Notas iniciais
Primeiramente, era para ter saído na quinta, mas aqui está! Segundamente, não vou me demorar porque esse capítulo é só suspense, então preparem os pulmões!

Uma cabana de pedra, clara como eram as casas na capital. Fria como nenhuma outra. Mas de pedra.

Localizada a pouco mais de alguns quilômetros da orla da praia, distanciava-se de mesmo modo do centro da vila. Remota.

Mas de pedra.

Passos descalços ecoavam contra um chão num bater seco. Seus próprios passos. O único som humano que ouvira nos últimos dias. Nem mesmo as chiadas e fracas respirações no único quarto da casinha com as quais havia se acostumado nos últimos meses ecoavam mais. Já fazia pelo menos uma semana.

Dirigiu-se a uma mesa rústica de madeira pouco trabalhada e sentou-se com alguma dificuldade sobre os bancos altos por demais. O móvel não estava em seu lugar usual, assim como nada naquela casa. Estava em um ângulo torto, muito mais perto da porta do que deveria. Um dos bancos retangulares pesados estivera próximo e pode ser empurrado para que servisse à mesa, o outro encontrava-se em algum lugar externo aos contornos daquelas paredes. Não era uma criança exatamente baixa, mas os pés ficaram suspensos, balançando no ar.

Seus ouvidos estavam acostumados ao silêncio mórbido que havia recaído sobre a casa. A mesma pequena cabana que havia enfrentado tanto desastre.

E então, houve aquele típico farfalhar da mata que envolvia a residência e anunciava a chegada de alguém. Mas não era possível.

Todos estavam mortos, não estavam?

As mãos de criança diante de sua visão, as próprias mãos de Maegan, pararam de mover-se contra a fruta semi-fresca que mais cedo recuperara dos escombros da casa mais próxima, esta a não menos de 100 m da sua. Tornou-se completamente imóvel, suspendeu a respiração, buscando ouvir, buscando sentir qualquer indicação de que, como seus primeiros instintos gritavam, não era apenas um animal de passagem.

E lá estavam novamente. As folhas sussurrando. O movimento que sentia distante, como um deslizar de dedos sobre a nuca.

Alguém se aproximava, aparentemente sem pressa. Um passo, e outro. E outro.

Definitivamente não era animal. Sabia, pois agora estava perto o bastante para discernir uma forma bípede na extensão de sua mente que mais tarde ela compararia a um véu. Os passos ecoavam cada vez mais altos, mais e mais próximos a cada segundo. A garotinha mal respirava, com medo de se fazer ouvir. Os olhos percorriam a minúscula sala, sem sucesso em encontrar qualquer coisa para ser usada como arma.

Não que fizesse muita diferença. Não lutava. Não de verdade.

Pedrinhas rolaram, chutadas. Galhos se partiram sob pés. Mais e mais próximo.

Seus ouvidos estalavam reagindo ao menor barulho. Rugiam com o correr do próprio sangue, pulsando aceleradamente em consonância com as batidas do coração.

Pés arrastaram-se sobre concreto, o avanço lento e solitário demais.

Estava na porta.

A fruta continuava em sua mão, os dedos fazendo pressão na casca mole. Suco escorria. A mão melava sem que percebesse. Pingos açucarados na mesa rústica.

Tã-tã-tam.

Batidas.

Soavam ocas, estranhas aos ouvidos.

Não respondeu.

O suco escorria.

Tã-tã-tam.

Parecia que as ouvia debaixo da água. Algo foi dito, mas era tão distante que não distinguiu palavras.

Pingos.

TUM. TUM. TUM.

Respirou com tanta força que seus pulmões uivaram. O peito ardia, como se pegasse fogo e encolhesse nas chamas, sumindo na própria cavidade do tórax. Remexeu-se na cama, associando o entorno aos poucos. O amplo quarto, a imensa cama de dossel, colcha bordada em relevo sob seus dedos.

Era um sonho, uma memória. Tinha prendido a respiração como a garotinha que era anos antes havia feito e acordou sem notar que o ar lhe faltava, apesar da angústia crescente, até que a sensação do peito ardendo a tomasse por completo e ela se tornasse apenas seus pulmões desesperados.

TUM. TUM . TUM.

Percebeu porque soavam tão estranhas as batidas: não eram do sonho. Alguém usava o punho contra a porta de seu quarto no Castelo de Teine.

— Senhorita? Precisa acordar! Rápido!

