Vermelho Como O Sangue
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Me baseei um pouco na letra da música "L'il Red Riding Hood". E na imagem da capa, que, a propósito, é do deviantArt.
Esta não é uma história sobre princesas ou finais felizes. Contos de fadas... Talvez você não saiba de tudo. Não conheça a verdade, ou simplesmente a ignore. Mas, aqui estou, para vos mostrar meu humilde ponto de vista. Quem sou? Talvez descubra, talvez não. Talvez eu conte, em algum momento, mas por enquanto, veja-me como Senhor G. Vamos às histórias?
Tudo começou em um dia ensolarado... Não, não é essa a nossa história. Era um dia chuvoso. Naquela época, as casas eram feitas de madeira, não havia energia elétrica e os trovões eram rugidos dos deuses...
Elspeth encontrava-se encolhida ao redor de si mesma, as mãos nos ouvidos, em busca de não ouvir os terríveis sons. Não, não era a chuva, embora esta ainda desse um ar sinistro ao momento. Eram gritos, sons terríveis de objetos caindo em uma luta de vida ou morte que acontecia embaixo da menina... Ela estava no sótão, um lugar secreto para qual ia em momentos de medo ou tristeza. Agora, era questão de sobrevivência. Isso era o que a mãe iria querer, que ela sobrevivesse. Ainda podia ouvir os ecos de sua voz, mandando-a fugir, esconder-se. Apertou mais forte os ouvidos quando os sons se tornaram mais altos, lágrimas escorrendo por seu rosto na medida em que os gritos aumentavam. Não pôde conter um soluço, embora tentou abafá-lo. Acabou adormecendo — algo que seria considerado impossível dado o momento, mas, afinal, era uma criança -, e acordou tempo depois com um minúsculo raio de sol que entrava por um buraco no teto, iluminando se olho esquerdo. Levou a mão aos olhos, para tampar a luz. Esticou-se, estava toda dolorida, e aos poucos as memórias foram retornando. Não conseguiu chorar, fizera isso por toda a noite, era como se suas lágrimas houvessem secado, e seu coração, endurecido. Tudo isso em apenas uma noite de puro terror.
Saiu do sótão, descendo, com alguma desconfiança e medo. Mas, no fim, havia acabado. Ou seria apenas o início? Respirou fundo, apertando bem os olhos, como se tentasse se preparar para a cena que veria a seguir. Doze anos... Era muito jovem, mas não muito que não entendesse o que se havia passado. Desceu os degraus da humilde casa, que rangiam, olhando para os próprios pés como se temesse tropeçar a qualquer momento. Ou como se não suportasse a visão em sua frente. Quando levantou a cabeça para observar a salinha de sua casa, levou a mão à boca, os olhos marejados. Tudo estava no mais perfeito caos. Cadeiras quebradas, os poucos enfeites, espatifados no chão. Tudo o que aquela família lutara tanto por conseguir estava acabado... E inclusive a própria família, exceto por ela.
O primeiro corpo que encontrou foi do pai. Era grande e forte, e ela sempre o vira como um herói. Um humilde lenhador, que para a filha, poderia realizar qualquer feito do mundo... Mas não pudera, e talvez fosse isso que mais a ferisse. Seu corpo estava esparramado no chão, com vários golpes de machado, o próprio machado que usava para cortar as árvores. Não via mais o pai ali, apenas uma poça de sangue e um cadáver brutalizado. Quem faria tamanha crueldade? Aproximou-se do pai, que não parecia mais com ele, dando um beijo em sua testa enquanto lágrimas escorriam. O sangue já secara, grande parte. Pegou, nas mãos do homem, um pequeno machado com o qual ele tentara se defender. E defender a esposa... A família...
