Notas iniciais
Um aviso amigo: não se preocupem muito em lembrar absolutamente todos os nomes logo nesse primeiro capítulo! Muitos são citados por questão de ambientação e apresentação do mundo, mas eles serão retomados devagar quando necessários :)

— Você pede demais, Forestorm. — Sora Pravahi, rainha coroada de Wiha, o Domínio da Água, pronunciou-se, ainda de seu lugar no trono do Leste.

Os majestosos assentos dispunham-se de maneira circular, no centro da imensa Rosa dos Ventos cravada no mármore do Grande Salão, cujos braços se estendiam de forma a apontar os devidos pontos cardeais, e, com eles, os respectivos Domínios de Veris: ao norte, era Agni, o Domínio do Fogo, a leste, o já citado Domínio das Águas, Wiha; era Nefasi, do Ar, o Domínio do Sul; e, não menos importante, o Domínio da Terra, Midiri, a oeste. Sentados em seus lugares adequados, os Domini, governadores dos Quatro Estados, reuniam-se no Castelo de Gara, construído exatamente no centro do continente, e único território absolutamente neutro, onde os quatro povos conviviam pacificamente, as mentes eram mais abertas ao adverso, e todos ali, residentes ou convidados, estavam, de forma integral, seguros.

— Ele sabe que sim. — A voz veio de um dos dois tronos na posição oeste, como deveria haver no sistema de diarquia Midiri, em que os reis provinham de uma sucessão alternada e muito bem estabelecida entre as seis famílias nobres. Era de Doy Mira, o mais velho entre os Domini, com 73 anos, a quem o rouco tom pertencia.

— Não solicito nem mais, nem menos, do que Vossa Majestade solicitou 23 invernos atrás, Mira— Brannon Forestorm retrucou, com calma calculada, enquanto entrelaçava os dedos das mãos grandes e musculosas, olhando em seguida para o trono à sua frente. — E, se bem me lembro, Rainha Kala, Primeiro Ministro Oblak — disse, assentindo para cada um ao pronunciar seus nomes. — Não mais do que foi cedido a Nefasi há 16 anos, quando Vossa Majestade era apenas uma criança num reino de anarquia.

Kala Wolk, de 19 anos, fechou os punhos contra os braços do trono branco como gelo. Os cabelos de um loiro extremamente pálido característicos do povo nefasi caiam despreocupadamente perto de seus olhos, tornando mais cortante o olhar de um azul gélido lançado em direção ao Senhor do Fogo. Ela não aturaria aquele tipo de provocação, e entreabriu os lábios para deixar escapar as palavras na ponta de sua língua, mas foi interrompida por Sora, que resolvera retomar o controle da situação. Afinal, a decisão era dela.

— Majestades, por favor, evitemos comentários desnecessários. — Olhos de um azul vivo e profundo como o oceano prenderam-se aos típicos castanho-avermelhados da nobreza Agni completamente personificada pelo homem ruivo ao seu lado. Sora jamais havia encontrado um homem que pudesse remeter mais ao fogo do que Brannon Forestorm. Os cabelos bem cortados e a barba bem aparada de um ruivo tão profundo que poderia ser cor de sangue, em consonância com as iris, eram duas das cores mais comumente encontradas nas chamas. Seu porte grande e musculoso era evidenciado nas roupas pretas e luxuosas da Corte do Fogo, e Pravahi bem sabia que por baixo de tudo aquilo espreitava um temperamento explosivo, ardente e com tendências à destruição. — A situação não precisa de auxílios para tornar-se desagradável.

Brannon desferiu um sorriso irônico, como se concordasse em partes com o que foi dito, mas não pelos mesmos motivos. Não reagiu de forma alguma além desse pequeno gesto, ainda concentrado na Domina da Água, que tomou o silêncio como satisfatório o suficiente para prosseguir.

— É certo que não precisamos ser lembrados sobre a Klifo, cada um de nossos Estados já esteve mais do que ciente de seus efeitos e consequências. Cada um de nós viveu com medo de que ela se expandisse para mais que pequenos surtos esporádicos e se tornasse algo imparável. Não sabemos como surge, nada fazemos para prevení-la, senão basearmo-nos em crendices, esperando que algo funcione; sabemos, porém, bem demais qual é a cura. E, infelizmente — e devo ressaltar que eu não sou necessária para lembrá-los disso — não dispomos dela agora. No entanto, vocês repetidamente vêm a mim e a meus antecessores, implorar para que eu dê a vocês esperança. E nós nunca a negamos. Meu Mastre Real foi diversas vezes enviado para suas terras, espalhando palavras gentis e evocando bençãos no meio dos contaminados, sem nunca contestar, mesmo, como bem sabemos, tendo ele mesmo corrido risco de sucumbir à Peste. E, pergunto à vocês, por quê? Digo-lhes: porque, quando não há cura, são as palavras que salvam. Elas não impedem mortes, é verdade, mas bloqueiam o pânico, e isso é mais do que se poderia pedir em tempos como este. Quando não há a razão feral pela qual lutam, é o instinto primitivo do oceano que permanece. Aquela força imensa, adormecida e poderosa. É a Fé. E só nós, wiha, podemos fornecê-la na atual conjuntura, é verdade. A situação, agora, não é a mesma que de 16 anos, e menos ainda de algo ocorrido há 23 invernos, porque meu Mastre não é o mesmo daqueles tempos. E, o que, pela Deusa, faria-me arriscar um velho amigo e conselheiro, já debilitado pelo tempo e mais sujeito do que nunca à contaminação, no meio dos infectados, quando o Domínio que me roga ajuda é o mesmo que nos deixou à deriva quando precisamos?

