Violetta - O Recomeço
3 Capítulo 2 – O Recomeço
Notas iniciais
Violetta chegava nesse dia após um ano intenso de concertos, viagens por diversos continentes e países; e em casa desta estavam todos ansiosos pelo seu regresso: pela alegria que ela dava aquela casa, pela voz que soava por todo o lado cantando e encantando, pelas saudades que todos sentiam dela; mas principalmente porque esta teria á sua espera Clara, a sua irmãzinha que nascera havia dois meses.
Clara era em geral uma bebé muito sossegada, apenas choramingava quando tinha fome ou quando tinha cólicas. A primeira vez que as teve Gérmen afirmou que ela herdara o dom do canto da família, e de facto Clara tinha um choro muito suave que parecia o som de uma melodia, mesmo quando tinha as cólicas, quando ouviram aquele comentário ninguém pôde negá-lo, e todos concordaram que ela saíra à mãe e à irmã. Nessas alturas de cólicas a única coisa que a acalmava era ouvir Angie cantar, parecia mesmo que também ela nascera com música na alma. Gérmen era um pai muito atento e adorava andar com Clarita, como era carinhosamente chamada, constantemente ao colo; falava-lhe de Vilu, como teria uma irmã sempre pronta a defende-la, como ela lhe iria cantar para ela adormecer; e tantas outras coisas que pareciam tão insignificantes para um bebé tão pequeno. Angie emocionava-se sempre que os ouvia ter estas conversas, não que Clara percebesse mas era engraçado escutá-la dar uns gemidos parecendo que estava a responder, no entanto, apesar de não querer que Gérmen andasse sempre com Clarita ao colo não conseguia ralhar com ele pois adorava ouvir estas "conversas" entre pai e filha.
Olga e Ramalho ambos, disputavam a sua vez de tratar dela e as discussões agora tinham agora mais um tema, porém, sentiam-se felizes por fazerem parte desta família. Angélica ia todos os dias ver a neta, primeiro porque adorava tratar dela, ou apenas olhar para aquela boneca que ela sentia como se fosse um pouco sua, e depois porque sempre dava uma hipótese a Angie para descansar por algumas horas, principalmente nos dias em que Clarita tinha as tão “famosas” crises de cólicas, pois nessas alturas, muitas das vezes nem o canto de Angie a conseguia acalmar. Tocam a porta, Angie descia as escadas com Clara, e Olga vai atender.
— Eu vou…é a minha Chiquitinha, é a minha Chiquitinha. — Diz ela, enquanto Angie se ri, pois ainda era cedo, porém era normal toda aquela ansiedade, desassossego, nervosismo; as saudades eram enormes e todos esperavam pelo momento da sua chegada. Era notória a falta que Vilu fazia a todos naquela casa.
— Obrigada Olguita, mas ainda deve ser cedo para Vilu chegar. – Olga abre a porta, sem ligar nenhuma a Angie, era apenas Angélica – Mamã, chegaste cedo.
— Vilu já chegou? Estou muito atrasada? – Entra apressada cumprimenta Angie e dá um mimo a Clarita.
— Não Mamã, ainda é bem cedo...não sei quem está mais nervosa se tu se Olga.
— Ainda é cedo? Pensei que já vinha tarde…e não estou nervosa, estou ansiosa.
— Tem calma que logo, logo a tua neta vai chegar; Gérmen foi busca-la á pouco...deve estar mesmo a chegar. — Deitou Clara no pequeno berço que fora instalado na sala. – Tem calma, que ainda hoje terás as tuas duas netas juntas.
— Nem posso acreditar... — Deixando cair uma lágrima. — Depois de tudo o que aconteceu: da morte de Maria, da morte do teu pai...e hoje tenho duas netas tão lindas. – Emocionando-se abraça-se a Angie. – Mas pensei que já vinha atrasada…e Ludmila também vem com Gérmen?
— Não Mamã, ela seguiu com Frederico para Itália. Porque perguntas?
— Curiosidade apenas, ela é bem diferente de Vilu, mas com uma mãe como a dela: impedir que o próprio pai falasse com a filha!
— Mamã, apesar de todo o mal que Priscila lhe fez, Ludmila mudou muito…já não é a mesma que conheci nos primeiros anos no Estúdio.
— Bem a nossa Vilu teve muito a ver com essa mudança...
— Sim de certa forma é verdade. Acho que Vilu ajudou um pouco. Ela conseguiu chegar ao coração de Ludmila como mais ninguém.