TUM. TUM. TUM. TUM.

Ainda estava ligeiramente atordoada, era difícil localizar as coisas em um quarto estranho, mais ainda quando não o enxergava. As cores registradas no sonho, entretanto, piscavam por debaixo das pálpebras. Amarelo, da fruta. Marrom e bege, da mesa. Branco, das paredes.

Antes de responder, projetou o corpo na direção da mesinha de cabeceira, onde havia deixado sua máscara repousando.

Os olhos estavam apenas enfaixados pela tira de algodão macio que ficava sempre por baixo do metal frio, evitando que ferisse sua pele. Não era a mesma que havia usado na cerimônia, era uma versão mais compacta — esta cobria apenas a região da ponta do nariz ao alto das sobrancelhas — menos ornamentada. Sabia, entretanto, que não deixava de ser uma joia. Era bonita, e, mais importante, ocultava os olhos.

Com agilidade, os dedos levantaram o cabelo e apertaram o fecho complexo na parte de trás, deixando o objeto bem ajustado para que não deslizasse ou fosse retirado. Por menos acordada que estivesse, aquele movimento era tão habitual que muitas vezes o realizava sem que percebesse.

As batidas soaram mais uma vez, apressadas. Reconheceu a voz como a do guarda que mais cedo havia se colocado a postos para vigiá-la. Tinham sido ordens do rei que os soldados responsáveis por sua segurança se apresentassem verbalmente, para que ela soubesse identificá-los em caso de precisão.

Naquela noite, logo após o fim das festividades, um guarda havia se colocado a postos, dizendo que ali permaneceria durante toda a madrugada. Não se lembrava do nome.

Saindo da cama em um pulo urgente, correu até a porta com passos largos, a camisola de tecido leve se desenrolando até os pés. Girou a chave — trancar-se era um velho costume do qual não fazia questão de abrir mão — e, antes mesmo que pudesse puxar a maçaneta, o objeto pesado e entalhado em madeira foi aberto com brusquidão pelo soldado. Recuperou rapidamente o equilíbrio perdido com o empurrão antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa. E ele não se demorou:

— Há um ataque ao castelo, precisamos nos mover para deixá-la em segurança. E rápido.

Sem que emitisse qualquer permissão, o homem agarrou-lhe a mão direita e conduziu seus dedos de encontro a uma superfície de couro em relevo na altura do lado esquerdo do peito. Era o brasão do exército Forestorm. O ato era mais um dos protocolos que Brannon havia estabelecido para que Maegan pudesse reconhecer e confiar nos soldados que apresentariam-se a ela. A medida não levava mais que três segundos para ser seguida e garantia que ela seria auxiliada pelas pessoas corretas quando necessário.

Ele, ainda seguindo orientações — que haviam cuidadosamente sido repassadas a ela assim que entrou em contato com os agni do castelo —, reconduziu aquela mesma mão para a curva do próprio braço direito e colocou-se poucos centímetros atrás de Maegan, enquanto a mão esquerda repousava no centro de suas costas e era responsável por ditar o ritmo de seus passos, assim como as direções que tomariam.

Antes que conseguissem se afastar da porta encostada por mais que poucos passos, Maegan hesitou.

— Elysian! — Exclamou ao guarda, tentando instintivamente virar-se no sentido pelo qual Ely havia seguido pouco depois de deixá-la em seus aposentos após o fim da recepção. Sua voz saiu rouca, esganiçada.

Chocou-se contra o soldado, que pareceu demorar para processar suas palavras, concentrado demais na tarefa que a ele foi dada.

— Não se preocupe, senhorita Doklas. — Seu aperto a conteve, movendo-a na direção contrária antes que conseguisse fazer qualquer protesto, apesar da resistência dos pés. Havia urgência e temor verdadeiro nas palavras do homem. — Ele já deve estar seguro a essa altura, todos estão sendo conduzidos para a Sala do Trono, onde a guarda está concentrada. Precisamos ir antes que seja tarde e os invasores nos alcancem.

Não voltou a questionar. O tom do soldado e o modo como ele se comportava, rígido de tensão — a mão fria e escorregadia com suor era perceptível através do pouco tecido que separava a palma da pele das costas — descarregaram uma onda de adrenalina nos sentidos de Maegan. A sonolência rapidamente foi substituída pelo instinto frente ao perigo anunciado, e tudo o que ela era voltou-se para a ordem mais imediata que seu cérebro era capaz de emitir: seguir o soldado até um local seguro, ficar viva.

