Viva La Vida
1 Prólogo
Notas iniciais
Eu costumava dominar o mundo
Oceanos se abriam quando eu dava a ordem
Agora pela manhã durmo sozinho
Varro as ruas que já foram minhas
Vive l'Empereur!
Napoléon era recebido como um verdadeiro herói e sob gritos e mais gritos. Vive l'Empereur! Gritava e repetia o povo. Vive l'Empereur! Era um momento de glória. O momento tão esperado. E Vive l'Empereur!, brandavam.
Francis Bonnefoy sorria, observando a cena de longe, em seu cavalo branco. O mesmo cavalo branco. O povo clamava, e era a vontade do povo o que valia. O que dizer de Luís XVIII? Desde sempre fora impopular e não havia como ser seu favorito. Napoléon levava grande admiração do jovem loiro, que sorriu-lhe ao virar-se. O que deveria fazer?
– Francis! — O homem exclamou. O francês, sobre o cavalo branco, bateu continência e piscou para ele. Seria esse o destino que tomara a sua, poderia assim chamar, Revolução? Seria aqui, nesta pequena linha tênue que os separava, entre o povo e um cavalo branco, o fruto do trabalho de ambos? Era inegável seu afeto por Bonaparte, já grisalho. Acrescentou, quase abafado pela onde de excitação que os cercava:
– Longue vie à l'Empereur!
{...}
O sol da manhã era fraco e o acordou antes de todos. Ainda sonolento, em tudo que conseguia pensar é que, talvez, apenas talvez, o mundo ainda repousasse tranquilo, dormisse sem preocupações e sonhasse com doces venturas. Era uma teoria falha. Havia sonhado e gostaria de ainda prender-se no mundo dos sonhos. Mas oceanos já não mais abriam-se quando ele dava a ordem.
Primeiro incomodando-lhe as pálpebras os raios pouco quentes e nada agradáveis transformaram, aos poucos, uma multidão em luz pálida, distorciam a figura de um cavalo e dissolviam um sorriso cativante. Esfregou-as e obrigou-se a abrir os olhos, deparando-se com um velho quartinho de empregados. Limpo e organizado, mas, jamais poderia ser comparado com a grandeza que sempre fora lhe oferecida. E dormia sozinho. Nunca havia dormido sozinho. Não até agora.
Afastou os lençóis que antes cobriam-lhe o corpo. A noite havia resolvido não ser cruel desta vez. Era um alivio. Esfregou o rosto mais uma vez. Jamais conseguiria acreditar que sua realidade era um pesadelo e preferia estar lutando em guerras ao lado de seus melhores revolucionários. Jamais desistiria deles, agora presentes apenas em memórias que apagavam-se dia-a-dia e em sonhos que sonhava noite após noite. Olhou para o céu, visto através da pequena janela do comodo apertado. Liberté, Égalité, Fraternité. Em que Napoléon estaria pensando?
Foi ao banheiro. Lavou o rosto, arrumou as roupas. Preparou-se para mais um dia. Outro dia que amanhece. Francis Bonnefoy era agora um soldado. Um soldado sem guerra. Que atirava, diariamente, contra fantasmas que não poderia alcançar. Prendeu o cabelo, que havia adotado um corte diferente, e um pouco mais “comportado” desde que começara a viver nesta situação. Encarou o espelho por um breve minuto: Sua visão estava começando a ficar embaçada já fazia um tempo.
Partiu para a cozinha. Preparou um bom café da manhã, deixando sua tão estimada culinária de lado, assando algumas iguarias da região. Serviu a mesa para ninguém. Quem estaria acordado? O sol mal nascera. Deixou-a bem enfeitada e tomou uma vassoura em mãos. Já na porta de entrada, varria o chão tranquilamente. Afastando a poeira e as incertezas. Nada mais lhe pertencia e, tudo que podia fazer era observar o céu. E varrer. E notar como as nuvens atravessavam a grande imensidão azul de forma tão preguiçosa e leve. Fechou os olhos: O mundo continuava sendo tão lindo como sempre. O mundo continuava a girar, como sempre. O mundo já não mais o pertencia, como sempre. E havia tornado-se verdadeiramente mais solitário, como já não podia se lembrar. Talvez, como sempre.
– Francis. — Seu nome foi lançado ao vento. Seu nome foi chamado e um “oui” já não seria mais o que daria como resposta. Na verdade, sua vontade de responder era nula. Fingiu não ter notado e continuou o que fazia. — Francis, por favor. — Um suspiro.
– Sim…?
– ... Venha tomar o café.
Fale com o autor