Vida que segue

10 Downtown. Anitta, J Balvin


Notas iniciais
Um pouco mais sobre Felipe e uma merecida conversa de irmãs.

Na casa de Manu, as duas já no fim da tarde trocam o café por um merecido vinho.

A: Peraí, então você está me falando que esse negócio com o Felipe está ficando sério de verdade? Se você está planejando apresentar para a Vovó e Julia...

M: Eu não diria que está necessariamente sério, mas da última vez que nos vimos ele perguntou com aquele sotaque bonitinho dele se eu aceitava ser novia dele. – Ana faz cara de choque – Essa foi a minha reação, daí ele riu e teve que lembrar a tonta aqui que era namorada em espanhol.

Enfim, não resisti o jeitinho dele e disse que sim na mesma hora.

Você acredita que ele foi a primeira pessoa na vida que me pediu oficialmente em namoro? Até com o André na escola foi uma coisa meio decidida de qualquer jeito. A gente estava ficando e a coisa meio que virou outra, quando eu vi, nos referíamos como namorados sem nunca termos conversado.

Com o Gabriel, foi ainda pior, porque essa história saiu da boca da Julia. Se for parar para pensar, no caso do Rodrigo também – As duas riem da filha intrometida.

Enfim... quero falar do namoro para vovó e Júlia tanto porque é uma situação oficial, mas também porque ele está organizando uma viagem para a Argentina para gente e eu vou dizer para elas para onde estou indo e com quem né?

A: Sério que vocês vão viajar de novo? Que legal?

M: É, na verdade aquele nosso fim de semana em São Paulo foi bem corrido. A gente foi por conta do show do Coldplay e aproveitou para dar uma esticada na cidade. O Felipe queria me levar em tantos lugares, que voltamos mais cansados do que relaxados.

Para Argentina será diferente. Quero tentar tirar férias de verdade, para ficar uns dias em Buenos Aires, pois o foco mesmo será Mendoza. A família dele tem vinhedos lá e ele quer que eu conheça.

A: Nossa Manu, mas pelo que você está me falando, parece sério.

Manu bebe um pouco mais do vinho e reflete.

M: Na verdade eu nem sei direito Ana. Não quero rotular nada. Esse relacionamento é tão diferente dos que já tive. A comparação mais óbvia seria com o que tive com o Gabriel, mas ainda assim é diferente.

Sem contar que desde meu término para cá já passou mais de um ano. A fase da vida que estou é completamente nova, não tem o afastamento entre nós duas, o meu rancor com tudo, ou até a situação da doença da Julia que acabou dando uma pesada com o que eu tinha com o Gabriel.

Ele foi um raio de luz na minha vida, um homem maravilhoso que acabou que acabou não vendo a minha melhor versão sabe? Lembro que ele falou uma vez que meu sorriso era raro... e é uma pena, pois era verdade. Enfim. Foi do jeito que tinha que ser.

Ana olha com preocupação para a irmã. Vendo um filme passar nos olhos dela.

M: Mas com o Felipe é tudo muito diferente.

A: Como assim? Em que sentido?

M: Então, ele é ... na falta de outra palavra, ele é mais sofisticado do que qualquer homem que já conheci.

Ana dá um sorriso engraçado e tira sarro de Manu que a empurra levemente.

M: Deixa eu explicar melhor.

O Felipe vem de uma família bem tradicional de Mendoza e foi super bem educado. Ele é o cara mais cavalheiro que eu já conheci, do tipo que se levanta à mesa quando eu saio ou volto, que puxa cadeira, que abre as portas.

A: Nossa Manu, parece antiquado, mas é um charme não é.

M: Pior é que sim. Não imaginava que eu ia gostar tanto.

Além disso, não vou fingir que ele não é rico, pois já entendi que é, mas é diferente do jeito do Gabriel, que também vem de uma família com dinheiro. No caso do Gabriel, você jamais saberia que ele tinha o que tinha. O jeito dele era muito mais de fazendeiro, simples, da terra. E eu sempre amei isso nele.

O Felipe não é prepotente, ou esnobe – apesar que eu sei que ele sabe ser quando quer irritar -, mas ele se porta de um jeito que claramente mostra que ele tem uma origem abastada. Sem contar que ele é um misto perfeito entre urbano e do campo.

Quando fizemos o tour das vinícolas da serra gaúcha, ele claramente estava em casa. Ver aquele homem em cima de um cavalo branco mexeu com meus sentimentos mais românticos. – Manu comenta com um sorrisinho no rosto. Ana dá risada da discrição da irmã. Claramente encantada de ouvi-la, pela primeira vez, falando de um rapaz.

