Vermelho cor de Sangue

3 Capítulo 2 - As sombras que se escondem na madrugada


Notas iniciais
Oi! Novamente usando da ferramenta de postagem antecipada para não atrasar. Espero que estejam gostando, eu não sei como está sendo a recepção e estou bem nervosa... bem, é isso. Boa leitura!

Pessoas morreram por sua culpa.

39 soldados morreram, dezenas ficaram feridos; a culpa era sua, toda sua. Os dados mostrados na parede do palácio é tudo que sabe e, por mais que não seja tudo que precise saber, se contenta com o mínimo. Os rostos parecem menos dolorosos quando desconhecidos, por mais que isso não anule a decepção.

Quando o Rei perguntou quem tinha sido responsável pela tragédia, seu olhar de desespero o denunciou, automaticamente, seus músculos enrijeceram e sua voz trancou. Talvez, alguém tivesse reparado como tentava abrir as mãos e se livrar da prisão estabelecida pelo mais velho, mas se fez, nada falou. Fracassou em sua missão, duas vezes. Pai e filho se olharam, príncipe e rei.

Uma luta desonesta, válido dizer.

Quando um soldado, um pouco mais velho, pôs-se a frente quase como um robô, a voz do que guardava a culpa quase o afogou. Enxergou a testa franzida do combatente que carregava a marca de um Bloqueador em seu pulso, essa brilhava tanto que deixava claro o quão recente havia sido imposta. O príncipe não dava além dos dezoito anos ao rapaz, pouco a mais que a sua própria idade. Cansado de se debater por dentro, ou de entender o que estava havendo, o falso culpado começou a gritar desesperadamente que não havia sido sua culpa.

Todos sabem o que aconteceu, todos sabem que há uma injustiça ocorrendo entre eles, mas todos permanecem calados. Seus rostos são tão impassíveis e cruéis que, por alguns instantes, o menino real se perguntou como se mantinham tão hipócrita. Novamente, tentou quebrar o bloqueio, até sentir suas memórias se apagando ― seu corpo se apagando.

Algo o segura, algo o impede de correr e se jogar na frente do batalhão, sua cabeça começa a latejar à medida que tenta lembrar as palavras necessárias para livrar daquele controle, mas tudo é tão inútil.

Pessoas morreram pelos seus erros, você deve morrer em conjunto com seus aliados e receber a chance de ter o divino perdão. As palavras do rei são falsas, agora entende. Todos confirmam, ninguém olha para o real culpado e o julga, pelo contrário, todos estão determinados a realizar as tradições. O corpo da Alteza é escoltado por soldados até uma parede que se abre e revela seu quarto ― estes o dizem que não é sua culpa, rebeldes sempre existiram, nem todos estão aptos à batalha ―, a outra criança é arrastada pelos pulsos, seus gritos não são ouvidos ou pronunciados. Porém, ele sabe que existe.

E aquela criança, quando o olha, também sabe.

E continua sabendo quando a guilhotina lhe corta o pescoço.

É claro que confrontou o pai, argumentando que aquela era uma tradição ridícula. Depois de muito tentar, simplesmente tentou gritar que era sua cabeça que deveria ser decepada, infelizmente, algo novamente o impediu. O olhar frio do rei murmurava: silêncio.

Ninguém poderia saber que o príncipe era uma falha.

Todas as confissões foram engolidas pela barreira daquele que era mais experiente, que era mais forte e que, aparentemente, o controlava feito marionete. Controlava a todos, na verdade. Os feitiços que geralmente quebravam qualquer coisa eram como gotas em meio a um incêndio, deixando claro sua posição inferior ao outro e, à medida que suas forças se esvaiam, o medo aumentava. Seu pai era forte, a pessoa mais forte do reino.

Mas seria esse pensamento definitivamente seu ou apenas mais uma criação dos outros?

