Vergo

11 Missões Impossíveis


Notas iniciais
Olá, criaturas! A maior parte desse capítulo foi escrita pela Tris, mas eu, Panda Girl (sempre rima), fui designada a escrever essas notas iniciais (porque eu tenho sido bem vagabunda no processo criativo dessa história, sejamos honestos). Eu queria escrever alguma coisa que ela escreveria, ou alguma coisa engraçada, mas falta inspiração. Enfim, eu sugiro que leiam esse capitulo escutando alguma música que deixe vocês felizes, ou uma bem deprê mesmo. Um dos extremos. Stone Cold da Demi seria uma boa ideia. Boa leitura! — Panda Girl (e Tris, porque ela é minha marida e eu quero botar o nome dela aqui, aceitem).

— Aí Verne, você 'tá muito desanimado. Já é a terceira vez que te chamamos pra sair e nada. — Justin falou.

— Ah, não estou muito animado, só isso.

— Uhm... É por causa da Abigail né? — Nathan disse com um sorriso zombeteiro.

— Não! Não tem nada a ver com a Abigail!

— Então sai com a gente. Quem sabe você conhece alguém ... — Charlie disse. — Cadê o Verne dos tempos antigos?

— Ei, eu nunca fui galinha, não, tá!?!— protestei — Esse posto sempre foi ocupado por você e todo mundo sabe muito bem.

— Eu não sou galinha! Eu só estou procurando alguém especial, que me complete, só que até agora eu não achei, então eu preciso pesquisar até achar. — ele disse, e todos nós olhamos sérios para ele. — Tá, eu sou galinha! Mas vocês morrem de inveja que eu sei.

— Honestamente? — Justin falou — Sim.

E começamos a rir.

A aula tinha acabado e estávamos saindo da escola, indo em direção ao estacionamento do colégio.

— Mas enfim ... Verne, não quer ir mesmo? Vamos em algum lugar aqui perto mesmo. É uma boate nova. — Nathan disse.

— A boate é foda! Tem mais ou menos uns dois meses que inaugurou. Vamos Verne, imagina o tanto de gata que vai ter querendo conhecer a boate nova! Aí você vai, conhece alguém e pára com essa cara de enterro. —Justin falou.

— Não 'to com cara de enterro! Mas, sério, eu não vou não. Fica pra uma próxima. Não estou querendo sair e muito menos me envolver com alguém agora.

— É, a Abigail mexeu mesmo com você. — Justin disse, voltando ao assunto desagradável.

— Não! — eu disse olhando para trás, com medo de que ela ou algum amigo próximo me ouvisse falando sobre ela.

Tirando o fato de estudarmos no mesmo colégio, e às vezes na mesma sala (dependendo da aula), eu queria manter distância da Abigail do mesmo jeito que eu estava conseguindo manter distância de uma outra pessoa.

— Mas alguma coisa ela fez pra... — e de repente Nathan foi interrompido por Charlie.

— Ei, quem é aquele ali encostado no seu carro Verne?

Olhei para frente e vi uma criatura de braços cruzados, com a cabeça abaixada, olhando para o chão. Mexia um dos pés, provavelmente brincando com uma folha que tinha caído, como quem está matando o tédio enquanto espera por algo. A pessoa vestia um casaco preto com "BAE" escrito em dourado, nada discreto. Mas, então, eu percebi uma mecha loira bem no topo do que parecia ser um topete e eu já sabia muito bem de quem se tratava.

— Ih, não quer sair com a gente porque tá saindo com viado, né? —Justin disse de forma debochada.

— Quê? Não! Óbvio que não! — eu disse tentando não parecer suspeito e com medo de que eles descobrissem a verdade por causa de uma sacanagem escrota.

— Acho que ele está querendo falar com você. — Charlie falou.

— É, não sei. Vou ver o que aquela pessoa quer. — eu disse, mas sabendo que o Charlie estava certo.

— Nós vamos indo, então. — Justin falou. — Acho que você não precisa mais da gente. A não ser que esteja com medo de ser agarrado, aí podemos ficar pra te proteger, ou pra te agarrar também, depende do momento. — Justin disse piscando para mim.

Nathan começou a rir, e os três seguiram para o outro lado do estacionamento.

Quando me aproximei mais, Oliver parou de brincar com a folha seca e me fitou, o que me preocupou, pois ele não estava com a cara sorridente de sempre e nem com cara de bravo. Ele estava sem uma expressão definida, o que me impedia de saber o que ele queria.

— Oi, Oliver. — eu disse.

