Ventos do Inverno: Jaime & Brienne
4 Brienne II
“Você precisa viver...” Foi o que ouviu, mas não sabia de onde vinha a voz, não queria realmente encontrá-la. Olhou para os lados, tudo estava escuro, não conseguia nem mesmo se ver. Brienne ouviu som de passos se aproximando e direcionou seu olhar para lá, pode avistar um ponto insignificante de luz. O ponto ficou maior próximo até transformar-se em Renly, um Renly de armadura brilhante e manto, amos totalmente brancos como pérola, mas ele não estava em sua feição habitual risonha e simpática, estava sério e duro como ferro, quase lembrou Stannis, isso a fez querer vomitar.
– Brienne de Tarth...
– Por que está aqui? Eu faleci finalmente?
– Ainda não. Há coisas que você ainda precisa resolver no mundo dos vivos antes de partir. Você ainda é necessária.
– Não, não quero mais. Cheguei ao meu limite. Leve-me com você, sua graça. Quero viver a eternidade ao lado do meu único e verdadeiro rei.
– Nunca fui rei. Nem mesmo o seu rei e você sabe disto. – Ele permaneceu sério, Brienne decidiu que havia odiado aquele Renly branco, fruto de sua imaginação.
– Fala de Jaime?... Apenas aconteceu. Mas não queria. – Sentiu-se estranha declarando isso a algum tipo de entidade e também a si mesma, mas continuou a falar – amá-lo não muda nada. Ele tem a rainha dele e eu, as batalhas... – Renly lhe sorriu e finalmente pareceu-se mais com o que era antes.
– Continue.
– ... Não há nada para se conversar sobre isso. Só deixe me morrer, por favor. Não é como quando me chamaram de coisas ou me proibiram de ser quem eu sou. Essa verdade dói muito mais... – Mordeu o lábio, sentiu as lágrimas caírem e direcionou o olhar para os pés. O brilho de Renly iluminou seu corpo quando ele se aproximou, percebeu que estava nua, mas não se importava mais.
– Não me parece tão errado assim amá-lo, Brienne de Tarth — A entidade disse.
– Ele é o Regicida! – Aquele nome fez seu coração doer – O Homem sem Honra, matando e mentindo sem precedentes... Que deveria ter me deixado morrer em Harrenhal, mas não o fez.
– Ele fez isso tudo por você, Brienne.
– Fez por ele, não por mim.
– Diga-me, o que ele realmente teria a ganhar te salvando? Ou que ele teria a ganhar lhe contando a verdade sobre Aerys? Sei que já se perguntou isso uma porção de vezes... A verdade, Brienne de Tarth, é que você o encontrou. Encontrou um Jaime esquecido. Um Jaime que ele pensou ser inútil. E você o resgatou. Ele quer a honra de volta e começou por você. É importante que se mantenha viva e não deixe o antigo, justo e gentil Jaime desaparecer, entende?
– O que quer que eu faça? – Já sabia a resposta.
– Volte, não irá se arrepender... Estou orgulhoso de você. De vocês dois. – Ele terminou sorrindo. Brienne afirmou com a cabeça lentamente e sorriu de volta. A entidade Renly foi sumindo aos poucos até a escuridão reinar e ser consumida novamente por um clarão. A luz foi diminuindo e tomando formas, o mundo estava congelando a sua volta e seu corpo tremia para manter a temperatura do corpo encharcado. Ela levantou a cabeça lentamente, parte do rosto sujo de areia. Observou a cachoeira, a cabeça ainda doía, mas não como antes. Olhou para o lado, encontrou Jaime desacordado. Engatinhou até ele e o tocou. Estava vivo, percebeu que prendia a respiração.
– Jaime... Jaime... – Chamou com delicadeza. Sentiu seu rosto ficar vermelho e seu peito queimar. Outro calafrio lhe atingiu. As dores haviam cessado por conta do banho gelado. Não conseguia acreditar em tudo que haviam passado horas atrás. Haviam sobrevivido à queda!
– Conseguimos, sor Jaime.
– Quem é sor Jaime? – Jaime perguntou atordoado, ainda de olhos fechados. Tossiu água dos pulmões e abriu os olhos. – So-sou eu... Aqui é o paraíso ou o inferno? Eu sei que você irá para o céu, só não posso acreditar o inferno sendo mais bonito que você. – Ele a fitou com uma feição confusa e zombeteira. Brienne quis rir. Mesmo depois de tantas desventuras, tragédias, de jogos, de tramas, de dores e mortes, mesmo de todas as desgraças que os dois passaram. Jaime estava vivo e ela também. Então riu e não se importou. Foi uma risada rápida, mas foi o bastante para deixar Jaime surpreso. – Devia rir mais , milady. Mas só pra mim. – Aqueles olhos verdes fixados nela numa mistura de escárnio e inocência. Típico dele. Eu senti mais saudades disso do que imaginava ser possível.
– Está bem? Pode se levantar? – Perguntou querendo esconder o rubor que o comentário havia lhe trazido. Jaime tentou e caiu novamente na água com um splash, encharcando Brienne nos joelhos.
– Acho que quebrei alguma costela, quebrei alguma coisa – Fez uma careta de dor – Dói quando me mexo, mas acho que vou sobreviver. Pode me levar no colo?
– Tudo bem. Mas temos que sair daqui, encontrar um lugar para descansar... Hã? Não. Ainda somos caçados... – Olhou para cima, para a ponta da cachoeira. A névoa que as águas formavam não lhe deixava ter uma visão tão nítida, mas pressentia que lá no alto haviam alguns vultos observando-os, alguns se foram, mas um permanecia. Seria a Lady Coração de Pedra?
Ajudando Jaime a se apoiar com o braço em volta de seu pescoço, os dois saíram da margem da lagoa e foram em direção à mata que se estendia logo após. Brienne refletiu sobre a Lady novamente e seus capangas. Se eles iriam realmente atrás deles. Uma mata fechada e desconhecida, cheia de animais famintos, os dois tão feridos e cansados para qualquer novo ataque. Se não morressem enforcados pela Lady, a floresta se encarregaria disto. A roupa molhada e o vento frio, o peso da armadura e de Jaime faziam suas forças diminuírem a cada passo que dava.
– Deuses, você ainda está tão quente! – Jaime disse surpreso. A água da lagoa havia ajudado a baixar a febre, mas ela parecia querer voltar e junto dela o mal estar. Sentiu-se tonta e nauseada, tropeçou em uma pedra e caiu de joelhos ao chão, levando Jaime junto.
– Não dá... Não consigo mais. – Engatinhou até um tronco e arrastou Jaime consigo.
– Vamos ficar por aqui, boa ideia, garota. – Ele tinha que fazer piadas nos piores momentos, ela lembrou. Com lentidão e dificuldade ele se sentou ao lado dela e puxou o manto branco, agora bastante marrom e encharcado por sobre os dois. Ela encostou a testa no pescoço de Jaime e esperou mais alguma piada vinda dele, nada veio a não ser uma respiração pesada como a dela. Fechou os olhos, sentiu o mundo perder os sons...
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