Vidas em jogo

6 Capítulo seis


O sol estava de rachar naquele manhã, ainda era dez horas da manhã e não entendia como uma cidade que não passava de 30°c podia está a essa temperatura. A sensação térmica era de estar dentro de um forno a 250°c no máximo. A ventania com poeira subia a ponto de arder seus olhos, coçava a todo instante incomodada mal vendo o rapaz à sua frente.

Os dois já estavam na estrada a uma duas horas sem parar e não entendia pra quê tanta caminhada, já tinha perguntado a ele porque estavam caminhando tanto ou porque não parava pra um descanso no entanto, ela se sentiu um fantasma ao lado dele pelo tanto que foi ignorada.

Apesar da pantufa, seus pés pareciam fritar a cada passo que dava. Já não suportava mais.

Sakura desistiu de ter uma conversa decente com o tal londrino quando realmente notou que ele não iria abrir a boca por nada. Se perguntou como que ele aguentava aquele inferno e agir com tanta naturalidade, pois até onde sabia, em seu país Natal a estima de temperatura era bem menos que no Japão.

Com os miolos fritando Sakura quase cai, ela volta a si ao perceber degraus de uma escadaria abaixo.

É claro, a estação do metrô! Como não tinha pensado nisso antes?

Seguiu apressado aos passos do ruivo, era uma agilidade única de si mesmo cansada ainda sobrava resquício de disposição para tal ato. Sendo o único ali Sakura tinha medo de perdê-lo de vista e ficar só outra vez, se aproximou bastante dele passando pela catraca e parou de frente aos trilhos vazios e escuros ali.

Gaara se encosta numa parede e senta de frente aos trilhos o que surpreendente para Sakura as luzes dali funcionavam bem em uma cidade totalmente apagada e sem vida.

Decidiu sentar também, no entanto, se arrependeu no mesmo instante quando sentiu sua pele sensível dando à ela alguns choques térmicos pela mudanças de temperatura. Continuou calada observando o ruivo jogar a cabeça para trás, seu peito subia e descia por debaixo de excesso de roupa cobrindo todo o seu corpo expondo apenas o pescoço e o rosto, até suas mãos tinha luvas deixando os dedos de fora.

Naquele momento Sakura começou a notar mais de perto, principalmente nas suas vestimentas, talvez seja por isso que ele tenha aguentado o gosto da caldeira de Satanás lá em cima.

Alguns minutos se passaram, de incômodo o silêncio passou a ser reconfortante dando tempo de acalmar seus nervos, a deixando pensar melhor nos últimos acontecimentos.

E a pergunta que rodeava sua cabeça era: o que aconteceu com a sua cidade?

Teria resposta para tal pergunta?

—O que você quer?

Se espantou ao ouvir a voz rouca ao seu lado e fez uma pequena careta ao ver o ruivo ter uma garrafa de água em mãos o que parecia ter tirado do além pelo fato de nenhum dos dois carregar alguma bolsa. Ele desceu a água goela abaixo sem dar tempo de respirar esvaziando por completo.

"Então tá..." Pensou desviando o olhar.

—Eu...- pensou melhor no que iria dizer, não queria parecer uma tagarela como a Ino mas a verdade era que quando estava nervosa não conseguia parar de falar.- Bem, você é a primeira pessoa que eu encontro após acordar e ver esse fim de mundo. Pra dizer a verdade... eu não faço a mínima ideia do que dizer, eu não sei que tipo de reality é esse mas em nenhum momento eu concordei em participar disso. Só pelo fato de me encontrar com alguém já me trás um grande alívio.

Gaara solta uma risada nasal atraindo a atenção da rosada.

—Se encontrar com alguém...- ele balança a cabeça achando um pouco de graça nisso, o que deixa Sakura bastante confusa.

"O que eu disse de errado?"

—Se você se encontrasse com "alguém" Já estaria morta.- ele disse simples com a maior naturalidade do mundo, Sakura se espanta com suas palavras. — Nesse lugar, não existe ajuda. Se não for seu aliado, você já era. Right?

O que ele está dizendo?

Pelo o que pôde perceber, ele falava perfeitamente japonês com a mistura engraçada do seu sotaque inglês no meio das frases. Sakura deixou explícito sua confusão o que facilitou a leitura do ruivo em sua face.

—Pelo que entendi você acordou hoje não foi? E está confusa.- ele vira o rosto para o lado evitando encarar a Haruno, parece pensar em algo. Após um minuto inteiro ele finalmente a encara olhando nos olhos.

—Nós vamos pra Osaka.

O que?

O que?!

Sakura quis rir, quis muito rir das palavras dele. Depois dessa concluiu que o cara que estava sentado pouco mais de um metro de si era um completo louco.

Mesmo sem palavras ela não desvia o olhar dele, parecia até brincadeira porém sua expressão séria tirava qualquer esperança dessa possibilidade.

Sakura abaixou a cabeça indignada, estava andando com um estranho e ainda queria levá-la para Osaka. Será que isso não parecia uma brincadeira?

—Gaara — virou para ele.- são sete dias a pé, praticamente uma semana daqui até lá, a menos que tenha um transporte eu não vou sair daqui e enfrentar os sete infernos lá em cima.

Gaara continua a encarando bastante fixo para ela, Sakura começa a entender que esse era seu jeito de ser, encarar as pessoas como se não fosse desse planeta.

Por fim, ele levanta guardando a garrafa o qual Sakura não vê pelo seu grande corpo que esconde seus movimentos com as mãos.

