Viollett

2 Capítulo UM


Eu senti que finalmente conseguia lutar contra a escuridão. Ela parecia ter dado uma trégua, e eu lutei. Com todas as minhas forças. Consegui sentir minha respiração levemente mais acelerada, meu corpo rígido sobre alguma coisa dura, cheiros estranhos em minhas narinas e vozes. Elas se amontoavam ao meu redor e eu não conseguia decifrar o que queriam.

– Olha, está acordando!

– A pele dela está começando a ganhar uma tonalidade diferente...

– Não toque nela, seu imbecil!

– Eu só ia medir sua temperatura!

– Precisamos saber o que houve com ela, mas depois que ela acordar!

– Dá pra tirar essa mão daí?

– Os incomodados que se retirem.

– Calem a boca os dois, não sabemos se ela pode nos ouvir!

Sim, eu realmente queria que eles calassem a boca. As vozes dele faziam meus ouvidos doerem, zumbir. Aquela dor me causou uma vertigem dolorosa, e por mais que eu tentasse lutar, voltei à inconsciência.

Aquele barulho de vozes novamente me fizera despertar. Dessa vez, consegui vencer a luta contra aquela escuridão e, aos poucos, senti meu corpo despertar daquele sono desconfortável e profundo. Tentei mover meu corpo, mas dores agudas me fizeram soltar gemidos. Consegui perceber uma movimentação meu redor e rezei para que, quem quer que fossem, continuassem calados. Os senti hesitar perto de mim, murmurarem algo que não entendi, e então se calaram. Calmamente, abri meus olhos, sentindo que a claridade me incomodava. Fechei, e então tentei de novo, piscando varias vezes sentindo as lágrimas lubrificarem lentamente meus olhos. Finalmente, consegui. Concentrei minha visão e focalizei um céu escuro, baixo, e desregular. Movi meu corpo para tentar sentar, agradecendo mentalmente quando um par de braços apoiou minhas costas e me ajudou naquilo. Fui apoiada contra algo quente, ao que logo imaginei ser um corpo devido ao movimento da respiração.

Quando consegui me ajeitar, uma queimação forte na boca do estômago me fez levar as mãos até a boca e olhar desesperadamente para duas silhuetas que estavam na minha frente. Um deles pareceu entender o meu pedido silencioso de socorro e rapidamente fui arrastada para um canto, onde me pus de quatro e deixei que aquela queimação subisse pela minha garganta até escapar em forma de uma gosma amarela que tinha um cheiro terrível, me fazendo repetir o processo mais algumas vezes. Quando finalmente acabei, me afastei daquilo e sentei apoiada em alguma coisa gelada, sentindo meu corpo todo frio e suando. Uma daquelas silhuetas se aproximou de mim, mas meus movimentos lentos demais não conseguiram impedir as ações dele. Alguma coisa tocou meus lábios e senti quando um líquido gelado escorreu pela minha garganta, acalmando aquela queimação por onde quer que passasse. O sabor amargo daquela substância que eu expulsara do meu corpo foi aos poucos diminuindo, mas eu ainda conseguia sentir ela ali. Desviei o rosto quando me senti farta, e um tecido suave e úmido limpou minha boca e meu rosto. Tentei me pronunciar, mas eu não conseguia descobrir como.

Minha mente trabalhava a todo vapor. Apesar da dificuldade de enxergar, meus ouvidos, nariz e tato me ajudaram a perceber o ambiente. Era um lugar fechado, gelado e escuro, mas ao mesmo tempo acolhedor. Tinha um cheiro forte de metal e musgo, e outra coisa que eu não sabia dizer o que era. Pisquei várias vezes até que finalmente consegui focalizar aquelas silhuetas, que eram três. Todos me olhavam de um jeito estranho, me analisavam, preocupados. Suspirei e consegui mover meus músculos doloridos, levando até meu rosto minhas mãos e massageando minha pele. Uma das criaturas se aproximou, e eu consegui melhor analisar sua aparência enquanto ele proferia algumas palavras.

– Você está sentindo dor? — questionou, com uma voz levemente rouca.

Seu rosto era quadrangular, nariz pequeno que combinava com o queixo pequeno. Lábios não muito finos, a pele era de um tom amadeirado, mas não chegava a ser escura, e suas íris castanhas me encaravam de um jeito preocupado e curioso pareciam harmonizar com os cabelos morenos.