Por esse motivo manteve-se em silêncio, sem oferecer qualquer impedimento para ser conduzida, concentrada em despejar seus reflexos mentais no tecido imediatamente a frente, na tentativa de não tropeçar e atrasá-los.

Em outras ocasiões, conseguia ter uma ampla sensação de todo o espaço e movimento a sua volta, mas naquela situação em específico, no andar trôpego e veloz que era quase uma corrida, precisava manter-se verificando o relevo do piso e a arquitetura do local ao qual não estava familiarizada.

Seguiram em frente sem mais nada falarem. Ele a conduzia, tocando em seu braço ou puxando-a nas curvas que deveriam virar. Maegan tentou decorá-las inicialmente. Direita, esquerda, direita, direita… Mas confundiu-se pouco depois, a mente mais preocupada em prestar atenção no chão e nos pés descalços.

Sem saber quanto tempo havia se passado, foi forçada a parar ao notar pelo véu uma parede a sua frente. Seu reflexo foi ligeiramente mais rápido que o do guarda que a acompanhava, e, assim que percebeu o que havia feito, amaldiçoou-se pelo ato falho.

Não deveria mais ser suscetível a esse tipo de impulso há muito tempo, era muito melhor que isso. Seu treinamento com o pai a teria levado a chocar-se com força contra a pedra fria antes de reagir a qualquer que fosse o obstáculo que não deveria ver. E, no entanto, tinha se deixado deslizar, apenas porque estava nervosa demais para pensar.

O soldado, para sua sorte, nada parecia ter reparado, pois a mão, ainda mais suada que antes, deixou o contato com sua pele. Com menos de um passo completo, aproximou-se ainda mais do paredão, espalmando as mãos contra a superfície e as deslizando, como se a procura de algo.

O que aconteceu a seguir Maegan não poderia definir assertivamente, os movimentos não eram exatamente detectados pelo seu sentido — pareciam sutis demais. A próxima coisa que soube é que, de repente, não havia mais parede.

Uma passagem secreta.

Conseguia detectar perfeitamente alguns metros do que se estendia a sua frente. Embora não fosse tão largo quanto o espaço em que estavam, passando a estreita porta que surgiu poderiam facilmente abrir os braços sem encontrar qualquer impedimento. Não apostaria que era um local muito utilizado, mas certamente não devia ser abandonado completamente, porque não havia qualquer sinal de buracos muito grandes e fundos no piso ou nas paredes, mesmo que ela fosse feita de rocha menos polida do que o resto do castelo, nem mesmo um odor pungente típico de lugares que permaneciam trancados em sombras.

Sentiu claramente a sensação de pressão em suas têmporas e na parte de trás do crânio a abandonarem. Seu instinto estava se remodelando, liberando-se do torpor e da sensação de pânico que impediam sua ação.

No entanto, ainda persistiam as pernas levemente bambas, o coração muito mais acelerado ribombando contra as costelas, os dedos inquietos. Não esperava que sua vida estivesse em risco logo na primeira noite. Na verdade, desejava profundamente que sua vida não estivesse em risco nunca mais. Era sempre tão cautelosa…

Naqueles milésimos que levou para associar o corredor a frente, seu sexto sentido tímida e eficientemente se estendendo para a passagem, houve uma súbita ruptura de seu estado de alerta. A mente parecia querer se reajustar e se adaptar às novas condições impostas, surpresa com o caminho que se abria.

Foi quando notou: o silêncio.

Se estava havendo uma invasão e pessoas eram remanejadas de seus quartos a locais mais seguras pelos soldados do rei, onde estavam os sons?

Passos, metal contra metal, gritos, vozes.... Qualquer coisa teria sido o suficiente para que ela seguisse em frente sem nunca ter despertado de seu foco pré-estabelecido.

No lugar disso, ouvia o crepitar lento das tochas, zombando de sua pressa, e o barulho da respiração acelerada do guarda que a acompanhava.

E ela culparia o sono e a inexperiência por sua estupidez, porque sua letargia lhe custou. Antes que fosse capaz de entender seu entorno e tirar quaisquer conclusões sobre o que pudesse haver de errado, já tinha sido conduzida por mãos rudes para dentro da passagem.

Notas finais
Hehe, e agora? O que acontece? Obrigada demais aos que stão lendo ♥ espero mto que estejam gostando! E um agradecimento especial de novo ao Lipe ♥ amo seus comentários!