Viva La Vida

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Essa minha "volta" sutil vai para a Mura, a Yuka e a Indi. Música: Viva La Vida. Banda: Coldplay.

I used to rule the world,

Seas would rise when I gave the word.

Now in the morning and I sleep alone,

Sweep the streets I used to own.

Um novo dia começava e Aleksander não tinha vontade de se levantar. Abriu os olhos lentamente, relutante, enquanto seu corpo virava-se para cima. As mãos saíram de baixo das cobertas e ele suspirou, sentindo o frio tocar-lhe a pele dos braços desprotegidos.

Olhou para o relógio na parede e confirmou o que já desconfiava: era tarde. Os ponteiros marcavam 14h30min e o dinamarquês pode perceber que o sol brilhava forte lá fora, atrás das cortinas, do vidro e da grade da janela de sua casa. Mesmo assim, não sentia vontade de sair da cama.

Desde que perdera — quase — tudo, essa era a sua rotina. Tornara-se ainda mais despreocupado e não levava a sério nem as conferências mundiais — até mesmo os outros países acostumaram-se a não esperá-lo.

Ainda assim, ele disfarçava muito bem. Para os outros, era o país mais feliz do mundo — e, de certo modo, era verdade. Não era falso ao brincar com as outras nações, muito menos quando incomodava os outros nórdicos. Porém, por mais que tentasse reprimir esses sentimentos, Aleksander sentia-se mal ao perceber quão bem eles estavam sem o domínio dinamarquês.

Ele só não conseguia definir o que o norueguês sentia — calado e calmo praticamente o tempo todo, não dava para distinguir quando ele estava triste ou com raiva.

Ao pensar em Adrien, Aleksander levantou-se quase que inconscientemente. Pensou que, em épocas antigas, vê-lo-ia sentado na mesa, apoiado nas mãos, com a mesma cara de sempre e teve a inútil esperança de que isso seria realidade quando saísse de seu quarto e descesse as escadas. Já estava em pé quando passou a mão pelo rosto, espantando a falsa esperança dos pensamentos e abriu a porta.

I used to roll the dice,

Feel the fear in my enemy's eyes.

Listen as the crowd would sing:

"Now the old king is dead! Long live the king!”

Venceu os degraus vagarosamente e parou no fim da escada, contemplando a própria casa. Ela era uma bagunça. “Dane-se”, pensou consigo, “a casa é mesmo minha e... Só eu vivo aqui”.

Aleksander estava parado. Seu corpo ficara imóvel e seu olhar estava fixo na porta quando a campainha tocou. A reação dinamarquesa foi apenas uma:

— Preciso me lembrar de quebrar isso da próxima vez.

Também não sentia vontade de atender, mas conduziu-se em um andar trôpego até a porta. Quase moveu os lábios em um “Não tem ninguém em casa” e quase riu com a frase. Mas parecia sério demais para tentar qualquer coisa e girou a chave.

One minute I held the key...

Next the walls were closed on me.

Assim que abriu, seu espanto estampou-se em seu rosto na mesma hora. Ficou estático, rezando para que sua visita tirasse-o do estado de choque, mas ela nada fez senão continuar ali, esperando pelo convite para entrar, talvez.

— É assim que você recebe quem te visita? Acho que é por isso que ninguém vem.

— E-eu, é que... Bom, na verdade... Já ia... Quero dizer...

— Tudo bem — empurrou o dinamarquês com sutileza, dispensando as palavras de um “com licença”.

Adrien correu os olhos pela casa e não pode deixar de comentar.

— Como você vive aqui, Aleksander?

O dinamarquês já havia trancado a porta e várias respostas passaram pela sua cabeça naquele instante: “Quem te disse que eu vivo?”, “A casa é minha, você sumiu daqui. Lembra-se?” ou até mesmo um simples “Não é da sua conta”. Mas ele nada disse — não sentia necessidade de esconder-se de Adrien mais uma vez.

— Também se tornou um homem de poucas palavras? Não é assim que você parece ser nas conferências.

O norueguês continuou examinando o ambiente, procurando algum lugar para se sentar. Mesmo sem o convite do dono da casa, não sairia dali tão cedo — e Aleksander já havia reparado que tinha algo de estranho com o seu visitante.

I used to rule the world...

Now in the morning and I sleep alone.