— Oi.— ele respondeu secamente.

— Não esperava ver você aqui depois de tanto...

— Olha, Verne, eu não vim aqui para conversamos como dois coleguinhas que não se veem a muito tempo e estão querendo botar o papo em dia. Precisamos conversar, mas não aqui, porque está um sol do cacete e eu estou morrendo de calor.

— Er... Tá.

Abri a porta do carro e ele entrou, sentando no banco do carona.

— Aconteceu alguma coisa com o Gordon? — perguntei cautelosamente enquanto fechava a porta do carro.

— Verne, depois de sumir por um mês, não venha bancar o preocupado agora, tá?

— Mas eu não...

— E dá pra gente ir logo? Eu tenho mais coisas para fazer além de ficar a sua disposição.

Liguei o carro e fui saindo quando de repente ele colocou a mão na minha frente e eu freei subitamente.

— Que foi?

— Peraí, aquela que é a Abigail?

Olhei pelo vidro do carro e lá estava ela. Abigail vestia um conjuntinho brega todo combinando. A saia era listrada de preto e rosa, acompanhada de um top preto super apertado que mostrava as alças do sutiã, também rosa. Para finalizar, um par de sapatilhas de oncinha rosa e umas pulseiras de argola douradas. Era o combo rosa-cintilante perfeito para estragar o dia de qualquer um.

— Sim. — eu disse.

Então, Oliver estreitou os olhos para enxergar melhor e eu pude perceber que ele a analisava da cabeça aos pés. Ela não nos viu, e eu estava louco para sair dali antes que ela percebesse.

Oliver virou-se para mim, sério e com os braços cruzado e falou:

— Francamente, Verne.

Então, ele virou o rosto para a frente, e eu liguei o carro de novo.

O caminho inteiro foi em silêncio. Ele não queria conversar, e quando eu tentei falar alguma coisa, ele disse que só falaria quando chegássemos em algum lugar.

Passei por algumas lanchonetes mas todas estavam cheias e no final, Oli, que já estava impaciente por estar rodando de carro, me fez parar no Alby's quando passamos lá por perto.

E de novo eu estava naquela lanchonete estilo anos 60.

Não tinha voltado ali desde o dia que o Gordon me mostrou quem eu realmente era. E era muito sarcástica a vida me trazer de volta para aquele lugar.

Ou o Oliver sabia, e tinha sido filho da puta mesmo, escolhendo aquele lugar propositalmente.

— Então, o que você quer? — perguntei enquanto sentávamos, um de frente para o outro em um dos sofás vermelhos.

— Eu acho que um refrigerante cai bem.— ele disse olhando para as garçonetes.

— Quê? Não estou falando disso!

— Ah, tá! — ele disse, virando-se para mim. — Bom, mas eu estou com sede mesmo. — chamando a garçonete acrescentou. — Pode trazer uma Coca bem gelada? Ah, com uma rodela de limão também.

A garçonete piscou, como elas sempre fazem lá, e saiu andando. Pelo visto, eles só usavam os patins a noite.

— Agora, podemos conversar?

— Ah, espera minha bebida chegar. Eu fiquei naquele sol te esperando por um bom tempo. Agora você espera também.

E eu fui obrigado a esperar. Esperar a garçonete chegar com a bebida. Esperar o Oliver abrir o canudo. Esperar o Oliver mergulhar o canudo delicadamente na bebida. Esperar ele bebericar e dizer "ahh..." e só então, eu pude de fato começar a falar.

— Podemos?

— Ah sim. — ele disse colocando os cotovelos em cima da mesa e cruzando os dedos. — Estou aqui por algo bem simples. Só quero que você me responda uma pergunta.

— Eu? 'Tá. Fala.

— Por que o Gordon?

— Quê?

— Por que você escolheu logo o Gordon para sacanear?

— Eu escolhi o Gordon pra sacanear?

— Pára de se fazer de desentendido, Verne, já tá ficando chato.

— Eu não to bancando o desentendido!

— Sério. — Oliver disse e se aproximou mais, talvez porque não queria chamar a atenção. — Não dá pra você enganar mais ninguém. Chega. Só quero saber o por quê disso tudo. Só por que ele te beijou? Você gosta de ser escroto e brincar com o sentimento dos outros ou foi só com o Gordon mesmo?

— Eu não sou escroto e eu não brinquei com os sentimentos de ninguém!

— Ah, não? E sair com uma pessoa quase toda semana, iludir ela e depois desaparecer por um mês não é brincar com os sentimentos de alguém?

