Veris: Sobre Rainhas e Reis
5 IV. Apresentações
Notas iniciais
O tempo continuava correndo, ao contrário de Maegan, prostrada ao lado do rei, sem saber como agir. Quer dizer, tinha recebido inúmeras aulas sobre protocolo, etiqueta e tudo o que precisava para comportar-se corretamente em uma Corte — outro dos detalhes pessoalmente cuidados por Feoras desde que passara a morar com ele na capital — porém não se lembrava de ter tido a aula Como responder ao rei do Domínio inimigo se ele usar a Saudação mais sagrada do continente em um evento em sua homenagem. Será que as pessoas teriam reparado que ela havia percebido o que fora feito por Brannon? Afinal, ela não estava vendo nada, então teria sido teoricamente impossível. Não sabia a resposta, nem mesmo se isso passaria pela cabeça dos presentes, uma vez que eles mesmos pareciam suficientemente ocupados com os próprios egos feridos.
Logo descobriu que não importava muito se ela soubesse ou não do decoro requerido para aquela situação. E talvez as coisas estivessem acontecendo em câmera lenta em sua mente, pois as palavras ainda se expandiam e reverberavam pelo salão quando redirecionou sua atenção para o seu entorno novamente e notou o rei pousando a mão do braço livre sobre a sua. Foi iniciada uma caminhada lenta em direção ao fundo do local sem esperar qualquer reação ou resposta dela. Sentiu mais uma vez o movimento das pessoas como se fossem um sussurro contra a raiz dos cabelos, e sabia que a passagem para que alcançassem o patamar erguido onde 4 tronos repousavam estava livre. Os dois do meio eram perceptivelmente maiores, sendo o da direita ainda mais alto e largo que o da esquerda.
No silêncio do caminho tentou organizar a confusão de pensamentos que se revolviam por detrás dos olhos, deixando a mente desocupada o bastante para que ela conseguisse sentir com mais detalhes o que estava por baixo do tecido. Não era uma sensação clara o suficiente para que obtivesse uma imagem perfeita da situação, mas pôde identificar que o trono grande da esquerda e o menor logo ao lado desse estavam ocupados — supôs que fossem a rainha e um de seus filhos, embora não conseguisse lembrar os nomes deles por mais que se esforçasse.
Amaldiçoou-se. Esse era o tipo de informação que parecia essencial demais para ser esquecida, e, mesmo assim, ela lhe fugia. Ainda, percebeu um quinto assento no local, não chegava perto de ter o tamanho de qualquer um dos tronos, mas certamente era um lugar de honra — eria para ela?
Subiram os três degraus extensos em formato de grandes trapézios horizontais e pararam. Brannon retirou a mão que repousava em cima da sua e indicou o trono da rainha — talvez fosse instintivo, talvez fosse pelo espetáculo que os outros assistiam, e não para ela — de onde uma figura se ergueu.
O véu mental roçou contra um tecido em movimento, como se um deslizasse sobre o outro, como se as vestes da mulher fossem uma cascata de algo mais espesso que água. Imediatamente à reação de seu sexto sentido, atingiu-lhe as narinas um cheiro doce e encorpado. Reconheceu na fragrância o odor do âmbar, do fundo amadeirado e da impressão de uma mistura de baunilha com toques apimentados. Era definitivamente um perfume marcante, sensual.
— Apresento-lhe Vossa Majestade, a Rainha Hiraet Forestorm, minha esposa.
Maegan imediatamente dobrou os joelhos com delicadeza e elegância, inclinando o tronco para frente e abaixando levemente a cabeça em consonância – um movimento mais profundo do pescoço não era permitido pelo peso da máscara, assim como aqueles raios dourados que irradiavam de sua cabeça não traziam exatamente segurança para um gesto completo.
— É uma honra, Majestade. — A voz de Maegan tinha um alcance muito mais limitado que a de Brannon, sendo ouvida apenas pela Família Real e não por todos os convidados, os quais se inclinavam como caçadores à procura de suas presas e davam curtos passos para mais perto na esperança de captarem o máximo possível.
Hiraet assentiu, mesmo que não pudesse ser vista pela menina wiha.
— E este… — O braço dele voltou-se para a esquerda, apontando outra figura que se levantava. Não houve deslizar de tecidos cascateando, o que poderia ser indicação suficiente de que era um homem, já não fossem a largura dos ombros e o porte antes detectados. De pé, soube que era alto, ainda que não tão alto quanto o Senhor do Fogo. — Sua Alteza Real, Príncipe Teris Forestorm.
A reverência foi mais uma vez executada, assim como a resposta em voz baixa:
— Uma honra, Alteza.
O homem fez uma mesura passando um dos braços na frente do corpo e abaixando somente o tronco em cortesia.
— O prazer é meu, senhorita.
Antes que qualquer silêncio pudesse estabelecer-se, a rainha deu um passo para perto da convidada, o perfume sensual acentuando-se com a proximidade. Tomou seu braço no lugar do marido. A mão era macia e o toque, sutil.