— A nossa Violetta...sempre pronta a ajudar. Que saudades…
— Também não posso esperar pelo momento de a abraçar, e de lhe apresentar Clara.
— Eu ainda acho que foi um disparate não terem contado sobre a tua gravidez e o nascimento de Clara
— Talvez, mas se o fizemos foi a pensar nela...
De repente da cozinha ouvem-se gritos infindáveis “Eu”, “Não Eu”, “Olga, sou eu”, “Ramalho, sou eu”; Angie e Angélica olham uma para a outra, e sem o conseguirem evitar sorriem, e nesse momento entram Olga e Ramalho que discutem sobre quem vai abraçar Violetta primeiro…era inevitável esta discussão…
— Claro que sou eu, tratei da minha Chiquitinha desde pequena…
— Mas quem a levava a passear? A levava para o Estúdio?
— Quem é que lhe faz as comidinhas que ela mais gosta? Eu...a Olguinha.
— E quem conseguia falar com Gérmen, e tentava chama-lo a razão? Eu…o Ramalho.
— Olga, Ramalho…- E aponta para Clara que está a dormir. Angie sabia que bastava apontar para aquela boneca a dormir tão tranquila para que eles acabassem com a discussão naquele momento. — Ainda vão conseguir acordar Clara. Todos nós vamos abraçar Violetta...
— Desculpa Angie, nem nos apercebemos que estávamos a...falar tão alto. Não é Olga?
— Sim, desculpa Angie. Desculpa Chiquitinha, a tua Olguita não fez por mal...mas o Ramalho...
Subitamente ouve-se o barulho da chave na porta, e assim que a veem Olga e Ramalho tentam ser cada um o primeiro a abraçá-la. Angie e Angelica não conseguem evitar e sorriem olhando para os dois a empurrarem-se, a baterem-se; já Gérmen fica completamente pasmado e Violetta mal tem tempo de entrar ou de reagir, vê-se rapidamente envolvida pelos braços...
— Minha Chiquitinha...- Olga consegue com uma leve empurrão tirar Ramalho da frente, agarrando-se a Violetta apertando-a tanto que esta quase desaparece por baixo do seu abraço.
— Olga…Olga…- Violetta sente-se quase a sufocar, apesar de no fundo saber que esta a ama de verdade. — Olga, não consigo respirar...
— Desculpa...desculpa...o minha chiquitinha tens fome? Não deves estar cansada...
— Olga, espaço pessoal…por favor. — Diz Ramalho que logo depois de conseguir afastar Olga, aperta-a tanto ou mais que ela, e de novo Violetta desaparecendo meio de um abraço. – Que bom ter-te de novo em casa.
— Olá Ramalho…- libertando-se dele, dirige-se a Angélica – Avó não sabia que te iria encontrar cá, que saudades.
— Minha princesa, achas mesmo que eu não estaria cá para te receber, como foi tudo? A viagem, os concertos, divertiste-te? Que saudades meu amor. – E no meio de todas as perguntas vai abraçando-a.
— Foi tudo óptimo...maravilhoso. Nos concertos tínhamos milhares e milhares de pessoas a chamar os nossos nomes…foi espantoso. Mas na verdade já estava cheia de saudades.
Quando se vira vê Angie, a pessoa que de certa forma a ajudou a tornar-se no que era hoje e a realizar todos os seus sonhos realidade. Angie não era apenas sua tia, era muito mais que isso. Ela estende-lhe os braços ansiando por aquele abraço tanto como Vilu o esperava.
— Angie, tenho tanto para te contar… — e abraça-a com todo o carinho que uma filha o faz a uma mãe, e Angie retribui com o mesmo carinho.
— Nós, também Vilu, nós também – ao dizer isto ouve-se um gemido muito baixinho, era Clara também ela queria alguma atenção; Gérmen entretanto já se encaminhara para junto do berço, e pegando em Clara olha para Violetta que olha para Clara com um ar algo surpreendido.
— Vilu... – Diz ele um pouco nervoso... – Esta é Clara. A tua irmã.
— O quê? Papá, Angie…eu… — Violetta olhava tanto para Angie como para Gérmen mas igualmente para Clara, ela não sabia bem o que sentir: espanto, felicidade, tristeza, desilusão; eram tantos os sentimentos que fluíam na sua mente e no seu coração que ela já nem sabia quais tinham mais força.