Foi a próxima que ela encontrou. A mãe. Já não pôde conter, e seus soluços ecoavam pela casinha destruída. Os cabelos que um dia foram louros, da mulher, estavam agora ensopados de sangue. Provavelmente, batera a cabeça, mas não fora isso que causara sua morte. Cortaram-lhe a garganta, com tal violência, que a cabeça pendia frouxa. O estômago da garotinha embrulhou, e ela afastou-se para vomitar num canto. O gosto ruim da boca não provinha apenas do vômito, mas também da cena que acabara de ver. Respirou fundo, como se tentasse conter tudo o que estava para vir. Se pudesse, deitaria ali, junto aos pais, e não levantaria mais... Morreria com eles, como devia ter acontecido. Passou a mão pelo rosto para secar as lágrimas, e enquanto caminhava pela casa, como para se despedir, viu. Intacto, como se fosse um item mágico, em cima de uma poltrona. A mãe vinha tecendo-o para o inverno, e parecia finalmente estar pronto. Elspeth caminhou até o capuz vermelho, passando as mãos pelo tecido macio... Vermelho como o sangue. Colocou-o por sobre as roupas velhas que trajava, como se com aquele objeto estivesse segura, invunerável. Como se a mãe estivesse ali, dizendo-a o quanto ficara bonito, com a voz suave e o sorriso doce. A garota cerrou os olhos por um momento, sentindo-se como se fosse explodir. Raiva, mágoa, rancor... Já não havia espaço para a tristeza. Na verdade, toda ela transformara-se em ódio contra quem fizera aquilo. E ela sabia. A lembrança vinha aos poucos, algo que não prestara atenção, mas agora surgia nitidamente.
O inverno estava começando, e o pai estava com dívidas. Seu trabalho como lenhador não era suficiente para sustentá-los, mesmo que Elspeth fosse filha única. Ela lembrava-se do homem que surgira, cobrando, ameaçando. O pai comprara dele, dias atrás, um cervo para alimentá-los. Ficara devendo. E apenas por isso, morrera.
Elspeth já não podia conter-se. Apertou com força o cabo do pequeno machado, e rumou com passos firmes para fora da casinha. Olhou uma última vez para aquele que um dia fora seu lar: Agora, era órfã. Por culpa dele. Caçador. Agora, ele seria sua presa. De algum modo. A verdade era que a garota estava perdida, não sabia o que fazer, para onde ir. E a única âncora que podia segurá-la era o desejo de vingança. Ela lembrava-se bem dele, um homem bruto, cruel. Matava por gosto, por prazer, como fizera com os pais, e isso ela não podia suportar.
Enquanto caminhava, sem saber ao certo seu rumo, deu por si vendo dois caminhos. Duas estradas que se dividiam. Uma delas, levava a cidade, e a outra, ao bosque. Sua avó vivia na cidade, e se Elspeth fosse até lá, talvez ficasse segura. Mas o caçador passava grande parte do tempo no bosque, e ela poderia facilmente encontrá-lo ali... Respirou fundo, tentando decidir entre vingança e segurança. Se fosse correndo para os braços da avó, estaria perdida. Em si mesma. Não conseguiria conviver com isso, com o homem que matara sua família livre, solto. Mas se fosse pelo bosque, também estaria perdida, mas fisicamente. Ele era forte, bruto, e ela, apenas uma garotinha perto dos treze anos. Mesmo assim, não podia deixar o medo fazê-la desistir. E por isso, escolheu o bosque.
Caminhou pela trilha quase desfeita, o estômago roncando por não ter ingerido nenhum alimento. Não que fizesse falta, não poderia colocar nada na boca depois do que vira. Algum tempo caminhando na trilha, já sem esperanças de encontrar o carrasco de sua família, ouviu um som. Seria ele? Precisava investigar, e, desse modo, seguiu-o para dentro do bosque. Sem a trilha, perderia-se, mas não se importava. Precisava de algo para seguir, nem que fosse um alarme falso. Mesmo fazendo sol, o bosque era escuro, por causa das árvores que fechavam-se no topo. Mas ela não estava com medo, não tinha nada a perder. A vida? Já não lhe valia de nada.
