Verdade Ou Pesadelo

31 De volta à Morgantown


Notas iniciais
Desculpem a demora, meus amores ><' Sério, eu não sei o que aconteceu comigo, eu comecei a escrever esse cap no dia que eu postei o 30, mas de repente minha criatividade resolveu se mudar e nao me deixou o endereço e nem avisou pra onde ia, aí tive que esperar a boa vontade dela de voltar... Ok, agora sem brincadeira, eu fiquei com um bloqueio criativo monstro, e esse é o motivo da demora ><' Enfim, esse deu trabalho pra escrever, espero que vocês gostem ^^' Enjoy:

Andy’s POV



Finalmente, o momento que eu venho ansiando por tantos anos, o motivo de eu ter entrado nessa com Scout: hora de fazer o ritual pra acabar com a Mary. Eu finalmente estarei livre daquele maldito cemitério! E de quebra, terei uma pequena diversão com a minha anjinha ruiva depois que tudo isso acabar.



Às vezes me pergunto se eu a ajudei durante todo esse tempo simplesmente por causa do nosso contrato. Nem eu mesmo sei mais se eu realmente só estou interessado em fazer coisas num colchão com ela. Talvez, inicialmente o contrato fosse o único motivo de eu a estar ajudando, mas me sinto diferente quanto a isso agora, não a vejo mais do mesmo jeito que antes.

Naquela hora, no box do banheiro, eu realmente me preocupei com ela, me preocupei se ela sentiria dor ou coisa do tipo. O que é isso? Não sinto algo assim desde que... Bem, desde que me tornei o que sou hoje.

Um espírito gostar de uma humana? Isso é impossível! Ou será que não é? Existe alguma chance de eu estar me apaixonando por uma garota humana? Não, mas é claro que não. Isso nunca aconteceu antes, por que aconteceria agora?

“Talvez porque você nunca deixou qualquer um que se aproximasse de você viver, exceto ela.”

Quieta, consciência!

De qualquer forma, isso não importa agora. Ainda precisamos das velas de sete dias pra fazer o ritual, mas isso não será problema. Por enquanto precisamos nos concentrar em sair do orfanato.

– Então ruiva, como saímos daqui? – perguntei.

– Não me pergunte, eu entrei pelo portão da frente, o penetra aqui é você – respondeu ela. – Por onde você entrou?

– Na verdade, eu usei o que a ciência denomina como “teletransporte” hoje em dia pra conseguir entrar no orfanato. Eu não usei nenhuma porta ou passagem pra entrar, não faço a menor ideia de como podemos sair daqui sem sermos percebidos.

– Você não pode usar esse teletransporte ou sei lá o quê de novo?

– Claro que posso, mas e você? Vai fazer o que? Dizer "Abre-te, Sésamo!" em frente ao portão e rezar pra funcionar?

– Ou isso, ou você poderia me levar com você, não acha, animal pulguento?

– Fora de cogitação, só faria isso se fosse absolutamente necessário.

– E eu posso saber por quê?

– Te explico depois, por enquanto temos que nos concentrar em achar um jeito de sair daqui.

– Genial.

– Não esquenta, ainda temos a minha mente brilhante pra nos ajudar a pensar em algo.

– Isso foi pra me fazer sentir melhor?

– Quer ouvir minha idéia ou não? – perguntei, porém Scout me olhava fixamente sem dizer uma palavra.

– Meu silêncio é a sua deixa – disse ela.

– Vem comigo – falei, indo em direção ao portão principal do orfanato e sendo seguido por Scout.

Subi em uma das grades deste para conseguir enxergar dentro da cabine da portaria. Havia um velho sentado em frente a uma mesa e dormindo, que deduzi ser o porteiro. Perfeito, ele não veria nada.

Desci da grade do porão e me dirigi à porta da cabine.

– O que você vai fazer?! – me perguntou Scout.

– Sshh – fiz sinal para que ela ficasse quieta e abri delicadamente a porta, adentrando a cabine.

Verifiquei se o velho continuava dormindo e pus-me a olhar em volta, até que encontrei o que procurava. Caminhei até uma das paredes, de onde pendia um gancho que segurava um molho de chaves.

Peguei as chaves tentando fazer o menor número possível de ruídos e deixei a cabine.

– Aqui está nossa salvação – disse eu à Scout, levantando o molho de chaves.