— Estás zangada? – Pergunta Angelica, e virando-se para Angie e para Gérmen — Eu bem vos disse que deveriam ter tido, não deviam ter escondido.
— Vilu...estás chateada connosco? — Pergunta Angie
— Vilu? Não dizes nada? – Pergunta Gérmen
— Não, quer dizer sim…
Na verdade ela não sabia bem o que sentir: por um lado percebe o porquê de não lhe terem contado nada quer Angie quer o pai, sabiam que ela não iria ficar sossegada ao saber da gravidez estando tão longe, iria estar sempre a pensar no que estaria a acontecer em Buenos Aires, se Angie estava bem, se tudo corria bem com a gravidez; mas por outro lado, gostava de ter acompanhado tudo: ver a barriga a crescer, sentir Clara a dar os primeiros pontapés, estar lá no dia em que nasceu. Mas, no fundo ela sabia que o tinham feito a pensar nela, e talvez até tivessem razão, e finalmente após uma pausa que pareceu uma eternidade para todos olhou para os dois e depois para Clara.
— Não, não estou chateada como é que me podia chatear, ela é tão linda.
— De certeza, a sério Viu…- diz-lhe Angie meio ansiosa…
— Sim de certeza…claro que preferia ter estado aqui, para te acompanhar, para ver a barriga crescer, sentir os pontapés que ela deu.
— E deu muitos…isso posso-te garantir. – Riu-se Angie…
— Eu percebo porque é que não me disseram a sério. Mas… — Apesar de certa forma saber o porquê tinha que dizer o que sentia.
— Estavas longe...não te queríamos preocupar. Sabemos bem como és. – Diz Gérmen – Estás muito zangada?
— Não papá, mas deviam ter-me contado… Ela é linda nem acredito que tenho uma irmãzinha.
— E é parecida com a mãe...não é. – Afirma Gérmen com um sorriso na cara. — Por favor não te chateies, não te dizemos porque achámos que seria o melhor.
— Nós achámos que quando chegasses já a terias á tua espera e não te preocuparias tanto. – Disse logo de seguida Angie.
— Eu sempre lhes disse que te deviam ter contado. – Diz Angélica.
—Tu precisavas de estar concentrada nos concertos, e eu e o teu pai sabemos bem que terias vindo no primeiro avião para casa.
— Eu até vos consigo perdoar e até percebo a ideia...mas deviam ter-me contado mesmo estando longe... — E olhando para Clara e depois para Gérmen e Angie... — Tenho a família mais linda do mundo, sou muito feliz.
— Estás feliz, a sério? – Pergunta a medo Gérmen – Ainda bem.
— Sim Papá, estou feliz: por mim e por vocês. — Olhou para Clara e depois olhando para Angie abraçou-a e disse-lhe — Prometo-te que vou ser a irmã para ela, que a mamã foi para ti. Adoro-vos.
— Eu sei que sim, Vilu...eu sei que sim. — E abraçam-se com todo o carinho que se têm.
— Então e agora que tal irmos almoçar, a Olguita fez-te o que mais gostas. Ah pois é...– olhando de soslaio para Ramalho...– porque aqui a Olguita lembrou-se de tudo...pois foi...tudo o que mais gostas.
— Olga, eu não vou discutir até porque é óbvio: quem lhe deu o primeiro abraço foi...
— Fui eu, claro que fui eu...
— Não, foi Gérmen. Para além disso em relação à comida ninguém cozinha melhor que a Olga.
E assim encaminharam-se todos para a sala de jantar, com Olga agarrada a Violetta quase como uma lapa, sentando-a, servindo-a primeiro, perguntando a toda a hora se queria mais alguma coisa. Até que Ramalho lhe diz para ela se sentar e comer. Vilu não parava de contar todas as aventuras que tiveram, os concertos, as cidades, as pessoas, as entrevistas, as brincadeiras, as discussões entre os pares, os disparates de Beto; contou tudo menos os passeios que fez com Leon, os jantares românticos que ele organizou e aquela NOITE, aquela noite que ela nunca mais esqueceria.