Adrien sentou-se no estofado vermelho, em algum lugar onde não estivesse tão bagunçado. Haviam copos pela mesa de centro, garrafas de vinho, uísque, cerveja e vários outros tipos de bebidas espalhados pelo chão. As almofadas estavam jogadas em qualquer lugar.

O norueguês lembrava-se que, quando morava ali, existiam cinco tipos de almofadas, cada uma com uma bandeira nórdica. Quando olhou com mais cuidado pela sala, reparou que as únicas inteiras e relativamente bem-conservadas eram as da Dinamarca. As outras estavam despedaçadas, como se tivessem sido rasgadas com tesouras, faca, algum objeto pontudo.

— Aleksander... — disse, com a voz ainda mais fraca. Estava um tanto receoso, mas não deixava transparecer. Não ainda. — Por que fez isso? — justificou apontando para os tecidos e as espumas que saíam deles e espalhavam-se pelo chão da sala. — E... Com o que você fez isso?

O dinamarquês apenas sentou-se na mesinha de centro, pegando uma garrafa partida ao meio. O vidro era vermelho e as pontas afiadas destacavam-se com certo brilho enquanto ele a virava de um lado para o outro, analisando-a.

— Com isso.

Aleksander ainda contemplou a garrafa por mais alguns segundos antes de jogá-la para o norueguês sem aviso prévio algum.

— Pegue — falou só depois de jogá-la.

Adrien pegou-a de susto, evitando que caísse em seu colo. Ao segurá-la, as pontas roçaram-lhe o braço, cortando-lhe a pele. Embora não fossem ferimentos graves, fios de sangue escorreram pela pele branca do norueguês e ele reprimiu um pequeno gemido.

— Doeu? — perguntou o dinamarquês, enquanto subia as escadas novamente.

It was the wicked and wild wind

Blew down the doors to let me in.

Shattered windows and the sound of drums...

People couldn't believe what I'd become.

— E-ei... Onde...

Adrien quis perguntar onde ele estava indo, mas não conseguiu e percebeu que os ferimentos começavam a incomodar mais do que ele imaginava. Com a mão esquerda, segurou o braço machucado, concentrando-se na dor com os olhos fechados.

Depois de alguns minutos, Aleksander voltou. Nas mãos, o norueguês conseguiu ver apenas uma tesoura e realmente não soube o que sentir, mas apenas esperou no sofá, quieto.

And I discovered that my castles stand

Upon pillars of salt and pillars of sand.

O dinamarquês ajoelhou-se aos pés do norueguês e apenas abriu a toalha que trazia. Estendeu a mão, como se pedisse o braço machucado e Adrien concedeu. Com calma, Aleksander passou o tecido pelos cortes, fazendo seu paciente estremecer.

— Não pode estar doendo tanto assim. Pode? — perguntou.

Levantou-se para molhar o pano e tirar o sangue que já havia secado; o contato frio da água com a área extremamente quente fizera o norueguês pular outra vez.

— A-aleksander... — gemeu baixo, com o rosto corado. Algumas lágrimas estavam presas em seus olhos, relutando-se em cair dali.

Aleksander suspirou e, assim que terminou de limpar os cortes, enfaixou-lhe o braço, tendo o cuidado de não apertar demais.

— Está bom assim?

Os olhares encontraram-se e Adrien não respondeu. Mantiveram-se fixos e a mão dinamarquesa escorregou pelo antebraço norueguês até chegar-lhe nas mãos. Assim que as apertou com certo cuidado, desviou o olhar para o chão, cerrando um pouco os olhos.

For some reason I can't explain

Once you go there was never...

Never an honest word...

Naquela hora, Adrien percebeu o que estava acontecendo. Sem a necessidade de palavra alguma, ele apenas tornou-se consciente da tristeza dinamarquesa e de tudo que ele havia passado até ali. Aleksander era teimoso, controlador — descontrolado — e até mesmo um pouco ditador, era verdade...

— Mas eu... — o norueguês não terminou a frase.

Adrien segurou-lhe o rosto com ambas as mãos e uniu os dois lábios, beijando-o timidamente. Aleksander não deixou de mostrar-se um tanto espantado, mas logo correspondeu enquanto levantava-se lentamente. Apoiou uma das pernas no sofá, entre as pernas norueguesas e ficou sobre ele, sem interromper o beijo um instante sequer.

For some reason I can't explain...

...Never an honest word...

...But that was when I ruled the world.

Notas finais
Reviews. :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!