Virus

6 Capítulo 5 Gralhas


5 — Gralhas

Em Carmelo as coisas estavam indo muito bem. O abrigo que George nos levara, era muito confortável — dois grandes andares em um edifício no centro da cidade. Nós que tínhamos sobrevivido à intoxicação e, por algum motivo referente a isso, não tínhamos mais a necessidade de dormir; ficávamos vigiando o prédio durante a noite.

Os dias passavam rápido, e fomos conhecendo uns aos outros cada vez mais. Katherine nos contou que ela e sua irmã tinham fugido de casa para ir ao cinema quando a bomba explodiu, George as encontrou desmaiadas próximas a bilheteria um mês depois da intoxicação.

A historia de Julia, George e Lucas já vinha de muito antes de todo o caos. George era dono de uma empresa têxtil muito poderosa em Litlle Islands, a Oran Ltda. Eles moravam juntos em um apartamento na área rica da cidade e estavam voltando da França no dia em que a cidade foi atacada.

O intenso inverno estava começando a dar lugar à primavera quando Lucas sugeriu sairmos um pouco do isolamento e dar uma volta na praia de Carmelo, o que era seguro já que os poucos vampiros que se arriscavam sair na luz do sol, não nos atacavam.

- Praia? Qual é o seu problema? – perguntou George retoricamente lançando um olhar significativo a Lucas.

- Vai ser legal! Não agüento mais essa prisão – reclamou Lucas, referindo-se ao apartamento.

- Nem eu! – disseram as gêmeas Lewis em uníssono.

George ficou alguns segundos em silêncio para repensar.

- O que vocês acham? – perguntou olhando para mim e Natallie, que estava ao meu lado sentada no sofá.

- Ah, para mim tanto faz – respondi.

- Para mim também – confirmou Natallie.

Lucas comemorou alegremente.

- Agora são... – George olhou para o seu relógio de pulso — quatorze e meia... Dezessete horas em ponto devemos estar aqui.

- A praia é a quinze minutos daqui, vamos andando para não chamar a atenção – disse Jonathan.

- Vamos indo então – concordou George.

Saímos cautelosamente do edifício prestando máxima atenção nos mínimos sons, por sorte – muita sorte – as estradas estavam praticamente vazias, a não ser pela garota que caminhava lentamente no fim da rua, coberta de sangue. Ela parecia não nos perceber e seu olhar não era fixo em nada.

- Não saiam de vista! – gritou George quando, Katherine, Elizabeth e Lucas correram pela areia da praia gritando de felicidade.

- As quinze para as cinco no quiosque perto do ponto de pesca? – Perguntei para confirmar.

- Sim, e tentem não se perder. – Respondeu George indo na direção das crianças junto com Julia.

- E você Jonathan, vem com a gente? – Perguntei.

Jonathan olhou pensativo para o mar.

- Acho que vou caminhar sozinho mesmo...

Ele andou na direção da água e ficou a observando. Eu e Natallie fomos à direção contrária, onde haviam grandes rochas que iam até o uma parte no mar. Subimos nelas e caminhamos através das fendas.

Andamos até uma parte em silêncio, Natallie parecia pensativa.

- Nunca pensei que o mundo acabaria mesmo assim... – comentou.

-Assim como?

- Assim, como nos filmes de horror, com todo mundo virando alguma aberração... Sem ofensas.

Nos dois rimos.

- Eu sempre quis que fosse assim... – Eu disse, cuidando para não tropeçar nas pedras – mas meu ponto de vista estava em um lado diferente da história, o lado em que eu caço as aberrações, não o que eu faço parte delas.

Natallie suspirou.

- Você não é uma aberração Vincent! – nós chegamos ao fim do caminho de pedras – você é como qualquer um de nós! Se não fosse por você, eu provavelmente estaria morta, ou pior, estaria por aí caçando humanos.

- Mas você viu o que aconteceu quando fiquei sem me alimentar de sangue!

Ela ficou de frente para mim.

- Olha Vincent, você é um cara legal, pare de ficar se preocupando com o que aconteceu com você. Eu fiquei dois meses te seguindo, e nada aconteceu comigo, e nada vai acontecer enquanto eu estiver com você, eu sinto isso. – Ela me abraçou deitando sua cabeça em meu peito – Prometa pra mim que você não vai mais tocar nesse assunto, que não irá me abandonar independente do que aconteça, que irá continuar me protegendo e que sempre estará aqui, comigo.

Tudo o que me preocupava foi embora junto com as ondas por um momento. Natallie apertou minhas costelas quando retribui seu abraço. Eu queria que aquele momento não acabasse, queria poder esquecer tudo que havia acontecido, queria poder acreditar que minha mãe ainda estava viva, queria que tudo voltasse ao que era antes, quando eu podia virar a noite jogando com meus amigos, e mesmo assim, de manhã conseguir me dar bem na escola.

BOOM!

Tudo voltou a ser o que era antes mais rápido do que havia deixado. A minha esquerda uma grande fumaça negra se estendia perto da calçada que levava a praia.

Natallie e eu corremos para lá.

Havia um carro vermelho em chamas na areia, George estava estirado próximo dele, ele sagrava muito. Os outros estavam chegando para ver o que havia acontecido.

-George...! – Exclamou Julia ao vê-lo sangrando no chão.