— Perdoe, querida, a ausência de meu filho mais velho. — Começou a caminhar, conduzindo-a ao assento sobressalente que já havia detectado. Para ela, de fato. — Ele tem se mantido ocupado demais com assuntos inadiáveis da Coroa em nome do pai, mas mandou seus mais sinceros cumprimentos.
A voz de Hiraet era suave e bonita, tudo nela parecia querer atiçar a imaginação de Maegan para que se confirmassem, mesmo sem enxergar, os boatos sobre a famosa beleza da rainha agni. A menina não precisava de muitos estímulos mais para que formasse em sua cabeça uma linda imagem da mulher que a conduzia, mesmo sabendo que, se os boatos estivessem corretos, jamais poderia fazer jus à figura real. Cada um que dizia já tê-la visto parecia acrescentar detalhes ainda mais fascinantes às histórias que já circulavam.
Falando mais uma vez, ela indicou que Maegan se sentasse, desejando que ficasse confortável e apreciasse a cerimônia que havia cuidadosamente planejado para sua recepção. Doklas repetiu a mesura, dessa vez com apenas um leve aceno de cabeça, verbalizando seu agradecimento.
— O garoto que entrou com você, imagino que seja seu acompanhante?
— Sim, Majestade. Ele me ajuda. — Não explicou, pois não era necessário. Com o que Ely auxiliava era bem evidente.
Sentiu ela virar-se momentaneamente para o rei, que agora já havia se acomodado em seu lugar de direito e dirigia um de seus olhares penetrantes para nenhum ponto específico na multidão reunida.
— Brannon, querido, tenho certeza que o garoto será apresentado, sim? Convide-o a subir para acompanhar nossa convidada.
Um assentir para a esposa seguido de um gesto de mão foram suficientes para que o menino se aproximasse, caminhando de maneira tímida por aquele corredor formado pelos súditos do Senhor de Agni. Suas roupas não eram requintadas e pomposas, mas estavam arrumadas o suficiente para aquele tipo de evento: camisa branca, calças bege, botas de cano alto pretas e um sobretudo azul, sem detalhes em ouro ou bordados elaborados, mas muito bem-acabado. Abaixou-se sobre um joelho logo antes do primeiro degrau, apresentando-se com a cabeça baixa e o olhar nos castanho-avermelhados do rei:
— Elysian Zuiver, Vossa Majestade, a seu dispor.
Não tinha a voz grossa, ainda era aquele meio termo entre o timbre de uma criança e um homem, variando constantemente. Ela saiu baixa e levemente trêmula devido ao nervosismo, mas os olhos brilhavam de maneira protetora, como se ele se considerasse maior e mais forte do que era — ou, ao menos, como se desejasse firmemente sê-lo para proteger sua acompanhante de quaisquer possíveis ameaças.
— Aproxime-se então, Elysian Zuiver, — Brannon estalou a língua, testando o nome em sua boca, parecendo se divertir com o nervosismo e a coragem do garoto. — e auxilie nossa convidada de honra como ela precisar. Espero que relate a ela as belezas de minha Corte.
Ely assentiu, ansioso, e subiu os degraus com agilidade, dirigindo-se para a direita, onde Maegan sentava-se, poucos metros além do único trono que continuava vazio. Ela sorriu quando ouviu os passos dele, e Elysian posicionou-se logo a seu lado, um pouco para trás, com as mãos juntas nas costas, como tantas vezes havia assistido os guardas de Sora fazerem quando ela visitava Feoras.
A atenção de Brannon logo voltou-se para seus súditos, olhando-os com mais cuidado dessa vez e soltando uma risada sarcástica.
— O que fazem todos aí parados? O próprio S’set veio visitá-los?! Vamos! Abram espaço para que a festa comece!
O estrondo das portas laterais sendo aberto foi simultâneo da música que explodiu pelo salão assim que o rei terminou sua frase.
Se tinha comparado os movimentos das pessoas sentidos através do tecido com um brincar com um de seus cachos, o que sentiu de repente seria como uma das criadas de Feoras Drava tentando fazer um coque elaborado em seus cabelos. Sabia que as pessoas que entravam numa organização frenética e movimentada só podiam ser dançarinos.
Elysian suspirou ao seu lado, surpreso e hipnotizado.
O som e o ritmo eram totalmente diferentes dos geralmente ouvidos em Vesi, capital das Artes, também uma responsabilidade do Domínio da Água. Por mais que uma capital da Música estivesse recheada de diferentes estilos e artistas em todos os lugares, nada era como aquilo.
Em Wiha, era comum se ouvirem músicas que tocavam pelas ruas de ritmos sinuosos, sendo o instrumento mais sobressalente as flautas serpenteantes em conjunção com tambores, um estilo típico das regiões das ilhas do Sudeste. Havia também a música clássica, completamente diferente das já citadas, criada lá, mas amplamente apreciadas pelos nefasi. E outras para dançar em dias de festivais, com flautas mais alegres e muitos guizos e chocalhos, até mesmo pandeiros, mas mesmo elas não eram nada como as ouvidas em Teine naquele momento.