– Essa é sua idéia brilhante? Roubar as chaves do porteiro? Mas que ótimo plano! O que vem depois? Abrir o portão principal como se ninguém fosse nos notar? Ou como se ele não fosse fazer um enorme barulho?

– Não, esperteza em forma de anjo ruivo. Nos fundos do orfanato tem uma saída por onde tiram o lixo, vamos sair por lá, não deve ser tão barulhenta como o portão principal – disse, já me dirigindo aos fundos do terreno.

Depois de algumas tentativas acertei a chave que abria o pequeno portão individual que havia no muro que limitava o território do orfanato.

– Você não é tão burro quanto eu pensei que fosse – disse ela, saindo atrás de mim.

– Por favor, Inteligência é meu nome do meio – me gabei.

– Vamos logo pegar as velas, Einstein.

Perto dali, achamos um pequeno bazar aberto. Scout entrou para comprar as velas e eu fiquei esperando-a do lado de fora.

Me escorei na parede texturizada e coloquei minha mente para trabalhar. Eu precisava pensar num jeito de convencê-la a fazer aquilo, era fundamental para que o ritual funcionasse. Mas como eu iria convence-la a aceitar uma coisa daquelas? Pensa, Campbell... Pensa!

Pera, "Pensa, Cambell"? Nem eu mesmo sei se quero convencê-la a fazer algo tão perigoso.

Mas não tem jeito, né? É de suma importância.

Mas e se algo der errado?

Não, ela é forte, ela consegue.

Ou não?

Ou talvez-

– Consegui as velas – danou-se. Vou ter que me virar nos 30.

– Que rápido – tentei desconversar enquanto pensava num jeito de contar a ela.

– Não é como se fosse ter muita gente num bazar a essas horas da madrugada – disse ela, colocando a mochila no chão e guardando três caixinhas nesta, que eu presumi estarem embalando as velas, com os outros ingredientes do ritual.

– Uhm, sabe ruiva, hrm... – pigarreei – Falta uma coisa pra gente poder fazer o ritual.

– Como assim? – perguntou ela, levantando-se. – Já pegamos tudo, a adaga, as pedras, as velas, um pertence da Mary...

– Eu posso ter esquecido de mencionar um ingrediente de suma importância pro ritual dar certo...

– Acho que eu vou te matar, Andy.

– Vai matar quem já está morto?

– Eu ainda tenho o punhal de prata ao alcance das mãos – ela ameaçou sacar o punhal preso em sua calça, clara e obviamente blefando, mas preferi precaver.

– Êpa, êpa, não sejamos precipitados, sim? – a interrompi antes que pudesse pega-lo. – Você não me deixou terminar. O último ingrediente está mais perto de você do que você imagina, ruiva. Mas mesmo estando tão perto, é o mais difícil de conseguir. Ele está em você.

– Como assim? O que está em mim? – perguntou ela, franzindo o cenho.

– Daqui em diante, exijo remuneração por todas as aulas que eu te der. Começando agora, aqui vai uma aula de história: Os astecas tinham vários deuses, para os quais faziam diversos tipos de rituais de sacrifício em troca de uma boa colheita ou simplesmente de suas bênçãos. Eram como tributos. Um dos deuses mais homenageados era Xólotl, o deus da tempestade e dos espíritos. Os astecas levavam oferendas a esse deus em tempos de seca para que ele regasse a terra. Além de controlar a tempestade, Xólotl também era responsável por guiar as almas dos mortos até o outro lado para que cumprissem a travessia, e a zelar pelas almas que continuassem nesse plano.

– Encurte a história, estamos ficando sem tempo. Onde você quer chegar com tudo isso? – ela me cortou.

– Se quisermos que esse ritual funcione, precisaremos de Xólotl.

– Você... Você tá brincando, não tá? – não precisei dizer coisa alguma para que ela percebesse que eu falava sério. – Sério, Andy? Invocar um deus asteca? E posso saber em que isso será útil?

– Você não achou que a Mary ia simplesmente se jogar na jaula do tigre, né? Ela não vai correr esse risco, no final das contas ela sabe que esse ritual pode vencê-la. Precisamos atraí-la para a armadilha, e o único que pode fazer isso é Xólotl. Ele sabe exatamente onde cada alma penada que ainda não descansou em paz está vagando nesse exato momento, no mundo todo. Se tem alguém que pode localizar e trazer Mary até nós, é ele.

– Mas rituais como esse exigem sacrifícios, não? Oferendas aos deuses. Ele não vai trazê-la até aqui de bom grado.

