Verdade
8 Capítulo VIII - Desvios
Notas iniciais
“ Pedro,
Foi tudo tão depressa, nem tivemos tempo de nos despedir. O meu coração está partido em tantas partes quanto foram as suas feridas. E a minha dor é tão ou mais forte quanto a sua. Eu não consigo admitir que fomos separados, não posso aceitar estar longe de você, não poder te tocar, te beijar, deixar que você me toque, que me beije, que me envolva em seus braços, para que me diga e para que eu possa dizer-te “eu te amo”.
Com todo o amor que tenho por ti,
Thomas.”
–Que romântico... – Murmurava Carolina sozinha para si mesma, ao abrir o envelope avermelhado e desdobrar a carta que acabara de receber, destinada á outro, porém agora em seu domínio. A mensagem era escrita à mão, em papel perfumado e com caneta tinteiro. – essa bicha sabe mesmo caprichar nas declarações. – Sorriu ela, com desprezo ao perceber o requinte do material – Mas é uma pena que o único que vai conhecer o teu amor é o fogo, Thominhas.
Com um olhar radiante da mais verde inveja nos olhos, acendia o isqueiro, e fazia com que as chamas consumissem o papel, e todas aquelas palavras puras e declarações de amor incondicional se esvaíam, transformadas em uma fumaça leve e cinzenta, que subia em uma pequena cortina, dissolvendo-se no ar. Após seu crime ser consumado, Carolina com frieza, eliminava as provas, guardando no bolso o acendedor e eliminando as fuligens de papel queimado na pia, onde a água corrente ajudou a destruir o que restava dos sentimentos que Thomas enviara a seu amado.
Como se a atitude vil que acabara de ter não significasse nada, Carolina saíra com um grande sorriso no rosto, em direção a padaria da cidade, onde atentamente escolheu um doce, aquele que lhe parecia mais apetitoso: um cupcake todo coberto com pequenos confetes coloridos. Comprou vários daqueles, uma tentação para a boca e para os olhos.
Dirigiu-se a casa de Pedro, e no caminho, parou várias vezes em frente a todas as vitrines, todos os carros estacionados, e até mesmo as poças d’água do chão, onde conferia sua imagem, em cada superfície que a refletisse Carolina se via mais bonita, e era assim que deveria ser. Tudo tinha que correr perfeito.
Assim que avistou o chalé apressou o passo, sem se esquecer de assumir a mais falsa expressão pesarosa no rosto. Seus dedos ansiosos tocaram a campainha. Ainda assim, Pedro demorou a atender, apenas alguns segundos, que a Carolina, pareceram anos.
–Carol? O que faz por essas bandas? – Admirou-se o rapaz, depois atentando-se ao semblante triste que a garota carregava.
–Oh, Pedro... Eu soube do que aconteceu... Eu sinto muito, muitíssimo. – Respondeu ela, abraçando-se firmemente a Pedro, como se quisesse prestar solidariedade. – Eu também fiquei muito sentida. O Thomas não merecia uma coisa dessas.
–Foi tudo tão rápido... Eu nem tive tempo de reagir. Eu queria que tivesse um jeito sabe. De impedir tudo aquilo. – Concordou Pedro, fazendo sinal para que a garota entrasse e sentasse no sofá, sentando –se então ao lado dela.
–Oh, não pense assim... A culpa não foi sua. – Consolou Carolina, acariciando de leve as mãos de Pedro num gesto aparentemente inocente. – Sua única culpa foi amar demais, e isso não é crime algum. O Thomas era um garoto tão legal, não merecia esse fim. – Carolina falava como se o garoto houvesse morrido, e não apenas mudado de cidade. — É tão injusto como o mundo não compreende o amor de duas pessoas, não é mesmo?
–Tem razão... Eu não me conformo. Aquele homem, o Marco, chegou a me fazer ameaças caso eu tentasse me aproximar ou me comunicar com o Thomas novamente. – Confessou Pedro. E Carol pode perceber a fragilidade em seus olhos.
–Oh, mas isso é terrível! – Exclamou com um falso espanto. – Esse Marco ele só quis descontar a raiva em você. Ele não tem motivo algum e nem o poder de impedir o amor de duas pessoas.