— Eu sumi porque era melhor para ele. — eu disse, tentando mostrar que era óbvio aquilo.

— Melhor para ele, por que? Porque você ia sacanear mais? Ia ser mais escroto?

— Não! — eu disse irritado com o fato que ele não percebia o óbvio. — Melhor pra ele ficar com você! Pra vocês ficarem juntos!

— Como é que é? — Oliver disse se afastando.

— É isso. Eu não queria falar, mas você insistiu. Eu sei que eu me afastei do Gordon, que eu "sumi" da vida dele, mas foi para facilitar as coisas para você. Deixar o Gordon em paz finalmente. Deixar ele ser feliz, e eu parar de ser um babaca com ele. — eu disse, olhando para o meu colo.

Aquilo era verdade. Já tinha admitido para mim mesmo que eu não era a melhor opção para o Gordon, mas admitir aquilo em voz alta não era fácil. Não é fácil admitir que você é um erro para alguém e eu estava ali tentando evitar dizer tudo aquilo, mas não tive escolha.

— Me explica essa história direito, Verne. — Oliver falou, ainda sério.

— Explicar mais o que, Oliver? É isso. Eu sei que você gosta dele e sei que ele também gosta de você. — eu disse de forma cansada. — Eu percebi que estava "competindo" num jogo no qual eu já tinha perdido há muito tempo.

Oliver ficou quieto, calado, até que de repente ele começou a cantar o trecho de uma música, eu acho.

— "If happy is her, I'm happy for you". AÍ MEU PAI!

— Quê? — foi tudo que eu consegui dizer.

— Stone Cold, Verne, não vai me dizer que nunca ouviu! — ele disse, começando a se exaltar.

— Não.

— Demi Lovato, Verne! Stone Cold da Demi! Tá tocando em todo lugar. É impossível que você não tenha escutado até agora. Em que mundo você vive? Mas, eu quis dizer que...

— Eu entendi o que você quis dizer, Oliver. E, é. É basicamente isso, eu acho.

— Então você deixou o Gordon pra ele ficar "comigo"?

— Sim.

Então Oliver se calou. E de repente um sorriso surgiu nos seus lábios. O sorriso logo se transformou em uma risada, que em poucos minutos era uma gargalhada.

E ele começou a rir tão alto, que as pessoas sentadas nas mesas ao redor começaram a reparar.

Não era só o Oliver que estava vermelho, eu também estava.

Aquela situação já tinha passado dos limites, então eu me levantei e fui em direção à porta.

— Não, Verne, espera!

Pude perceber que Oliver vinha atrás de mim.

— Espera. — ele disse colocando a mão em meu ombro.

Eu me afastei. Já tinha sido ruim ter que confessar em voz alta que eu sou um babaca. Tinha sido ruim falar do Gordon depois de todos esses dias tentando esquecê-lo. E agora eu ia ter que aturar uma criança rindo da minha cara? Não. Isso já era demais.

— Sério, não vai embora, por favor. Me desculpa eu estar rindo é que eu não estou acreditando nisso tudo que aconteceu, e que está acontecendo, nesse mal entendido, e nem que eu ganhei mais uma aposta, eu estou chocado!

— Mal entendido? E que aposta você ganhou?

— Posso te explicar tudo, se você ficar. — ele disse.

Eu não tinha muita escolha. Queria entender aquilo. Mesmo por que eu tinha quase certeza que Oliver estava falando sério, e ele não queria me sacanear. Sua cara e seu tom zombeteiro sumia quando ele queria falar de algo importante, e isso me fez lembrar do dia em que ele contou do cachorro dele. Eu não sabia o que ele queria dizer, mas ele não estava sacaneando.

— Tá.

— Ótimo — ele disse sorrindo enquanto voltava para a mesa. — Você vai querer comer o quê? A banana split daqui é muito boa como sobremesa, principalmente depois que você come aqueles hambúrgueres tradicionais. É um ótimo almoço.

— Não, eu não vou almoçar aqui. Vou comer em casa.

— Se eu fosse você almoçava, sim, porque temos muita coisa para falar.

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— Então foi tudo um plano?

— Sim — Oliver confirmou enquanto mergulhava uma batata frita no resto de sorvete que à poucos minutos atrás era uma banana split.

— Não acredito que você e o Gordon armaram um plano para saber se eu estava sendo sincero.

— Por que você tem que dar os méritos pro Gordon? Ele não fez nada além de ser ele mesmo. Eu que planejei e executei tudo, tá?

