Violin
27 Dia 27 — Por enquanto
Notas iniciais
Sherlock sentia o gosto de derrota na língua, e seu peso quase entortando suas costas. Ele estava em silêncio, olhando pela janela do trem, e quase parecia em paz. Sua mente, porém, estava em polvorosa, tentando encaixar todos os fatos que sabia.
Mas era tudo como um quebra-cabeça que tinha peças faltando, não dava para ver a imagem que ele formava por causa daqueles detalhes que ele não conseguia descobrir. Tinha o culpado, é claro, e tinha também a arma do crime. Tinha todas as pequenas pecinhas que ligavam a arma ao culpado, e o culpado à cena do crime.
Mas não tinha o motivo.
O maldito motivo que o manteria acordado por noites e noites até que ele o descobrisse.
Sherlock percebera o sorriso doente no rosto do assassino quando perguntou qual era o motivo, e percebera o sorriso se alargar quando ele se recusou a contar. “Adivinhe” ele sussurrara ao ser levado pela polícia “você não pode dizer que ganhou até adivinhar”.
E estava certo, ah se estava!
John o observava, sentado de frente para ele. Sabia que não adiantaria falar nada, porque Sherlock estava com aquele olhar vazio no rosto. Ou estava pensando sobre o caso, ou passeando pelo palácio mental. Como sabia que aquele fora um caso particularmente difícil, de resolução insatisfatória, apostava na primeira.
Ele colocou a mão sobre a perna de Sherlock, mas ele não se moveu. John suspirou. Mudavam as estações e nada mudava.
Ou tudo mudava.
Ainda lembrava de uma época em que a vida era consideravelmente mais difícil, uma época em que só havia ele e a irmã alcóolatra, os dois contra o mundo e um contra o outro. Fora esse, afinal, o motivo de entrar no exército. Fugir dela.
Ele recostou a cabeça no encosto do banco e fechou os olhos, mas não estava com sono. Na verdade, tudo o que ele queria era que Sherlock acordasse para a vida e deixasse o caso para lá, para que pudessem conversar sobre qualquer coisa enquanto as horas não passavam.
Irritava, às vezes, quando ele fazia aquilo. Sua excentricidade podia ser cômica, podia ser terna, mas podia ser simplesmente irritante. John gostava de trabalhar com Sherlock, gostava do fato de que ele era o melhor dos detetives e de que não desistia de um caso curioso até que estivesse satisfeito com o resultado, mas não sempre.
Não quando ele ficava daquela maneira. Ele já sabia, por exemplo, que Sherlock passaria muitas horas tocando o violino, e que pularia várias refeições. Sabia que dormiria pouco, e sabia que quando saísse daquele transe provavelmente estaria dolorido — mesmo que não fosse demonstrar. Sabia e se preocupava, mesmo que no final das contas sua preocupação não fosse mudar coisa alguma.
Sabia também, no entanto, que Sherlock — mais cedo ou mais tarde — descobriria o que quer que estivesse procurando, e que tudo voltaria ao normal.
No final das contas, estavam indo para casa.
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