- Saia daí! — Ela gritou para nada em especial, apenas sentia-se frustrada de tê-lo perdido, o que quer que fosse. Apertou o machado com força — Vamos, tem medo? Saia!
Por algum momento, sentiu-se cansada. Perseguira algo até ali, para não encontrar nada. Talvez fosse um coelho? Um cervo? Sentou-se na relva úmida pelo orvalho, os braços ao redor dos joelhos. Queria pensar que não desistira, não tão rápido, mas era difícil. Estava cansada e com fome, e até agora, suas buscas tinham dado em nada. E se o encontrasse? O que faria? Fraca como estava, não conseguiria nem aproximar-se do caçador. Suspirou, sentindo-se tonta. Até ouvir um som vindo de trás de si. Virou-se imediatamente, o machado em mãos, pronta para atacar o que quer que fosse — mesmo que mal conseguisse levantar o braço -, e o que avistou deixou-a um pouco surpresa. Um jovem rapaz, que olhava-a com um sorriso de escárnio, mesmo que ele próprio apenas trajasse uma calça suja rasgada na barra. Seu corpo coberto por cicatrizes estava a mostra, os cabelos negros bagunçados, perto dos ombros, pareciam uma juba leonina, que não viam um pente há anos. Os olhos eram negros como piche, e fitavam-na com um brilho malicioso e ao mesmo tempo, debochado.
- Garotinhas como você não deveriam andar sozinhas pela floresta — Ele disse, enquanto rodeava-a. Elspeth seguia-o com os olhos, afastando-se cada vez que o rapaz ameaçava aproximar-se. — Lobos maus adoram garotinhas... Assim como você.
- Não existem lobos maus. E me deixe sozinha, eu preciso ir. — Ela disse, afastando-se, embora prestasse muita atenção para o caso de estar sendo seguida, ou pior. Não confiava nem um pouco nele, principalmente pelo fato de que era um rapaz quase nu em meio a floresta. "Lobo em pele de cordeiro", como sempre dizia-lhe a mãe. Claro que era apenas no sentido figurativo, já que não existiam lobos naquela floresta.
Elspeth continuava a caminhar, esperando apenas afastar-se do sujeito, quando, novamente, viu-o ao seu lado.
- Dá para me deixar em paz? — Falou, ainda com medo do que ele poderia fazer. Afinal, ninguém é confiável. Não depois do que houve com a família.
O rapaz deu um meio sorriso sacana, ficando de frente para ela e caminhando de costas.
- Fiquei curioso agora... O que uma garotinha faz na floresta? E esse machado, por acaso foi buscar lenha e se perdeu? — Debochou, visto que uma garota magra como aquela não poderia nem ao menos saber manusear um machado. A garota o ignorou, passando por ele e andando mais rápido. Segurava-se para não usar aquele machado nele — mesmo que nunca houvesse matado alguém — mas ao mesmo tempo estava fraca, e seus passos tornavam-se cada vez mais lentos e arrastados.
- Ei, espera, acho que você não está muito bem — O rapaz tornou a falar, mas agora parecia um pouco preocupado. Talvez fosse só os ouvidos da garota, que não funcionavam bem. Ela não parou, caminhava, cada vez se esforçando mais. O rapaz finalmente parou, observando a garota quase arrastar-se para longe dali. Estava pálida, as mãos fracas apertavam-se ao redor do machado. Ele ficou observando por algum tempo, até perceber que as pernas finas da garota pareciam quase ceder.
Elspeth sentia sua visão nublar, tudo ao seu redor começava a girar. O estômago estava embrulhado, embora fosse impossível colocar algo para fora — afinal, não tinha nada em seu estômago -, mesmo assim, ela precisava continuar. Não havia ninguém por ela, se morresse ali, não investigariam sua morte. Eram uma família pobre, não importavam para o Reino. E eles não estariam nem aí que um caçador qualquer os tinha matado, afinal, seria alguns miseráveis a menos. E Elspeth não conseguia aceitar isso, era tão injusto. Ninguém olhava por ela... Estava sozinha...