– Para nossa sorte, Xólotl não é lá muito exigente. Porém, ele gosta de se divertir com aqueles que o chamam. E acredite, não estou falando num bom sentido.

– À propósito, o que toda essa ladainha tem a ver com o último ingrediente para o ritual? O que é, afinal?

– O último ingrediente para o ritual é a oferenda que faremos a Xólotl. Nós o daremos a ele em troca da Mary.

– E o que seria?

– Suas lembranças.Ou melhor, as lembranças de Dolores.

– Vamos pular pra parte onde você tira todas as minhas dúvidas e me esclarece tudo perfeitamente, sim?

– As memórias da Dolores estão adormecidas em você, bem no fundo do seu subconsciente. Quando eu disse que Xólotl gosta de se divertir com aqueles que o chamam, eu me referi a uma tortura psicológica. Ele gosta de brincar com a mente daqueles que o chamam. Os astecas ofereciam a ele objetos de valores sentimentais extremamente altos; todas as suas lembranças boas restando apenas as ruins; entre outros tributos. Não queremos que você fique apenas com as suas lembranças ruins, isso poderia te levar ao suicídio, então está fora de cogitação oferecer a ele suas melhores lembranças. Todas as suas coisas ficaram no orfanato, inclusive tudo pelo qual você tinha algum afeto. Mas se há algo que cativa Xólotl, são memórias sádicas e mórbidas. Dessas você está cheia, só que adormecidas.

– Basicamente ele iria retira-las de mim e leva-las com ele?

– Exatamente.

– E onde está o sacrifício nisso tudo? Eu seria privada de possíveis futuros sonhos com aquelas imagens horríveis e perturbadoras! Eu deixo que ele as tire de mim sem nem resistir.

– Acontece que quando ele fizer isso, você vai ver todas as lembranças da Dolores que estão adormecidas no seu subconsciente. Isso significa ver cada uma das crueldades que ela fez durante a vida, e não só com a Mary, mas com qualquer outra pessoa. Significa ver suas memórias mais tristes, as mais sombrias, todas. E, bom, digamos que Dolores não era uma daquelas pessoas recheadas de memórias contentes.

– Depois de tudo o que eu já vi, ouvi e presenciei, eu não acho que isso vá me fazer mal.

– Você não está me entendendo, ruiva. Se você acha que as lembranças que teve foram perturbadoras, é porque você não se lembra das outras. São lembranças com alto teor de sadismo, crueldade, coisas que você nunca poderia imaginar. Por natureza, Dolores já tinha tendência à psicopatia. O ódio desencadeado pela morte de Anita foi apenas o responsável por despertar a psicopata escondida dentro de si. Scout, essas memórias, todas juntas de uma vez, elas vão te destruir. Vão destruir sua mente, junto com a sua sanidade. Você verá coisas tão fortes que suas lembranças boas não serão suficientes para ameniza-las, é capaz até que elas se percam.

Scout permanecia calada, assustada e pensativa. E eu, por algum motivo, preocupado com ela. Droga, eu não podia deixar ela virar uma bagunça ambulante e sair por aí babando pelo chão, ela viraria um vegetal se ela visse todas aquelas memórias de uma única vez, ela seria massacrada por dentro.

– Eu serei obrigada a ir com você depois que tudo acabar. Quer dizer, minha alma irá com você. As consequências só atingiriam meu corpo físico, então eu acho que não teria problema...

– Mas é claro que teria! – exaltei-me, para a surpresa de Scout. Não consegui me controlar, eu não queria pensar na possibilidade de vê-la debilitada da maneira que eu sabia que ela ficaria, eu realmente não queria, nem que por pouco tempo. Droga, Campbell, pare de agir como se se importasse!

“É tão difícil assim perceber que você se importa de verdade? Ou só é difícil de admitir que se apaixonou por uma humana?”

Te odeio, consciência! E pela última vez, fique quieta!

– Quando eu for com você, não vai ser como se eu tivesse morrido? Quer dizer, já que na verdade é minha versão ectoplasmática que vai com você, meu corpo vai continuar aqui e meu espírito irá com você sabe-se lá pra onde. Então por que não? Já que eu não sentirei qualquer efeito que isso venha a causar por muito tempo, não vejo problema algum.

– Ruiva, presta atenção: – disse, segurando o rosto de Scout com as duas mãos para fazê-la me olhar nos olhos – ele vai entrar na sua mente, o que significa que não causará apenas danos físicos. Se seu psicológico não for extremamente forte, isso pode causar danos permanentes.

