Vermelho-sangue

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Contém menções à auto-mutilação, assassinato, uso de drogas, bissexualidade e derivados.
Se qualquer um ou mais de um dos itens citados acima lhe insulta ou incomoda de alguma forma, aconselho-o/a a não ler. Caso contrário, espero que goste.

Vermelho-sangue -

Não existe bondade na humanidade. Você estava deitada na minha cama e eu respirava o seu medo. Seus pulsos marcados pela corda, sua dor transcendendo pelos seus olhos cheios de lágrimas. E eu apenas observava nos bastidores. Eu me lembro dos seus olhos cansados, do seu evidente pavor, do seu suplicar, seus ofegos. Lembro da textura da sua pele, e do gosto que ela tinha quando toquei-a com meus lábios sedentos pelo líquido que circulava ainda quente por dentro de suas veias. Eu me lembro da lâmina, mas disso você também deve se lembrar. Ela foi encontrada no seu banheiro, depois daquele episódio tristonho envolvendo sangue-lâminas-banheira-ambulâncias. Seus pais ficaram aflitos, mas eu sabia que você não iria até o fim. Você tinha bondade nos olhos e pior: Você amava. Você amava seus pais, por isso não enfiou a lâmina mais fundo. Amava sua irmãzinha, amava a garota da casa ao lado e amava quando saiam juntas. Eu sabia que você amava, a todos eles. E o seu pior erro era esse.

Eu me lembro de quando você voltou do hospital. Estava cansada. E eu me lembro das suas roupas largas. Eu sempre me lembraria do dia seguinte — ah sim, ele sempre vem — em que você cortou todas elas e jogou pela janela. Os seus pais acreditavam na sua recuperação, mas eu não. Você pegou a lâmina mais uma vez, e a usou mais uma vez. Eles tentaram a esconder de você, mas suas mãos ainda alcançavam facas, tesouras, giletes. Arrancou seu sangue inocente tantas vezes que no final acabou não sentindo quando isso realmente aconteceu. Você não o apreciava, o desperdiçava apenas. Deixava-o escorrer ralo abaixo numa mistura de água e shampoo de marca, e o estancava com ataduras apertadas que a faziam gemer durante toda a noite.

Eu estava lá quando você entrou pela janela em uma noite fria, vestida como uma prostituta, degustando de seu glamour decadente e eu me lembro de fechá-la para você. E você deitou na cama, e morreu durante doze horas, mergulhada em seu sono perturbado envolta às cobertas caras e roupas sujas. Você nunca entenderia os seus erros, então nunca poderia concertá-los. Não que você procurasse fazê-lo, é claro. Mas agora o portador da lâmina era eu. E eu não via uma garota problemática, via uma garota inocente que se envolveu com problemas. Você só estava no lugar errado e na hora errada. Você não tinha razões. Mas isso tudo, é claro, é uma grande mentira.

Não existe amor na humanidade. Só existe uma carência contida, um sentimento de querer o bem. Você quer retribuir a todos eles o carinho que lhes deram, mas eles nunca lhe deram carinho nenhum. Estávamos todos machucados, mas todos sempre saem machucados no final. E então qual é a diferença entre tomar dois comprimidos uma noite e sete, na outra? Eles surtiram o mesmo efeito, e você notou isso. Até eu notei, e eu nem estava ali. Você entrou no banheiro três vezes, em uma hora. E então você caminhou até o box, abriu o chuveiro e deixou a água escorrer. Você não pegou sua lâmina. Caminhou até o armário de remédios, e quebrou um vidro. Você não tentou recolhe-los. Você voltou para sua cama, e em intervalos médios de vinte minutos refez sua rota. Você recolheu seus comprimidos, você limpou os seus rastros. Tomou um banho, deixou com que a água levasse suas tristezas. Não precisava esconder nada de ninguém, você nunca faria algo de errado o suficiente para que precisassem persegui-la. Se morresse no dia seguinte iriam encontrar um número suficiente de pílulas estocadas em seu estômago para que precisassem vasculhar seu armário. E você voltou para cama, e no dia seguinte recebeu flores.

Eu tinha um cigarro e de repente, você também tinha. E eu sabia que você estava triste pelas cinzas que caiam da sua janela. E eu vi quando você guardou o seu diário sob a terceira tábua solta, atrás de uma pintura de flores. Ela se abriria ao terceiro toque., e eu desejei poder ler todas as coisas que você escrevia nele. Eu descobri o seu nome e estive na sua porta duas vezes. E conheci todos os seus namorados e namoradas que oscilaram entre novembro e março daqueles anos. Eles estavam no seu quarto, na sua janela, no seu jardim, na porta da sua casa. Estavam no playground da esquina, na farmácia do próximo quarteirão, na locadora na rua de cima e também estavam na pizzaria, a três quadras dali. Eles andavam nas ruas e te distribuíam socos, em vez de chocolates ou flores. E quando você chegou machucada eu lhe dei analgésicos, eu curei sua doença. Você nunca soube, e nunca me agradeceu. Eu lhe alimentei, mesmo quando você recusava a comida. E eu lhe salvei duas vezes, quando esta atitude lhe fez cair no meio da tarde. Eu conhecia todos os seus segredos, cada único e doentio segredo. Eu queria estar ali, atravessar aquelas paredes creme e aquelas cortinas vermelho-sangue, tal como o seu deveria ser. Se eu não te conhecesse tão bem, provavelmente diria isso.

As estações mudaram e tudo continuou igual. As folhas caíram quando você cortou seu cabelo, e com a neve, vieram as lágrimas. Na primavera, você desaposentou as sapatilhas, e no verão as lâminas. Em meados do próximo outono, seus pais lhe deram um novo espelho. Ele era grande e cobria metade da parede. Refletia seus medos e suas angústias, por isso você tentou despregá-lo duas vezes. Mas mesmo assim você sempre tornava a frente dele, e apreciava as mudanças no seu corpo, os seus ossos, o seu vazio.

Eu estava ali quando você teve sua sexta overdose. E quando a empregada entrou, com um copo de algum líquido fermentado que você jogaria pela janela, e te encontrou sem pulso. Eu estava ali quando você voltou da clínica, com suas mentiras disfarçadas de promessas, que você vomitou tão rápido quanto os waffles que ingeriu naquela noite. Estava ali quando você olhou as estrelas, e as amou. Vi quando você chorou por elas, e as pegou para si. Eu lhe dei uma estrela uma vez, a mais brilhante. Eu lhe dei o céu, o amanhecer e a madrugada, mas você nunca soube.

E quando nós finalmente nos conhecemos, eu portava a lâmina, e você era a garota indefesa. Você podia gritar, mas preferia ficar calada. Você tinha escolhas. E dentre todas, escolheu a dor. Você escolheu continuar comigo, mesmo sabendo que poderia lhe machucar. Você escolheu viver a se entregar para uma morte rápida e limpa. Você nunca teria coragem. E você não me conhecia, mas você me amou. Amou minhas mãos sujas e o meu coração gelado. Amou, mesmo eu portando o objeto que atravessaria o seu peito e derramaria o seu sangue. Você me amou mesmo eu sendo o assassino frio e cru. Você me amou mesmo antes de descobrir que eu lhe conhecia melhor que você mesma, mesmo antes de saber que eu cuidava de você, e zelava pela sua vida, mesmo gostando de assistir a sua queda. Por que eu sabia que enquanto vivesse, você sempre precisaria de mim. E eu te amei, naquele momento e muito antes.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.