Sua visão nublava, e aos poucos ela começava a enxergar, em sua frente, seu pai e sua mãe. Brilhavam, como anjos, mas possuíam olhares tristes. Aos poucos, sua visão começou a mudar, e ela via apenas os dois cadáveres. O pai, totalmente brutalizado, a mãe, desonrada com a cabeça pendida para o lado, como se a qualquer momento fosse cair.
E foi isso o que ela fez, caiu. Não a mãe, ela mesma... Não suportava mais, e decidiu ceder, por fim. Morreria, comida por corvos, abutres, ou quaisquer animal selvagem que passava fome no inverno. Ao menos sua carcaça serviria de algo. Viu o chão aproximar-se em câmera lenta, como uma redenção. Estaria livre, por fim. Mas, por algum motivo, parou. Já não caía.
Sentiu o corpo ser aparado por braços fortes, que seguravam-na como um monte de palha. Não resistiu, não esboçou reação alguma. O machado em sua mão caiu, produzindo um barulho extremamente alto para seus ouvidos. E ela entregou-se a inconsciência.
Sonhou. Sonhos estranhos, confusos, devaneios. Pesadelos. Via sangue, seus pais, o caçador. Este, sempre com um olhar malicioso e um gigante machado em punho, vindo em sua direção, segurando em uma mão os cadáveres dos seus pais como se fossem caças — animais -. Acordou suando, abrindo lentamente os olhos para uma luz que não era bem vinda. Estava em uma cama improvisada, feita de palha e lã. Havia uma lareira de onde provinha toda a luz, era noite. Estava em uma espécie de cabana, e levantou-se da cama, pisando descalça no chão frio. A cabana possuía apenas um cômodo, com uma mesinha de madeira redonda que parecia não ser usada a séculos, sem cadeiras. A lareira, que queimava, e algumas prateleiras com objetos necessários. Nada mais. Nada pessoal, que revelasse a personalidade de quem vivia ali, nada que demonstrasse que aquilo era um "lar". Calçou suas botinhas velhas de couro, que ganhara já a algum tempo, e caminhou por algum momento pela cabana. Percebeu, em cima da mesa, um jarro de barro com água, e agarrou-o com ambas as mãos sem perceber o copo ao lado. Bebeu sofregamente, como se não visse água há séculos, mal se importando com a água que escorria, encharcando suas vestes. Depositou a jarra de volta no lugar, ao terminar de beber, e só então percebeu sua outra necessidade: Estava faminta. Notou um ótimo cheiro, e descobriu, próximo a lareira, um faisão inteiro assado. Pegou-o com ambas as mãos, sem se importar com garfos e facas, muito menos com temperos, e comeu a ave como um animal selvagem. Estava ótima, talvez pelo fato de a garota estar faminta, e quando sobrou apenas os ossos ela sentou-se perto da lareira, satisfeita.
E, agora sem mais fome, Elspeth se pôs a pensar. Não fazia ideia de onde estava, muito menos de como chegara ali. Alguém morava no lugar, isso era certo, ou não teriam deixado a lareira acesa e a comida e água. Mas, quem quer que fosse, não estava mais ali. Elspeth deitou-se no chão duro em frente a lareira, agradecida pelo calor que as chamas proporcionavam. Estava cansada, mesmo depois de ter dormido tanto. Os pesadelos tão vívidos haviam sugado completamente suas energias, mas ela não queria dormir e voltar a sonhar. Mas com o calor e a segurança, não pôde impedir seus olhos de fecharem, e o sono de vir, aos poucos.