Não vou permitir que saibam que meu filho caiu na ilusão de um sangue ruim. Foi o que finalizou aquela conversa, impedindo que qualquer réplica fosse solta. Foi o garoto que saiu primeiro, com passos fortes, do salão do trono. A respiração inconstante e a raiva poderiam ser vistas até mesmo nos fios completamente negros do seu cabelo. Observou a parede cinza e passou a mão levemente por ela, desejando que se abrisse. O castelo de Cyane era encantado, obedecendo a todos, como uma marionete.

Como ele.

Agora, nada o pertencia ― sua voz, seus gestos, sua magia. Tudo parecia controlado, como aquela moradia. Pensou no lugar que, por diversas vezes, agia de forma rebelde, como se fosse uma pessoa, um ser. Não abria paredes, não permitia saídas, deixava o pai doente. O príncipe nunca pensou nos segredos que os cercavam, mas desde a batalha, tudo parecia irreal ― tudo parecia ter uma razão, um mistério, ser fruto de uma ilusão diferente.

Encostou novamente, nada ocorreu. A raiva era crescente. Olhou para trás, estava em um cubículo ― sem portas, sem paredes, uma prisão. De primeira, pensou ser um castigo do pai, mas quanto mais ficava naquele lugar, menos se sentia filho. Menos se sentia quem realmente era: o príncipe de Cyane.

Respirou, deitando a mão na parede e a acariciando, deixando que as palavras fluíssem de sua boca enquanto esperava que se abrissem como sempre. Não foi seu quarto que encontrou, queria que tivesse sido, mas já havia percebido que a revolta que sentia do lar estava sendo refletida no abrir e fechar. A sala ampla e cheia de artefatos reluzentes se mostrou diante de seus olhos, pensou primeiro se deveria entrar ou ficar preso no antigo cubículo. Não ignorou a desconfiança de tudo aquilo era obra de um ser sádico cujo único intuito era fazê-lo ser pego pelos guardas e receber um castigo tão cruel quanto a morte.

Parecia justo morrer depois de ter matado tantas pessoas.

Parou em frente de um espelho, absout, os escritos diziam. Algo dentro de si gritava que deveria correr, dar o seu melhor para sair daquele recinto e apagar as memórias dos tempos anteriores, algo dentro de si implorava para que não tocasse naquele pedaço de vidro.

A curiosidade iria mata-lo.

Viu sua imagem ser refletida no espelho, em seguida, foi a imagem de uma menina baixa que apareceu no local. Cabelo vermelho, sorriso afetuoso, olhos amarelos e brilhantes, abraçando os pais, segurando uma boneca, correndo... medo! Algo a pega pelas costas, grita, levanta os braços para impedir o primeiro ataque, atrás de tudo, é capaz de se enxergar dando comandos para sua equipe, ignora-se. A menina se vira, como se em seu último suplício, esperasse que alguém a enxergasse. Seus olhos se encontram por milésimos de segundo.

O machado a corta. Medo, sangue, dor, sofrimento. Gritos. Gritos seus e dela.

Ele fez isso.

Recuou, demonstrando cansaço perante a tantos jogos psicológicos.

― Deixe-me sair! ― gritou para quem quer que estivesse o ouvindo.

Nenhuma resposta, é claro. Que castelo seria capaz de falar? Ao invés disso, as paredes tomaram cores, imagens, lembranças. Já havia visto isso antes. Quando pequeno, ao aprontar, sua mãe tocava nas pedras encantadas e deixava que elas o mostrassem seus próprios erros, sempre denunciando seus defeitos e fazendo-o levar diversas broncas, quase como se seu sofrimento fosse uma diversão.

― Eu ordeno que me deixe sair! ― Mas quem era ele para ordenar alguma coisa? Marionete, inútil, apenas um posto para a futura coroa.

Bateu nas paredes desesperadamente, repetindo palavras que não sabia ao menos se existiam. Havia expectativa correndo em si, a de ser digno de pena, de escapar, de permanecer cego e esquecer o que viu ― de que seu pai nunca descobrisse o que viu.

