Verdade
2 Capítulo II - Revelações
Notas iniciais
O ar gelado tornava a manhã fria, os gramados cobertos de orvalho, Thomas caminhava em direção à escola, trazia a bolsa pesada com esforço, a mãe pusera roupas de lã, avisando que poderia fazer frio na capital. Estavam em outubro, quase em novembro, Thomas achou patética a ideia de que pudesse esfriar, mas a mãe não lhe deu ouvidos, e tratou de pôr alguns casacos de lã na bolsa.
–Nossa Tom! Pra quê tanta coisa? – Perguntou Juliana, espantada com o tamanho da bolsa.
–Você sabe como minha mãe é... Tratou logo de enfiar um monte de casacos, garanto que acha que vamos para o Polo Sul. – Justificou Thomas com um sorriso simpático, enquanto Juliana ajudava-o a segurar a bolsa.
–Hum, sei... – Concordou Juliana com um olhar de cumplicidade.
–Oi Pessoal, animados para a excursão? – Cumprimentou Carol, que chegava animada como sempre, juntamente com Rafaela e Mariana.
–Rafa! Mari! Em que grupo vocês estão? – Perguntou Thomas curioso.
–Nós estamos em dupla, íamos fazer com vocês, mas a professora Amarylis disse que só pode haver grupos com no máximo quatro integrantes.
–Ahh... Tudo bem então... – Concordou Thomas.
Todos fizeram silêncio, Amarylis, a professora de história, uma sujeita engraçada, gordinha e baixinha, de cabelos louros e cacheados, quase brancos, subia num pequeno banco para conseguir falar a turma, fazendo uma serie de recomendações a respeito da excursão, nada de novo, apenas as mesmas dicas que todos já sabiam, pois a professora não se cansava de repetir dia após dia.
Embarcaram no ônibus, Thomas sentou-se a janela, gostava de ir observando a paisagem, distraído, não reparara em quem sentou-se ao seu lado:
–Oi Thomas – Disse Pedro Henrique, apoiando o braço em volta dos ombros de Thomas, assustando-o.
–Desculpe, não queria te assustar- Desculpou-se Pedro Henrique ao observar o espanto nos olhos do garoto.
–Tudo bem, eu estava distraído. – Respondeu Thomas ajeitando-se na poltrona do ônibus, enquanto Pedro sentava ao seu lado. Pedro puxava conversa, e em pouco tempo os dois já riam juntos: falavam de música, televisão, amigos, os professores engraçados... Em verdade nunca haviam se falado tanto assim. Apesar de se conhecerem há bastante tempo, nunca trocavam mais do que um “Olá” ou “bom dia”. Agora conversavam como velhos amigos, Thomas se esquecera de seus medos, ou confusões, e uma sensação boa lhe tomava por completo, cada vez que olhava nos olhos verdes de Pedro.
O primeiro dia da excursão foi normal: ao descerem do ônibus visitaram os museus, o melhor de todos era o último: uma galeria com pinturas antigas, retratando a guerra, artefatos antigos, roupas, joias. Todos ficaram deslumbrados ao observar. O museu ficava a beira do rio, e no terceiro andar havia um terraço, com uma linda visão do pôr do sol. Já era tarde, e os alunos já estavam embarcando no ônibus, quando Pedro agarrou Thomas pelo braço:
–Venha! Vamos ver o pôr do sol! – Chamou ele, puxando-o.
–Não está muito tarde? Não devemos deixar a professora esperando... – Objetou Thomas, estranhando o olhar de Pedro.
–Tudo bem, venha comigo, não vai levar nem cinco minutos, eu prometo.
Thomas o seguiu, subiram as escadarias correndo, estavam com pressa, sentaram num dos bancos do terraço, e ficaram observando o sol tocar as águas do rio, o céu alaranjado, e as silhuetas dos barcos a passar.
Pedro Henrique olhava nos profundos olhos azuis de Thomas, que retribuía o mesmo olhar, não sabiam bem o que sentiam, não sabiam bem o que dizer, apenas se sentiam atraídos um pelo outro. Pedro Henrique se aproximou lentamente de Thomas, e finalmente os dois beijaram-se, Thomas sentiu seus lábios encostarem-se nos lábios quentes e molhados de Pedro, queria repudiá-lo, repeli-lo, abominar aquele beijo, foi tomado pelo medo e pela vergonha, “o que o pai pensaria se estivesse ali?” aquilo era um absurdo, pensou, e rapidamente afastou Pedro com os braços, empurrando-o com todas as suas forças.