Acordou no dia seguinte na cama, coberta por um manto de pele. Desorientada, por um momento teve dúvida se tudo fora apenas um sonho, mas as dúvidas se foram quando se viu na mesma cabana. A lareira estava apagada, e a luz do sol entrava pela única janela. Mas o que mais a assustou foi o rapaz sentado na mesa, olhando-a como quem observa um animal exótico.
- Onde estou? Quem é você? Por que me sequestrou? — Elspeth perguntou rapidamente, sem poder conter-se, visto que estava nervosa. Costumava falar demais quando nervosa.
O rapaz riu baixo, pulando da mesa ao chão e esticando-se como um gato. Era difícil imaginar que não usava roupas — com exceção da calça, que parecia estar mais suja e rasgada que no dia anterior -, pois fazia frio. Provavelmente, algum eremita maluco, quem sabe? E isso apenas a apavorava mais, afinal, ainda era apenas uma garotinha, sozinha.
- Não sequestrei você, salvei-a — Ele disse, finalmente, depois de alguns minutos de silêncio. — Me chamo Daleig, e você? Ainda estou curioso sobre o que fazia naquela floresta, sozinha, com cara de quem queria matar alguém...
Elspeth levantou-se, calçando as botas e cobrindo-se com o capuz vermelho. Viu seu machado em cima da mesa, que encontrava-se atrás do rapaz, e ficou um pouco apreensiva de pegá-lo. Ao ver a dúvida da menina, Daleig riu novamente. Pegou o machado pela lâmina e estendeu a ela, que pegou-o, tentando manter-se o mais longe possível do estranho.
- Não dirá seu nome, estou certo? Pois bem, chamarei-a de... — Daleig coçou o queixo, enquanto analisava a garota com uma expressão pensativa. Fez uma careta e levantou o indicador, como se tivesse uma ideia — Chapeuzinho Vermelho. O que está olhando, não é criativo o suficiente? Ah, vamos, se abra... Não disse mais de duas palavras desde que salvei-a.
Ela queria inorá-lo novamente, como fazia sempre quando não queria responder algo ou dizer algo, ou mesmo discutir. Mas não poderia deixar a confusão em que estava, afinal, ele não a tinha salvo! Talvez tivesse, mas ela não pedira por isso. Na verdade, estava pronta para morrer, e ele lhe tirara essa oportunidade.
- Estou indo, Dale alguma-coisa. Não me siga, já estou desconfiada de que és um tarado ou maníaco... — Ela murmurou como para si mesma, e saiu pela única porta, aliviada pelo ar fresco e espaço. Já não suportava ficar perto daquele rapaz, ele lhe dava arrepios. Mas, precisava admitir, a tinha salvo. Mesmo que ela não houvesse pedido por isso... E se fosse tarado ou maníaco, já teria feito mal a ela, certo? Mesmo assim, não queria companhia em sua viagem, e parecia perceber que ele não lhe deixaria tão cedo. Também, alguém que vivia sozinho assim, devia precisar loucamente de companhia.
Suspirou, enquanto caminhava para dentro do bosque, sentindo-se bem melhor. Não podia deixar de se sentir culpada, pois fora ele que a ajudara, e ela simplesmente saíra sem nem mesmo agradecer. Entretanto, não poderia deixar coisas fúteis como essa abalar seu caminho, afinal, aquilo poderia muito bem ter sido um sinal para que ela continuasse.
Não passou-se nem mesmo um momento para a garota perceber que estava sendo seguida. Bufou, impaciente, e gritou para o nada:
- Apareça, Dale alguma-coisa! Eu sei que é você, e disse para não me seguir.