M: Mas ao mesmo tempo, ele pertence aos melhores salões de Porto Alegre. O jeito que se veste, que conversa ... Ana, ele é tão viajado, tão culto, que eu fico às vezes constrangida com a minha falta de conhecimento do mundo. Com o Gabriel, com o Rodrigo, até mesmo com o Rafael que te falei, era tudo mais pé no chão, sabe? Às vezes eu olho para o Felipe, de braço dado comigo em um coquetel ou um restaurante chique e me pergunto o que ele vê em mim.

A: Ahhh Manu, para com isso. Você é maravilhosa e tenho certeza que um homem como o que você está descrevendo, jamais estaria com você se não te achasse estimulante.

M: É... acho que sim..., mas de fato eu não me sinto inferior em nada quando estou com ele. Ele faz eu sentir que eu pertenço a qualquer lugar, que nós combinamos, sabe? Sem contar que a nossa vida a dois é 90% literalmente só a gente. Mesmo quando estamos cercados de gente.

Ele não faz pose para ninguém, sabe? Tem poucos amigos, gosta de relações verdadeiras e diretas...

A: Entendi... e além disso, você tem tido uma boa experiência física com ele também? Ou o namoro se resume a comida e vinho?

M: Ana!!!

A: Ué, depois do que você abriu sobre teu relacionamento com o Rafa e até do Gabriel, achei que estava liberado esse tipo de questionamento.

M: Está, claro. Mas você me pegou de surpresa.

A: Então não enrola... vai...

M: Bom, eu particularmente não tenho do que reclamar. Aliás, eu nem sei se tem a ver com a sorte que tenho dado com os homens com quem tenho me envolvido, mas a impressão que tenho é que essa parte da minha vida, fica cada vez melhor.

Óbvio que o fato de eu me sentir mais segura na cama, tem sido um diferencial e nesse ponto eu serei eternamente grata ao Gabriel que foi meu maior incentivador nesse autoconhecimento. Mas independentemente disso, o Felipe é incrível!

Ele é extremamente romântico sabe? Gosta de me conquistar sempre. Seja preparando um banho, velas, música, luz. Ele é muito atencioso com isso quando a gente se encontra de uma forma programada e eu não imaginava o quanto isso ia mexer comigo.

Além disso, o grande diferencial mesmo é que a gente é capaz de passar horas e horas só nas preliminares e a sensação que eu tenho é que a forma que ele sente mais prazer, é me dando prazer.

Ele sabe pegar, ficar no controle e me deixar maluca quando ele está nessa função, mas normalmente tem toda uma experiência antes disso. Ele é absurdamente paciente para arrancar de mim tudo que eu consigo naquele momento. Nunca ninguém, nem o Gabriel, focou tanto em mim no sexo. Ele me prioriza todas as vezes e está sendo uma experiência surreal ter essa relação com ele.

Claro, que a gente não está junto a tanto tempo assim, e ainda está naquela fase lua de mel, então pode ser que isso mude. Mas de qualquer, forma, mesmo que ele perca esse empenho todo, já posso dizer que valeu a pena eu ter superado todo o ranço que eu tinha dele no início.

Ana e Manu dividem uma risada.

A: Então, dessa história toda sobre o Felipe, eu tirei uma coisa.

M: O que?

A: Que você está feliz. Num relacionamento tranquilo e completamente compatível com a mulher jovem e cheia de vida que você é. É isso?

M: Pensando bem, acho que sim.

Tá sendo uma delícia descobrir que tenho opções profissionais agora que o buffet já tem estrutura e eu posso me dedicar a ser chef de cozinha. O meu lado mãe também está mais tranquilo, porque divido esse espaço com você e o meu lado mulher está leve. Curtindo um pouco a vida sabe?

A: Sei. Eu só fico com um pouco de pena... me desculpa Manu... mas acho que fico um pouco sentida pelo Rodrigo. Sinto que ele foi o que mais perdeu com o turbilhão que foi todo o nosso drama.

E não falo apenas pelo fato de nós duas estarmos em relacionamentos com pessoas bacanas, mas porque ele parece baleado sabe? Principalmente quando olha para você.

Manu que estava com um sorriso no rosto murcha um pouco.

M: Eu sei Ana, mas honestamente não tem nada que eu possa fazer. Aliás, nada que eu queira fazer.

Posso ser franca para falar dele um pouco? Não vai me levar a mal? Afinal ele também é uma pessoa que você gosta, é o pai da tua filha, é teu ex.

A: Claro que pode Manu. Minha maior missão é acabar com esses ovos que pisamos para falar de qualquer coisa.

M: Bom, na verdade o Rodrigo chegou a me procurar. Tem quase um ano mais ou menos. Logo depois que eu e Gabriel terminamos.

Ele me pediu perdão, se declarou, pediu para voltar. Foi uma conversa difícil que tivemos, mas meio fora de hora.

A: Como assim?

