Verdade
3 Capítulo III - Sentimentos
Notas iniciais
-Bom dia! – Disse Pedro, beijando os lábios de Thomas e acariciando seus cabelos — temos um longo dia pela frente.- Avisou ele. Os dois levantaram-se, enquanto Marcos ainda dormia.
Thomas ainda tinha medo, e talvez vergonha, mas o que sentia por Pedro era superior a isso, sentia-se bem só por estar ao seu lado.
Juliana foi a única a perceber que os dois estavam diferentes, os dois não paravam de trocar olhares, carícias, esbarrões estranhos. No fundo ela sabia que provavelmente existia algo entre os dois. Sentiu-se feliz pelo amigo, mas teve um pouco de medo ao pensar no que os pais de Thomas fariam ao descobrir. Não tolerariam certamente. Talvez até o expulsassem de casa.
-Thomas, finalmente está sozinho! Agora só anda de lá pra cá com o Pedro, nem me cumprimenta mais... – Gracejou a amiga, já estavam no ônibus de volta para a cidade onde viviam e Thomas não havia se separado de Pedro por um momento sequer o dia inteiro.
-Sabe, Ju, eu pensei no que você me disse, e isso clareou a minha mente, eu resolvi fazer o que me faz feliz, nós... O Pedro e eu, estamos... Nós estamos juntos agora. – Disse Thomas, enrubescendo o rosto e afastando-se para falar com Juliana e suas amigas, que o abraçaram com ternura, felizes pelo amigo.
-Tom, isso é ótimo, estamos felizes por você ter encontrado alguém que te faça feliz. – Disse Rafaela, falando pelo grupo.
-Parabéns Tom! –Acrescentou Carol, que sorria de orelha a orelha. – Estou muito feliz por você.
-Mas Thomas... – Interrompeu Mariana, com um olhar sério. – Você pretende contar para seus pais quando?
A pergunta de Mariana desesperou Thomas, seus pais não iam tolerar, lembrou-se das palavras do pai “isso é um absurdo”. Ele não poderia sequer desconfiar que o filho era homossexual, não poderia contar agora, teria que esperar, ainda era muito jovem, tinha apenas quinze anos, precisava ser adulto, trabalhar, tomar as próprias decisões, decidiu esconder isso dos pais. Não saberiam, até que pudesse pensar por si mesmo e cuidar dos próprios interesses.
-Eu não vou contar agora, seria um choque pra eles, acho melhor esperar, até estar mais velho. Por enquanto vou esconder isso. – Respondeu Thomas com convicção.
-Mas e se eles descobrissem?
Não queria nem sequer pensar naquela possibilidade, seria terrível, se decidisse contar, poderia preparar os pais antes, para dar a notícia, de uma forma mais tranquila, esperando tolerância. Ao passo que se eles descobrissem de súbito, ou flagrassem os dois juntos, seria muito pior.
-Isso não pode acontecer, vamos tentar ser discretos, eles não podem saber. – Decidiu Thomas, com medo do que pudesse acontecer, não queria perder Pedro Henrique, ele era a pessoa com quem sempre sonhara, alguém perfeito, que lhe fizesse sentir bem.
Thomas sempre foi alguém solitário, poucos amigos, tímido, retraído, nunca tivera uma namorada, sentia-se contente sozinho, mas sempre sonhara com um “amor”, toda vez que via um filme ou livro com uma história de amor, toda vez que via um casal apaixonado na rua, sonhava com o dia que também pudesse encontrar esse “amor” o que quer que seja que isso fosse. E agora encontrava Pedro, alguém que o compreendia, que o fazia feliz, que o fazia pensar que não existissem problemas, que estaria seguro e protegido enquanto estivesse em seus braços.
Aquela semana foi a melhor que Thomas já vivera, cada dia era como se fosse um sonho, como se o céu fosse mais brilhante e o ar mais puro, de uma certa forma tudo parecia mais harmônico. Thomas havia retirado aquela “carapaça” que o isolava, e abriu espaço para a felicidade entrar em seu coração.
