Vice-Versa
1 O começo das lembranças
Notas iniciais
“Hoje. Depois de ontem, antes de amanhã. Mesmo não sabendo o que aconteceu antes de hoje, e nem o que irá acontecer depois de amanhã. O Sol brilhava pela janela. Quer dizer, o Sol tentava brilhar, mas as nuvens negras impediam que seus raios cintilantes chegassem totalmente. Estava pela manhã. Assim como todos, eu não queria ir para à escola. Mas eu não posso ser todo mundo. Eu só posso ser eu.”
“Levantei da cama. Fiquei pensando no que os outros fariam. Acho que tomariam banho, comeriam alguma coisa e escovariam os dentes. Em vez disso, me sujei de lama, joguei o lanche fora e quebrei a escova no meio. Isso não era só pra contrariar. Era porque eu sentia raiva.”
“Por que eu não consigo me lembrar de nada? O que está havendo comigo? Será que eu nasci desse tamanho, sabendo pensar e tudo mais? Acho que seria o oposto do que acontece com todos. Aliás, o que eu sou? Onde vivo? O que aconteceu com aquele negócio que chamam de… de…”
– E nesta reportagem nossos pesquisadores vão à rua conhecer diversas culturas de diferentes famílias! – Dizia o repórter na televisão, e ele se levantou do sofá.
– Acho que é isso… o nome deve ser família. Será que eu tenho uma? – Ele dizia sozinho, enquanto via palavras que ele não se lembrava. – Eu quero saber de uma vez o que está acontecendo! Eu não lembro de família, mas lembro de escola; eu não lembro de ontem, mas lembro de rotina dos outros. Minha vida é realmente um lixo. Independentemente do que isso for. E uma das perguntas mais intrigantes: se eu não tenho família, quem vai pagar escola pra mim?
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– Mônica… Cadê você? Mônica?! – Magali procurava sua amiga com um sanduíche na mão. Um tomate cai do mesmo e, sem ninguém ver, a garota vai e se abaixa pra pegá-lo.
– Calma, Magali, eu tô aqui! O que foi? – Ela perguntou, enquanto corria na direção da amiga. Magali tomou um susto, deixando o tomate cair no chão novamente. Chega. Duas vezes é demais. Sem calma nenhuma, a menina pegou do chão e o colocou na boca, deixando Mônica enojada. Momento nostalgia: Magali clássica estava voltando.
– Preciso te contar um…
– ...Babado fortíssimo! – Denise gritou, aparecendo do nada. As duas deram um pulo de susto, e Denise não podia se conter. Ver a cara das duas assustadas foi a melhor coisa, até porque, ela tinha provas (uma pequena prova, que estava salvando na galeria da câmera naquele exato momento.
– Ai, Denise, que susto, viu? Não faz isso nunca mais, eu posso morrer! – Magali falou, com os olhos fixados em um garoto todo de preto em pé, sem falar com ninguém.
– Ah, não, deixa que eu conto! – Carmem falou, se intrometendo no meio da conversa. Mônica ainda não estava entendendo nada. – Tá vendo aquele gatinho ali? Então, ele é novo aqui no colégio!
Carmem foi se aproximando do garoto, e as meninas iam logo em seguida, de duas em duas. Logo estava Carmem na frente, com Mônica, Magali, Marina, Aninha, Carmem, Denise e Maria Melo atrás. E a loira, sem perder qualquer resquício de chance, se atirou pra cima do menino. Foi quando ela perguntou a ele qual era o nome dele.
– Me chamem de Do Contra, porque meu verdadeiro nome eu não faço ideia de qual seja. – Ele falou, ameaçando a sair.
– Ué, aonde você vai, gato? – Carmem perguntou novamente. Aquela garota já estava enchendo a paciência de Do Contra.
– Vou embora daqui, sair do seu papinho fútil. – Ele falou, com a paciência esgotada.
