Verdade
14 Capítulo XIV - Desilusões
Notas iniciais
Regina odiava ter que sair sozinha, ser apenas mais uma em meio aquela multidão de pessoas circulando por aquelas ruas apertadas era torturante, Regina adorava conversar, puxar assunto, conversar sobre as coisas que cercavam, mas ali sozinha não poderia fazê-lo. Era uma sensação de desapontamento cada vez que ela sentia vontade de falar algo e não podia. Além disso, sentia um tanto de medo daquele canalha aparecer novamente, não gostava de sentir-se amedrontada, então deixava de pensar no medo, porém estando sozinha, o medo voltava.
Finalmente chegou à biblioteca, local de pesquisa que seu professor indicara, Regina esperava fielmente que a nota por aquele trabalho compensasse a chatisse que seria fazê-lo. Os afrescos antigos nas paredes imponbentes da construção secular e o agradável cheiro dos livros misturado ao estagnado ar perfumado já eram um bom consolo para as penuriosas horas que ali passaria sozinha e em silencio (duas condições que Regina detestava mais do que tudo). Porém mal se aproximou da prateleira e uma voz familiar a chamava:
–Oi? – Disse o rapaz, soando mais como uma pergunta do que como uma saudação, talvez fosse pela timidez, afinal aquela altivez e aqueles cabelos avermelhados eram impossíveis de serem confundidos assim facilmente, ainda mais por ele, que havia reparado tanto naquela garota singular.
–Oi Fábio! Nossa que coincidência! O que faz por aqui? – Exclamou ela num sorriso de orelha a orelha, já estava cansada de ficar tanto tempo sem ter com quem conversar, e aquela companhua era a melhor que poderia ter.
–Bem... Hoje é minha folga mensal, eu gosto de vir aqui ler um pouco... Refletir sabe? E também retirar uns livros pro meu irmãozinho, ele gosta de histórias e as vezes eu leio pra ele também. – Explicou ele, mostrando os livros que havia escolhido.
–Que ótimo! Folga... Ah, isso deve significar que eu não vou poder chegar correndo nos fundos de um restalrante qualquer e te derrubar no chão feito uma doida? — Regina fez uma convincente expressão de desapontamento, e então desatou a rir, parando apenas quando a senhora bibliotecária pigarreou em censura.
–É... Acho que hoje não haha- Riu Fábio baixinho observando o olhar censurador da senhora. Ele gostava do jeito daquela garota de fazer piada de qualquer coisa.
–Bem, é meio ruim de conversar aqui... –Quer sair pra almoçar? –Convidou Regina, sussurando com ironia ao olhar para a bibliotecária.
–Bem... Eu não sei se vai dar...
–Que isso, vamos sim, eu conheço uma lanchonete bem aqui pertinho mesmo e...
–É que na verdade... Eu ia só comer um cachorro quente mesmo... – Ponderou o Rapaz.
–Ah... –Exclamou regina num tom grave — Mas não tem problema! Eu te acompanho! Adooro cachorro quente! – Disse ela subitamente, num tom que voltava a ser alegre, mas gesticulou para sair, afinal a mulher da biblioteca não parava de a encarar.
–Eu simplesmente adoro cachoro quente. – Disse regina ainda com a boca cheia, se lambuzando de molho e salpicando ketchup nas mãos e dedos.
–Você se sujou de molho, deixa eu limpar aqui. – Sorriu Fábio, passando o guardanapo sobre o queixo de Regina, os dois permaneceram em silencio, e depois riram de suas caras ainda sujas de molho.
–Mas então... Fala mais sobre você? – Disse Regina puxando assunto assim que terminava o seu cachorro quente.
–Ah, eu sou o sub-ajudante-de-auxiliar-de-garçom do restaurante do seu pai, tenho um irmão menor, uma irmã que já não mora comigo, e um cachorro vira lata chamado Fred. – Riu o rapaz- ... E você?
–Eu to no meu 2 semestre de relações internacionais, filha única, meu primo do interior tá passando as férias comigo, não tenho cachorro, gosto de desenhar e reparo em coisas que ninguém mais repara.
–Coisas que ninguém mais repara?
–Você já reparou que quando os atores tomam café da manhã nas novelas o suco é sempre de laranja? — Riu Regina sentando-se ao lado de Fábio.
–Nossa, você é observadora mesmo – Riu ele dando-se conta que era verdade.
–O narrador das olimpíadas sempre fala “países do mundo” mas ninguém se dá conta que é pleonasmo, afinal de onde mais os países vão ser? Eu vou pegar outro cachorro quente.
Fábio riu. Como alguém podia ser tão interessante apenas reparando em coisas tão infimas? Regina era doida, seus assuntos não precisavam necessariamente fazer sentido, ela via o mundo de outro ângulo, e certamente esse ângulo dela era mais engraçado que o nosso.
–E o que você gosta de fazer? –Perguntou ela, dando a primeira mordida no segundo cachorro=quente.
