Vida Marcada
10 Jack
Notas iniciais
–ARRG- arfava Russi a cada estocada- Devo estar ficando velho.. ARRGG- e as pequenas espadas cegas continuavam a atingi-lo.
Todas as tardes,Jack sentava-se na amurada do convés e observava distraidamente o treino dos novos tripulantes.
Após o sangrento massacre na vila portuária em nome de Alissa Read, Russi achou por bem contratar reforços a tripulação. Querendo algo vigoroso, foi as docas e alistou apenas garotos inexperientes em busca da falsa glória do mar. Os mais velhos tinham dezessete, os mais novos apenas doze.
John Jack pouco se importava.
Após a perda de Alissa, o grande capitão tinha voltado a ser uma lenda. Poucas vezes era visto fora da cabine, as ordens, sempre transmitidas por terceiros, e os saques ás cidades... cada vez mais sangrentos.
Jack pouco mais fazia.
Era sempre silencio, preferia a solidão. A vivacidade e a alegria tinha deixado-o. Sem reagir, ouvia quieto, enquanto era motivo de chacota dos novatos... Talvez fosse o vestido rasgado que carregava ou os olhos vermelhos de choro que sempre exibia. Mas o fato era que mesmo entre as risadas, sentava-se num canto até que Russi chegasse e os caçoadores pusessem sua atenção em outra coisa, a espada.
Certo dia, após um costumeiro treino, Cheat mãos de ferro, resolveu divertir os amigos. Como sempre fazia, esperava Russi sair, e, xingava Jack de deveras coisas. Grande e musculoso para um garoto de quinze anos, caçoava e chamava Jack pra um duelo. Esse, sempre virava-se de costas e ia embora sem reagir, ouvindo,então, o grupinho de novatos rir e ameaçar.
Mas naquele dia Cheat tinha uma nova provocação. Um dos antigos tripulantes havia comentado o motivo do choro de Jack e Cheat, sem perder tempo cutucou o garoto antes mesmo de Russi deixar o convés:
– Hey bebezinho bichinha quem vai amarrar suas fraldas agora que a mamãe morreu- e imitou um choro exagerado de criança.
Jack olhou.
– Ei menino — advertiu Russi- limpe a boca antes de sequer mencionar Alis..
–Não- a voz que interrompia vinha da cabine central, e era profunda, era rouca, era calma, era do Capitão.
Os novatos se olharam e encolheram-se perante a imagem que surgia. Como nunca haviam visto-o, não sabiam se deviam ajoelhar, abaixar ou ficar de pé. Uns fizeram uma coisa outros fizeram outra, mas ninguém, nem mesmo Russi conseguia encara-lo.
A figura era sobre humana, músculos de um touro, veias rubras de sangue latente, e os olhos. Se os de Jack perdiam o azul, osde John eram brilho negro. Uma coisa escura qu jorrava escuridão. Quando falou, a voz ecoou e,mesmo sendo calma, silenciaria até o mais alto trovão.
– Falou de ti, de tua mãe, o que vai fazer?
Jack, que entendia a mensagem, ergueu-se, e pegou a espada mais próxima.
Cheat, pensando na própria vida tentou defender-se atacando rapidamente, mas Jack, sem esforço, desarmou-o e jogou-o ao chão. Pressionou a cimitarra contra o pescoço do garoto e olhou profundamente.
–Mate-o.
A ordem de John, trouxe ao convés o resto da tripulação que ainda não assistia o espetáculo. No centro da orda, Jack engolia em seco. Um fio de sangue escorria do ponto onde o pescoço era pressionado.
Jack atacou.
Para a surpresa de todos, errou o alvo propositalmente, cravando a espada acima da cabeça do adversário.
–Não posso, ele não matou ela.
A expressão de John beirava a insanidade, e gritou sacudindo o navio.
– Não! você não pode ser ele, ela não pode ter dado a vida por algo tão fraco e inutil como você! Era você quem devia ter morrido! Ela sabia! a Bruxa a tinha avisado! Ela não podia ter interferido!- virou se arfando- Mas esse erro será concertado- e entrou na cabin, fechando-se.
Naquela noite de tempestade, Jack tentava dormir, e, imaginava, feliz, como devia estar sendo pra os novatos, o incessante balançar do barco.
Quase esquecendo as palavras do pai, começava a fechar os olhos quando sentiu a mão de Russi balançando-o.
– Garoto, e-eu... me desculpe.. ele ele, eu tentei- Jack, levantando-se esperou seus olhos acostumarem-se com aluz, e percebeu que o mestre chorava.
Uma onda de medo o atingiu.
Mesmo assim, encheu-se de orgulho e seguiu o velho escada a cima.
Lá fora, o convés era castigado pela chuva tanto quanto pelas imensas ondas que jorravam, virou-se e viu que alguns piratas preparavam um bote. John, tinha uma garrafa de Rum a mão e observava tudo pacientemente, parado,como se o balanço do navio não se aplicasse a ele.
Entendeu tudo, e mesmo sentindo o medo apoderar-se de seu corpo, Jack permaneceu imovel resignado a não mostrar fraqueza, enquanto era baixado lentamente ao mar.
– Não pode fazer isso- gritou por fim, mas, sem perder a frieza- eu sou, eu sou...
–Você não é nada, não é o profetizado- declarou John rispidamente- Não é sequer meu filho.
E Jack já totalmente na água perdeu a visão do convés, e ouvindo a ordem de apagar todas as luzes para que o navio se afastasse, virou-se de costas, para tentar o impossivél, e enfrentar a primeira das ondas gigantes.
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