Vida de Monstro - Livro Quatro - Os Deuses
4 IV - Michael
Notas iniciais
IV – Michael
Como diabos alguém faz pra se guiar num mundo sem lógica?
Se você tenta usar as estrelas as constelações ficam mudando a cada pensamento seu para seus piores pesadelos. Se tenta usar os musgos eles crescem e viram ents que te expulsam a pontapés. Se tenta seguir a correnteza de um riacho surge dele um leviatã que nem deveria caber ali e que vai te engolir e te cuspir no meio de um deserto.
Eu literalmente estava perdido. Só também não sabia a quanto tempo.
Naquele momento caminhava no meio de uma floresta tropical gigantesca e aparentemente sem nada além de plantas, calor e mosquitos. Podia sentir eles me picando, sugando minha vida. Esse era o problema de se estar ali. Tudo era feito de areia dourada. Menos quem? Adivinhem quem.
Eu obviamente!
Por algum motivo estúpido eu era a única coisa no Sonhar inteira que não era feito de areia e por isso era tão mortal quanto em qualquer lugar da Terra. Só que num mundo em que dar um passo em falso custaria minha vida.
Passava a mão pelas folhas e sentia elas se desfazendo por entre meus dedos como se estivesse mexendo na areia de uma praia e então misteriosamente voltava a sua forma original. Nem sempre conseguia controlar a estrutura ao meu redor e não demorou para notar que mesmo que mudasse era inútil. Só fazia agora quando precisava me manter vivo e pronto.
Não importava se desfizesse a floresta inteira, no final só me veria num deserto de areia dourada sem fim e forma.
As vezes podia jurar que ouvia o uivo de um lobo ao fundo, mas no final das contas não passava de mera impressão. Ainda assim eu seguia o som. Estava indo sempre atrás dele. Completamente só num mundo desolado e sem fim. Mas algo dentro de mim não me deixava fraquejar. Como se houvesse um fio me puxando para fora dali, precisando de mim. A questão era se eu suportaria até o final daquilo.
Então assim que passei por debaixo de um galho surgi numa enorme campina aberta muito ensolarada. A aleatoriedade daquilo tudo devia me enlouquecer, mas na verdade por mais maluco que tudo fosse me sentia em casa. Uma casa sem fim e que estava perdido, mas ainda assim em casa.
E pela primeira vi algo familiar naquele mundo de areia e loucura. Aquele lobo prateado me encarando com seus olhos brilhando como se fossem dois diamantes cintilando a minha frente:
–Veio me tirar daqui? – ele não respondeu a minha pergunta, aquele maldito silencio entre a gente era a pior resposta que eu poderia ter – Deixa eu adivinhar, vou ter que fazer algo pra você pra poder sair daqui
Novamente sem resposta. Ele apenas deu as costas pra mim e começou a caminhar e então simplesmente comecei a segui-lo. Por quê? Porque não havia nada melhor a fazer ali alem disso.
Só foi chegar ao topo de uma colina ali daquela campina que a minha vista mudou completamente. De novo. O que deveria ser apenas um monte de grama e morros havia virado um horrendo cânion, com o seu coberto completamente por uma gigante e única nuvem negra, feito todo de algum tipo de pedra escura que naquele clima parecia ainda mais obscura. Tudo aquilo enquanto grunhidos de feras eram emitidos vindo lá de baixo. E ao fundo era possível ver uma depressão ainda maior do que as outras com uma luz violeta sendo emitida de lá:
–Pra eu sair daqui vou ter que chegar até aquela luz, não é? – dessa vez não houve resposta por um motivo diferente, era porque não havia mais lobo algum ali
Apenas suspirei e olhei para aquele local digno de um pesadelo. Lá vou eu rumo a um verdadeiro inferno. De novo. A última vez eu morri no ritual maluco. Vamos ver agora o que esses malditos que controlam o destino me reservam.
A cada momento a descida parecia mais íngreme e sem local para apoio, algo que não ajudava nem um pouco. E os grunhidos que ouviam também não. Tinha alguma coisa ali embaixo me esperando. E não era nada amigável.
