém. — Por favor... Atire em mim depois. Quero morrer como meu irmão.

Ouvimos um som de tiro, e pensei automaticamente em Hasegaya. A dor na barriga foi se misturando a do pescoço, e eu não tinha forças para relutar. Meu revolver estava longe.

O silêncio dominou o apartamento, e me permiti fechar os olhos para a morte.

Notas finais
O que acharam?