Tinham prova de história no último período de sexta-feira, sobre o que aprenderam na excursão do final de semana. Pedro acabou rapidamente, era muito bom em história, e logo foi dispensado da aula. Thomas permaneceu por mais tempo, havia tanta coisa acontecendo em sua cabeça que mal conseguiu se concentrar. O sinal finalmente tocou, Thomas e os demais alunos saíram, aliviados, finalmente poderiam descansar da longa semana de provas.
-E aí Tom, o que achou da prova? — Disse Juliana, encontrando Thomas no corredor. —Você pareceu nervoso, você estudou?
-Eu até estudei...-Disse Thomas, com pouca convicção- Mas eu não consegui me concentrar, fiquei pensando em outra coisa...
-Hmm, até imagino... — Respondeu a amiga, com um olhar de cumplicidade.
-Não é bem isso...A verdade é, que o Pedro quer que eu vá na casa dele...Os pais estão viajando, ele está sozinho.
-E qual é o problema nisso?
-Nenhum eu acho...Quer dizer, não sei...Eu tenho um pouco de medo do que ele possa tentar...
-Mas você não confia nele?
-Confio, é claro...Só não confio em mim...Não sei se estou preparado, sabe?
-Insegurança é normal... Mas você só vai se quiser. Escuta, vocês se conhecem a bastante tempo, e outra, o Pedro te ama, ele nunca vai fazer nada contra sua vontade. Dá pra ver nos olhos dele quando ele olha pra você: tudo o que ele quer é que você se sinta bem.
É incrível como os conselhos de Juliana sempre clareavam a mente de Thomas, que agora tinha ficado um pouco menos preocupado. Ele continuava inseguro, mas não havia porque se sentir assim. Pedro o amava e o respeitava, tudo daria certo.
-Então, vamos? —Cumprimentou Pedro, beijando Thomas levemente nos lábios e colocando suas mãos envolta da cintura dele.
-Vamos. — Respondeu Thomas. Tentando parecer convicto, mas seu coração ainda batia um pouco mais forte de nervosismo.
Após despedir-se de suas amigas, Thomas acompanhou Pedro pela estrada que levava até a área rural. A cidade onde moravam era pequena, e a casa de Pedro não ficava longe, apesar de estar afastada do centro urbano. A estrada era asfaltada, e seguia pelo campo até atingir uma colina, onde começava a ficar íngreme e rodeada de árvores densas, que mal deixavam passar a luz do sol. Os dois seguiam despreocupados, de mãos dadas, conversando e contando histórias. Pedro ria das piadas de Thomas mesmo quando não achava graça, mas apenas o fato de estarem juntos já o deixava mais feliz.
-Vamos parar um pouco. —Falou Thomas, arfando e arqueando os joelhos. Aquela subida era muito íngreme, não estava acostumado.
-Sua mochila está pesada? Eu levo para você... — ofereceu Pedro, pegando a mochila das costas de Thomas e segurando com um só braço. Thomas não havia percebido, mas Pedro era bastante forte.
-Obrigado, você é muito fofo sabia? —Respondeu Thomas, agradecendo um pouco constrangido.
Pedro adorava aquela inocência, aquela doçura no jeito de se expressar, cada movimento, cada palavra, cada olhar de Thomas lembrava uma criancinha brincalhona. Mesmo que tivessem quase a mesma idade, Thomas havia conservado um jeitinho infantil, ingênuo, e muitos traços de feminilidade, seu jeito de andar era alegre, como se estivesse dando pulinhos. Tudo nele era doce, como se o mundo fosse cor-de-rosa. O que Pedro mais gostava, era que os olhos dele se desviavam e sua boca expressava um leve sorriso quando o encarava com olhar de desejo. Aquela ingenuidade toda invocava um desejo de protegê-lo, de livrá-lo de todo o perigo, de agarrá-lo nos braços e não deixar que nada o tocasse, não deixar que nada estragasse aquela inocência. Queria impedir que algo amargasse aquela doçura natural que Thomas possuía.