E então, pela primeira vez, eu tive medo.

Na borda da calçada, a mais ou menos cinco metros de George, havia um homem parado. Ele usava uma máscara negra sem expressões e sua jaqueta de couro preto estava muito manchada de sangue. Atrás dele, surgiram mais três ou quatro homens, todos mascarados e impregnados de sangue.

- Você fez isso? Seu desgraçado! – gritou Julia correndo na direção do homem, mas Jonathan a segurou antes dela chegar perto o suficiente para amassar o nariz dele.

O homem saltou muito próximo a Julia e Jonathan, que se colocou na frente dela.

- Acalme-se mulher, nós queremos somente a namoradinha do Sr. Walker – disse o homem fixando seus olhos verdes em Natallie.

- Nem pensar! – coloquei meu braço na frente dela.

O homem caminhou entre nós calmamente.

- Vincent Walker... O caso curioso. O corvo gostaria de ter você também, embora tenha nos mandado trazer somente a garota.

- Creio que terá de desapontá-lo então, porque você não vai levar ninguém daqui! – disse Elisabeth colocando-se a nossa frente junto de sua Irmã, Katherine.

Os outros homens mascarados saltaram para a areia também.

- Que gracinha, todos reunidos para proteger os pombinhos – disse um dos homens sarcasticamente – sinto em lhes dizer que isso será em vão.

O outro homem tirou seus cabelos da frente da máscara.

- Eu realmente pensei que poderíamos ir embora sem derramar nenhum sangue, mas, não vejo outra solução. – disse o homem vestindo um par de luvas escuras com dedos de metal, os outros fizeram o mesmo.

- Lucas, leve Julia e seu pai daqui. – disse Jonathan.

Os dois correram com George nos ombros para trás de um quiosque sobre a calçada.

- Vai você também Natallie. – pedi.

Natallie se desvencilhou de mim.

- Eu não vou sair daqui. – respondeu ela se posicionando.

Com uma velocidade inexplicável, um dos homens passou por todos nós, levantou Natallie pelo seu moletom preto e a arremessou contra a calçada da praia, entre um aglomerado de cadeiras.

Natallie se debateu como se estivesse sendo eletrocutada. Pude ver o sangue escorrer pela sua testa enquanto ela lutava contra a dor.

Voltei meus olhos ao meu redor. Jonathan estava imobilizado por um dos homens, que o segurava pelo pescoço.

- Fuja Vincent! – Gritou ele mostrando dentes pontiagudos e tortos.

Elizabeth e Katherine tinham os cabelos entrelaçados nas mãos de um homem de aparência muito forte. Ele provavelmente sorria por baixo de sua máscara.

- Vamos lá Vincent, se entregue ou seus amigos vão sofrer, muito – disse o homem que aparentemente, era o líder do grupo.

Outros homens saíram de trás do quiosque com George, Julia e Lucas em mãos.

- Seus filhos da...

- Seu tempo está se esgotando Sr. Walker.

Voltei meus olhos para Natallie, ela estava desacordada. Essa era minha chance, eu podia salva-la, já o fiz uma vez com muito mais gente atrás de nós.

Não pensei duas vezes. Disparei na direção dela.

- Escolha errada – disse o homem de repente a centímetros de mim.

Ele me levantou pelo pescoço e me jogou de costas contra a areia. Ao tentar me levantar, senti eletricidade passar pelo meu corpo e gritei desesperadamente.

- Eu tentei ser amigável Vincent – o homem levantou sua mão direita – matem todos, menos a garota e esse aqui – ordenou.

Ouvi Julia gritar e em seguida, sua voz ser interrompida por vários estalos.

Inesperadamente, minha dor cessou e meu medo foi substituído por raiva.

Meu sangue ferveu em minhas veias. Minha mandíbula deslocou-se de seu lugar e gritei ao sentir minha gengiva rasgar e meus dentes se separarem dando lugar a grandes e pontiagudas navalhas. Meus olhos ardiam e comecei a ouvir tudo ao meu redor. Senti o medo do homem que estava ao meu lado, seu coração palpitava rapidamente. Levantei-me lentamente tentando controlar meu corpo, temi explodir como uma bomba a qualquer momento.

O homem tentou me eletrocutar com sua luva novamente, mas segurei seu braço e esmaguei seus ossos. Ele se encurvou de dor e os outros homens começaram a correr na minha direção. Ainda segurando seu braço, chutei o homem com toda a força que consegui colocar no seu peito. Ele foi arremessado a poucos metros de mim, e seu antebraço ainda estava em minha mão.

Ouvi a respiração de um dos homens muito perto de mim, ele entrelaçava seus braços em meu pescoço, mas antes que pudesse apertar, segurei sua cabeça com minhas mãos e lancei seu corpo a minha frente, em seguida, esmaguei sua cabeça no chão impiedosamente.

Dois, quatro, seis, aos poucos, a maioria dos homens mascarados já havia sido exterminada. Os poucos que restaram, sumiram.

Larguei um deles no chão e corri até meus amigos, agora mortos. Os homens haviam levado Natallie.

Meu corpo voltou ao seu estado normal aos poucos e comecei a sentir minha raiva ser tomada por um sono inevitável.

- Eu vou achar você, Corvo – as ondas levaram meus pensamentos lentamente até eu cair, novamente, na escuridão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.