– Se a essa altura do campeonato meu psicológico não for blindado, eu quero que um raio me atinja na cabeça agora mesmo – respondeu ela, confiante. – Andy, relaxa. Você não confia em mim? – ela perguntou, colocando as mãos sobre as minhas e segurando-as. Aquele toque quente me causava um sentimento estranho no peito. De algum jeito, o calor das mãos de Scout em minhas mãos frias me dava mais certeza de que eu não queria que nada de mal acontecesse a ela.

– Não é isso, é que... – eu não queria que ela soubesse, pelo menos não agora, não me mostraria frágil num momento desses. Definitivamente, ela só saberia na hora certa.

– É que...? – ela incitou uma continuação, porém eu continuei calado. – Não importa, eu já me decidi – ela tirou minhas mãos de seu rosto e abaixou o olhar. – Darei as memórias da Dolores como oferenda à Xólotl para que ele traga Mary até nós. Nada do que você diga vai me fazer mudar de idéia, e não me importo de ter mais uma cicatriz interna, já tenho uma coleção delas, uma ou duas a mais não farão muita diferença – Scout abaixou-se para pegar a mochila e jogou-a nos ombros, pronta para seguir caminho.

– Mas- – tentei intervir.

– Estamos perdendo tempo – ela me interrompeu e passou reto por mim, indo em direção à rota que seguiríamos para chegar ao cemitério Morgantown. – Vai ficar aí a noite toda ou vai vir comigo?

– Eu preferia ficar aqui a noite toda – do que ver você se matar, completei mentalmente.

– Você é quem sabe, se quer perder a chance de se divertir com sua tão preciosa anjinha ruiva depois que tudo acabar... – ela me provocou, e eu tive que me render... Não sou de ferro, porra!

– Ah, ruiva, você não sabe com quem está mexendo – ameacei, seguindo-a e vendo um sorriso de satisfação disfarçado brotar em seus lábios finos e rosados.

– Nem você, meu querido – ela sorriu um sorriso que eu não consegui decifrar. – Ah, Deus, quase me esqueci! – Scout parou de súbito, levando uma das mãos à testa.

– Se esqueceu de quê? – perguntei, parando bem a tempo de quase trombar com ela.

– Não estamos muito longe das ruas, casas e comércios perto da floresta. Tem alguma floricultura por aqui? – perguntou ela, desviando da rota.

– Aberta a essas horas? Sem chance. Pra que cargas d’água você quer flores?!

– Não enche! – ela revirou os olhos. – Estamos numa floresta, deve haver flores por aqui – Scout começou a se afastar e em pouco tempo já estava consideravelmente longe.

– Aonde você vai, ruiva?! – gritei.

– Me espera aqui, eu volto logo! – ela gritou de volta.

– Eu mereço – murmurei.



–---------



Passaram-se quase 10 minutos e eu cogitei ir atrás daquela garota, porém justamente quando ia segui-la a vi voltando pelo mesmo caminho no qual desaparecera de minha vista, segurando flores de diversas espécies e cores em forma de buquê.



– Eu ainda nem comprei nossas alianças e você já providenciou o buquê?

– E quem disse que essas flores são pra você? – ouch. – São pra Taylor e pros meus pais. O delegado William disse que os corpos foram enterrados no cemitério Morgantown, e eu ainda não tive chance de ir visita-los, e não compareci ao enterro de nenhum deles, e, bom... Antes de fazer o ritual e ir embora com você, eu queria vê-los uma última vez, mesmo que na verdade isso signifique ver uma lápide com seus nomes gravados e saber que tudo o que posso fazer é deixar algumas flores como lembrança... – dizia ela, fitando o buquê com um sorriso triste enquanto algumas lágrimas cintilantes brotavam em seus olhos, lágrimas que ela nitidamente tentava segurar. Vê-la assim me deixava mal. Não, péssimo. Na verdade, me destruía por dentro. Instintivamente, ergui uma das mãos em direção ao rosto de Scout, que ainda encarava o buquê, porém não tive coragem de tocá-lo, parando a centímetros de distância de suas bochechas e recuando rapidamente. O que diabos eu estava fazendo?! Antes que eu tivesse chance de dizer qualquer coisa para conforta-la, ela ergueu o olhar, engoliu o choro e secou o canto dos olhos com a manga da blusa cinza de pano fino que ela vestia. – É melhor andarmos logo, antes que alguém dê minha falta no orfanato e perceba que fugi.