Finalmente chegaram à casa de Pedro. Um chalé no alto de uma colina, no final da estrada. Um lugar confortável e isolado, e com uma vista espetacular. De um lado, lá embaixo se via a pequena cidade, e do outro um grande rio corria. Por dentro a casa era tão confortável quanto aparentava ser por fora: móveis rústicos, lareira, e o chão forrado com carpetes macios.
-Está com muita fome? -Perguntou Pedro, Largando a mochila e indo para a cozinha lavar as mãos.
-Para falar a verdade, um pouco...- Respondeu Thomas um pouco constrangido.
Pedro não se considerava um expert, mas com apenas dezesseis anos, cozinhava melhor que muita gente: salmão, molho, arroz, salada e suco...Foi o que preparou. Arrumou a mesa e colocou dois pratos. Pedro era um cavalheiro, puxou a cadeira para Thomas e o serviu sem que pedisse nada, fez questão até de lavar a louça dos dois. Talvez aquilo fosse o que mais encantasse o mais novo. Pedro agia como se fosse um protetor para Thomas. Fazia tudo para mantê-lo confortável, tinha até mais cuidado que sua própria mãe. Era como se Pedro quisesse protegê-lo de tudo, não queria que nada o causasse mal, como se quando algo atingisse Thomas, Pedro se machucaria em seu lugar, apenas para Thomas não sentir dor.
-E então, a fim de dar uma volta? —Convidou Pedro, após descansarem um pouco.
-Eu topo. — afirmou Thomas, levantando-se.
Saíram a explorar a propriedade, o terreno era relativamente grande, havia uma casa no topo da colina quase que totalmente cercada por floresta, havia algumas trilhas que desciam até o rio e outras que levavam até as plantações das fazendas vizinhas, mais abaixo. Pedro mostrou tudo a Thomas, até os lugares onde brincava quando era menor. Pedro adorava a natureza, o campo, tudo que era ligado a terra, possuía uma pequena horta e um canteiro de flores nos fundos de casa, onde plantava de tudo, e dedicava-se a terra mais do que tudo.
-E você? Gosta do campo? —Perguntou Pedro, abaixando-se para colher um amor-perfeito, e entregando a bela flor a Thomas, que a admirou e sorriu novamente, com aquela inocência que Pedro adorava.
-Sabe, eu prefiro a praia...Já estive lá quando era menor...É uma pena morarmos tão longe do mar. O Vento, as ondas, a areia, o sol, o calor... Eu amo tudo que vem do mar. Ainda quero morar no litoral um dia.- Disse Thomas, em um pequeno devaneio, ao imaginar-se na praia como no sonho que teve com Pedro naquela noite que passaram juntos. — Queria estar na praia agora.
-Bem, estamos meio longe do mar aqui, mas eu acho que posso dar um jeito... —Afirmou Pedro, com um sorriso instigante. — Vem comigo!
-Thomas segurou na mão de Pedro enquanto ele descia a colina íngreme, tinha medo de cair, mas sabia que se caísse Pedro o seguraria. Haviam muitas pedras soltas e raízes, era muito fácil tropeçar, mas a mão firme de Pedro guiava Thomas, e ele chegou lá embaixo sem cair nenhuma vez.
Estavam as margens do rio, que naquela parte não tinha muita correnteza, e possuía também algumas pedras, que formavam pequenas quedas d'água. Nas margens havia alguns trechos com areia, o que lembrava uma pequena praia. Como ali estavam longe de qualquer cidade grande, a água era limpa e pura.
-Bem...Isso é o mais perto de uma praia que eu posso te trazer...- Afirmou Pedro, sorrindo.
-É lindo... – Admirou-se Thomas, observando as águas cristalinas do rio formarem pequenas ondinhas ao se chocarem com a margem. — Eu não conhecia essa parte do rio... É maravilhoso aqui.
-Entra! —Disse Pedro, tirando a camisa e o calção, e ficando somente de cueca, o que deixou Thomas levemente constrangido. Não tinha reparado, mas o corpo de Thomas era até musculoso para alguém da sua idade. Thomas até sentiu vergonha por ser tão magro.