Passou-se alguns segundos, e nada. O som de passos parara. Ela teve certeza de que era ele, apenas estava brincando consigo. Por isso, simplesmente ignorou, e continuou o caminho, sem saber ao certo para onde ia. Afinal, onde um caçador fica durante o dia? Ele podia nem mesmo estar ali, poderia ter ido a cidade para vender a caça do dia anterior, se é que caçara algo. Percebeu, então, ao olhar para o chão, pegadas. Vinham em sua direção e passavam por ela, e nem havia as notado antes. Amaldiçoou sua falta de atenção, e abaixou-se, pensando logo em seguida que deveria ser do rapaz. Mas ele andava descalço, e aquilo eram botas, grandes, davam seus dois pés juntos e ainda faltava. O caçador. Estivera ali, e ela perdeu-o. Virou-se, novamente, para a direção da qual viera, seguindo as pegadas. Adrenalina preenchia suas veias, agarrava o machado com ambas as mãos, sem muita habilidade. Estava agitada, pensando se aquilo era mesmo uma boa ideia, mas não podia mais voltar atrás. Ouviu, novamente, o mesmo som de passos, e pensou que era o rapaz que zombava de si. Ignorou, e estava entretida seguindo as pegadas quando alguém a pegou por trás, tampado sua boca com mãos grandes e calejadas. Seu coração batia forte contra seu peito, como se fosse explodir. O cheiro de sangue apenas dizia-lhe uma coisa... Era ele, o caçador, e a havia pego antes. Como fora burra! Era apenas uma criança. O machado em sua mão caiu quando o caçador a ergueu, colocando-a sobre o ombro como um saco de feno. Já não segurava sua boca.
- Me solta! O que quer comigo? Me deixe ir! — Ela gritou, se debatendo e esperneando em suas costas. O caçador grunhiu, pegando a garota sem nenhum cuidado e colocando em sua frente, segurando-a pelos dois braços e mantendo-a suspensa no ar.
- Fica quieta, garota. Não pensei que encontraria uma isca tão fácil assim — Ele sorriu, revelando dentes amarelos e podres. Possuía uma barba áspera, cabelos meio compridos e uma imensa cicatriz no rosto, que deixava-o ainda mais assustador. Ela não disse nada, mas não podia desviar os olhos daquela marca. O que teria feito aquilo? Ele percebeu o olhar dela, e voltou a colocá-la por cima dos ombros, segurando por suas pernas. — Ele fez isso. Estou tentando pegá-lo há quase um ano... Mas percebi que uma isca humana seria melhor, afinal, os animais estão escassos nessa época do ano. E ele parece preferir carne humana...
Riu, uma risada rouca e gutural, e continuou andando sem dizer mais nada. Elspeth já desistira de se debater, e agora apenas pensava como seria seu verdadeiro fim. O mesmo dos pais, talvez. Pediu desculpas mentalmente pela besteira que fizera, quando poderia ter ido até a casa da avó, onde teria uma vida pobre, mas uma vida. Agora, sua sentença de morte estava assinada. Ela apenas não conseguia saber sobre o que o caçador falava. Quem ele estava tentando pegar? E, o que ela poderia imaginar, era quem seria a isca humana. Ela.
Foi carregada por algum tempo, até ver que se aproximavam de uma clareira. No centro, como se esperando por ela, estava uma árvore com um tronco grosso. Elspeth notou, embaixo da árvore, sangue seco. Inconscientemente, começou a tremer. Pensava que faria parte de algum tipo de ritual satânico, mas seu destino seria muito pior...
Quando o caçador a colocou sobre a árvore, para amarrá-la com uma corda, Elspeth aproveitou o momento para tentar fugir. Passou facilmente por ele, afinal, seu tamanho ajudava. Mas quando estava próximo do bosque, ele alcançou-a e puxou pelos pés, fazendo a garota cair com o rosto em direção ao chão. Elspeth mordeu a língua, rachou os lábios quando ele arrastou-a como a um saco velho, e provavelmente quebrara algum dente. A dor no rosto e na boca era insuportável, e o gosto de sangue era pior ainda. Mas não se deu ao luxo de derramar lágrimas, mesmo que estas teimassem em sair. Dessa vez, não demonstrou resistência. Ele amarrou seus pés e mãos, e encostou-a no tronco da árvore, afastando-se como se para admirar seu trabalho.