–É... Mas agora eu não posso nem me comunicar com ele, eu temo pelo Thomas principalmente, eu não sei como tratarão ele, e como o pai dele planeja puni-lo, não quero que mal nenhum ocorra ao Thomas. – E Pedro, que era um rapaz forte, parecia estar quase chorando, ao perceber o que poderia acontecer ao amado.
–Não se preocupe tanto. – Falou Carolina, deslizando a mão em direção ao joelho de Pedro. E desta vez olhando-o nos olhos. – Eu falei com a prima do Thomas hoje mais cedo, ele está em segurança, os tios são bem mais tolerantes que o pai, apesar de manterem as exigências de Marco de deixar Thomas incomunicável, os tios não tem nenhuma espécie de preconceito ou desprezo por ele.
–Isso já me tranquiliza, se ele estiver seguro, me sentirei seguro. –Respondeu Thomas, respirando um pouco mais aliviado, e esboçando um pequeno sorriso.
–Bem, eu trouxe algo para você... – Disse Carolina, mostrando a sacola. – Estão quentinhos ainda, eu mesma fiz. – mentiu a garota, entregando os cupcakes a Pedro.
–Nossa Carol! Obrigado! É muito gentil... Eu nem sabia que você sabe cozinhar!
–Claro que sei... Quando precisar... às Ordens – Riu, fazendo menção de levantar-se. – Eu só queria fazer um agrado, eu sei que não posso te fazer sorrir de novo, mas também estou triste pela situação, e não gosto de ver ninguém sofrer por amor, Sabe?
–Você é um anjo Carol... Mas espere! Fique! Eu vou preparar um café pra gente! – Respondeu Pedro, num sorriso revigorado, fazendo um gesto para que Carol se sente novamente e indo em direção à cozinha.
–Obrigado Pedro... Mas não quero dar trabalho... Não se incomode com essa louca aqui. – Riu ela.
–Imagina... É um prazer ter companhia tão boa! Espere só alguns segundos, o café sai num instante – Respondeu o garoto, sorridente. Carolina sorriu junto, enquanto os dois sentavam e conversavam sobre tudo: se conheciam há bastante tempo, mas só agora haviam se aproximado. Pedro confessava seus anseios, tristezas esperanças, expectativas, e tudo o que sentia. Carolina ouvia pacientemente, com palavras de carinho e compreensão, encantando o jovem com sua sensibilidade. Ele era como uma vítima de todas as intenções dela, como uma mosca desesperada na teia de uma aranha que se aproximava sorrateiramente com a intenção de livrá-lo, porém se vai livrá-lo é para devorá-lo depois.
***
Dias e dias se passaram, e nada da resposta de Pedro. Thomas se acostumara a vida na cidade, e Regina o havia levado para conhecer os vários pontos turísticos que lá haviam, mas dentro de si Thomas ainda não escondia a mágoa de não obter resposta de Pedro.
–Eu falei com a Carol. – Ela disse que entregou a carta a Pedro, e que ele prepararia uma resposta, vai ver ele está demorando a escrever. – Tranquilizava Regina, dia após dia. Mas no fundo ela também temia que Pedro houvesse encontrado outro alguém. Thomas era ingênuo, Pedro, pelo contrário... Vivido. Regina não queria que Thomas se magoasse, mas não queria continuar iludindo-o.
–E... E... Se ele esqueceu de mim? E se ele estiver magoado? Ele pode estar triste depois de tudo que meu pai fez? E se nunca mais quiser falar comigo? – Thomas conjecturava quase aos prantos.
Regina o abraçou como se quisesse protegê-lo. No fundo, até mesmo ela sabia que aquilo poderia ser em parte verdade, mas não quis assustar Thomas, que já estava fragilizado.
– Escuta primo, ficar levantando proposições só vai te deixar mais triste e não via resolver coisa nenhuma. Pode ter sido até uma greve dos correios, hipóteses são muitas para justificar. Mas não adianta ficar imaginando coisas sem embasamento algum e se entristecer por isso. Quer saber? Eu já sei o que pode ajudar você: uma festa. Eu conheço um clube noturno ótimo, você já foi a um?
