Verdade
1 Capítulo I - Olhares
Notas iniciais
Era um dia chuvoso, Thomas estava entediado, observava as horas passarem em seu relógio de pulso enquanto olhava a chuva cair pela janela, à professora de História explicava a matéria, mas ele não prestava atenção, o ambiente era barulhento, mesmo assim Thomas estava prestes a pegar no sono, embora algo ainda lhe atraísse a curiosidade:
Pedro, o garoto da fileira ao lado não parava de encará-lo, olhando fixamente em seus olhos, desde o começo do dia, achava aquilo estranho. O olhar de Pedro era fixo, obstinado. Pedro era uma pessoa diferente, Thomas conhecia ele há mais tempo, ele era diferente dos outros garotos da antiga escola, ele não era como os outros, que apenas sabiam falar mal de Thomas e rir de sua cara. Pedro não, ele o cumprimentava, o ajudava, era uma pessoa boa. Minutos se passaram, Pedro não parava de encarar Thomas, e desviava o olhar quando percebia que ele notava. O alarme soou, era hora do intervalo, os alunos pegaram suas coisas e se levantaram. Pedro saiu calmamente, ainda olhando para Thomas, que ainda com preguiça ficara sentado na carteira, sem vontade de levantar.
-Tom, levanta preguiçoso! – Era Juliana, sua amiga, que o puxava pelo braço, fazendo esforço para que Thomas levantasse.
-E aí Tom... Por que você está assim hoje?- Perguntou Juliana, que o observava desconfiada.
-Sei lá... Eu só estou cansado, sabe... É sexta-feira... Não aguento mais ter que ficar nessa sala abafada. – Resmungou Thomas, enquanto pegava sua bolsa com seu lanche.
-Ahh Tom, para de resmungar, vamos viajar no final de semana, vai ser um passeio divertido! – Exclamou Juliana, dando um soco de leve no Braço de Thomas.
-Pois é. -completou Rafaela, que se sentava um pouco mais atrás. Juliana, Rafaela e Thomas eram melhores amigos há tempos, inseparáveis. – Mas Tom... Acho que não é SÓ por isso que você esta assim não... Eu te conheço, você está é desconfiado... Eu bem vi que o Pedro Henrique não tirava o olho de você na aula...
-Ahh... Rafa... Para com isso... Não é nada disso não... Ô... Vê se não me amola.
As duas amigas se entreolharam, com um sorriso de cumplicidade, enquanto Thomas saia com passos firmes, enraivecido. Algo o perturbava... Sempre soube que Pedro o tratava de uma maneira diferente, carinhosa, mas nada além do normal, mas, de uns tempos para cá ele não parava de observá-lo.
Ele desceu as escadas apressado, e sentou-se num dos primeiros degraus, ficou ali parado, cabeça apoiada nas mãos, olhar fixo em direção ao nada, imagens se formavam em sua mente, pensava em Pedro, “Por que ele o olhava daquele jeito?”, “o que o motivaria?”. Sim, Pedro Henrique sempre o tratara diferente, mas nada, além disso. Ele o Respeitava, e Thomas o respeitava em troca. Chamava-o de “Pedro”, ao contrário de todos, que o chamavam de “Henrique”, apenas para provocá-lo, pois ele detestava seu segundo nome. Ele era um homem, mas não podia negar que outros homens o atraíam, não sabia o porquê daquilo, mas era uma daquelas coisas que não explicamos, apenas aceitamos que são assim. Pedro Henrique lhe parecia atraente: pele clara, olhos verdes, cabelos castanhos e levemente cacheados, não muito alto. Não era de fato bonito, mas havia algo nele que atraía a Thomas, mesmo que ele não pudesse explicar o que era.