Assenti com a cabeça e retomamos o caminho.



–----------



Já fazia meia hora que estávamos andando. O cemitério era razoavelmente longe do orfanato. Apesar de os dois estarem localizados na floresta, o orfanato ficava nos limites desta, perto da cidade, enquanto o cemitério era encontrado numa parte mais escondida e interna.



Não demorou muito para que avistássemos os altos e mal cuidados muros cinzas do cemitério. Nos aproximamos do grande portão preto de grades e Scout tirou a mochila das costas pra livrar-se do peso, largando-a no chão e alongando os ombros.

– Como vamos entrar? – disse ela, encarando os altos portões do cemitério. Me pus a andar de um lado para o outro, tentando pensar em algo. – Vamos lá, a casa é sua, você tem que saber um jeito de entrar e-

– Sshh, não atrapalhe a concentração do mestre – eu a cortei, fazendo sinal com a mão para que ela parasse.

– Mas eu-

– Sssshhh! – repeti, mais alto e demorado dessa vez, e ela revirou os olhos e cruzou os braços, me encarando enquanto eu ainda andava pra lá e pra cá.

Vamos lá, cérebro que eu não tenho, ponha-se a funcionar.

– Por que você não nos teletransporta pra dentro logo de uma vez? – disse ela, impaciente.

– Não vou usar teletransporte com você – respondi, sem desviar o olhar para ela. Eu não precisava olhar para ela pra saber que ela estava me fuzilando com os olhos naquele exato momento.

– Por que você tem que ser tão- ANDY, OLHA POR ONDE ANDA!

Não tive tempo de raciocinar, quando dei por mim já havia tropeçado na mochila que Scout havia deixado no caminho e fundido minha cara com o chão.

– E qual é o gosto do chão? – perguntou ela, irônica.

– Como você é comediante – respondi, levantando e massageando o nariz para ter certeza de que ele ainda estava no lugar. – Parece que não tem jeito mesmo, a solução é usar teletransporte – me rendi.

– Finalmente! – disse Scout, pegando a mochila do chão e colocando-a de volta nas costas. – Faça sua mágica e nos coloque do lado de dentro.

– Isso é uma ordem?

– Vai logo!

– Tá, tá, prematura – coloquei uma mão em um de seus ombros e, na linguagem dela, “fiz minha mágica”. Num piscar de olhos estávamos do outro lado dos muros e do portão.

– Me dá um minuto? – pediu ela.

– Claro – normalmente eu diria “seja rápida” ou “não temos um minuto”, mas se tinha algo que eu podia fazer para ajuda-la era deixar que ela se despedisse em paz.

Scout, tudo isso o que eu sinto, todas essas sensações que você me causa, será... Será que eu realmente me apaixonei por você?



Scout’s POV



Ao longe avistei duas lápides bem próximas, uma do lado da outra. Me aproximei destas e meu coração se despedaçou ao ler os nomes gravados nas pedras.



“Melinda Carter, 19 de Julho de 1970 – 14 de Março de 2012”



“Richard Carter, 09 de Maio 1969 – 5 de Abril de 2012”



Ajoelhei-me em frente às lápides e selecionei algumas flores que depositei em frente às mesmas.



– Oi mãe, oi pai... Eu devo parecer ter enlouquecido de vez conversando com duas pedras, mas se podem me ouvir, seja lá onde estiverem, eu queria que soubessem... – fiz uma pausa tentando não chorar, porém uma maldita lágrima decidiu emancipar-se e rolar por meu rosto sem sequer pedir permissão, seguida de outras. – Eu queria que soubessem que eu sinto muita falta de vocês. Queria que estivessem aqui pra me confortar e espantar meus medos, assim como espantavam os monstros de debaixo da cama e de dentro do armário quando eu era pequena. Sinto falta do abraço terno de vocês... Pode ser um pouco tarde pra me lamentar, mas eu sou a culpada de tudo. Eu trouxe isso a vocês, e à Taylor, à Amanda, Lorie, eu sou como uma maldição que carrega desgraça pra todo lugar. Eu devia ter contado a vocês... Mas eu vou consertar tudo. Vou tirar vocês de onde quer que aquela garota os esteja aprisionando. Se puderem me perdoar, eu peço que o façam, mas vou entender caso não consigam. Eu não os culpo pelo desgosto que devem sentir de sua própria filha. Sou quase uma assassina que matou os próprios pais... Sei que deixei vocês preocupados me afastando tanto e saindo de casa, mas tudo o que eu fiz foi por vocês. Peço desculpas por ter falhado e ter feito com que tudo isso tenha sido em vão... Eu trouxe algo – abri um bolso lateral da mochila e tirei de lá a foto do parque de diversões que antes estava no porta retratos. – Não importa o que aconteça, ainda seremos a super-família, se lembram? – sorri tristemente e sequei as lágrimas. – Eu, a mulher gato... O papai, o super-man... A mamãe, a mulher maravilha... E mesmo que não sejamos uma família grande, é mais que suficiente... – retirei um pouco de terra do solo e coloquei a foto na cavidade que havia feito, logo em seguida recolocando a terra e cobrindo a imagem. – Pra que se lembrem de mim. Estaremos sempre juntos, não importa o quão longe estivermos uns dos outros. Eu amo vocês.

