Vermelho como Sangue
1 Capítulo Único
" Como gostaria que me deste uma menina com a pele alva como a neve, os cabelos negros como o ébano dessa janela e os lábios vermelhos como o sangue"
Aquele era o dia em que Branca completava dezoito anos, se seu pai estivesse vivo, um baile seria dado em comemoração à data, ela ganharia joias e vestidos e perfumes. Havia um baile, de fato, mas Branca não fora convidada. Ao invés de joias e vestidos, tudo o que ela tinha era o uniforme de criada, baldes e esfregões. A jovem riu amargamente, afastando uma mecha de cabelos escuros do rosto.
Em seu leito de morte, sua mãe havia lhe dito para ser sempre doce e gentil, para colocar as necessidades do povo acima de quaisquer capricho que pudesse ter. Durante alguns meses, a menina acreditara naquilo. Cinco meses depois da morte da rainha, uma nova criada chegou ao palácio, suja e assustada, refugiada das guerras que assolavam os reinos mais distantes. Não demorou para que se tornasse amiga íntima da princesa, e por meio desta, chegar ao rei.Três meses depois, uma aliança ocupava o dedo da mulher. Branca estava genuinamente feliz por isso, se alguém poderia ser uma boa rainha, esta pessoa era Eva, afinal, ela conhecia de perto as misérias da vida, e o povo merecia alguém que compreendesse suas dores. Grande engano. Eva se mostrou uma mulher egoísta e vaidosa, suas criadas – outrora suas colegas de trabalho – eram tratadas com desprezo e desdém, e esse tratamento era estendido à jovem princesa. Menos de um ano depois, o rei foi encontrado morto. Envenenado. A rainha chorou, trancando-se no quarto durante dias, mas Branca sabia que ela matara seu pai. Confirmando suas suspeitas, o reino outrora alegre e pacífico, mergulhou em um reinado sombrio e tirânico. Os empregos insuficientes e os altos impostos levaram à fome, à fome às rebeliões. Execuções, e Branca assistia, impotente, enquanto a rainha manchava de escarlate o chão branco do salão. Aquele era seu povo, não o dela. Ela não tinha o direito de trata-los assim!
Algo se quebrou dentro dela, algo que a levou a enfrentar a rainha.
“ Este é meu reino, governarei como achar adequado. E você, menininha intrometida... vai aprender uma lição” – Foram as palavras da mulher. Naquela mesma semana, a pobre princesa foi declarada morta, o reino entrou em luto, toda a esperança de que algum dia a bondade voltasse a se sentar no trono se esvaiu, assim como as rebeliões cessaram, infundadas. O reino não tinha herdeiros, nenhuma saída, nenhuma esperança. E Branca também não. As únicas pessoas que sabiam a verdade, eram uma ou duas criadas, as quais a rainha mandou cortar as línguas, para que jamais pudessem relatar os horrores que presenciaram.
Havia uma escuridão em Branca, sempre houvera, mas se tornava maior a cada ano em que vivia escondida, escrava da mulher que um dia amara como uma mãe. Não mais a temia, ao invés disso, a alimentava. Era o que a mantinha viva, não a esperança, não a lembrança da gentileza e a bondade da falecida rainha, mas a perspectiva de que aquilo teria um fim, de que ela se vingaria.
– A rainha a convocou imediatamente aos aposentos reais, dispensou as criadas, deseja que seja você a apronta-la para o baile desta noite. — O grito da governanta a tirou de seu devaneio.
Queria humilha-la ainda mais, vangloriar-se de sua vitória e de suas conquistas, de tudo o que tinha. Tudo o que por direito era de Branca, mas que ela tomara à força, assim como tudo o que tinha. A moça caminhava de cabeça baixa, ninguém sequer olhou duas vezes enquanto ela se dirigia aos aposentos reais.
[...]
Um vislumbre no espelho, foi o que bastou para que Branca compreendesse o motivo pelo qual fora convocada. Ela finalmente o fizera, então. Ela tinha algo que a rainha não tinha, algo que ela não poderia tomar. A beleza. Eva poderia ser comparada à uma deusa de cabelos dourados, mas um vislumbre do próprio rosto no espelho bastou para que ela soubesse que sua beleza, na flor da juventude, e aos olhos da rainha, era ainda maior. Ela se lembrou das moças, criadas, nobres, mães de família, que a rainha matara por vaidade. Sua vez finalmente chegara.
Ninguém reparou quando ela escondeu entre as dobras do avental um facão de cozinha. Ou talvez... — um pensamento se formou na mente da jovem – eles o tenham deixado ali intencionalmente. Um sorriso se formou nos lábios vermelhos dela, vermelhos como o sangue que manchou o peito da rainha quando ela enterrou ali a lâmina surrupiada. Ela ainda ria enquanto caminhava até o salão do trono. Reivindicaria o que era seu por direito, e então... eles sentiriam saudades da rainha Eva.
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