Vivité
2 Capítulo 1 (Reyna) - Após uma perda
—Achou que poderia escapar, não é mesmo? Ninguém dá valor a uma prostituta, querida. -disse o dono da estalagem passando as mãos pelo rosto de Reyna. -O único lugar que você tem valor é aqui! -Senvon riu. -Enfim, você está horrível! Onde estava esse tempo todo?
Reyna passou as mãos pelos olhos limpando as lágrimas que ameaçavam sair.
—Estava cansada, meu senhor. Tentei encontrar outro modo para sobreviver... -ela suspirou. -Mas é como o senhor mesmo disse... Ninguém dá valor a uma prostituta.
Senvon riu.
—Tentou a vida como mendiga? Pois é o que me parece, pelo seu estado...
—Não, senhor Senvon. -Reyna pensou para responder. -Eu acabei como escrava de um casal no reino vizinho. Mas acabei sendo muito explorada e fugi.
—Que triste história... Agora trate de tomar um bom banho e voltar a suas devidas atividades, querida. Vários homens, principalmente o general Melfik, sentiram sua falta. -Senvon deu as costas e retirou-se.
Melfik era o general de Quirón. Reyna sentia um nojo repugnante daquele homem. Ele era grosseiro e hostil. Era o carrasco do reino. Todas as noites estava presente na estalagem e sempre solicitava Reyna para deitar-se com ele, não importava o que estava fazendo ou com quem.
Reyna era jovem, tinha vinte e um anos. Longos cabelos loiros acompanhado de um pelo par de olhos castanho-claro e um corpo que parecia ter sido minunciosamente planejado para ser perfeito. Era simplesmente encatadora. Todos queriam se deitar com ela ao menos uma vez.
A jovem passou três longos anos de sua vida naquele local. Conhecia cada espaço, cada canto, como se fosse sua casa; e realmente era sua casa. Não tinha família e a pouco tempo havia perdido sua mãe.
Reyna chegou no quarto para banhar-se, quando ouviu uma voz conhecida dizer:
—É você mesmo? Não acredito! -uma mulher de cabelos castanhos correu para abraçá-la. Era sua velha amiga, Amélia. -Não sabe o quanto senti sua falta...
Reyna virou-se emocionada.
—Minha querida amiga... -as duas sentaram-se à cama. -Senti tanto a falta dos teus conselhos nos momentos difíceis que vivi.
Amélia olha sua amiga com espanto. As duas eram confidentes. Toda e qualquer coisa que acontecesse, elas compartilhavam entre si e viam como uma poderia ajudar a outra. Mas quando Reyna fugiu, por conta de sua gravidez, não havia dito a sua amiga; sentia um turbilhão de emoções e não sabia como pensar, agir.
—Rey, conte-me tudo o que aconteceu... Você se foi sem me avisar, fiquei tão preocupada. -disse Amélia.
—Ah, Mel... Foram tantas coisas... Me arrependo tanto... -Reyna suspirou.
Amélia a olhou com o tom de "Conte-me logo!".
—Então, tudo começou aqui, nessa estalagem. Acho que se lembra na noite que o general Melfik não tinha vindo. Nessa noite havia sentido um mal estar e minhas regras estavam atrasadas. Um grande desespero tomou conta de mim, pois um filho era o que uma prostituta não poderia pensar. Sabe como seria difícil para mim, e para própria criança. -Amélia mostrava-se surpresa. -Decidi então pensar que essa era uma mera dedução e guardei-a para mim. Com o tempo os mal estares se mostraram ainda piores, e não tive escolha, tinha que aceitar o filho que estava a vir. Não teria coragem de impedir minha gestação. Só tinha uma escolha: fugir. Senvon nunca aceitaria uma de suas meretizes grávida. Enfim, enquanto estava gestante, vaguei pelas ruas de Quirón como uma mendiga e me escondendo em vielas para não ser reconhecida. Quando tive minha filha... -Reyna pôs-se a chorar. -Me desloquei com muito esforço aos portões do reino e deixei a pequena Joana na carroça de um mercador, depois disso, me restaram apenas memórias de poucos momentos com minha filha.
—Reyna... -Amélia deu-lhe um longo abraço. -Eu sinto muito... Se você tivesse me avisado, talvez eu desse um jeit...
—O que está feito, já está feito, minha amiga. -Reyna interrompeu-a
—Sinto perguntar-lhe, mas sabe quem possa ser o pai de sua filha? -disse Amélia
As duas encararam-se ao ouvir pesadas passadas no corredor.
—Tenho minhas deduções, mas acredito que seja o... -Reyna foi interrompida por batidas fortes na porta do quarto. Ela então levantou-se e se dirigiu à porta. Quando abriu, desejo não tê-la aberto.
—Olá, minha querida, senti falta de você... do seu corpo. -disse o general Melfik com um sorriso tenebroso estampado em seu rosto desgastado e cheio de cicatrizes.
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