As palavras do Rei se repetiam, as suas palavras se repetiam, todas se mesclavam e apenas uma oração era destacada.

Meu filho caiu na ilusão de um sangue ruim.

Foi então, de lampejo, que se voltou ao espelho, como se algo estivesse tocando em seu queixo e o encaminhando ao lugar.

Qual seu significado, afinal? As escrituras antigas eram ilegíveis ― seu pai o dizia que aprenderia quando fosse mais velho, catorze anos eram o suficiente para fazê-lo liderar uma equipe de bloqueadores, contudo o tornavam novo demais para ser dono de si.

― O que você quer me dizer? ― sussurrou, incrédulo. Tudo no castelo era mágico, tudo naquele lugar correspondia a si.

A figura feliz da garota reapareceu.

― Eu não a conheço! ― Um tom forte, quase como o de um rei.

O seu rosto assustado tomou forma.

― Eu não a conheço! ― Ainda mais forte, ainda mais sério.

E o sangue espirrou, fechou os olhos. Quando abriu, pequenas gotas vermelhas manchavam seu pulso.

Meu filho caiu na ilusão de um sangue ruim.

Seu pai estava certo, ele havia caído na ilusão de um sangue ruim.

Mas o que seria maldade, além de pura construção social?

― Absolutamente a verdade, nada além da realidade. Os bloqueios são incapazes de adentrar nesse recinto ― murmurou algo, ou alguém. ― Eu não vou machucar você ― concluiu o desconhecido ―, mesmo que eu devesse.

A voz parecia rouca, cansada. Procurou seu local de origem, mas estava só.

― O que você tanto quer me mostrar? ― pediu com uma certa falha na voz, o medo do que veria, o medo do que era a realidade. Medo de quebrar o gêmeo maligno que o prendia aquela sua existência e saber demais.

A ignorância é uma benção, tanto se repetiu. Se conhecia o ditado, por que não o acatava?

A batalha anterior foi posta diante de seus olhos. Cores se misturavam, reflexos e pessoas.

Não existia apenas os seus homens. Cabeças com cores excêntricas voavam, o vermelho se misturava com a cor rosa dos fios encantados e aos olhos de um tom azul nunca visto.

O seu peito se contraiu.

Aquela era a verdade?

Por alguns segundos, permaneceu parado observando o que era, o que fez. Sentindo o sangue de todas as vidas que indiretamente retirou correndo por suas mãos e sendo ingeridas por sua consciência, afogando-o em um líquido férrico. Antes que notasse, sua própria mão estava sangrando.

O líquido azul caiu no chão, disfarçadamente, tornando-se roxo. Uma mistura do sangue dele com o de todos que ele matou.

Não eram sombras, eram pessoas.

A escada que se abriu ao seu lado deixava claro que havia dado a hora de partir, por mais que a curiosidade o fizesse querer ficar. Não olhou de novo ao espelho, as informações que adquirira já eram o bastante para querer vomitar ― se tivesse feito, teria observado o sorriso sádico de um dos prisioneiros, aquele que repousava na última cela e que nunca teve permissão para conhecer.

As engrenagens do relógio começaram a girar.

O rapaz não pensou no luxo ou no ouro que escorria dos lugares que frequentava, ignorou também as roupas de bela costura e os privilégios de sua atual vida quando chegou ao seu quarto. Não. Desesperadamente, tudo que necessitava era retirar o casaco que o identificava como da realeza ― poderia ir para muitos cantos com aquela roupa, porém não se sentiria bem em nenhum deles ―, deixar as mãos cobrirem o rosto e pronunciar palavras que tinha aprendido da mãe na infância, época que gostava de se misturar com as crianças menos nobres e brincar um pouco. O tom completamente negro tornou uma coloração clara, opaca, sem vida, como sua mente. Os traços de seu rosto se modificaram à medida que sua força permitiu. Um feitiço de ilusão, a mãe o explicou na infância, poderá brincar em paz se conseguir manter essa imagem.