- Ele conseguiu, sem que eu visse, matar todas as outras iscas e fugir. Mas dessa vez vou pegá-lo — E olhou para cima da árvore, onde uma armadilha estava montada. O caçador não era dos mais espertos, por isso a armadilha não ficara grande coisa, mas talvez conseguisse pegar o monstro enquanto devorava a garotinha. Ele sorriu com a imagem, amarrando um pedaço de pano velho na boca da menina, fazendo-a gemer pela dor nos lábios e algumas lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Em seguida, escalou a árvore, para fazer os últimos ajustes na armadilha. Assim que o monstro pegasse a garota, uma rede feita de cordas cairia, dando ao caçador tempo o bastante para matá-lo de uma vez. A recompensa já girava em sua mente, afinal, aquele monstro matara gado, ovelhas e pessoas, e era muito caçado.
O caçador afastou-se, escondendo-se ali perto. Seria a segunda noite de lua cheia, não tão boa como a primeira, mas dava para o gasto. Por algum motivo, o "monstro" aparecia mais em noites de lua cheia, como se a fome aumentasse. O caçador estivera há algum tempo caçando-o, sabia algumas coisas. E o que descobrira recentemente fora o fato de que ele preferia carne humana...
Elspeth debatia-se, em vão. Não conseguiria soltar-se dali sozinha. Depois de tanto procurar o caçador, finalmente o havia encontrado. E morreria pelas mãos dele, assim como seus pais haviam morrido. A dor nos lábios já não era nada em comparação a dor que sentia em si. Não era algo físico, o que tornava tudo pior. O que quer que o caçador estivesse procurando, era pior que ela imaginava.
Já começava a anoitecer, e a lua aos poucos saía do meio das nuvens negras e aparecia, brilhante. A clareira era perfeitamente iluminada por ela, e Elspeth também. A garota encontrava-se em um estado de semi inconsciência, quase febril. Alucinações, sonhos acordados e suores frios... Já não tinha mais tempo para pensar em como morreria, ou pelo quê. Apenas morreria.
Pouco tempo depois, e ouviu o som de passos. Não sabia se era real ou alucinação, e abriu os olhos, vendo apenas escuridão. A lua entrara, novamente, atrás das nuvens negras de tempestade. Ela podia jurar que vira olhos vermelhos em meio às sombras, mas não estava em sã consciência, e aquilo poderia ser muito bem outra alucinação. Com uma sensação de pânico, sentiu que algo aproximava-se. Queria gritar, mas o pano não deixava, e produzia apenas alguns sons de gemidos. Por um momento, estava completamente acordada.
- Shh - Ela ouviu, com algum espanto, bem próximo dela. Alguém colocara a mão sobre seu rosto, e estava removendo o pano que tampava-lhe a boca. — Quando eu disser, siga aquela direção - Virou seu rosto para a esquerda, e completou: — É a cidade. Não volte mais aqui.
A lua brilhou por um momento, revelando Daleig, completamente nu. Mas Elspeth não percebeu isso, estava mais apavorada que tudo. Ele entregou em sua mão o machado, e fitou-a por um momento. Subitamente, curvou-se, apertando seu estômago. Algo parecia lhe estar acontecendo.