Despedi-me dos túmulos e segui para uma lápide não muito longe. Agachei-me, depositei o restante das flores em frente à pedra, e só então levantei o olhar para ler os dizeres da lápide.



“Taylor Thompson, 23 de Agosto de 1995 – 2 de Abril de 2012”



– Você não sabe o quão sozinha eu fiquei depois que você se foi, Taylor – comecei. – Você era a única que sabia de tudo, a única com quem eu podia me abrir sem correr o risco de ser taxada como louca. Tudo seria tão mais fácil se você estivesse aqui... Sinto falta do tom de sarcasmo que você usava pra disfarçar sua preocupação. Eu também trouxe uma coisa pra você – do mesmo bolso do qual tirara a foto do parque de diversões, peguei outra fotografia, a única que consegui convencer Taylor a me deixar tirar com o meu celular, no meio do período de Biologia, onde eu e ela fazíamos caretas. – Lembra desse dia, Taylor? O professor Jensen nos pegou tirando fotos no meio da aula e pegamos detenção. Saindo da detenção, peguei um café na máquina e acabei derrubando-o quase que inteiro na metida da Megan, e você disse que aquilo era digno de ser filmado pra ver e rever a cara dela. Voce me agradecia todo santo dia por ter te permitido ter aquela visão maravilhosa do chilique da Megan – realizei o mesmo processo que fiz com a foto do parque, enterrando-a em frente à lápide. – Eu vou te salvar, não importa onde estiver. Espere por mim, Taylor. Eu já estou a caminho.

Joguei a mochila num dos ombros e, ao me virar, deparei-me com Andy me encarando a poucos passos te distancia.

– Se sente melhor? – perguntou ele.

– Desde quando você passou a se importar? – não que eu não esteja gostando de receber sua atenção, e me odiando por gostar de recebe-la, e me odiando mais ainda por ter me tocado que gosto de um espírito pervertido que não quer nada além de foder comigo!

– Foi só uma pergunta, se não quiser responder não preci-

– Me sinto melhor – o cortei. – Parece até que estou mais leve, isso me fez bem – estou imaginando coisas, ou esses são traços de alívio surgindo na feição de Andy?

– Que tal cuidarmos do ritual então?

– É agora ou nunca – sempre quis dizer isso.

Andy guiou-me até um túmulo cuja lápide estava lascada nas bordas e forrada de lodo, como se alguém não a visitasse, limpasse ou cuidasse há no mínimo décadas.

Me inclinei para frente e passei a mão na pedra, sentindo a textura de letras cobertas pelo lodo, o qual eu esfreguei até poder ler o que estava escrito.



“Mary Worth, 17 de Novembro de 1908 – 22 de Agosto de 1917”



– Então é aqui que você está enterrada, Mary? – murmurei.



Abri o bolso da mochila que continha os ingredientes para o ritual e arrumei-os em linha reta no solo: a ágata lilás, o olho de tigre, o amuleto de jade, a aragonita, a adaga de marfim, a faixa da Mary, um ursinho de pelúcia surrado e sem estofamento em alguns pontos de quando eu tinha 4 anos e as velas de sete dias.

– Está tudo aqui: as pedras, a adaga, um pertence da Mary, um pertence meu e as velas – conferi.

– Ótimo – disse Andy. – Podemos começar?

Notas finais
Espero que tenham gostadoE por favor, deixem reviews, opiniões, críticas e sugestões ^^Beijos e até o próximo capítulo s2Nyuu-chan :3