Algo o puxou por dentro, uma falta de ar, o sentimento de quem estava passando por uma tempestade, entrando dentro de um furacão. Respirou fundo, sentiu as lágrimas fluírem, eram suas ou do castelo? O que sentia era seu ou tudo não passava de uma ilusão? Pensou se conseguiria voltar as linhas de batalha novamente ― ou se, todas as vezes que tentasse, enxergaria os olhares de medo das sombras que agora se mostravam pessoas. Pessoas igual a ele.

Deixou a pulseira, o colar, deixou o castelo por mais uma das salas criadas pelo desconhecido e não pensou na razão, na emoção ou no que o incentivava a fugir. Sem pensar aonde iria ou o porquê de ir, apenas foi ― algo o dizia que deveria correr.

Quando sentiu o calor do sol, era outra pessoa.

Uma criação feita por alguém que deveria manter as coisas.

Sentia-se um idiota.

Morreria no segundo nascer sem a proteção dos outros e logo perceberiam sua ausência, certamente, não demoraria para que o procurassem em qualquer lugar ― já havia fugido antes e, na última vez, o pai ordenou que procurassem até na floresta amaldiçoada se fosse necessário. Mesmo assim, deixou que suas pernas o levassem para o lugar que precisava ir, até que as árvores ocultassem sua presença e o deixasse se questionando sobre o porquê de ter sido mandado ao lugar que tanto costumava observar nas batalhas. Ao cansar, parou por alguns segundos. Seguiu um leve caminho até um rio e olhou seu novo rosto, os traços não haviam mudado, a ilusão que havia criado era fraca e qualquer um com um pouco mais de poder poderia desconstruí-la, além disso, sua mente o alertava estava saindo de uma prisão para entrar em outra.

Por que havia fugido?

Por que confiou em algo que nunca compreendeu?

Deixou o corpo cair quando reparou que andava em círculos.

Seu pai sempre o impôs um bloqueio que o impedia de partir.

O castelo parecia ter imposto um bloqueio que o impedia de voltar.

Mas, no fim, o que ele queria fazer?

― Parado! ― Uma voz gritou, mas não era a dele ou a do desconhecido, virou-se rapidamente, preparando-se para atacar quem quer que fosse. Droga, pensou. Aquele não era o seu dia. ― Sou Kard, a partir de agora, você é um prisioneiro.

E a sua frente estava um menino, ainda sem marca, com cabelo vermelho fogo e olhos de dragão. Os dois se entreolharam por alguns segundos, o príncipe com suas mãos que emanavam poder e o outro com uma arma de cano curto. Pensou em qual reação seria a mais adequada, por fim, indagou:

― Prisioneiro?

― Da rebelião, é claro. Vou lhe repetir: sou Kard, você deve se integrar a nossa equipe ou, infelizmente...

O príncipe sorriu e, cortando a fala do rapaz, liberou uma barreira de energia que prendeu o seu inimigo contra uma árvore, fazendo com que a arma caísse no chão. Ele esperava raiva, um grupo de pessoas escondidos nas sombras prestes a lhe atacar e arrancar sua cabeça, aguardava que o menino a sua frente estivesse apenas brincando e logo demonstrasse o seu real poder, mas nada daquilo ocorreu.

Pelo contrário, Kard sorriu, animado com a demonstração que estava presenciando.

― Um feitiço desse? Cara... ― A animação pulsava em suas veias ― o que é você?! Precisa me ensinar isso, sério!

E foi sua vez de sorrir.

Não era a única criança naquele recinto, por fim.

Notas finais
Será que ficou bom? Espero que sim! Deixem nos comentários o que acham que vai acontecer, apesar de que os capítulos já foram postados e nada pode impedir o futuro,