Visitante Noturno
1 Parece que ele vai voltar á noite...
Notas iniciais
–Ele está atrasado... — murmurei. Ele não costumava fazer isso. Mas, se parar pra pensar, eu também não costumava sair á noite depois que tudo estivesse quieto e todo mundo estivesse dormindo, até pouco tempo atrás.
Começou... ta, não lembro quando começou. Só lembro que ele me acordou no meio da noite, me dizendo que queria companhia. É, acho que foi isso. Nós conversamos pouco, porque na maior parte do tempo ele ficava olhando para o céu.
Mas eu gostava da sua companhia.
E eu acho que ele gostava da minha.
Ele não parecia gostar de nenhum contato físico ou emocional, mas uma noite nos beijamos. Ninguém começou, eu acho... só aconteceu. Eu só lembro bem de depois. Porque ele corou. Pouco, mas parecia muito naquela pele pálida. Então levantou e foi embora, como fazia toda noite.
Mas, na noite seguinte, eu não sabia se ele viria, então eu fiquei esperando. E ele veio.
–Eu não me atrasei — disse ele, me tirando dos devaneios e se aproximando.
Parecia um pouco cansado. Ai que eu reparei como ele estava mudado sem que eu prestasse atenção. Ao contrario dos cabelos compridos, agora estavam num corte militar, mas que continuava sempre bagunçado, com vários fios caindo sobre o rosto. Estava mais alto, quase do meu tamanho, e com os músculos um pouco mais desenvolvidos.
Usava os costumeiros All Stars pretos, jeans escuro, uma regata larga, também preta, e carregava o casaco de aviador pendurado no ombro. A pele continuava pálida, e eu gostava de ver um sorriso no seu rosto, mais frequentes a noite.
–Atrasou, sim — disse. Nico segurou a minha nuca e me deu um selinho, com um sorriso de lado, vindo se sentar comigo encostado na parede de trás do meu chalé.- E oi.
–Você que chegou muito cedo. Oi.
Teimoso...
–Ta, ok — rolei os olhos — Como estava o MC Lanche? — perguntei, sabendo que o único motivo que o atrasaria seria um monstro ou, o mais provável, um MC Donalds. Para ele, isso é tão importante quanto respirar.
–Muito bom, Superman – disse, tirando do bolso um bonequinho do Asa Noturna, menor que um dedo (uma chance: de onde veio o bonequinho, hein?!). Ficou brincando com ele na frente dos olhos, os cotovelos apoiados nos joelhos.
Ele pegou essa mania de me chamar de Superman...
Ele jogou o boneco pra mim e eu peguei no ar. Enquanto eu mexia distraído no boneco, ele se aproximou mais de mim e deu um beijo no meu pescoço, fazendo um arrepio correr pelo meu corpo.
Só ele, mesmo...
–Nico,eu tenho mesmo que ser tão sensível a você...? — sussurrei, fechando os olhos.
Acho que ele sorriu pela minha reação, e trilhou beijos do meu pescoço ate o maxilar, e daí á boca. Tomou meus lábios nos seus, até que minha língua pediu passagem, e ele cedeu prontamente. Era um ósculo lento, apaixonado. O beijo foi se intensificando quando ele sentou em meu colo com as mãos nos meus ombros, e os meus braços rodearam sua cintura, colando os corpos. As línguas lutavam por espaço, enroscadas, e descobríamos novamente cada milímetro da boca um do outro.
Quando o ar se fez necessário, nos separamos ofegantes, mas ainda próximos. Logo dirigi minha boca ao seu pescoço, depositando pequenos beijos, enquanto sentia seus dedos brincarem com meus cabelos da nuca.
As noites passavam assim, e era tudo muito bom. As caricias, os beijos, as provocações e sussurros e o calor dos corpos na noite agradável. Essa seria assim também, se não caísse uma garoa fina, nada realmente raro no acampamento, mas que aumentou, junto com o barulho trovões.
Ok, agora é serio... Zeus, que palhaçada é essa?
–Hum, Jason...
Ele se levantou do meu colo, pegou o casaco caído no chão e me deu a mão para levantar. Com um último beijo, ele colocou o casaco sobre os ombros e saiu andando rápido, para fora do acampamento. Achei estranho, porque era só uma chuva, não tinha nada demais, e...
–EI! – Gritei, acima do barulho, indo atrás dele. Segurei ele pelo braço, fazendo com que se virasse pra mim, e vi que ele estava assustado, com os olhos arregalados e as mãos tremulas. Franzi o cenho preucupado — O que foi?
Um trovão ressoou e ele, meio que por impulso, me abraçou, escondendo o rosto na curva do meu pescoço.
Ah...
–Vem cá – gritei, puxando e fazendo ele me acompanhar. Chegando, abri a porta do chalé e empurrei um Nico trêmulo pra dentro, fechando a porta atrás de mim. Me virei, vendo ele de olhos arregalados e fixos no chão, e ainda mais pálido que o normal, puxando o casaco sobre o corpo.
–Nico, você tem medo de trovão?
–Talvez... — disse, respirando fundo, visivelmente tentando se acalmar. E visivelmente não estava dando certo.
–Não precisa ir embora, sabia?
–Preciso... — desviou o olhar.
–Mas não vai — respondi, pegando uma calça e uma blusa clara, jogando nele antes que pudesse protestar — Anda, você ta todo molhado.
–Jason, não dá para dormir aqui...
–Você não ia chegar inteiro na fronteira do acampamento — disse, tirando a camisa encharcada e colocando outra. Ele ficou calado e começou a se trocar, de costas pra mim.
–Não precisa ter vergonha, ta? — zombei.
–Digo o mesmo — soltou uma risadinha nervosa, e só então percebi que estive olhando sobre o ombro esse tempo todo.
–Ok, então.
Nos trocamos e eu me deitei na cama, dando também espaço para ele, que deitou e se aconchegou nos meus braços, a cabeça pousada no meu peito. Quando percebi, ele estava todo encolhido contra mim.
–Ei... — disse segurando seu queixo, fazendo ele me olhar. Beijei aquela boca rosada, calmamente, acariciando sua bochecha e tentando acalma-lo.
–Eu te odeio, Grace... — disse, escondendo o rosto no meu peito.
–Também te odeio, Di Angelo...
[...]
Acordei, mas não tinha nenhum filho de Hades por perto.
Parece que ele foi embora á noite...
Reparei em um bilhete em cima do criado-mudo. "obrigado". Sorri.
Parece que ele vai voltar á noite...
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