–Olha, além de trabalhar e ler (quando dá) eu não tenho tempo pra praticamente nada. Mas nas férias eu curto andar de bicicleta, é divertido. – Riu ele, constrangido por não poder dar resposta mais interessante.
–Eu gosto dos pequenos prazeres da vida. – Disse ela, lambendo os dedos com o molho.
–Pequenos prazeres?
–Quando você lambe os dedos ao comer uma coisa que realmente gosta, quando você vira o travesseiro e sente aquele geladinho, quando você termina de lavar a louça e pensa “nossa, eu finalmente acabei” ... Não é maravilhoso? São os melhores cinco segundos do dia.
–Tem razão. – Concordou fábio...Abrindo um sorriso sincero. Como alguém podia ser tão interessante com tão pouca coisa? Ela via um mundo em cada canto, uma felicidade em cada momento, o universo de Regina era maior que o dos outros, as vezes é assim: todo o horizonte é bonito, porém algumas pessoas enxergam mais longe que as outras.
Ivan estava praticamente alcoolizado, adorava participar daquelas festas, ali podia ter quem quisesse, sua boa aparencia e seu charme ajudavam afinal.Tinha passado um bom tempo com o garoto, mas não devia se apegar a ele, assim era Ivan, vivia pelo prazer, não pelo sentimentos envolvidos, afinal para que toda aquela baboseira sentimental, quando o prazer é o real motivo de estarmos nessa vida? O nascimento e a morte são em vão, por que não aproveitar o intervalo entre estes dois acontecimentos fatídicos?
Preparou seu alvo, funcionava com todos, porém Ivan apreciava mais os “inéditos” novos frequentadores, afinal os desconhecidos eram mais animadores do que aqueles rostos que ele via sempre. O garoto estava sentado, parecia tímido – e esse era o tipo que Ivan gostava mais – Estava sentado no bar, com as mãos entrelaçadas sobre os joelhos, parecia sozinho, perfeito, pensou Ivan. O garoto era bonito, cabelos acastanhados e lábios finos,em poucos segundos Ivan já estava ali, fazendo o que fazia de melhor: conquista. Até homens que se diziam heterossexuais já haviam se rendido àqueles olhos e lábios mendazes, porém sedutores. Seria mais um a ser adcionado a lista.
–Sozinho então?- Perguntou Ivan, sentado-se ao lado do rapaz e pegando uma bebida.
–Eu, eu vim com uns amigos... Mas sabe né... Todo mundo curtindo a festa, eu sou mais caseiro, não to acostumado com isso. – Respondeu o garoto, com aquela voz ingenua que Ivan mordeu os lábios só em ouvir, em sua mente já se desenrolavam os pensamentos mais sórdidos ao observar aquele jeito infantil e recatado do garoto.
–Entendo... Mas por que não se divertir um pouco... Um rapaz tão bonito tem que aproveitar a noite... – Sorriu Ivan.
O garoto riu, e corou, sem saber o que dizer, Ivan percebeu que tinha ido meio longe demais, e decidiu puxar o assunto para outro lado:
–Mas e então, por que não dançar um pouco?
–Não, não. – Negou ele com simplicidade. – Eu nem sei dançar direito.
–Bobagem, vem cá! É só deixar a música te guiar. –Exclamou Ivan, pegando o garoto pela mão e levando-o até a pista.
Ele se movia com delicadeza, mas ainda ssim era meio travado, apenas imitava os movimentos de ivan e se grudava nele, Ivan adorava aquilo, adorava que buscassem proteção em si, o olhar do garoto era tão inocente, tão vidrado. Ivan teve vontade de beijá-lo, mas achou melhor esperar, afinal o garoto pedia um ritmo mais lento, até que chegasse o momento de aproveitar tudo o que ele tivesse a oferecer.
–Espere...Não nos apresentamos ainda? – Meu nome é Ivan.
–Eu sou Rafael... Muito prazer. – Respondeu o garoto, preparando-se para ir embora.
–Me liga... – Disse Ivan colocando nas mãos do garoto um pedaço de papel com seu telefone e dando-lhe um beijo na face. O garoto estremeceu e corou, Ivan sabia que aquele logo estaria se derretendo em seus lábios.
Thomas nem sequer dormira aquela noite, o que tivera com Ivan foi de alguma forma mágico, não sabia explicar, mas foi tudo perfeito, melhor do que ele tinha em sua mente. Queria apenas repetir, provar tudo aquilo de novo, talvez até mais, precisava falar com Ivan, como precisa-se de ar e de água, Thomas precisava falar com ele.
–Alô? Ivan? — Ligou Thomas, ignorando todas as regras e usando o telefone de casa.
–Quem é? -Respondeu uma voz sonolenta do outro lado da linha.
–Sou eu, Thomas...
–E aí Thomas, como vai? – Ivan se alegrou de repente, como se quisesse fingir que não estava dormindo.