Quando finalmente cheguei ao fundo do poço (algo me dizia que não apenas literalmente) estava em frente ao que me aguardava. Uma serie de criaturas disformes me observavam ao redor, gemendo, gritando, urrando. Um amontoado de bestas humanóides mutiladas e dilaceradas até não poderem ser reconhecidas como mais nada além de monstros. Podia sentir minha respiração ficando mais pesada e o medo me dominando, fazia tempo que não sentia aquilo e por mais que não fosse o mais agradável dos sentimentos o medo me fez sentir vivo como nunca estive desde que morri.
Aquilo era como um circo de horrores para demônios. Mesmo naquela escuridão gerada pelas nuvens no céu e pela profundidade do local era fácil reconhecer as silhuetas daqueles que um dia foram humanos. Todos em fila formando um quadrado e recebendo golpes freneticamente fazendo espirrar sangue, pedaços de pele e carne e até mesmo membros e cabeças. Aqueles que não tinham mais força pra se erguer e voltar para a fila simplesmente então sumiam virando areia e logo outros surgiam das sombras tomando seus lugares. E no centro estava o responsável por aquele espetáculo:
–Finalmente chegou, Avatar – disse a criatura com uma voz tão grotesca que parecia ter sido feita por um ogro e logo vi e senti dois enormes olhos completamente amarelos me encarando do alto
–E você seria? – perguntei encarando aqueles olhos que me observavam de mais de cinco metros de altura enquanto eu caminhava na sua direção em meio a pedaços de corpos que viraram lentamente areia
–Sou Abolete, o Açoitador – sei que vou me sentir a minha irmã falando algo assim, mas ainda assim, por que ninguém tem como titulo O Fofinho? Ou O Entregador de Doces? – Senhor dos açoites, Mutilador de homens e dono da entrada do Abismo da Perdição
–Bem eu sou Michael, o hibrido
–Não, você é o Avatar e o nosso caminho para a divindade
A criatura urrou e logo senti algo me acertando no lado direito do corpo, me jogando para longe e me chocando com tudo contra a parede do abismo. Meu braço e minhas costelas do lado direito estavam destroçados enquanto todo o lado esquerdo do meu rosto sangrava com minha mandíbula esmagada. Aquela coisa era muito forte e além de seus olhos eu não conseguia ver mais nada naquele breu sinistro que ao redor dele parecia ainda mais intenso. Tentei me concentrar e canalizar a areia ao meu redor para me regenerar, mas simplesmente ela não queria vir na minha direção. Era quase como se eu não tivesse poder ali:
–Você não tem poder aqui, Avatar – a voz da criatura parecia fazer o chão tremer e podia sentir o ar sendo rasgado pelos seus golpes freneticamente rápidos – Seus dons não são nada neste abismo, as almas que influenciamos são tão numerosas que a vontade que impomos a elas e elas impõem a essa dimensão são muito mais fortes do que a de um Avatar mal treinado como você
Agora eu realmente tinha um problema. Mesmo naquele mundo maluco eu ainda tinha minha influencia ali e conseguia sobreviver, mas agora como eu iria enfrentar aquela coisa sem poder sequer me curar ou ter alguma arma em mãos. Apanhei uma pedra do chão com a minha mão esquerda e encarei a fera que me encarava de volta com um sorriso que mesmo eu não vendo era capaz de sentir.
Fiquei mexendo meus dedos pela pedra sentindo a cada respiração meu peito queimar. Um humano teria morrido com aquele ataque, mas eu ainda estava em pé então talvez ainda tivesse algo de hibrido mesmo naquele mundo ou ainda tivesse meus poderes de controlar a areia mesmo que não da mesma forma que antes.
Olhei novamente para a pedra na minha mão e simplesmente a larguei no chão. Era inútil. Ou eu obtinha meus poderes de novo, fosse qual fosse, ou não teria chance nenhuma. E o máximo que obtive de ajuda foi um uivo distante.
Procurei ao meu redor de onde havia vindo o uivo, mas nada de ver o pai-lobo por perto. Não sentia uma única gota de poder. O máximo que aconteceu foi poder sentir medo exalando do meu adversário monstruoso:
–Sabíamos que ele viria mais cedo ou mais tarde – falou a criatura visivelmente assustada – Mas não faz diferença, nosso Senhor é forte e com o poder das almas que possui é mais que o suficiente para parar esse lobo idiota de uma vez por todas
–Acreditar que vocês têm chance contra o pai-lobo é tão ridículo quanto acreditar que tem chances contra mim – o riso dele acompanhou a minha fala ainda que eu pudesse sentir o medo nele, tinha que aproveitar isso
–Você é inútil aqui, Avatar. Seus poderes não são nada comparado a nós!