Fora em Paris, cidade da Luz e do Romance, num dia de folga, passearam e namoraram todo o dia e só isso já tinha sido mágico. Mas Leon tinha pensado e preparado tudo ao pormenor; tinha planeado um encontro muito especial: um passeio de Charrete pelos Campos Elísios, uma ida á Torre Eiffel. No final do dia em fez de se encaminharem para o Hotel onde estavam hospedados, Leon levou-a para um outro perto da Torre Eiffel, onde já estava servido no quarto, um jantar especial: estava tudo iluminado à luz das velas, assim que entrou viu um Buquê de Violetas, que eram as preferidas dela, e que depressa ele lhe oferece...e música, claro não podia faltar. Tudo isto numa suite com vista para os Campos Elísios, Violetta estava espantada mas também agradecida, e no meio de todas as emoções que estava a sentir, não parava de pensar que estava a viver um sonho ...e o melhor é que estava a vive-lo com Leon. Este, parecendo adivinhar os seus pensamentos abraça-a e leva-a para a mesa. Jantaram, cantaram, dançaram, namoraram e depois aconteceu; nada foi planeado simplesmente aconteceu. Amaram-se e foi simples, impulsivo; naquela noite, naquele quarto e no mundo inteiro apenas existiam eles e todo o amor que sentiam um pelo outro, e a partir daquela noite Vilu e Leon sabiam que nunca mais nada seria o mesmo. Deixaram-se estar ali naquele mundo até receberem uma mensagem, ele de Andrés e ela de Francesca, dizendo-lhes que Beto estava a ponto de chamar a polícia quando descobrira que eles não estavam no Hotel com eles. Nesse momento aperceberam-se que tinham adormecido e que já era de manhã, e apesar de não quererem acabar com aquela noite, de quererem prolongar aquela sensação de partilha, de união, de amor infinito; tinham que ir. Quando chegaram ao Hotel onde estavam todos os colegas foram repreendidos por Beto: que não podiam desaparecer assim, sem deixar um recado, um aviso; para os colegas e para Neto eles tinham acordado mais cedo e decidido ir passear um pouco para aproveitar a cidade; e resolvido o assunto rumaram todos para mais um espetáculo. Apenas Andrés, Francesca e Camila souberam o que se tinha passado naquela NOITE.
Mas esta era uma história que apenas contaria a Angie, o seu papá era capaz de a proibir de ver Leon de novo ou mesmo de a fechar outra vez no seu “castelo”, porque apesar de Gérmen ter mudado muito depois do casamento com Angie, o namoro dela com Leon era um assunto ainda demasiado delicado. E Vilu estava tão feliz com este reencontro, com este recomeço, que nada a faria estragar aquele momento. Olhou para Clarita que dormia ao colo de Angie e pensou que teria que a ajudar como o fazem todas as irmãs.; e ela agora era a sua irmã mais velha e como tal tinha que a proteger, ajudar, aconselhar…e Vilu estava disposta a ser a melhor irmã possível, tal como a sua mãe o fora para Angie, e de certa forma como a tia o fora para ela.
— Vilu, em que estás a pensar? – Perguntou-lhe Angie que percebeu que ela estava perdida nos seus pensamentos olhando encantada para Clara
— Eu! Em nada, em nada... — Tentando disfarçar o mais que pode.
— Porque será que eu não acredito em ti, não tiras os olhos da tua irmã, estas com um ar...como se estivesses muito longe...
— Desculpa Angie, é que nem acredito que…tenho uma “irmã”. É tão estranho...pensar que sou irmã de alguém.
— A tua mãe disse-me o mesmo quando viu a tua Tia pela primeira vez.
— Nunca me contaste essa história mamã.
— A serio? Bom então conto hoje: quando eu contei a Maria que ela iria ter uma irmã, nem imaginam a euforia que foi...acho que todos os vizinhos souberam tal foram os gritos. Acho que como tu, ela nunca se "viu" como irmã mais velha de alguém.
— E quando Angie nasceu, como reagiu a mama?
— Bem, a verdade e que a tua mãe não via a hora da irmã nascer; e depois no dia em que viu Angie nunca mais a largou...
— Eu lembro-me da tua mãe ficar chateada comigo muitas vezes, quando ficava cheio de ciúmes...porque Angie precisava dela.
— Maria não deixava a tua tia se soubesse que ela estava doente, ou se ia alguém la a casa...ela tinha que estar presente. Mudava-lhe fraldas, dava-lhe biberon, e era ela que a adormecia...
— Disso eu ainda me lembro...adorava que ela me adormecesse a cantar.
— E tu Angie, cada vez que vias a tua irmã davas o maior sorriso que conseguias e esticavas os bracitos para que ela te desse colo...
— Afinal pensavas em quê? — Pergunta-lhe Angélica curiosa.