Já fazia quase duas horas que estávamos naquele restaurante. Acabei almoçando por lá mesmo e Oliver me contou tudo, desde o plano até a aposta que ele supostamente tinha ganhado.

E até que eu tinha entendido tudo. Não estava com raiva deles por causa disso. Tudo bem que não tinha sido uma coisa legal, e que eu fiz papel de otário competindo com o Oliver, mas eu não podia falar nada. Comparando o que o Gordon tinha feito com o que eu tinha feito para ele... Bom, eu não podia ficar chateado com nada.

— Mas Oliver, uma coisa eu ainda não entendi...

— O quê?

— Por que você ajudou o Gordon?

— Porque ele é meu amigo? — ele disse como se aquilo fosse óbvio.

— Não, Oliver, sério. Eu sei que você estava interessado no Gordon no início, então por que resolveu ajudá-lo? — eu disse estreitando os olhos.

Apesar de me contar tudo, Oliver não tinha me convencido que ele fez aquilo tudo de bom coração.

Não confiava nele.

— Olha. Tá. Você está certo. Eu estava interessado nele mesmo, não vou mentir. Quando eu o vi naquela festa, depois de ter bebido um pouco demais, eu queria muito ficar com ele. O Gordon é muito fofo e não teve como eu não me interessar. Começamos a sair e tudo... Só que eu percebi que ele não estava com segundas intenções. Aí ele me contou toda a história e eu pensei em ajudar, porque eu não queria nada sério com ele. Nunca quis. Sou muito novo pra namorar, não quero me envolver agora.

"Eu ia sair com ele algumas vezes, íamos nos pegar e só, cada um seguiria seu caminho ou continuaríamos amigos, dependia do que ele fosse preferir. Mas ele estava com problemas amorosos. Ele estava gostando de alguém, e eu pensei em ajudar.

— Por que caso não desse certo você ficaria com ele todinho pra você, não?

— Se eu quisesse mesmo ele, acha mesmo que eu estaria aqui tirando satisfação com você e depois te contando tudo que eu planejei pra juntar vocês dois?

Ele estava certo e a única coisa que eu pude fazer foi pedir desculpas.

— Sem problema. — Oliver falou — Só quero que agora acabe tudo bem.

— Depende. Se o Gordon quiser falar comigo.

— Ah, isso vai ser fácil. — e então Oliver olhou para o nada e falou — Se bem que, você sumiu por um bom tempo, né?

— Foi.

— Mas você não vai jogar todo o meu esforço pro alto, não, tá? Nem que você tente pela última vez.

— Eu vou falar com ele.

— Quando?

— Quando eu encontrá-lo. Não posso simplesmente bater na casa dele, porque provavelmente os pais dele devem estar em casa, e ele não vai querer sair comigo para conversarmos.

— Eu acho que — Oliver disse olhando para a tela do telefone que ele tinha acabado de desbloquear — às 15:00 de uma terça-feira, as pessoas ainda estarão trabalhando e certa irmã irá para casa de uma certa amiga estudar.

Olhei para Oliver e ele me olhou de volta e finalizou piscando.

Eu peguei minha carteira e comecei a tirar algumas notas para pagar o almoço.

— Ah não, deixa que eu pago. Eu 'to te devendo.

— Não, não precisa.

— Não sério. Pelas três sobremesas daquele dia.

— Aquilo foi proposital?

— Sim.

— Oliver!

— Desculpa, mas foi necessário.

Eu comecei a rir.

— Achou mesmo que eu como tanto doce?

— Sim.

— Por que todo mundo acha isso!?

— Talvez porque você parece uma criança e crianças adoram doces.

— Nossa, que legal! — Oliver disse com ar de deboche

— Ah — eu disse. Tinha algo que eu precisava falar antes de ir — Meus pêsames pelo seu cãozinho.

— Quê? — Oliver disse assustado.

— É, eu sinto muito. Mas você pode adotar outro ou comprar...

— Mas ... Meu cachorro não morreu.

— Não?

— Bom, até o momento que eu saí de casa ele estava muito bem.

— Mas eu pensei que ele tivesse morrido. Eu vi você chorando enquanto o Gordon te abraçava. Esse foi até o motivo pelo qual eu desisti de ir atrás do Gordon.

— Como assim? Tá falando do dia que você estava lá?