Thomas já havia ido a algumas festas a noite em sua cidade, mas sabia que não se comparavam aos clubes noturnos que havia na capital, no interiro todos se conheciam, e as festas eram sempre as mesmas. Na capital havia festas enormes e sempre com pessoas diferentes. Mas Thomas não sabia se iria divertir-se, não era seu tipo de ambiente, e nem estava com humor para isso.
–Ah Regi, eu não sei... Eu não sei se estou com cabeça para esse tipo de programa... — Evitou Thomas, evadindo-se
–Por favor Tom... Por favooor... – Pediu Regina, sabendo que seria uma ótima distração para o garoto.
Por fim Thomas aceitou. Ainda que relutante. Os pais de Regina também, além disso a garota pediu que Alberto não contasse nada ao pai de Thomas, apenas por precaução. Tendo consciência de que a filha era alguém responsável, Alberto atendeu ao pedido de Regina.
Thomas demorou a aprontar-se. Regina já estava pronta a horas: havia soltado os longos cabelos ondulados e alaranjados, colocou um vestido curto, num tom creme, e usava brincos pesados que realçavam o brilho de seu rosto. Lembrava uma princesa, porém seu semblante era de humildade.
Após uma hora e meia, que passou demoradamente, Thomas estava pronto. Havia experimentado todas as roupas e todos os penteados possíveis, até que finalmente encontrou a combinação perfeita. Usava uma camisa preta: sublime, sutil, mas que evidenciava todo o azul de seus olhos, e os contrastava com seus lábios rosados e delicados. Era uma expressão doce, apesar de machucada pelo sofrimento, continuava inocente e singela, como o de uma criança que desconhece os males do mundo. Thomas era assim, nada podia afetar sua inocência, por mais que sofresse ou fosse vítima da crueldade do destino. Mais tarde veremos o quão errada essa frase esteve.
O clube não era muito longe, e como chegaram cedo, não enfrentaram uma fila muito grande. Thomas estava de olhos arregalados, não havia ambientes assim em sua cidade. A multidão de jovens que bebia e fumava do lado de fora, surpreendeu-se com aquilo. Alguns estavam visivelmente embriagados, alguns ele achava engraçado, outros lhe davam medo. Regina disse pra não reparar neles, e pegando na sua mão, entrou na pista de dança. Uma música eletrônica forte tocava, e o ambiente se enchia de fumaça e de luzes coloridas. Thomas achou tudo muito enfadonho no começo, talvez até insuportável: um inferno de luzes e cores, um jogo de sons ensurdecedores, luzes alucinantes que piscavam sem qualquer ordem e sombras capazes de cegar a visão. Mas quando começou a soltar-se, e ao mover-se conforme o ritmo passou a sentir-se feliz. Encorajado, moveu-se para o centro da pista, e começou a dançar como se fizesse aquilo sempre.
Atraiu alguns olhares, e ficou atraído por alguns. Especialmente por um, que fitava-o incansavelmente. Estava sentado, no bar, distante da pista de dança. Mas perto o suficiente para que seu rosto destoasse dos demais. Eram olhos azul-claros, combinados com um cabelo cor de mel e lábios bem avermelhados. Thomas sentiu que ele olhava em direção a ele, e por não saber como reagir, achou melhor evitar os olhares, apesar de não conseguir e logo tornar a olhá-lo novamente. Após algumas músicas, o rapaz se levantou, era alto, e possivelmente alguns anos mais velho. Percebeu Thomas, ao olhar furtivamente.
O Rapaz se encaminhou em direção a Regina, e por alguns momentos, Thomas suspirou aliviado, porém percebeu que os dois agora olhavam pra ele. Regina fez sinal ao homem que esperasse, e foi falar com Thomas.
–Primo... Aquele homem quer falar com você. O nome dele é Ivan. – Informou Regina.
–Falar o que? – Perguntou Thomas de súbito.
–Ora, vá lá e descubra. – Respondeu ela num risinho.
Thomas, ainda que relutante, dirigiu-se em direção ao homem, que fez sinal para que o seguisse. E assim foram até um lugar um pouco mais calmo, longe da pista de dança e dos amplificadores de som, onde fazia relativo silencio em relação aos outros lugares. Havia também um pouco mais de luz, porém Thomas ainda percebia que vários pares de jovens se formavam, muitos beijando-se e acariciando-se sem pudor algum. Thomas sentiu um pouco de medo e vergonha, mas tentou ignorar a cena que ali se formava, prendendo a atenção no estranho rapaz que queria “conversar”.