— Não sei, estava a pensar em tudo e em nada...sinto tantas coisas ao mesmo tempo que a minha mente começa a viajar acho eu.
— Acho que isso é normal, mas o mais importante é que estejas feliz, a tua Avó e Angie estavam angustiadas...
— Gérmen…tu também estavas! Estavas a pensar em quê?
— Em Clara em como, talvez, para ela tudo seja mais fácil, porque graças a ti o papá mudou muito...- E dirigindo-se para Gérmen com um sorriso... — Ela não será uma "Princesa presa no seu castelo…".
— Vilu, eu sei que errei e muito mas percebi que o fiz e mudei.
— Erraste muito, mas pelo menos reconheces que nos fizeste sofrer...- diz Angelica um pouco sentida.
— Mamã ... — Agora fica algo incomodada pelo que Angélica diz.
— A tua mãe tem razão Angie. Eu tenho muito a agradecer-te..tu fizeste renascer o que de melhor eu tinha em mim.
— Ai desculpem, desculpa Gérmen. Sei que mudaste, que fizeste tudo por amor a Violetta; mas vai haver sempre uma parte de mim que…
— Não há problema Angélica, eu sei que errei e que vos magoei muito as três. E é normal que ainda exista alguma "mágoa".
Angie lança um olhar de reprovação a Angélica; era certo que Gérmen tinha errado mas ele arrependera-se de verdade, e custava-lhe ver e sentir que a mãe ainda lhe tinha tanta mágoa, doía-lhe ver Gérmen a sofrer, quando o amava tanto. Violetta, tal como Angie, não aguenta ver o pai com uma cara tão triste, e sabia que ele estava realmente arrependido por tudo o que tinha feito no passado; sabia que avó não o fazia por mal ela tinha sofrido tanto com a morte de Maria e depois de Miguel, depois pai afastou-a dela; assim como ela também não o fizera por mal quando falou de ter estado enclausurada durante tantos anos em casa; assim levanta-se da mesa abraça o pai por trás, dando-lhe mil e um beijos.
— Eu adoro-te papá e não me estou a queixar…
— Por uns minutos preocupei-me…-respondeu Gérmen meio a sério meio a brincar.
— Eu apenas queria explicar-te que irei ajudar Clara no que precisar mesmo que tenha que ir contra ti, tal como Angie fez comigo.
— Bom obrigado pelo aviso... – E virando-se para Clara. – Tens aqui uma irmã leoa, pronta para te defender das presas afiadas do teu pai. — E apesar do drama conseguem todos rir um pouco.
— Papá…- e abraça-se ainda mais a Gérmen, como se disso dependesse a certeza do seu amor por ele. Clara como que a perceber que falavam dela fez uma careta e todos se riem ainda mais, continuando desta forma bem-disposta com o almoço.
Agora era a vez de Angie contar a Vilu tudo o que acontecera no Estúdio: os novos alunos; a nova “Diva” que aparecera, “temos sempre que ter uma Ludmila..." disse Angie a rir; como estavam a decorrer as novas inscrições; que tinham muitos jovens com talento e que esta iria gostar de trabalhar no Estúdio.
Após o almoço enquanto Gérmen foi trabalhar, Angie e Angélica sentaram-se a conversar na sala enquanto Clara deitada no seu berço dormia; Vilu decidiu ir descansar um pouco, ou pelo menos tentar, pois na verdade embora tivesse algo cansada, com saudades e quisesse falar com Angie, precisava de estar sozinha e pensar...pensar em todas as mudanças que estavam a decorrer em casa e na sua vida. O seu pensamento levou-a então a Leon: no que passaram, em tudo o que lutaram para estarem juntos e em como estavam agora mais unidos que nunca. Pegou no seu telemóvel para lhe ligar mas quando estava prestes a ligar-lhe recebe uma mensagem no computador:
— “Leon – Olá Amor! Já descansaste?”
— “Vilu – Olá Leon. Não consigo, tenho tantas coisas
para te contar, nem sabes a quantidade de novidades
cá em casa.”
— “Leon – Novidades? Que se passa?“
— “Vilu – Tenho a família mais linda do mundo.”
— “Leon – Essa é que é a novidade?”
— “Vilu – Não, a novidade é que tenho uma irmã."
— “Leon – Uma irmã???”
— “Vilu – Sim, chama-se Clara e é linda.”
— “Leon – Gérmen e Angie têm uma filha? E tu estás
feliz?”