–Fica longe de mim! Nojento! – Gritou Thomas, confuso, e desceu as escadas em seguida, pulando degraus, tentando conter as lágrimas. Sentou-se sozinho, na frente do ônibus, e chorou em silêncio, pensando no que acontecera. Será que alguém vira? Não, pensou, estavam sozinhos no terraço, mesmo assim alguém poderia ter visto, alguém que estivesse subindo as escadas. Não importava, Thomas se sentia confuso consigo mesmo, por mais que tentasse disfarçar e não admitir, ele gostara daquele beijo, sentira algo prazeroso, reconfortante, como se todos os seus problemas tivessem sumido, e por um instante só existia o prazer, entre ele e Pedro. Thomas se odiava por sentir isso, isso o tornava de fato um “viado” como diziam com desprezo. Queria esquecer aquela lembrança, mas não conseguia.
Ao chegarem ao hotel Thomas foi o último a sair, não queria que os outros vissem suas lágrimas, Pedro ainda tentou falar com ele, mas Thomas virou o rosto, ignorando-o.
Era hora do jantar, Thomas sentou-se numa mesa distante, separada do restante da turma, não comeu quase nada, apenas sentou-se na cadeira e apoiou os cotovelos na mesa, escorando a cabeça nos braços e encarando o vazio, com expressão triste. Juliana, ao ver aquilo, se aproximou, sentando-se ao seu lado e acariciando seus cabelos lisos.
–O que houve, Tom?
–Não houve nada Juliana, eu, eu só quero ficar sozinho... – Respondeu Thomas tentando esconder o rosto para que ela não percebesse os olhos vermelhos.
–Eu te conheço Tom, há muito tempo. – Respondeu Juliana envolvendo Thomas com os braços. – Você está chorando? – Perguntou ela, preocupada. – Me conta o que é que houve... Você não está nada bem... Eu estou preocupada.
–Ju... Você jura não contar pra ninguém?
–Thomas, eu prometo... –Respondeu ela, com um pequeno tom de indignação. — Nós somos amigos há tantos anos... Alguma vez eu já contei algum segredo seu?
–Não, desculpe... Mas o fato é que... É que... O Pedro Henrique me beijou... – Disse ele, e desatou novamente a chorar, sendo apoiado por Juliana. – E eu... Eu gostei....
–Thomas...Está tudo bem você ter gostado... Isso acontece... – Disse Juliana, tentando confortá-lo.
–Mas isso não é certo... É um absurdo! Eu não posso ter gostado... Ele é homem!
–Thomas, você não tem culpa de ser assim, você é diferente, mas isso é natural, o que não é certo é você não admitir isso para si mesmo. Se você sente-se bem, ou sente prazer ao lado de outro homem, isso é natural, por que você nasceu assim, e está seguindo seus instintos, seguindo seu coração. Fazendo o que te faz feliz, e não importa o resto.
As palavras de Juliana clarearam a mente de Thomas, ele não seria feliz fingindo ser alguém que não é, só seria feliz se assumisse para si mesmo o que era.
Subiu até o quarto, que dividiria com Pedro e com Marcos, outro colega. Marcos havia saído para o quarto dos outros meninos, e provavelmente ficaria até tarde da noite jogando cartas, Pedro ainda não havia subido, Thomas estava sozinho no quarto, aproveitou e tomou um banho, tremia de frio, pois o chuveiro quase não esquentava.
Sentou-se na cama, e aproveitou para ler os relatórios que fizeram, queria passá-los a limpo mais tarde. Pedro entrou sorrateiramente no quarto, envergonhado, não sabia como Thomas iria reagir a sua presença, tentou ser silencioso, mas se denunciou ao pisar no assoalho de madeira, que rangeu chamando a atenção de Thomas.
–Desculpe pelo que aconteceu, eu não queria ter chamado você de nojento... Eu só estava confuso sobre o que aconteceu... – Falou Thomas decidido, porém com um pouco de medo, Pedro poderia ter se magoado com ele.
–Tudo bem, sabe, eu também não devia ter te beijado daquele jeito, eu entendo que você deva ter se assustado. Mas agora, vamos começar de novo, como se nada tivesse acontecido? – Respondeu Pedro Henrique, com um olhar meigo, que fez Thomas sentir-se aliviado.
–Tudo bem, vamos começar de novo então... Porque eu...Eu gostei muito do jeito que você me beijou... – disse Thomas, com o rosto enrubescido de vergonha. Pedro se aproximou e beijou-o novamente de leve nos lábios, dizendo com um olhar lascivo:
–Espere então... Que você vai gostar muito mais...
Pedro Henrique saiu sorrindo, e foi em direção ao banho, lembrou-se das palavras de Thomas “eu gostei do jeito que você me beijou.” Não podia conter a alegria, há muito desejava-o, mas só agora tivera coragem para demonstrar.
Thomas estava deitado na sua cama, com os braços cruzados atrás da cabeça e os cabelos bagunçados pelo ventilador de teto. Observava o vazio, pensando distante, nas palavras de Juliana, no beijo de Pedro Henrique, na sensação que isso lhe trazia. Uma sensação de prazer, de conforto, de segurança, como se aquilo o protegesse, e todos os problemas sumissem.