—Tudo bem então, já que não quer ir fique aqui com as malditas aranhas de Tokyo. Pelo menos em Osaka a segurança é garantida.- disse caminhando para fora do metrô

Para Sakura parece que o mundo não estava à seu favor, dar uma opção dessa de escolher entre a vida ou a morte nem deveria ser uma opção mas entre morrer e sofrer mais ainda, aí sim seria uma opção. Vendo o estado de sua pele branca ficar avermelhada e latejando pelas queimaduras do forte calor de duas horas já a fizera sofrer bastante, quem dirá sete dias.

Escolha Sakura.

Estalou a língua no céu da boca fechando os punhos. Quis xingar o maldito ruivo nessas horas, porém ele era sua única ajuda agora.

—Tudo bem!- levantou com tudo do chão fingindo não se importar com as dores no corpo, sua voz fez eco pela estação morrendo dois segundos depois. Gaara parou no mesmo instante na escada rolante quebrada.- Eu vou com você.

"Eu vou pro tudo ou nada." Disse para si mesmo decidida, porém suas mãos trêmulas a denunciava.

Após um longo silêncio o que parecia mais um hábito dele, se virou pra ela.

—Certo.- disse inexpressivo como sempre.- Vai ter que arranjar uma roupa decente então.

—Roupa...- repetiu meio confusa e olhou para si mesma ao notar que pela primeira vez em toda manhã desde que acordara para sua nova vida que, em todo esse tempo estivera usando um baby doll finíssimo com estampas do Mickey sem qualquer tipo de sutiã o que deixa seus seios expostos à luz do sol através do tecido. Sakura começou a ficar vermelha de vergonha pelo fato de alguém além da Ino e seu namorado Sakuke a visse desse jeito. Não se lembrava da última vez que pagou tanta vergonha assim, mas essa ganhou.- T-tudo bem.- falou na tentativa falha de cobrir seu corpo com as mãos.

"Agora como é que eu vou continuar assim"

Morta de vergonha, parece que ela jogou toda sua moral no lixo.

***

Ao longo do caminho, Sakura conseguiu dá uma parada em uma loja de roupa e seguir as referências do ruivo para as vestimentas, escolheu algo militar porque além de ser algo mais largo e confortável, dava segurança para ela se proteger a luz do sol com uma roupa uv por baixo e guardar qualquer equipamento que a roupa lhe proporcionava. E tudo isso apenas tirando os objetos da vitrine.

Gaara se recusava levar mochila ou qualquer coisa do tipo para evitar carregar uma carga a mais e ter liberdade nas mãos no momentos de batalha, porém Sakura se recusou, precisava de mantimentos consigo pelo menos o básico para a sobrevivência. Mesmo não gostando, Gaara se mantinha na dele o tempo todo, era perda de tempo demais fazer paradas pelos caminho. Se era o que a Haruno queria então que deixasse ela fazer o que quer, seria ela que carregaria a bagagem mesmo.

Nisso passaram-se dois dias de caminhada sob o sol escaldante debaixo de suas cabeças, a noite Gaara sempre encontrava um abrigo para dormirem e voltarem a caminhar na manhã seguinte. Nesse meio tempo nenhum ataque de aranha aconteceu, ele dizia que se ela encontrasse com alguém quem quer que seja, era pra correr imediatamente, o que a fez questionar o motivo disso porém não teve resposta.

Outra coisa que a intrigava nos últimos dias era... como que ela conseguiu um relógio digital do nada? Não lembrava sequer de ter obtido um e ao que parece estava preso em seu braço. Concluiu depois de várias tentativas para tirá-los, logo depois desistiu.

Ele era até que bonitinho, não funcionava mas era bonitinho.

Queria ter perguntado ao Gaara, porém cogitou que ele não responderia como nós seus últimos trinta questionamentos sem resposta. Deixou isso de lado.

Ao entardecer, pararam em uma estrada deserta apenas com um ônibus velho abandonado e uma vegetação natural um pouco seca a beira da estrada. Tudo estava vazio apenas com os sons da cigarras em volta. Ainda se via prédios minúsculos da cidade onde eles estavam, logo cairia a noite a ponto de não ver quase nada.

Sakura como sempre a mais organizada, verificou pela vigésima vez separando seu estoque de comida e água, além de roupas e objetos pessoais que precisaria. Era um peso a mais porém valia a pena, não queria deixar nada pra trás. O caminho todo Gaara a alertava que era perda de tempo pois em algum momento precisavam correr caso seja necessário no entanto Sakura ignorou dizendo que para sobreviver precisava estar preparado o que era hilário já que a rosada nunca passou por situações assim, talvez se arrependeria mais tarde, só talvez. Por outro lado Gaara a deixou quieta como sempre do jeito dele.

Após organizar tudo direitinho olhou para um dos vidros do ônibus vendo as estrelas se formarem no céu escuro. Já se passou bastante tempo. Caminhou para fora do ônibus e sentiu de imediato um cheiro de cigarro, olhou pra cima vendo o ruivo sentado de costas pra ela. Como ele era do tipo solitário não quis perturbar, era o tempo dele.

Queria conversar com ele, fazer mais perguntas sobre esse mundo novo em que ela estava incluída, mas deixou quieto por enquanto, seria melhor assim.

Suspirou cansada da viagem, não tinha o que fazer naquela noite, o iria ser longo pela manhã então concluiu que era melhor descansar. Deu uma última olhada para o ruivo desejando boa noite com o olhar, voltou para o ônibus e se acomodou deitando em nos dois bancos de lado e encarou o teto.

Estava sem sono por conta do horário, não tinha o hábito de dormir cedo. Então decidiu cantar uma música aleatório que puxou de suas memórias, depois de umas cinco sequências da playlist de sua melhor amiga o que fez abrir um pequeno sorriso, sentiu seus olhos pesarem aos poucos.

Dormiu com a última música de Until I Found You.