— “Vilu – Sim, muito feliz...sempre quis ter uma irmã.”
— “Leon – Então e Ludmila?”
— “Vilu – Bem, Ludmila foi e é como que minha irmã.”
— “Leon – Tu e Ludmila vivendo como irmãs foi…é
realmente algo que nunca pensei que acontecesse.”
— “Vilu – Sim é verdade, mas Ludmila também mudou
muito. E hoje posso dizer que somos mesmo irmãs.”
— “Leon — Tu e Ludmila! Irmãs! Quem diria…”
— “Vilu – Leon…ela também não é assim tão má...sabes
o que me faria ainda mais feliz?”
— “Leon – Deixa-me ver…um chocolate?”
— “Vilu – Leon, estou a falar a sério."
— “Leon – Eu também. Então e será…um ramo de flores?"
— “Vilu – Leon! Gostava de ter-te aqui ao meu lado.”
— “Leon – Eu também…eu também te queria ter ao meu
lado, já estou cheio de saudades.”
— “Vilu – Parece uma eternidade desde hoje de manhã.
Como é que nos vamos a habituar a não nos vermos
todos os dias e a toda a hora.”
— “Leon – Só não vamos acordar juntos e não vamos
tomar o Pequeno-Almoço juntos. Porque vamos passar
o dia todo no Estúdio."
— “Vilu – “É disso mesmo que vou ter saudades: de
adormecer e acordar ao teu lado, acordar e ver-te
ao meu lado, de estar todos os minutos do dia juntos.”
— “Leon – Eu também vou ter saudades de estar contigo,
mas principalmente de te ver a dormir tão tranquila..."
— “Vilu – Leon, tu ficavas a olhar-me dormir?”
— “Leon – Sim, e és ainda mais linda.”
— “Vilu – Leon…”
— “Leon – E que tal se eu fosse ter contigo aí a casa?"
— “Vilu – Sim, vou ficar á tua espera. “
— “Leon – Então até logo meu amor…”
Entretanto Angie, resolve ir ver de Vilu, Angélica tinha ido para casa deixando-lhe um beijo. Pensando que ela estaria a descansar entra no quarto abrindo a porta bem devagar para não a acordar.
— Vilu, posso entrar? Pensei que estivesse a descansar.
— Entra Angie, não consegui...vou só despedir-me de Leon.
E continuou a escrever no computador para se despedir de Leon, estava na hora de falar com Angie: deveria ela contar o que se passara, ou será que não devia...
— “Vilu – Tenho que ir, Angie acabou de entrar, Até já.”
— “Leon – Até já…amo-te…”
— “Vilu – Eu também te amo…”
Vilu desliga o computador e estica os braços para Angie, como que a pedir um abraço. Angie senta-se ao seu lado, aninhando-a num abraço forte como o que uma mãe dá aos filhos, pois embora esta fosse apenas sua sobrinha, ela gostava dela como uma filha. Violetta tinha uma relação algo parecida com Angie; para ela a tia era mais que isso: era sua amiga, sua conselheira, sua cúmplice, era como se fosse sua mãe. Da sua mãe, Maria, pouco se lembrava tinha apenas cinco anos quando esta morrera, e apenas quando Angie apareceu na sua vida é que começou a recordar-se de algumas coisas; depois aos poucos a avó, Angie ou mesmo o pai, que agora já lhe falava dela, contavam-lhe muitas outras coisas.
— Não era suposto estares a descansar? — pergunta-lhe Angie.
— Não consegui dormir...e a avó Angélica?
— Já foi para casa deixou-te um beijo enorme, não subiu porque pensou que estavas a descansar.
— Está bem não faz mal amanha temos muito tempo para nos vermos. E Clara onde está?
— Está a dormir lá em baixo, pedi ao teu pai que fosse dando um olho.
— O papá a tratar de Clara! Deve ser engraçado de assistir: a dar o biberon, a mudar a fralda...
— Sim, o teu pai está a tratar de Clara, e para sua informação ele faz isso tudo...e muito mais. Não sejas assim…
— Não, desculpa mas é que deve ser bonito de se ver…- e volta a rir.
— Vilu…até parece que o teu pai nunca fez isso contigo? Ele também te mudou as fraldas, e te deu biberon…e…
— Sim…mas já passou tanto tempo…e…
— Sabe menina há coisas que não se esquecem, e tratar de um filho passe os anos que passarem…não esquecemos. E tu estavas a falar com Leon?