Imaginou os dois juntos, mas parou, questionando o que estava fazendo, Pedro não era atraído por homens, provavelmente já havia tido várias namoradas, sabia disso, apesar de nunca ver Pedro com garotas, os dois juntos era algo impossível até de se imaginar. Sentia-se confuso, “Por que mais ele me olhava com olhos de desejo?” perguntava para si mesmo, conseguindo cada vez mais perguntas do que respostas. Thomas puxou os cabelos com força, por que as garotas não lhe atraíam? Ele era homem, isso devia acontecer, mas com ele não. Queria ter uma namorada, agradar seu pai, que sempre perguntava sobre “as garotas”, mas não sabia como, nem por que não sentia vontade de ter uma namorada, de ter uma garota. Por que isso acontecia? Por que ele era diferente? Por que não era normal como os outros garotos?
-Tom, você está aí! Eu estava te procurando faz um tempão... – Era Mariana, uma amiga que Thomas conhecera este ano, mas parecia que eram amigos há muito mais tempo. Mariana era bonita, amorenada, cabelos castanhos. Sempre conseguia os melhores namorados, o que causava inveja em Juliana e Rafaela. Thomas a ajudava com os namorados, apesar de ele mesmo nunca ter sequer beijado antes, e já tinha quinze anos.
-Oi Mari, estava aqui pensando um pouco. – Respondeu ele, desviando o olhar, pois sentia que seus olhos estavam quentes e cheios de água.
-Tom, você está bem? Você está quase chorando! O que é que houve? – Perguntou Mariana, abraçando-o.
-Não... Não foi nada, eu só... – Thomas não conseguiu completar a frase, desatou a chorar nos ombros de Mariana, que o abraçou forte contra seu peito.
-Calma Tom, o que que houve? Me conta, eu posso ajudar? Já sei foram os caras do terceiro ano que falaram mal de você de novo...Quer saber, eu vou falar com eles...
-Não! Não foi nada disso, esquece... Eu estou bem... -Respondeu Thomas levantando-se e enxugando as lágrimas. Não queria que ninguém percebesse que estava chorando.
-Tom, você pode me contar! Seja o que for eu sou sua amiga, e quero te ajudar. – Disse Mariana abraçando-o de novo. – Confia em mim!
-Tá, Mari, acontece que é difícil, sabe... O Pedro, ele não para de olhar pra mim, a aula inteira, e não foi só hoje. Eu fiquei pensando que ele estaria gostando de mim, mas eu fico com medo de me iludir. Ele nunca iria gostar de mim. Não ele...
-Ahh Tom, então é isso? Olha... Você pode contar comigo, se você quiser eu posso falar com ele...
-Não! – Gritou Thomas, tão alto que todos olharam, e abaixou a voz em seguida, com vergonha. – Me prometa que não vai fazer isso! – Eu sou homem! Ele também é homem! É um absurdo dois homens juntos! Isso não vai acontecer nunca.
-Tudo bem, desculpa... Não precisa gritar, eu prometo, não vou fazer nada que você não queira. Eu só queria ajudar. – Disse Mariana com um olhar desapontado, no fundo sabia o que seu amigo era, todos percebiam, somente ele não se aceitava.
-Tudo bem Mari, aliás, me desculpe você, eu não devia ter gritado, é que eu tenho medo de que todos saibam.
-Comigo você pode contar, eu entendo que você não queira que saibam, mas pode confiar em mim. –Respondeu Mariana, tentando inspirar confiança.
-Obrigado Mari, muito obrigado mesmo. Mas esquece isso, vamos mudar de assunto?
-Tudo bem Tom, já esqueci. Mas e então, como acha que vai ser o passeio do final-de-semana? – Perguntou Mariana, mudando de assunto. As turmas de primeiro ano iriam para uma viagem pelos museus da capital, seria no final-de-semana próximo, os alunos passariam a noite em um hotel, e só retornariam no dia seguinte, já que a cidade interiorana onde viviam era relativamente grande, porém distante da capital.
-Ai...Se não valesse quase metade da nota eu não iria, vai ser muito chato. Eu não vejo graça nenhuma em visitar um museu com um bando de velharias... E ainda por cima não será um dia, serão dois.
-Ahh Tom, vai ser divertido! – Veja, eu você, a Rafa, a Ju e a Carol podemos passar a noite acordados conversando e...