A música agni rugia, como se ela também houvesse sido treinada para a batalha. Tambores altos estalavam contra os ouvidos de Maegan, o chão vibrava, palmas umas contra as outras e na pedra produziam outro som típico em consonância com pés marchantes, havia ainda por trás disso tudo um barulho de sininhos que se movimentavam frenética e ritmadamente, provavelmente presos aos pulsos e pés dos bailarinos.
— Como é? — Perguntou sussurrando a Elysian, sem conter a curiosidade.
— É incrível! Os dançarinos se vestem meio parecidos com a gente, mas estão usando vermelho, e amarelo, e laranja...E eles se movimentam de um jeito... Nossa, pés, braços, muitos pulos e giros, quase nunca ficam no chão. É tão diferente! Você percebe pela música?
Maegan assentiu, ansiosa para que ele entrasse mais em detalhes. Às vezes, ela precisava perguntar mais, pois a percepção dele do que era uma descrição boa ficava sobrepujada pela ansiedade. E ela entendia. Também se sentia muito, muito ansiosa. A música internalizava nela uma vontade inquieta de se mexer.
— Parecidas com as nossas? Mas como?
Sem ver, sabia que os olhos dele não deixavam o espetáculo à frente.
— Com os wiha, nas festas. As mulheres estão usando aquelas... Saias bem soltas e com o tecido transparente, a barriga de fora, a parte de cima coberta de pingentes e pedras, ou não…
Ele se perdia tentando falar e prestar atenção, fascinado. Descrever roupas já era um problema para o garoto, que não costumava ser muito atento nesse quesito, mas ele vinha se esforçando cada vez mais para ser preciso:
—Tem algumas com aquelas calças bufantes, presas no tornozelo, os homens também usam essas, mas a delas é mais transparente. Tem uns outros homens com calças só largas, sem serem presas, e as blusas parecem bastante as nossas túnicas. Mas tudo nas cores deles... Vendo de cima eles parecem fogo mesmo, nossa.
Fez mais uma pausa antes de acrescentar de forma reflexiva, como se fosse algo inusitado:
—Acho que é uma homenagem, May. Misturar nossas coisas com a deles.
Ela riu.
— Você acha?
— Aham.
Ele assentiu veementemente, sem perceber que brincava com ele, ainda preso à dança. Maegan riu de novo, o sorriso permanecendo nos lábios mesmo depois.
A música se encerrou com um baque surdo que se ampliou, o silêncio na retaguarda indo mais e mais além. Sequer um sininho soava. Em seguida, uma onda de aplausos entusiasmados, contidos com um movimento do rei, necessário para dar sequência aos números esperados.
Não era preciso muito para entender que Brannon Forestorm era um homem de poucas palavras, sério, que gostava de ser prontamente atendido. Apesar disso, não pode deixar de notar que havia uma espécie de calor quando ele falava, o que tornava suas palavras ainda mais interessantes de serem ouvidas.
Assim, com apenas aquela mão erguida, o salão inteiro se calava entre uma apresentação e outra. Era interessante ver aquela dinâmica através do seu sexto sentido. Os próprios intervalos se tornavam uma dança ensaiada e de poucos movimentos: o braço erguia-se raspando o véu invisível, e uma onda instantânea de silêncio varria o local. Era quase como se ele os enfeitiçasse.
Os outros entretenimentos da noite misturavam uma grande dose de música e efeitos sonoros com aspectos visuais que Elysian descrevia para ela.
Passaram-se outras duas danças e uma outra apresentação apenas instrumental, em que os responsáveis pela música dirigiram-se para a região em frente aos tronos onde ocorriam cada uma das demonstrações com seus instrumentos. Tocavam-se melodias diferentes, embora todas elas mantivessem aquele ritmo acelerado e sons que podiam muito bem contar a História da Guerra. Quando o silêncio mais uma vez se estendeu com a finalização dos tambores, a porta principal abriu-se.
Ouviu um bufar baixinho do trono na ponta oposta.
— Ela certamente sabe fazer uma entrada. — Teris sussurrou para ninguém em específico.
Maegan ficou tensa, sem entender os motivos do suspense e daquele silêncio prolongado. Sabia que havia uma mulher na entrada, mas não conseguia identificar muito mais.
— Ely— sussurrou o mais baixo que pôde, inclinando-se levemente para perto do menino, ainda de pé. — O que está acontecendo?
Ele demorou um pouco para respondê-la, abaixou-se levemente e soltou num sopro:
— Não há nada de errado, é mais uma apresentação.
Voltou a sua posição inicial após tocar levemente o ombro da convidada de honra, tentando tranquilizá-la.
E então a mulher da entrada começou a cantar.
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