As palavras saíram tão suaves dos lábios da mulher, que quase pareciam um carinho, se não sussurrassem o rancor nelas contidas, encobertos pela sensatez da lógica.

— Vocês ficaram muito bem sem nossa ajuda, como pode comparar a dimensão de tais acontecimentos? Ainda se lembra de algo que agora parece tão insignificante?!

— O Oceano nunca esquece, Brannon.

O silêncio que tomou conta pareceu mais pesado, carregado de palavras não ditas. O Rei agni engoliu as palavras seguintes, sabendo que nada de bem faria em pronunciá-las.

Doy Mira pigarreou, tornando a sala com os 6 tronos nítida novamente.

— Diga-me seu preço, Pravahi. Podemos negociar, você sabe que sim.

Novamente, azul e vermelho guerreavam, disputando poderes e interesses. A mulher de 44 anos e longos cabelos negros azulados, 2 anos mais nova que o imponente Rei das chamas, forçou um sorriso em seus traços levemente grosseiros. Longas sobrancelhas cheias emolduravam a malícia e dissimulação de quem estava prestes a sair vencendo em um tratado vantajoso.

—Diga-me: quão disposto você está? Quanto vale o preço que não quer pagar pela Febre?

Instantes se passaram sem que houvesse uma resposta, enquanto os olhos do Agni permaneciam travados nos dela. As mãos descruzaram-se, repousando nos braços do trono esculpido em mogno avermelhado, segurando-os com punhos fechados.

— Você sabe que não recusarei uma proposta. — Foi o máximo que se dispôs a esclarecer.
Ela não parecia satisfeita, todavia, tornando a pressioná-lo mais contundentemente.

—Quanto?

Ele não tinha escolha. Precisava da ajuda do Alto Sacerdote para apaziguar os ânimos, ou seu povo estaria fora de controle e, consequentemente, de qualquer chance de voltar à normalidade. Apesar das claras diferenças fenotípicas entre os povos dos Quatro Estados, e das eventuais discriminações que pareciam ser historicamente incitadas por elas, era pelo Mastre Real, espécie de líder religioso e conselheiro, que toda a Veris clamava em tempos difíceis, em que a Fé era posta em jogo. Ele era o único que parecia ter qualquer chance de não sucumbir diante da doença, mas era também subordinado às rainhas wihas, o que era sinônimo de Sora Pravahi naquele dado instante, e não havia nada que Brannon Forestorm pudesse fazer.

— Quanto!

O tom da voz, geralmente suave, beirando o maternal, elevou-se. Ela queria ouvir aquilo. Ele sabia que a Senhora dos Mares jamais deixaria uma oportunidade passar, não depois do que ele fez. Não depois de, além de tudo, ter negado ajuda na reconstrução das cidades atingidas pelos tsunamis na costa Wiha há alguns anos, quando quase nada lhe custaria além de compaixão e alguns poucos encargos. As unhas afundaram-se no trono, cavando o móvel na intenção de tomar fôlego. Estava prestes a humilhar-se diante do Alto Conselho, o Castelo de Gara como testemunha. Não tenho escolha.

— O quanto quiser. — Respirou fundo, sem deixar de encará-la. — O necessário. Tudo.

Os lábios carnudos abriram-se num sorriso enviesado.

— Muito bem. — Sora quase cantarolou, levantando-se de seu trono, enquanto os outros faziam o mesmo, dando a reunião daquele dia por encerrada com os assuntos aparentemente resolvidos, antes de sua expressão alterar-se completamente.

A boca enrolou-se de imediato, como se estivesse triste com algo que lhe acabara de ocorrer.

— Sendo assim, é realmente uma pena que meu querido Feoras esteja há meses preso a uma cama, impossibilitado de fazer qualquer tipo de viagem.

Notas finais
Ei, agradeço por ter lido até aqui! Esse capitulo ficou meio pesado ne? Não se preocupem, os próximos são mais tranquilos de ler! Agora que vocês estão em Veris, tudo vai se esclarecer e.e E aí? Quem tem razão? Sora, a Domina da Água, ou Brannon, o Senhor do Fogo?