— Não, foi outro dia. Eu estava passando em frente à sua casa, porque é caminho pra casa do Gordon. Eu tinha combinando de ver um drama com ele, e estava indo lá. Sabia que se eu marcasse ele ia inventar alguma desculpa para não assistir ao filme, porque eu sei que ele fica bem sentimental, então resolvi aparecer lá de supresa. Quando eu passei pela sua casa percebi duas pessoas na porta se abraçando. E quando olhei melhor percebi que era o Gordon que estava te abraçando e você estava com o rosto todo vermelho, ou seja, você estava chorando e ele estava te abraçando e pensei que tinha sido por causa do seu cachorro. Aí eu vi que seria inútil eu "forçar" a barra com o Gordon, e voltei pra casa.

— Forçar a barra?

— É. Pode-se dizer que eu iria falar com ele naquele dia. Iria aproveitar o filme e resolver a mim vida com ele.

— Você ia se declarar!?

— Bem, é.

— E VOCÊ NÃO FEZ ISSO PORQUE ME VIU ABRAÇADO COM O GORDON PORQUE EU ESTAVA RINDO!? PUTA QUE PARIU, VERNE! Nunca mais abraço um cara comprometido.

— Eu achei que ele estava te consolando! Desculpa, tá!— eu disse, também gritando.

— Verne, por favor, agora que você já sabe de tudo, e eu também, acaba logo com isso. — ele disse colocando a mão sobre a minha.

— Pode deixar. — eu disse sorrindo e me levantando, indo em direção à porta.

Aquela outra tarde séria para resolver problemas.

•••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••

Parei meu carro, mas não tinha ido para a casa do Gordon.

Tinha que resolver outro assunto antes.

Bati na porta. Demorou um tempo até Kate abrir. Ela vestia uma camiseta velha dos Lakers, que ela tinha roubado de mim há alguns anos atrás.

— Mãe, Verne 'tá aqui! — ela gritou, sem nem olhar na minha cara.

— Oi, pra você também, Kate.

Minha tia veio correndo. Usava um vestido florido muito bonito. Era estranho olhar pra ela, como se minha mãe estivesse ali, bem à minha frente. Ela tinha menos fios brancos, na verdade. Também não tinha um marido abusivo pra lidar.

Sim, minha mãe era gêmea da mãe da Kate, e isso não é legal quando você é uma criança e pensa que sua mãe foi clonada toda vez que elas estavam juntas.

Ela já veio toda sorridente, me abraçando, bem diferente da filha. Me convidou pra entrar e comer alguns biscoitos que ela tinha acabado de fazer com a Kate, provavelmente para esperar a Leslie.

Ficamos Kate e eu sozinhos na cozinha, comendo biscoitos, enquanto ela ir arrumar alguma coisa no jardim. Eu amava aquela casa, tinha um ar feliz, diferente da minha.

— O que você quer? — Kate já foi cortando meus pensamentos

— Eu vim pedir desculpas.

Desde o dia que brigamos, eu não tinha falado com a Kate direito e não tinha pedido desculpa por ter sido grosso. Então pensei que não poderia resolver as coisas com o Gordon antes de resolver a situação com a minha própria prima.

— Não fui eu que apanhei aquele dia, Verne.

— Já fiz as pazes com o Gordon. Eu acho.

— E então por que não fala mais com ele?

Aquela pergunta fez meu coração acelerar. Talvez porque eu não soubesse a resposta, talvez porque eu soubesse até de mais.

— A gente 'tava saindo há uns meses, mas... — Comecei a tamborilar os dedos na mesa — Eu meio que sumi e ...

Ela parou meus dedos com a mão.

— 'Tá bom, foda-se! — Já estava cansado de esconder as coisas, eu precisava falar — Kate, eu sou gay! — disse baixo com medo de que alguém ouvisse e de forma rápida.

Parecia mais que eu estava falando um segredo do FBI do que um segredo meu.

Alguns segundos constrangedores de silêncio se passaram até ela começar a rir baixinho. A risada foi aumentando até se tornar uma gargalhada monstruosa.

Ela não poderia sair com o Oliver, porque se os dois resolvessem rir, seria uma desgraça.

— Eu sabia! — E bateu na mesa com a mão que estava livre

Aquela situação estava bem mais estranha do que eu pensei que seria, então comecei a rir também. De alguma forma, ela conseguiu me abraçar, mesmo tendo a mesa como obstáculo.

— Senti sua falta. — sussurrou, enquanto passava a mão no cabelo que crescia na minha nuca.

— Quem vê até pensa.

— Idiota.

Nos levantamos e eu ajudei Kate a lavar a louça e guardar os biscoitos que sobraram. Contei pra ela o que tinha acontecido entre Gordon, Oliver e eu. Acabou rolando uma leve discussão quando ela descobriu que eu tinha sumido da vida dele depois de tudo.

