Vigia, Cavaleiro!

1 Capítulo Único -- Vigilante.


(No canto direito de um campo, está parado uma figura branca e brilhante, que encara o horizonte.)

(Do lado oposto, entra o Cavaleiro. Não usa seu capacete -- o carrega nas mãos.)

Cavaleiro. Ora, quem és?

Figura branca. Sou vigilante deste terreno.

Cavaleiro. Perdão, meu amigo, porém acredito que esteja enganado. Eu que fui o encarregado de proteger este campo.

Vigilante. Tu estás atrasado.

Cavaleiro. Ora, como assim, atrasado?

Vigilante. O turno de um protetor noturno começa no fim do pôr do sol. Vieste já na alta madrugada.

Cavaleiro. Me perdoe. Caí no sono.

Vigilante. Não é a mim que deve desculpas. É às mães que perderão seus filhos por tua causa.

(pausa. Cavaleiro fica pensativo.)

Cavaleiro. Quem chamou a ti?

Vigilante. Vim pelas orações. Me mandaram como garantia de resposta.

Cavaleiro. És servo do divino?

Vigilante. Tu é que dizes isso.

Cavaleiro. Que ato de misericórdia... E eu, tolo, adormeci sem nem pensar nas possíveis batalhas... Nos infames massacres... Nas consequências de meu cochilo...

Vigilante. O que importa é que chegaste. Vigia, agora que estás aqui.

(pausa novamente. Cavaleiro começa a ficar impaciente)

Cavaleiro: Tu és capacitado para prever o futuro?

Vigilante. Não. Sou servo e vigilante exatamente como és tu.

Cavaleiro. Ora, por que motivo tu resplandece, então?

Vigilante. Tua armadura também resplandece, e nem por isso deixas de ser cavaleiro comum. Cuida da tua missão.

(pausa. Essa, no entanto, é um pouco menor do que as outras.)

(Cavaleiro se senta no chão, e suspira.)

Cavaleiro. Te comparas a mim, contudo és melhor que dois de mim. Por que me mandas fazer meu trabalho? Tu já cuidaria bem dele.

Vigilante. Sou vigilante, não cavaleiro.

Cavaleiro. Não acabaste de dizer que teu brilho era tua armadura?

Vigilante. Tu é que pensaste nisso.

Cavaleiro. De qualquer maneira, acredito que seria melhor que tu lutasse.

Vigilante. Por que faria isso?

Cavaleiro. Porque sou fraco.

Vigilante. Então por que te chamaram?

Cavaleiro. Não se nomeia cavaleiro aquele que melhor se destaca. Se nomeia o filho daquele que foi servo, seja bom ou ruim...

Vigilante. Honre teu nome. Se és mau cavaleiro, torna-te bom.

Cavaleiro. Como poderei tornar-me bom? Há tantos melhores que eu...

Vigilante. (duro, como um mestre) Olha para si mesmo. E melhora-te.

(Silêncio.)

Cavaleiro. Que poderei fazer eu para enfrentar o inimigo?

(entra Inimigo, sorrateiro. Não é visto por Cavaleiro.)

Cavaleiro. Que devo fazer eu?...

Devo lutar? Devo correr?

(Inimigo se aproxima)

Cavaleiro.... Já sei! Compreendo! Protegerei minha mente!

(Cavaleiro põe seu capacete. De repente, parece ver o mundo.)

Cavaleiro. Assustador é o foco que este elmo me proporciona! Consigo ver o que tenho de ver! (Desembainha a espada)

Cavaleiro. Enfrenta minha espada, Inimigo!

(Cavaleiro dá um golpe no Inimigo, que cai.)

Cavaleiro. Sou Cavaleiro! Agora sou!

Vigilante. Vigia, cavaleiro.

Cavaleiro. Vigias tu, que nada fizeste!

(Enquanto Cavaleiro diz isso, o Inimigo se recupera e o atinge. Ele cai.)

Vigilante. (em tom de ordem) Vá embora, Inimigo!

Inimigo. Não antes de derrotar a você!

(Vigilante pega a arma com a qual Inimigo luta, e a quebra em dois. Inimigo foge.)

(Vigilante ajuda Cavaleiro a se levantar.)

Vigilante. Vigia, Cavaleiro. A batalha vem quando menos se espera.

Cavaleiro. Guardarei tuas palavras.

(O tempo passa, o dia amanhece.)

Cavaleiro. Oh, como é bom ver a luz do sol!

Vigilante. ... se renova a cada manhã...

Cavaleiro. Que disseste?

Vigilante. Tu sabes. Tenho de ir. Vigia, Cavaleiro.

Cavaleiro. Vigiarei e tornar-me-ei um cavaleiro de que possam se orgulhar.

Vigilante. Seja abençoado.

Cavaleiro. Tu também.

(Vigilante sai, e Cavaleiro também, em direções opostas. Fim da cena.)

Notas finais
muito bom usar "tornar-me-ei" e não ser julgada
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!