Pedro Henrique entrou no quarto, estava vestido apenas um short verde, e a toalha branca pendurada no ombro, os cabelos castanhos, molhados, pareciam mais escuros. Ele sentou-se ao lado de Thomas, os dois se olharam nos olhos, Thomas ainda sentia um pouco de medo, e Pedro ainda tinha medo de assustá-lo, mas o medo não conseguia deter o desejo que sentiam, e Pedro em um instante afastou os cabelos que caiam sobre o rosto de Thomas e beijou-o com delicadeza. Thomas pensou em repeli-lo, mas esqueceu-se de todo o medo que restava, deixando-se beijar. Pedro enfiava sua língua na boca de Thomas, beijando-o com ardor.
Os dois deitaram-se na cama, um acima do outro, beijando-se e acariciando-se, Pedro massageava o peito de Thomas, por baixo de sua camisa, sentindo o calor de sua pele. Thomas estava inebriado pelos lascivos beijos de Pedro, que agora corria a língua por seu pescoço, subindo e descendo, dando leves mordidas nas orelhas de Thomas, que agora envolvia Pedro com seus braços, sentindo a pele de suas costas, e baixando as mãos, sentindo suas nádegas através do fino tecido do short que Pedro usava. Sentia também a excitação de Pedro contra seu ventre. Com um pouco de força Pedro levantou Thomas, fazendo os dois ajoelharem-se na cama, e beijarem-se novamente.
Thomas, que antes limitava a deixar-se beijar, agora beijava Pedro com ardor, trabalhando com a língua por todos os cantos da boca de Pedro, sentindo seu gosto, e fazendo-o sentir o seu. Thomas continuava a beijá-lo no pescoço e no peito, lambendo-o, beijando-o e mordiscando-o. Aquilo era muito melhor do que imaginava, uma sensação muito forte tomava conta, ele não sabia explicar o que era, mas era melhor do que tudo que já experimentara. Thomas nunca pensou em ter um primeiro beijo daquele jeito. Suas mãos percorriam o corpo de Pedro de cima a baixo, como se não quisessem soltá-lo nunca mais, não tinham noção do tempo que se passava ou da bagunça que fizeram na cama, estavam alheios a tudo enquanto estavam juntos.
Um rangido de madeira foi ouvido e a maçaneta girou, Pedro e Thomas foram tomados de pânico, se separaram abruptamente e deitaram-se cada um numa cama, ainda sem fôlego. Quem entrou no quarto foi Marcos, que andava a passos cautelosos por medo de tropeçar no escuro.
-Boa Noite! – Disse ele, tirando os óculos e deitando-se na terceira cama, que rangeu. Pedro sentia um pouco de raiva de Marcos por ter entrado justo na hora em que ele ia tentar algo mais, mas afinal de contas fora melhor assim, Thomas era muito inexperiente, não queria assustá-lo ou machucá-lo. Tudo tinha seu tempo, e Pedro estava disposto a esperar.
Enquanto isso Thomas não conseguia nem sequer pegar no sono, e não era pelo ronco de Marcos, e sim pela emoção que estava sentindo. Seu coração batia muito rápido, e sua memória repetia cada instante que havia se passado naquela cama, cada olhar, cada sensação, era tudo novo e deslumbrante. Sua vontade era de repetir tudo aquilo agora mesmo. Ainda tinha um pouco de medo, mas Pedro lhe dava segurança. Enquanto ele o envolvia com os braços, sentia como se não houvesse problemas no mundo, como se nada pudesse atingi-lo, se sentia seguro, protegido, como nunca se sentira antes. E ainda havia aquele calor que subia, o ardor que sentia na pele, Thomas estava suado, nunca pensou que um beijo fosse tão bom e intenso a ponto de despertar tudo aquilo, só conseguia querer mais e mais. Os dois foram feitos um para o outro, pensou, só lamentava por não ter falado com Pedro antes.
Quando finalmente conseguiu pregar os olhos, sonhou com aquele beijo a noite toda, imaginou-se em paisagens lindas: Uma praia deserta de mar azul e areia fina e branca. Deitava-se na areia, apoiando a cabeça no colo de Pedro, que acariciava seus cabelos, estavam juntos, felizes, pareciam um pouco mais velhos. Era tudo tão real, Thomas sentia até o vento batendo em seu rosto e a delicadeza das mãos de Pedro em seus cabelos. Imaginou se aquela não seria uma imagem do futuro. Torceu para que sim. Só tinha olhos para Pedro agora, não conseguia pensar em nada a não ser nele. Thomas finalmente conseguira alguém em quem confiar, alguém que entendesse tudo o que sentia, que o protegesse do perigo, e que gostasse dele de verdade.
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