Ela sabia de algumas coisas, porque a Leslie comentou mas elas não tinham as informações completas. Felizmente, provavelmente por via de um milagre, consegui convencer ela a mudar de ideia e acreditar em mim, o que sempre foi bem difícil de fazer.

Fui dar tchau pra minha tia, que estava colhendo umas margaridas selvagens, que sempre existiram entre as brechinhas da calçada, outro motivo pra eu amar aquela casa. Era literalmente do outro lado da rua, mas tinha algo de mágico lá.

Quando eu era criança, eu sempre ia pra lá no verão. Passávamos a manhã inteira brincando numa piscina de plástico que já era velha na época. Depois, ia pra casa tomar banho e almoçar. Kate sempre aparecia antes que eu tivesse terminado o almoço. Ela nunca tomava banho antes de comer e sempre aparecia com uma camiseta por cima do biquíni molhado. E uns shorts que iam até o joelho. Estava sempre descalça. A gente ia de volta pro quintal e ficávamos brincando num trampolim até começar a escurecer. Aí era hora de tocar campainhas e sair correndo. E, depois, jogar basquete na garagem da minha casa. Eu sempre ganhava, devia ser medo do meu pai. A cesta ainda estava lá, inútil, porque eu já não tinha mais com quem jogar.

Kate me abraçou.

— Vai atrás dele. Se você conseguiu beijar a Lauren na quinta série, você consegue ele de volta.

— Que Lauren?

— Porra, Verne, 'tá parecendo o Charlie! — e riu — Escuta, você é mesmo gay? — falou baixo, pra minha tia não escutar

— Eu não sei ainda, acho que sim. Eu sei que sou gordonsexual. Eu sou tarado por Gordons.

Rimos mais uma vez da besteira que eu tinha falado.

— Boa sorte, Senhor Tarado Por Gordons.

Ela me abraçou e eu fui pro carro, pronto para mais uma missão impossível.

••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••

Toquei a campainha e pude ouvir seus passos.

Gordon abriu a porta e se deparou comigo. Primeiro, a cara dele foi de espanto, depois foi algo parecido com "ele está aqui mesmo?" misturado com "que merda".

— Oi — eu disse.

— Aconteceu alguma coisa com a Kate ou com o Oliver?

— Não— eu disse não entendendo o motivo da pergunta.

— Então não vejo motivo para você estar aqui. — ele disse ameaçando/já fechando a porta.

— Mas eu vejo. — eu disse colocando a mão na porta. — Eu tenho que falar com você, e você precisa me ouvir.

— Olha, Verne, eu acho que já vimos essa história antes não? E você sabe como acabou.

— É, mas hoje começou diferente. Eu toquei a campainha. — eu disse com um sorriso no rosto e percebendo o tamanho da merda que eu tinha acabado de falar.

Gordon só me olhou sério e empurrou a porta.

Eu coloquei meu pé, impedindo que ela se fechasse e esmagando meus dedos simultaneamente.

— Aí! — eu disse — Por favor Gordon, te prometo que esta pode ser a última vez que eu venho te incomodar.

Ele parou um pouco, pensativo. Não perguntou se o pé doía, e nem pediu desculpas por esmagar meus dedos. Então de repente ele fechou os olhos e respirou profundamente.

— Entra, Verne.

E eu entrei.

Bom, pelo menos eu já estava lá dentro, agora só faltava fazer ele me ouvir.

Ele foi caminhando em direção ao quarto, e quando estávamos na metade do corredor, Gordon virou para mim.

— Já volto. Espera aqui um minutinho?

E voltou para a sala, antes que eu respondesse.

Não entendi o que ele queria fazer na sala, até ouvir uma certa voz.

— Gordon, então fecha a porta pra mim? Eu vou lá na casa da Kate, avisa pra mamãe se ela perguntar.

— Tá, pode deixar, Less.

— Beijos, Gordo.

— Beijo. — Gordon disse enquanto abria a porta

— Gordon! — pude ouvir Leslie falando, com ar desconfiado — de quem é esse carro estacionando aqui na entrada da nossa casa?

— Carro? Ah, deve ser do vizinho.

— Não, esse carro não é do vizinho... Ei! Esse carro é do Verne!

Andei pelo corredor até achar um lugar estratégico em que eu pudesse ver e ouvir a conversa sem que eles percebessem.

— Não é, não.

— É sim, Gordon Lewis! Eu conheço o carro dele, tá? Mas você não me disse que ele tinha sumido? Que ele estava sem falar com você já fazia um mês!? E agora ele tá aqui!?!