Notei que ele ainda aguardava alguma resposta, então desviei o olhar e movi meu corpo lentamente. Para ser sincera, tudo doía. Meus músculos estavam rígidos, meu estômago ainda queimava, minha boca tinha um gosto terrível de algo amargo, meus olhos doíam com a força que eu fazia para conseguir enxergar tudo ao meu redor, minha cabeça girava. Me perguntei porque eu estava me sentindo tão exausta e dolorida. Pisquei várias vezes devido a ardência nos olhos e gemi baixo, tentando resmungar uma resposta coesa para ele, mas meio sem sucesso.

– É óbvio que ela está sentindo dor. — falou outro ao se aproximar, com um tom de voz que eu não reconheci.

Observei suas feições, e percebi que a única diferença entre eles, é que este segundo tinha olhos extremamente azuis, contrastando com a pele mais clara que a do outro primeiro.

Finalmente o terceiro se pronunciou, me parecendo ser o mais sensato dos três. Ele empurrou os outros dois com certa arrogância, fazendo cara de desaprovação para eles. Por um momento, eles pareceram discutir silenciosamente entre si, trocando empurrões e socos leves. Fiquei confusa, tentando entender, mas desisti logo. Este terceiro também tinha a pele um tanto escura como o primeiro, mas ainda assim parecia mais clara. Ele seria o meio termo entre os outros dois. Seus cabelos eram tão pretos que pareciam cintilar mesmo no escuro, tendo feições angelicais, com um nariz pequeno e longo, cílios grandes e olhos escuros, quase pretos. Comparando os três, este último era o menor, menos corpulento, parecia o mais fraco.

– Me chamo Andy. — ele pronunciou, e sua voz parecia o ronronar de um felino feroz, ao mesmo tempo que seus me fitavam com preocupação e seus lábios exibiam um sorriso gentil. — E estes são Kael e Bryan. — disse, apontando para o rapaz de olhos azuis e em seguida o de olhos castanhos, que fizeram um aceno com a cabeça e sorriram.

Eu apenas os encarei. Não sabia exatamente o que eu deveria fazer naquele momento, então apenas fiquei os observando, os quais me encaravam preocupados.

De súbito, aquela queimação no estômago fez com que eu me movesse para longe deles e deixasse que, novamente, aquele líquido gosmento saísse por minha boca. Um gosto metálico se fez em minha língua, o que só me provocou ainda mais aquela sensação desconfortável. Conseguia ouvir ao fundo os murmúrios dos três rapazes, mas meus ouvidos zuniam tanto que eu não conseguia decifrar o que diziam. Quando cuspi todo aquele líquido que parecia contaminar meu estômago, me senti melhor. Cambaleei para trás e voltei a me recostar naquela parede gelada. Suspirei e agradeci quando novamente alguém despejou aquele líquido gelado e delicioso pela minha boca, garganta. Refrescando meu interior e me provocando uma sensação agradável, bem como logo alguém buscou limpar meus lábios e meu rosto com um tecido úmido. Fechei meus olhos e procurei novamente me acostumar com o ambiente.

Quando senti uma mão quente tocar meu rosto, abri os olhos e procurei quem era. Descobri que era Andy, me analisando. Os outros estavam logo atrás dele, espiando, tentando entender a situação. O rapaz sentou ao meu lado e começou a passar aquele pano úmido pelos meus braços, mãos, ombros, pescoço, pernas e panturrilhas. A sensação era absurdamente deliciosa, me refrescava, e eu relaxei mais.

– Qual seu nome? — alguém perguntou, e eu desviei o olhar, encontrando um par de olhos azuis curiosos.

Todos ficaram me encarando, até mesmo Andy parou de passar aquele tecido úmido em mim e ficou esperando a resposta. E eu também.

Revirei toda a minha mente em busca de uma resposta para aquela pergunta, mas só recebi escuridão. Quanto mais eu procurava alguma pista para aquela resposta, mais desespero me envolvia. E finalmente percebi que eu não sabia nada, não entendia nada. Não sabia minha aparência, muito menos meu nome, nem sequer de onde eu vim. Não conseguia nenhuma lembrança, nenhuma dor, ninguém conhecido. Nada. Foi como se tivessem arrancado tudo de mim, me deixando apenas com uma memória científica, que, naquele momento, era completamente inútil. Meu silêncio se fez mortal, e de repente percebi que eu só conseguia pronunciar três únicas palavras, me assustando com minha voz rouca, baixa e embargada de desespero:

– Quem sou eu?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.