-Mariana, você sabe muito bem que eu não vou ficar no mesmo quarto que vocês, eu provavelmente vou ter que ficar com um dos meninos, e você sabe como eles são comigo... – Respondeu Thomas franzindo a testa pensativo, não queria ir aquele passeio de jeito nenhum.
-É mesmo, entendo, desculpa, eu só queria que se sentisse melhor... Mas Tom, mesmo assim vai ser legal, vamos viajar juntos! Vamos todas sentar juntas no ônibus, vai ser legal!
Thomas deu um sorriso amarelo, não queria ir aquela viagem, mas teria de ir, valeria nota, e não poderia arriscar perder nota, logo no trimestre decisivo. Subiu as escadas, já havia acabado o intervalo, estava com fome, só agora se deu por conta que não havia comido, estava confuso demais para se lembrar.
A aula recomeçou, entediante como antes, Pedro continuava a olhar para Thomas, e agora não se preocupava nem sequer em disfarçar, muitos comentavam, mas ele parecia não ligar. A aula acabou finalmente, Todos Saíram, e Thomas como sempre demorou um pouco mais para guardar suas coisas, pensou estar sozinho na sala, mas uma voz suave rompeu o silêncio que se fazia:
-Oi Thomas! – Era Pedro Henrique que sorria, no outro canto da sala, a face avermelhada e as mãos trêmulas.
-...Oi! – Respondeu Thomas com estranheza e espanto, pois pensara estar sozinho.
-E então... Entusiasmado para o passeio de amanhã? – Perguntou Pedro tentando ser descontraído.
-Não muito eu acho... –Disse Thomas sem prestar muita atenção...
-Bem, não sei se você leu o bilhete, mas nós ficaremos no mesmo grupo de trabalho... Eu, você e aquelas garotas, a Carolina e a Juliana. Eu falei com a professora mais cedo, você e eu ficaremos no mesmo quarto do hotel. – Informou Pedro Henrique com um sorriso no canto dos lábios, que deixou Thomas com um frio na barriga, seus olhares, suas expressões, davam a entender que ele o desejava, o que parecia impossível, porém verdade.
Thomas desceu as escadas e atravessou o portão, despediu-se de seus amigos e foi pra casa, morava perto, ia a pé, passos apressados, pensando em Pedro Henrique, nos olhares que ele lhe lançara, tudo era muito confuso em seu pensamento, e andava como se estivesse “desligado” do mundo lá fora. Quando de repente uma mão o segurou pelo braço, Thomas se assustou de súbito, mas aliviado virou-se para trás reconhecendo quem o chamava.
-Toom, eu vim lá da escola até aqui para valar com você! – Era Carol, que vinha esbaforida, o cabelo cacheado grudava na testa suada, veio atrás dele desde a escola, mas ele, perdido em pensamentos não percebeu. – Você estava viajando longe hein? Nem me ouviu quando gritei... – Continuou ela, com as mãos apoiadas na cintura, numa pose de indignação.
-Desculpe, eu estava distraído, eu... – Desculpou-se Thomas, parando de repente , sem completar a frase, queria dizer “eu estava pensando no Pedro”, mas preferiu não falar nada, Carol poderia espalhar para todos, ele confiava nela, ela era uma grande amiga. (sempre foram os cinco: Thomas, Juliana, Rafaela, Mariana e Carolina, inseparáveis desde o começo do ano), mas Carolina era ingênua, bem poderia contar sem querer, “deixar escapar”. Não a condenava, pois ele mesmo fazia isso às vezes, mas era melhor se prevenir.
-Tudo bem, imagino, você como sempre “viajando”. – Concluiu Carol, piscando o olho, dando a Thomas uma sensação que ela sabia de algo. -Eu ia falar com você no recreio, mas a professora Amarylis ficou falando comigo, eu tenho que fazer uma prova de recuperação semana que vem... – Desculpou-se Carol. – Mas o que eu queria falar é sobre o trabalho de História, o nosso grupo é: Você, Eu, a Ju e... advinha... Henrique! Eu e a Ju ficaremos num quarto e o Henrique e você em outro... Huum, você bem que poderia tentar algo, todo mundo viu o jeito que ele olhou pra você... – Comentou Carol, com um sorriso malicioso nos lábios.