— Leslie...

— Aí meu Deus! Vocês vão se reconciliar!? Você vão se pegar!?

— Leslie!

— Tá estressadinho, desculpa! — ela disse colocando as mãos para cima. — É só que como eu estou saindo agora, se você quiser eu passo numa farmácia pra você e...

— Leslie! — Gordon estava começando a ficar irritado de verdade.

Leslie riu, enquanto levava suas mãos ao rosto do Gordon puxando sua cabeça para baixo para poder beijar sua testa.

Não sabia ao certo se nós éramos altos ou se as meninas que eram baixas de mais, porque Leslie ainda precisou ficar na ponta dos pés.

— Tchau, chato. E TCHAU, VERNE — ela gritou, acenando e olhando diretamente pra mim, e eu pude perceber que meu esconderijo não era tão estratégico assim.

Gordon olhou rapidamente para saber se ela estava sacaneando mesmo ele, ou não e quando me viu ali, suas bochechas coraram mais.

Less saiu, e Gordon fechou a porta.

— Er... Me desculpa por isso.

— Ah, não, sem problema. — eu disse, meio envergonhado também.

— Bom, é ... — Gordon disse, passando por mim e indo em direção ao quarto.

Eu o segui.

— Então, você disse que... — Gordon começou a dizer assim que eu entrei no quarto também, mas foi logo interrompido pelo telefone que começou a tocar.

— Mas que merda! — ele disse pegando o telefone, e levantando um dedo pedindo que eu esperasse um minuto.

Saiu do quarto logo em seguida enquanto dizia "alô" para a pessoa do outro lado da linha.

E lá estava eu no quarto do Gordon. Era estranho pensar que já fazia um mês desde o dia que ele me assustou. Tinha sido um dia legal, principalmente pelo jeito em que terminou. Eu realmente tinha esperanças que as coisas iriam acabar bem com o Gordon naquele dia. Agora? Já não tinha tanta certeza.

Olhei para um mural de fotos que ficava em cima de sua escrivaninha.

Tinha vários fotos do Gordon com a Less, principalmente de quando eles eram pequenos.

Sorri vendo aquelas imagens até que uma me chamou a atenção.

Puxei do mural para olhar mais de perto.

Era um versão mini do Gordon e a foto parecia que tinha sido tirado no mesmo dia daquela que ele me mostrou no piquenique.

Gordon estava com a mesma blusa, e o mesmo corte de cabelo. Sua pele também estava bronzeada.

Sim, as duas fotos tinham sido tiradas no mesmo dia. A diferença é que nessa a cara do Gordon cobria todo o papel, provavelmente ele tinha feito aquilo de brincadeira, aparecendo na frente na hora de tirar a foto, coisa de criança.

Só que nesta imagem eu pude perceber algo que eu não tinha reparado antes. Gordon tinha sardas. E não eram poucas, ele tinha muitas, como uma pequena constelação cobrindo suas bochechas e seu nariz.

— Oi, Verne, desculpa. É ... — ele parou de falar quando me viu com a foto na mão.

— Ah, desculpa, Gordon. Eu só estava olhando e você tinha sardas!

— Ah, é, eu tinha ... — ele disse sorrindo.

— Não sabia que você tinha sardas. Você tinha muitas! Não sabia que elas sumiam. Pra mim, as pessoas que tinha sardas continuam com elas até o fim.

— Sim. Mas tem produtos meio ácidos que tiram.

— Ah é?

— É

— E você que quis tirar?

— Não. Eu tinha muitas espinhas, como você pode perceber minha puberdade foi algo fantástico, porque eu engordei, minha voz engrossou, e ainda tinha espinha como todo bom e fiel adolescente. E aí eu fui num médico e ele disse que tinha um tratamento que eu poderia fazer para diminuir a quantidade de espinha, só que como ele era muito ácido e na fórmula tinha algo com limão, o doutor disse que era bem provável que algumas sardas sumissem, ou que quase todas sumissem.

"Antes as sardas do que ficar com as espinhas. Aí foi isso. Elas sumiram. Mas se você olhar bem de perto ainda dá pra ver algumas.

— Ah. — eu disse, olhando para a foto mais uma fez, e indo colocá-la no mural.

— Ah, pode deixar ela aí em cima.

— Tá. — e então eu coloquei o mini Gordon delicadamente sobre a mesa.

— Então, Verne — Gordon voltou a ficar sério. — Por que você está aqui?