–Ótimo amor... E aí quando a gente vai se ver de novo?
–De novo? – o tom era de dúvida.
–Sim né seu bobo... Quero te ver amor. –disse Thomas infantilmente.
–Amor? Acho que você não entendeu, eu não quero nada sério com você, foi muito gotoso o que a gente ontem e tal, mas relacionamento estável? Pff, nunca. – Riu o garoto em tom de deboche.
Thomas parecia não acreditar, era brincadeira, não podia ser verdade.
–Ivan, não brinca com essas coisas, eu já me magoei muito, não tem graça viu? – Protestou ele com hesitação, pois não parecera brincadeira em momento algum,
–Ah garoto, vê se me erra. – Ivan desligou com violência, deixando Thomas desorientado.
–Ivan... Como assim? Ivan? – Era inútil chamar. Ele não atenderia novamente.
Thomas se sentiu como nunca se sentira antes, como se o chão debaixo de seus pés virasse pó, como se o ar tornasse-se gelo, não queria acreditar naquilo, porém simplesmente estava acontecendo. Sabia que estava. A impressão que Thomas tinha era de ser testemunha daquele acontecimento, como se estivesse vendo tudo em terceira pessoa, porém estava errado. Acontecera com ele, de verdade. Sem ter outra reação, desatou a chorar torrentes de lágrimas.
–Thomas, você tá afim de almoçar comigo hoje? Eu pensei em ir no restaurante do papai porque lá... – Regina entrava na sala de súbito e percebia o rapaz em prantos. Logo corria para abraçá-lo.
–Calma Tom... O que aconteceu? Fica calmo... – Consolava Regina enquanto Thomas se via em prantos como uma criança. – Suas lágrimas diminuíram com o abraço e ele apenas abaixou o olhar para esconder os olhos vermelhos e o rosto molhado enquanto Regina acariciava seus cabelos.
–F-f-oi o Ivan... Aquele idiota. – Murmurou Thomas entre lágrimas e soluços. –Ele não me ama, não me quer mais... Eu acho que não sou bom o suficiente pra ele, só porque eu não quis fazer tudo que ele queria ontem...
–Thomas, me escuta... Eu não acredito que isso aconteceu... Mas acontece... Infelizmente, meu lindo... Eu não quero te ver sofrer, Poe um sorrisinho nessa boca, limpa essas lágrimas dessas joias azuis, por favor. – Dizia Regina acariciando Thomas, mais como uma mãe do que como um primo. – Você é maravilhoso Thomas, é um menino de ouro... Se um idiota não soube te dar valor, não se sinta triste por si, a culpa não é sua, sinta pena por ele que perdeu de ficar com um garoto tão especial como você... Ele é o otário que saiu perdendo. – Falou ela com severidade.
–M... Mas eu queria ficar com ele... Por um instante, eu pensei que eu amasse ele, e que ele me amasse... –Thomas não se conformava fácil assim, queria acreditar que tudo fosse parte de um sonho, que amanhã ele reveria Ivan e seriam felizes novamente, desta vez ninguém os impediu de ficar juntos, então por que deveriam ficar separados?
–Thomas, isso tudo, não é um conto de fadas... As pessoas mentem, se enganam, são enganadas... Se iludem, são iludidas... Ele não nutre por você o que você nutre por ele, ele não acredita no que você acredita... – Explicou Regina, segurando o rosto de Thomas de forma que seus olhos e os dele estivessem alinhados. – Sabe, algumas pessoas são assim, fazem de tudo para conseguir o que querem... E infelizmente você foi ingênuo e acreditou nele...
–Pessoas como Ivan?
–Sim, pessoas como Ivan, como Lorenzo... O mundo infelizmente é assim meu amor, mas eu não quero te ver sofrer, eu não quero que você pense que existem Só pessoas assim, entendeu? Promete pra mim que você não vai mais derrubar uma lágrima pra ele? Promete?
Thomas prometeu, mas não estava certo se cumpriria... Não queria que Ivan fosse de sua vida, pelo menos não o Ivan que tinha em mente, o rapaz misterioso que o protegera e o amara quando mais precisava... Mas aquele Ivan não existia noutro lugar que não sua mente... O Ivan real era aquele que acabara de se mostrar, não havia sentimento, ele só existia com Thomas... Não, Ivan não era o príncipe que Thomas imaginava ter encontrado, não foi perfeito... Não Queria aceitar, mas era a verdade... Por que, por que a vida não é como nos filmes? Onde tudo dá certo... Por que?
Foi nesse momento que Thomas percebeu que os filmes não funcionam de verdade... São apenas fantasia... Nos filmes os motoristas não olham para a estrada enquanto dirigem... As folhas das árvores não precisam ser varridas e as calçadas estão sempre limpas, a mesa do café está sempre posta e os pratos nunca se sujam, porque é uma mentira... A verdade não é algo perfeito, a vida não foi feita para ser perfeita, foi feita para ser verdade, e a verdade é para os fortes.
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