— Sim estava a falar com Leon, ainda agora cheguei a casa e já estou cheia de saudades dele. É estranho, é como se já não conseguisse viver, respirar, dormir sem que ele esteja perto de mim.
— A minha sobrinha preferida está apaixonada! – Abraçando-a com todo o carinho. – Fico feliz por te ver assim: apaixonada, com esse sorriso na cara. Já nem pareces a menina que conheci…
— Graças a ti, porque tu me fizeste crer em mim…e porque fizeste o papá mudar de ideias em relação à música.
— Não eu posso ter-te ajudado a perceber quem eras, mas a coragem, a força veio de ti; e eu estou muito orgulhosa da minha sobrinha preferida.
— Angie…Adoro-te. – E abraçam-se de novo.
— Sabes a tua mãe também ficaria feliz por te ver assim, ela sempre quis que fosses feliz...era o que mais queria. Tenho a certeza que esteja onde estiver está feliz e muito orgulhosa da sua Violetta...
— Achas que a mamã estaria feliz ir eu ter seguido a mesma carreira que ela? E por estar a "namorar" ?
— Tenho a certeza que sim. Se tu estás feliz, nós todos estamos.
— Achas que ela iria gostar de Leon?
— Não, ela não ia gostar… – e depois de uma pequena pausa... – ela ia adora-lo. Leon é um bom rapaz e até o teu pai já se apercebeu disso.
— O Papá, não sei. Mas achas mesmo que a mamã iria gostar de Leon?
— Sim, tenho a certeza que sim. É tão bom ter-te de volta feliz, realizada a cumprir os teus sonhos.
— E estou...muiito feliz…- levantando-se da cama deu uns tantos rodopios como que a flutuar no ar...-...completamente, totalmente, inteiramente, profundamente apaixonada e feliz...-...senta-se de novo com um sorriso de orelha a orelha, Angie olha-a com um ar de felicidade e de espanto também.
— Meu Deus como estás, queres-me contar mais alguma coisa? Porque estás com uma cara de quem me quer dizer alguma coisa, ou estou enganada?
— Não, não tenho nada para te contar...
Não, não era verdade...ela tinha muito para lhe contar. Vilu ficava sempre espantada ao perceber que já nem precisava de dizer nada a Angie, ela conhecia-a tão bem: sabia o que ela pensava, o que ela sentia, quando precisava de desabafar, ou simplesmente quando precisava de um abraço. Para Angie, também já se tornara fácil decifrar o que ia na mente e no coração de Violetta, já não precisava que esta lhe dissesse o que se passava...ela simplesmente sabia. Era algo natural nelas, que tinha vindo a crescer…era quase como se fossem mesmo mãe e filha.
— Vilu eu conheço-te o que e que se passou? O que é que me queres contar?
— Nada Angie, já te disse.
— Vilu, aquela cara durante o almoço não foi só uma questão de protegeres Clara das “garras” do teu pai…há mais qualquer coisa eu sei.
— Angie já te disse...não é nada. — e levantando-se ansiosa com toda aquela insistência de Angie.
— Eu conheço-te muito bem e sei que seja o que for tu não querias dizer ao pé do teu pai.
— Angie a sério, não é nada de especial.
Violetta sabia que podia confiar em Angie, mas ao mesmo tempo não queria partilhar o que se passara com Leon. Se bem que Camila e Francesca soubessem de tudo o que se passara; contar à tia seria diferente, ela não percebia bem porquê, mas era diferente.
Ela sempre contara tudo a Angie nunca tivera segredos para ela mas aquela Noite, o que acontecera naquela noite com Leon, naquele quarto...era algo que guardaria apenas para ela. Não, ela não contaria nada a Angie, e decidindo naquela altura, percebeu que ao contar a Angie seria como contar á sua mãe e foi ali naquele segundo que ela percebeu que Angie era mais que sua tia, sua amiga, sua professora, sua conselheira, ela era sua Mãe. Assim naquele espaço em que o tempo pareceu que parou ela decidiu não iria contar nada, porém, teria que pensar em algo para lhe dizer, pois ela não se iria contentar com meias respostas.
— Vilu, eu não quero insistir, mas sabes que podes contar-me o que for?
— Eu sei, mas estava a pensar na relação com Leon: nas dúvidas, nas discussões, no que sofremos, no que lutamos...mas também nos bons momentos que passámos juntos.