Se ele iria dizer mais alguma o soco que o acertei impediu. O corpo gigantesco dele caiu para trás como se fosse uma árvore tombando. A queda foi tão intensa que todo o chão tremeu. Por um curto momento ele não se concentrou e aproveitei isso ao máximo. Ele tinha dito que meu poder era inútil porque a concentração de almas ali obedecendo a ele era grande demais, era poder demais querendo manter aquele ambiente daquele jeito para que eu sozinho interferisse. Mas no instante em que a vontade dele se abalasse algumas almas também iriam se abalar. E eu só precisei disso.
Podia sentir a fúria exalando de mim enquanto cada músculo meu se expandia, enquanto pêlos e unhas cresciam de forma animalesca. Tudo sob o luar que ia surgindo no céu:
–Acha que é simples assim nos vencer, Avatar? – a fala de Abolete veio com um riso sinistro, quase pude sentir minha transformação regredindo com tamanho o poder que ele emanava – Pode ter sido esperto e aproveitar a distração daquele lobo safado, mas isso não é o suficiente para me vencer. E muito menos vencer nosso Senhor
–Não sei quem é esse seu Senhor e estou completamente me lixando pra isso, eu só quero voltar pra merda do meu mundo! – assim que terminei de falar emiti um uivo que nem pensava conseguir
Por um momento foi como se não fosse eu ali, mas sim o pai-lobo, e como se ressonando com meu poder diversas almas simplesmente começaram a me encarar. Estavam livres do medo gerado pela aquela coisa como se meu rugido as tivesse lavado do mal como faria um rio com sujeira:
–Você não pode nos vencer......!
Se ele ia dizer alguma coisa a mais não importava. O golpe que mandei simplesmente rasgando o ar com minhas garras partiu-o ao meio fazendo duas massas negras tombarem para lados opostos. Podia sentir diversas almas sumindo, indo embora daquele inferno dentro do Sonhar. Era como se aos poucos também tudo ali mudasse, a luz da lua iluminava todo o meu caminho enquanto mais nuvens sumiam dando lugar a estrelas. Por um momento aquele vale sinistro me pareceu o mais comum dos ambientes e logo notei porque disso. Tinha velha companhia ao meu lado.
Aos poucos a figura de um peixe começou a surgir, ele parecia literalmente nadar no próprio ar como se ele fosse feito de água que ficava prateada com a proximidade dele e aos poucos foi parando na minha frente. Reconhecia ele, era igual a tatuagem que Hector tinha. O espírito dos rios. Pensei que ele tinha sumido junto aos outros quando os guardiões chegaram, mas ali estava ele na minha frente:
–Ajuda? – ele não respondeu a minha pergunta, mas sabia que a resposta
Enquanto caminhávamos e minha transformação regredia percebia o obvio, não tinha feito nada ali sozinho. Sem dúvidas o espírito havia me ajudado de alguma forma a diminuir a influencia de Abolete nas almas. Não só isso, ele também estava sendo meu guia dentro do Abismo da Perdição, como o espírito maligno havia se referido. O pai-lobo não estava ali, mas tinha ajuda de outros além dele.
Podia ver surgindo ao meu lado aos poucos uma pantera que tinha o mesmo tom prateado característico dos espíritos como o peixe ao meu lado, mas enquanto o peixe parecia nadar num mar astral a pantera exalava chamas rubras cintilantes como se fosse pó feito de rubis. Era ele. O símbolo da minha tribo e guia de todos nós. Aquele de quem nos considerávamos filhos. Coahoma. O pantera-vermelha. Aquele que caçou o próprio sol.
A marca no meu braço com o símbolo do sol transpassado por uma lança queimava na proximidade do espírito e sentia que havia sido ele a abrir o céu para o surgimento da lua. Os dois estavam ali e sabia que não demoraria para outros surgirem. Eu só precisava me livrar dos adversários deles para isso:
–Deixem eu adivinhar, o Abolete não era nada comparado ao que está vindo?
Novamente minha pergunta não precisava de resposta. O silencio já dizia tudo. Aquilo era só o começo.
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