-Ain, não sei...Eu não sei nadar direito. —Desculpou-se Thomas, encabulado, enquanto Pedro já mergulhando, atirava água na direção do outro.
-Vem! Você só precisa ir onde dá pé! Não fica com medo, eu cuido de você.
Thomas finalmente cedeu, sabia que Pedro estava ali para cuidar dele, fosse o que fosse. Tirou a calça e a camiseta, e entrou na água devagar. Estava um pouco gelada, Thomas encolheu-se e decidiu molhar-se só da cintura para baixo.
-Vem! — Gritou Pedro o abraçando e o derrubando na água. Thomas se molhou por completo, tremia de frio, mas logo se acostumou a temperatura. Até arriscou nadar um pouco. Já Pedro nadava incrivelmente bem, e inclusive dava alguns mergulhos. Thomas ficou admirado com a habilidade dele, mas outra coisa também mexia com o garoto: o corpo quase nu de Pedro deslizando na água, aquilo afetava Thomas de alguma forma.
Pedro mergulhou e surgiu do fundo, envolvendo Thomas com os braços e beijando-o nos lábios, aquele provavelmente fora o beijo mais intenso que já tiveram, Pedro o abraçou tão forte que o menor pode sentir seu coração batendo. Estavam ligados tão fortemente que pareciam não se separar mais. E essa era a vontade dos dois. Thomas notou que Pedro estava excitado, e dessa vez ficou também. Notou que os lábios de Pedro esboçavam uma pequena curva, num sorriso cheio de malícia, ele então guiou a mão de Thomas até abaixo de sua cintura. Ao tocá-lo Thomas estremeceu, e Pedro beijou-o novamente, aproximando-o ainda mais, e soltando um pequeno gemido de prazer.
Quando Pedro o abraçou, aquela hora, Thomas sentiu algo muito forte, mesmo com a água gelada sentiu calor por um instante. Não sabia bem explicar o que era aquilo, aquilo tudo era muito novo para ele, nunca pensara que sentiria nada igual, mas agora estava sentindo, e queria aproveitar aquele momento ao máximo. Confiava em Pedro, o amava. Pedro cuidava dele, o amava também, e Thomas estava disposto a retribuir todo aquele amor.
Quando já estava escurecendo deixaram o rio, era perigoso ficar ali aquela hora, afinal havia floresta ao redor deles. Thomas tremia de frio, Pedro o ajudou a se vestir e o aqueceu, abraçando-o. Os dois subiram a pequena colina abraçados. Ao chegar em casa Pedro pegou toalhas limpas para Thomas e para si. Haviam sujado os pés com a lama da margem do rio.
-Tome um banho quente, o banheiro fica por ali. — Disse Pedro, apontando a direção, saindo para o jardim e ligando a mangueira para lavar-se. A água da mangueira estava gelada, mas isso não era problema para Pedro, pelo menos Thomas estava tomando um bom banho quente, pensou. A vontade que teve foi de entrar e pular na banheira com ele, beijá-lo e agarrá-lo como se o mundo fosse acabar no dia de amanhã. Ainda não se considerava com toda essa intimidade, e limitou-se a imaginar o que estava por vir.
Pedro já havia se relacionado com muitos garotos, e até mesmo muitas garotas, mas com Thomas era diferente, ele nunca sentiu nada parecido com o que estava sentindo agora: um desejo de agarrá-lo, de possuí-lo, de tê-lo nos braços e não soltar nunca mais, de beijá-lo até não poder mais, de abraçá-lo até não ter mais força nos braços, era um desejo incontrolável o que sentia. Era como se Thomas o tivesse apunhalado, o ferido por dentro, abalado suas estruturas, mas, mesmo assim, ainda quisesse tê-lo. Como se houvesse uma ferida dentro de si, mas não sentisse. Precisava de Thomas, mesmo que aquilo prejudicasse a si mesmo, ainda assim o quereria. O que sentia era amor.
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