-Carolina!- Reprendeu Thomas, no fundo estava com medo, todos haviam percebido a troca de olhares, e eles ainda ficariam no mesmo quarto, os risinhos e as fofocas seriam insuportáveis quando retornassem, mesmo que não acontecesse nada. Não iria acontecer, eram dois homens, “isso é um absurdo!”. Thomas se lembrava das palavras do pai, que uma vez lera uma matéria no jornal falando do casamento entre dois homens. Era um absurdo, repetia para si mesmo, se passasse pela cabeça de seu pai que outro homem o desejava... Preferiu não pensar...
-Tudo bem, eu sei... – Respondeu Carol, tranquilizando-o. – Não se esqueça que temos que estar na escola amanhã as 7h, o ônibus partirá cedo, e leve os livros para ajudar com os relatórios. Eu te encontro amanhã, talvez eu ligue se der tempo... Até!
-Tchau Carol... Até amanhã! – Despediu-se Thomas ainda confuso, tomou o caminho de casa, apressado, estava com medo do que aconteceria no dia seguinte, mas preferiu não pensar nisso.
Chegou em casa após alguns minutos de caminhada, foi até o quarto e trocou de roupa, seu quarto era de tamanho normal, uma cama, um armário com roupas , uma escrivaninha, e uma prateleira com alguns livros, nas paredes seus desenhos, em sua maioria letras de musicas escritas em cartazes ilustrados, que se descolavam da parede. Ele abriu o armário e pegou uma bolsa, colocou algumas roupas e fechou a mala. Não era muito, só o necessário para passar o final de semana. Arrumou também os cadernos e livros de história, necessários para o trabalho. Olhou-se no espelho, era alto, magro, olhos azul-profundo, cabelos negros, contrastando com a pele pálida. Era de todo um pouco atraente, se perguntava por que nenhuma garota jamais se sentira atraída por ele, ou pelo menos ele pensava que não.
Saiu do quarto, desceu as escadas, sentou-se a mesa onde a mãe terminava de servir o almoço, suflê de legumes, arroz, carne e batatas assadas. A refeição foi em silêncio, mas só depois Thomas lembrou-se de comunicar a mãe a respeito da excursão.
-Mãe, não se esqueça que amanhã vai ser o passeio pelos museus da capital, dormiremos lá, e voltaremos domingo a noite.
Ótimo, eu lembro, sua professora falou na última reunião sobre a excursão. Depois vou querer ver os relatórios... Então, qual será o seu grupo?
-Eu, a Juliana, a Carolina, e o Pedro Henrique...
– Hum, lembro-me da Juliana e da Carolina, elas já estiveram aqui algumas vezes não é? Mas esse garoto, Pedro Henrique... Acho que não conheço, por acaso não é filho dos donos da mercearia?
-Não sei mãe, não nos falamos muito... Sou mais amigo da Juliana e da Carol mesmo...
A mãe nada respondeu, achava estranho o filho só ter amizades femininas, mas nunca comentou nada, no começo pensou que Juliana se tratasse de alguma namorada, mas pasmou a descobrir que eram realmente só amigos. Educada em família tradicional, pra a mãe de Thomas era difícil conceber que pudesse existir amizade entre garotos e garotas sem interesse de uma das partes. Limitou-se a dizer:
-Hum, certo, eu tenho por escrito o bilhete que sua professora entregou. Vocês retornam domingo não é? Vou te esperar na frente da escola.
Thomas passou a tarde pesquisando sobre os museus que iriam visitar, tentou se distrair, não queria pensar a respeito de Pedro Henrique, mesmo assim, a lembrança daqueles olhares ainda lhe tomavam a mente.
Fale com o autor