— Todos passamos por isso, mais cedo ou mais tarde, chama-se a isso CRESCER. Olha eu e o teu pai, depois de tanto negarmos o que sentíamos...mas hoje somos felizes.
— Mas há coisas que não mudam, e em relação a rapazes, a namoros acho que o papá não vai mudar...nunca.
— Vilu, o teu pai faz tudo o que faz porque te ama. Sim ele erra e muito, mas apesar de tudo sabe reconhecer os seus erros.
— Eu sei, o problema é que ele não percebe que cresci. Para ele eu serei sempre uma menina…com Clara gostava que fosse diferente, não quero que passe pelo que eu passei.
— Para ele serás sempre a sua menina, e não te preocupes com Clara.
— Mas eu cresci, já não sou a menina que ele tinha que cuidar e ele tem que perceber isso.
— O teu pai não faz por mal, Vilu. E com paciência ele vai ver que tu és uma jovem linda, cheia de vida que sabe o que quer e que luta por isso.
— E é por isso que eu não quero que Clara passe pelo mesmo…
— Vilu, ela passará por tudo o que tiver que passar. Não te preocupes com isso agora, Clara ainda tem muitos anos pela frente até chegar a essa fase e passar por tudo isso...espero eu...
— Mas se eu lhe abrir um pouco o caminho, sabes que o papá é...bom um pouco superprotetor e possessivo…
— De facto ele pode por vezes ser um pouco possessivo, mas é porque te ama muito. Ele faz tudo por ti, por nós e tenho a certeza que irá fazer o mesmo por Clara.
— Sim...enclausurá-la num castelo como me fez a mim…
— Vilu! Não digas isso do teu pai, até parece que é um "monstro"…ele errou ao te afastar de nós, ao mentir-te, mas estava sozinho apenas tentava cuidar de ti, protegia-te do que achava que te fazia mal...
— Angie nunca te vi defender assim o papá…agora quem é que está apaixonada!? – E riram-se as duas
— O teu pai é muito especial...e eu amo-o muito. E ele ama-te muito a ti, nunca podes duvidar disso.
— Eu sei que o papá me ama e eu amo-o a ele. Mas sabes bem que tive que lutar muito para ele aceitar tudo o que consegui: o Estúdio, a música, o Leon e até para te aceitar a ti e á Avó.
— Mas conseguiste tudo, com esforço, dedicação, empenho…
— Mas para isso tive que mentir e muito: sobre o Estúdio, sobre ti, sobre a avó, sobre a música…
— Eu sei, e isso também foi um erro. E contra mim falo que também vos menti quando vim trabalhar como tua perceptora: menti-te a ti, ao teu pai e menti até mesmo á tua avó.
— Mentiste porque não tinhas outra alternativa. De outra forma, tu sabes que, o papá nunca iria aceitar que te aproximasses de mim.
— Mentir nunca é uma boa opção, lembra-te de tudo o que sofremos no passado: quando tu descobriste quem eu era, quando o teu pai te mentiu sobre nos, quando ele descobriu quem eu era...tudo porque decidimos mentir uns aos outros...mentir nunca e a solução Vilu.
— Mas às vezes não se tem alternativa, às vezes é preferível omitir algumas coisas ou mentir para não magoar quem amamos.
— Não Vilu, seja omitir ou mentir está sempre errado. — E naquele momento Angie lembra-se de algo que o pai lhe disse no dia em que morreu...- o teu pai ama-te, e para ele ver-te feliz é muito importante.
— Eu sei, mas...cada vez que acontece algo que ele não gosta...tenho que discutir com ele só para tentar explicar.
— Sabes bem que ele acaba sempre por aceitar a tua decisão, depois de gritar muito, e refilar…mas acaba sempre por o aceitar. — Angie sabia que Gérmen podia ser teimoso, mas ele amava Vilu e faria tudo por ela.
— Exceto as palavras: ”rapazes” e “namorados” – e riem-se as duas. — O papá fica completamente descontrolado! Não te lembras quando Leon me enviou aquele ramo de flores, como ele ficou? Ou quando ganhei o concurso de dança e ele esteve a ponto de não me deixar ir? Eu não quero que Clara não passe pelo mesmo.
— Vilu…Clara terá uma irmã mais velha que a vai ajudar...porque eu sei que a vais aconselhar e proteger. — E dizendo isto abraçou-a... — não te preocupes tanto, vive o que tens a viver, em relação á tua irmã quando chegar á altura nós vemos como e o que fazer.
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