– Vai me deixar aqui falando sozinha, seu covarde frouxo? – Ela disse e depois não conteve a alegria. – Háá, sambei na cara do recalque!
– Sambou no chuveiro, só se for, né? Faz o seguinte: brinca de vida.
Vida? – A garota perguntou sem fazer ideia do que ele estava falando. Ela estava apenas esperando uma resposta dele, pra entender a explicação idiota da brincadeira idiota e sair. Mas ficou de queixo caído com o resultado…
– É, vida. Você cuida da sua, e eu cuido da minha. – E saiu.
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“Primeira aula. Tédio total. Está um homem, que se não me engano se chama Rubens, explicando sobre corpo humano no maior tédio universal do Universo. Óbvio que eu estou odiando; todos estão adorando a explicação de coisas que estão revendo. Se eu me lembrasse dessa matéria, será que eu gostaria também? Será que eu conseguiria ao menos alguma vez ser normal? E será que isso seria legal? Quer dizer, não que eu queira deixar de ser diferente, mas… bah, melhor prestar atenção na aula pra não tirar nota baixa, senão minha mãe me lasca. Espera, eu tenho mãe?
– E assim o corpo humano se forma. Acho que todos vocês já devem se lembrar disso, não é? Pois bem, agora é hora de darmos as boas vindas ao novo aluno. Venha para cá, hã…
– ...Do Contra – Ele concluiu. – Mas todos os novatos vão para a frente da classe?
– Sim… de que escola você é? Achei que em todas as escolas fossem assim. – Rubens disse, aparentando sentir um pouco de vergonha por talvez ter confundido o aluno.
“Essa é a minha chance de ser normal por um segundo, ao menos!” Ele pensou. Mas a decisão era muito difícil. Deixar de contrariar, assim, de uma hora pra outra… por fim, o garoto decidiu que não iria à frente. Apesar de querer, ele não queria. Era muito confuso. Mas ficar confuso, todos ficavam. Então decidiu ir, pra não ficar confuso como os outros. Espera. Não. Se ele fosse, faria como os outros. Se não fosse, ficaria confuso como os outros. A única saída para ele era a literal; ele teria de sair da sala.
– O que aconteceu com ele? – Mônica perguntou, apesar de ser uma pergunta meio retórica, já que ninguém sabia a resposta. A resposta viria, em coro, 'não sabemos, criatura!' se não estivessem preocupados até demais com o menino.
“Ah, Deus, me diz o que está acontecendo comigo, por favor!” Do Contra estava pensativo no banco perto do refeitório.
– Acho que vou pegar um lanche – Falou, ainda pensativo.
– O senhor não vai à lugar nenhum – A diretora apareceu atrás dele.
Sem se recordar de sua autoridade sobre a escola, Do Contra a destratou de uma forma que, se alguém não soubesse, diria que era primo da Carmem. Mas quem disse que não era? Ele nem sabia quem fazia parte da tal família. Ele não sabia sentir o que era a família. Ele não sabia o real significado da palavra família.
– Como ousa tratar a vossa diretora de tal maneira? Duas semanas de suspensão, mocinho!
– Isso significa que eu venho pra escola este ano agora somente por mais duas semanas?
– Está brincando com a minha cara?
– Ué, suspender não significa prolongar? Então as minhas aulas que acabariam hoje vão acabar daqui a duas semanas. Correto, meritíssima? – Na maior inocência, Do Contra levou um susto com as palavras da diretora ao ver que ela queria conversar com sua mãe. E agora? O que ele diria à ela? Que não tinha mãe? Que não tinha pai? Que não sabia nem como veio parar na Terra? E que aquele dia fosse a primeira chegada dele no mundo dos vivos?
– E-eu… não tenho mãe. Nem pai. Nem família. Muito menos alguém que me trate com amor – e saiu chorando, com as mãos no rosto, na vã tentativa de impedir que as lágrimas escorressem de seu rosto.
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