- Vá! — Gritou, em um tom de dor, e Elspeth prontamente o obedeceu, notando a urgência. Enquanto corria, sentindo o vento frio bater em seu rosto ferido, ouviu sons de lutas. Apertou os olhos, impedindo-se de chorar, afinal, não era mais uma criança. Estava escuro, e ela tentava, com alguma dificuldade, manter a rota. Mas parou de repente. Não queria ir até a cidade, não depois de tudo o que testemunhara. Sabia que apenas iria ser explorada pelo Reino, como todos os pobres. Queria, acima de tudo, liberdade. A liberdade que Daleig parecia ter... Respirou fundo, virando-se na direção contrária, e correndo mais rápido do que estivera antes. Parou, arfando, na clareira, o único som provindo de sua respiração descompassada. A lua brilhava, e ela não demorou a ver um corpo. Foi até ele, e sentiu grande alívio ao ver o caçador, mesmo que ele estivesse em péssimas condições. Embaixo dele, uma poça de sangue. Elspeth não sentiu-se feliz, mas também não sentiu pena ou culpa. Não sentiu nada. Por um momento, viu o caçador olhar para ela, como se pedisse por ajuda, e virar a cabeça. Estava morto. E a única coisa que Elspeth sentia era alívio. Um grande alívio, mesmo não sendo ela a tê-lo feito. Na verdade, ela nem sabia se conseguiria matá-lo, e por isso era agradecida ao que quer que havia feito isso. Nesse momento, o pensamento de quem havia feito veio a sua mente. Levantou-se — estivera abaixada — e olhou ao redor, para avistar um rastro de sangue e um borrão cinzento. Caminhou, hesitante, até ele. Era apenas um animal, e parecia estar morto... Surpreendeu-se ao ver uma espécie de besta, ferido, no chão. Afastou-se, assustada. Não parecia humano, tampouco animal. Era justamente isso: Uma besta, um monstro.
Percebendo que a coisa estava imóvel, aparentemente morta — ou quase isso — aproximou-se, curiosa. Então era aquilo que o caçador buscava? Sorriu com a ironia. Só não conseguia ver onde o rapaz se encaixava em tudo aquilo. Desaparecera, simplesmente, depois de salvá-la — pela segunda vez, odiava admitir -. Aproximou-se mais da besta, virando-a, e percebeu um imenso corte na região do estômago, profundo, provavelmente feito por uma lâmina pesada e afiada. Sentou-se, os braços apoiados nos joelhos, pensando o que faria a seguir. Já não sabia para onde ir, o que fazer, estava perdida... Novamente. A lua sumia aos poucos, revelando que a manhã estava para chegar. O que Elspeth não esperava era que a fera que tinha diante de si se transformasse, lentamente, no rapaz que a ajudara. A garota surpreendeu-se tanto que mal pensou que ele era a besta que estripara o caçador, apenas debruçou-se sobre ele, observando. Estava morto? Não sabia, na verdade. Tão imóvel e frio. Passou as mãos pelos cabelos negros dele, tirando-os da face. Por algum motivo, sentiu-se triste. Não poderia jamais agradecê-lo por tudo o que fizera por ela. E fizera tanto... Se não fosse por ele, estaria morta.
- Chapeuzinho... Vermelho... — Ela ouviu-o dizer, e quase pulou para trás de susto. Sua voz estava fraca, e ele apenas deu um meio sorriso. A mão fria do rapaz buscou a dela, segurando fracamente. — Finalmente, estou livre.... A maldição... Se foi.
- Obrigada — Chapeuzinho sussurrou, vendo o sorriso no rosto do rapaz desaparecer, e a mão que segurava a sua, afrouxar.
Livre. Ela queria ser livre, assim como ele dissera. Deitou-se ao lado do rapaz, Daleig, o Lobo Mau, e fechou os olhos. Liberdade... O que era a liberdade? Ah, sim, aquela era a liberdade. Sentia-a na pele, junto ao orvalho da manhã, e aos poucos sua mente partia para outro lugar...
... Naquele dia, Chapeuzinho Vermelho partiu, cedendo para as mãos geladas do Inverno. Mas não estava triste: Conquistara a liberdade que tanto buscava. E ninguém sabe o que encontrou. Talvez, apenas talvez, viva agora junto ao Lobo Mau, sem limitações. Sem Reinos, miséria, opressores e oprimidos. Mas isso, apenas podemos imaginar.
Notas finais
Sei que faltaram detalhes, mas se eu fosse colocá-los, daria um livro inteiro...
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