–Prazer. Meu nome é Ivan. – Apresentou-se, apertando a mão de Thomas. Um aperto forte, pensou o garoto, lembrando-se que uma vez lera que isso era um sinal de confiança.
–Eu sou Thomas.
–E então... Primeira vez aqui? Nunca te vi. – Disse ele, puxando assunto.
–É. – Respondeu Thomas timidamente, não estava disposto a revelar muito ao estranho.
Ivan riu, ao perceber o embaraço de Thomas. Que olhava muito para os lados, e só parou ao ver que Regina estava parada em um canto observando-os.
–Não precisa ficar nervoso. – Informou ele.
–Tudo bem. – Resepondeu Thomas, disfarçando. – É que eu nunca vim para uma festa como essa.
–Eu entendo. – Respondeu ele. – Quer uma bebida?
–Não, obrigado. Eu não bebo.
–Nem um refrigerante?
Thomas olhou para o lado, com uma leve sensação de desespero, e ao ver Regina acenando com as mãos e rosto para que sim, deu de ombros, e achou melhor aceitar.
–Obrigado. – Disse Thomas, bebendo o primeiro gole. – Suas palavras foram seguidas de segundos de silencio constrangedor. Até que finalmente Ivan perguntou:
–E então, já que não vem muito pra cá, para onde você costuma sair?
–Na verdade eu não sou daqui... Sou do interior... Cheguei faz pouco tempo.
–Ahh, compreendo. Bem, talvez um dia a gente possa sair para eu te mostrar a cidade.
Thomas apenas acenou com a cabeça e sorriu. Não estava certo a sair com ele, apesar de ter visto nele companhia agradável. Era um estranho ainda, e isso lhe dava medo. Mas de qualquer modo havia achado aquele sujeito simpático. Era estranho explicar.
Não ficaram até a festa acabar, e Thomas agradeceu por Regina quebrar aquele silêncio constrangedor ao despedirem-se de Ivan.
–E então, o que achou da festa? -Perguntou ela enquanto entravam no taxi.
–Eu... Eu gostei. Foi diferente do que eu imaginava. Mas fiquei com os pés doloridos de tanto dançar. – Riu Thomas.
–Haha, faz parte. –Concordou Regina. – mas agora me diz: o que achou dele?
–Dele quem? – Thomas estava espantado.
–Ué, do Ivan. Quem mais?
–Eu...Achei.... Ele.... Legal. Por que?
–Ora, por nada, eu só achei que você deveria fazer alguns amigos novos já que está na cidade. Ele é o amigo de uma amiga minha, e é um cara superbacana. – Elogiou Regina em seu tom sorridente.
–Eu também achei. – Admitiu Thomas, baixando o olhar. – Mas como vamos nos falar, só sei o nome dele?
–A prima mais legal do mundo vai ajudar você... É claro. Pedi a minha amiga que desse meu telefone a ele, mas que dissesse que é o seu. Assim ele ligará para o meu numero, e quem vai atender é você. – Riu Regina, como se estipulasse um magnífico plano.
–Ai Regina. – Chateou-se Thomas. – Não sei pra que tanto esforço... É só um rapaz qualquer aí... Pra que você insiste que eu seja amigo dele?
–Ora, poderia ser qualquer outra pessoa. Só acho que você anda muito antissocial ultimamente, Thominhas. Faça novos amigos. Quando começarem as aulas da facul eu não vou ter tempo de ficar acompanhando você pra baixo e pra cima priminho, você tem que arranjar alguém que o faça. – Riu ela, enquanto abria a porta do taxi.
–ÉÉÉ. – Por esse lado, tem razão.
Thomas não comeu nada, apenas despiu-se e deitou-se, estava cansado demais para qualquer coisa. Até para pensar em Pedro, seus pais, ou qualquer outro problema. Apenas queria adormecer e descansar, curar-se do cansaço que instalara-se em seu corpo. Quando caiu em um sono profundo, aqueles dois olhos azuis e aquela barba cor de mel voltaram a sua mente. E como se delirasse, sua própria voz retumbava nos recônditos de sua mente, e dizia:
–Ivan.
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