M: Acho que depois que a Julia estava 100%, que você e ele aparentemente se libertaram definitivamente um do outro, que o trabalho dele estava fluindo, o lado profissional dele dando frutos, enfim, que tudo meio que se encaixou, ele parou olhou para mim e pensou: “Agora sim, vou deletar os últimos dois anos desse relacionamento e continuar exatamente do lugar que parei”. Como quem volta para casa e acha os sapatos do mesmo jeito ao lado da porta sabe?

A: Manu...

M: Não Ana. Uma vez, num momento de raiva, eu cheguei a falar para você que eu tinha amado o Rodrigo com todo o meu coração e isso sempre foi verdade. Eu amei de um jeito que eu provavelmente nunca mais vou amar alguém e não porque outras pessoas vão merecer menos, ou porque eu não sou mais ingênua, mas sim porque eu tenho fé que nenhum amor que eu sentir por outra pessoa vai ocupar o espaço do meu coração que eu reservei para mim mesma.

Eu aprendi com dor a achar meu amor próprio. A me respeitar. Eu consegui perdoar o Rodrigo porque eu não queria mais aquele ressentimento me envenenando, mas eu não ia aceitar ser um prêmio de consolação para um cara que provavelmente viu em mim um caminho fácil para felicidade.

Eu não quero que alguém queira ficar comigo porque é fácil, porque é confortável, mas sim, porque simplesmente quer.

A: Manu, eu fico muito orgulhosa da mulher que você se transformou depois que essa tempestade atravessou a tua vida, mas eu acho que você ainda está deixando algum resquício de rancor te cegar um pouco.

Eu conversei com o Rodrigo algumas vezes depois que tudo passou e eu tenho certeza absoluta que ele não chega nem perto de te ver como um prêmio de consolação, ou plano B, ou porque é fácil. Ele te am...

M: Não Ana. Eu não acredito. Eu aprendi a ver o Rodrigo sem filtro e o homem que eu vejo tem muitas qualidades, muitas! Ele é um homem bacana, decente, e, mais importante do que tudo para mim, é um pai excepcional para a Julia.

Mas com relação a mim, eu não tenho confiança nenhuma. Tudo que ele me demonstrou até hoje foi que ele sempre se priorizou e depois de tanto tempo, ele insiste numa versão da Manuela que sequer existe mais. Nos vamos fazer 03 anos de separados Ana, quase o mesmo tempo que fomos casados. Se um dia eu reencontrar o Rodrigo, vai ser uma nova história, mas não tem a menor condição de retomar o que ficou para trás. Eu não tenho vontade nenhuma de voltar a ser aquela Manuela, até mesmo porque, eu sei que é impossível.

Inclusive eu vou precisar jogar sal nessa ferida de novo e não tenho mais como postergar.

A: Por que? O que vai fazer?

M: Eu preciso me divorciar do Rodrigo.

Ana fica chocada com a notícia.

M: Não me olha assim. Não é possível que você ou qualquer pessoa fique realmente surpresa.

Eu não vou mentir que só não tomei ainda uma providência porque me dói mudar meu status com a Julia.

A: Do que você tá falando?

M: Parece besteira, não me leva a mal, mas o fato de eu ser oficialmente madrasta da Julia sempre me deu uma certa segurança sobre o meu papel na vida dela. Tipo na escola, as vezes que viajamos, junto ao plano de saúde e qualquer outra burocracia que possa existir.

Sem o meu casamento com o pai dela, eu meio que viro nada. – Manu fala cabisbaixa.

A: Manu, não fala isso nem de brincadeira. Você nunca vai virar nada. Você vai ser sempre tudo para a Julia. Não importa o “oficial”.

M: Mas importa Ana. Já pensou um dia eu não puder buscar ela na escola por ser a tia? Ou ainda quando o Rodrigo casar de novo e eu ficar abaixo de uma mulher que eu nem sei quem é na hora de tomar uma decisão, enfim, é uma coisa que tira meu sono.

A: Pois vamos mudar isso. Se você realmente quer se divorciar do Rodrigo, é claro que não vou me intrometer apesar de eu achar que você deveria acreditar no que ele fala para você. Mas quanto a Julia, nós podemos procurar um advogado e ver nossas alternativas. Eu assino qualquer papel que possa te dar o mínimo de autoridade legal sobre ela e não tenho duvidas que o Rodrigo faria o mesmo.

Manu, entende uma coisa que vou te falar agora. Você é mãe da Julia. Você! Eu posso ser também, mas esse posto é originalmente seu.

M: Claro que não Ana.

A: Ok, eu deixo você discordar de mim, mas pelo menos você pode entender que é no mínimo nosso lugar né?

M: Posso...

As duas se abraçam e finalmente amarram essa última ponta solta entre elas.