— Porque eu acho que eu devo explicar o mal entendido que aconteceu.

— Que mal entendido? Para mim está tudo bem claro.

— Não, Gordon, não está. Eu sei que você deve estar com raiva de mim porque eu desapareço e de repente eu reapareço tocando a campainha da sua casa, repetindo a mesma cena de uns meses atrás e...

— Eu não estou com raiva.

— Não?

— Não. Não tenho raiva de você.

— Ah é? Então, você não está bravo comigo?

— Verne, sinceramente? Não sei nem mais o que eu sinto por você. — ele disse.

E aquilo doeu.

— Eu não sei o que é pior. Ouvir você falando isso ou saber que eu sou o único culpado por tudo isso. — eu falei e olhei diretamente para ele. Queria mostrar que eu estava sendo sincero e não queria mais mentiras e ambiguidades.

— Não estou conseguindo entender ainda, veio aqui para falar o óbvio?

— Não, vim para mostrar que eu finalmente enxerguei o óbvio, tá!

— Olha, Verne, eu não tenho tempo para isso, daqui a pouco o Oliver vai vir aqui e...

— Não adianta usar a desculpa do Oliver porque eu já sei do plano de vocês. — eu disse.

Sabia que ele estava mentindo para me tirar dali, mas eu não iria sair antes de ter minha resposta.

— Plano? Que plano? — Gordon disse tentando não demostrar o medo de eu ter descoberto tudo.

— Eu sei de tudo, até da aposta. Oliver me contou. — e conforme eu dizia, percebia que Gordon não estava mais tão autoconfiante. Estava conseguindo chegar onde queria.

— O Oli? Olha, Verne, pára de inventar ...

— É sério, ele me explicou que você queria ter certeza sobre mim, e que ele armou aquele plano lá.

— Por que o Oliver foi falar isso com você? — Gordon disse, me olhando desconfiado.

— Ele foi tirar satisfação comigo por ter sumido da sua vida.

— Ele foi tirar satisfação!? Puta que pariu, eu vou matar o Oliver!

— Não mata ele não, porque se não fosse por isso, eu não estaria aqui agora.

— Como assim?

Então eu contei tudo. Tudo que tinha acontecido naquela longa tarde e o Gordon me ouviu, quieto, sem me interromper em nenhum minuto e sem demonstrar reações. Odiava quando as pessoas se camuflavam e não deixavam transparecer as emoções.

— E agora eu estou aqui por que eu quero saber se ainda tenho uma chance, depois de tantas que eu já tive.

— Você se afastou porque achou que eu deveria ficar com o Oliver? — Gordon disse cauteloso.

— Sim.

O silêncio constrangedor se instaurou novamente, e eu me vi obrigado a queblá-lo.

— Gordon, quando eu cheguei eu disse que essa seria a última vez que eu iria te incomodar e que isso só dependia de você, e é verdade. Só quero saber se ainda posso ter uma chance ou se de fato você não sabe o que sente por mim.

— Verne, se eu dissesse que não, o que você faria?

— Eu? Bom, eu sumiria da sua vida, que nem eu fiz nesses últimos dias, mas dessa vez não seria só por um mês. — eu disse e depois de uma pausa continuei: — Mas, isso não vai acontecer.

— Não vai?

— Não. — eu disse abrindo um pequeno sorriso zombeteiro.

— Como você pode ter certeza disso?

— Olha, Gordon, eu sei que eu não sou um aluno exemplar, longe disso, mas uma coisa que eu aprendi bem foi tempos verbais, e eu sei quando uma pessoa usa um verbo pra expressar hipótese. "Dissesse" ... — eu disse e pisquei.

—Mesmo sendo uma hipótese, ainda há uma probabilidade de acontecer.— ele disse sério.

— E você acha mesmo que vai? — eu disse

Ele ficou meio atônito, mas logo um sorriso surgiu em seus lábios. Eu não conseguia acreditar que estava quase conseguindo.

— Mas dessa vez com algumas condições.

— Como assim?

— Sem você quebrando a minha janela, é a primeira.

Eu ri, não aguentei.

— Okay. — eu disse me aproximando.

— Sem você me dando socos. — ele disse contando nos dedos.

— Tá, fácil também. — disse, me aproximando mais.

— Sem se esfregar em piranhas.

— Ih, isso já vai ser um pouco difícil.— eu disse rindo e Gordon riu também, até que paramos.

Mas de repente me vi obrigado a sorrir de novo.

— Por que você está sorrindo? —Gordon perguntou

— Eu consigo ver suas sardas agora.