Venefica

2 A beleza de salomão


Notas iniciais
Perdoem o desaparecimento, eu realmente sinto muito, tentei escrever, mas meu bloqueio estava terrível. Espero que possam me desculpar, e continuarem a ler.

A porta da loja se abriu com força, fazendo um baque surdo que espantou todos as pombas que comiam as migalhas que haviam ali perto, e revelou a presença de uma jovem moça, provavelmente não passava de dezesseis anos, seu corpo estava coberto de suor e de... ovo. Podre, eu diria graças ao cheiro.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas, e suas bochechas estavam tão vermelhas quanto um tomate maduro.

“Oh meus céus!” exclamei quando vi a figura entrar marchando em direção ao balcão “ei, garota, pare onde está! De jeito nenhum irá sujar o balcão que eu acabei de limpar, espere ai mesmo que eu irei lhe trazer uma toalha, quer algumas roupas também?”, ela balançou a cabeça negativamente, e eu parti para os fundos da loja indo buscar a toalha.

Voltei trazendo um balde de água, a toalha e um perfume. Entrego tudo para a moça e peço para que a mesma se sente.

Me ajoelho para ficar em sua altura e pergunto “O que houve de errado querida?”

Ela ainda se debulhando em lágrimas começa a falar arrastadamente “Na escola, uma semana atrás, eu me confessei para um garoto, ele era bem popular, apesar disso nós sempre fomos amigos, por isso não achei que ele iria fazer o que fez... Ele riu na minha cara, e espalhou para Deus e o mundo isso, e desde então, as outras garotas tem rido de mim e feito pegadinhas, assim como essa que você está vendo, quando eu parti para deixar a escola elas me cercaram e jogaram ovos em mim.”, ela começou a chorar cada vez mais forte. Eu não sabia como reconforta-la, afinal, humanos não eram minha espécie favorita, mas graças aos deuses ela continuou a falar e eu não precisei fazer absolutamente nada.

“Por isto vim aqui, eu quero me vingar! Uma certa amiga disse que comprou um amuleto de você pouco tempo atrás, e também disse que aqui vendia todos tipos de poções, talvez uma dessas poções possa me ajudar”.

Me senti extremamente estúpida por ter sentido pena dela, é só mais uma humana com sede de vingança, que deixou todo o ódio tomar conta de sua cabeça fraca. Me levanto sem sentir mais um pingo de empatia. “Está bem, seja mais especifica, o que você quer?”

“Ser bela”, ela respondeu decidida enquanto eu arqueava uma sobrancelha, “eu sei que parece não fazer sentido, mas se eu for a mais bonita, terei todos os garotos da escola aos meus pés e assim poderei realizar minha vingança! Poderia até mesmo fazer o Marcus, o garoto que me rejeitou, se apaixonar por mim pra eu poder rejeita-lo também!”

Dei um longo suspiro mas não a contrariei, já havia me acostumado com os desejos estúpidos dos humanos. “Certo garota, qual seu nome? Vou fazer a poção, e você vem pegar amanhã”

“Meu nome é Paula. Aliás, que falta de educação minha, nem sequer perguntei o seu.”

“Helena, Helena Venefica.” Disse voltando para o balcão e anotando os detalhes da poção, e o nome da jovem. “O que ainda está fazendo aqui? A menos que deseje comprar algo, pode ir. A poção não vai ficar pronta só porque está ai me encarando.”

Paula arregalou os olhos, visivelmente surpresa com a hostilidade em minha voz, já que eu havia sido consideravelmente agradável quando ela chegou. Ela balbuciou algumas palavras de despedida, para quais eu só acenei com a cabeça e deixou a loja, fazendo novamente as pombas voarem.

~♦~

Na manhã seguinte, antes mesmo da loja abrir, lá estava ela, sentada no degrau da porta. Agora sem todo aquele suor e o ovo no cabelo pude observa-la bem, e me admirei ao constatar que a mesma não era feia de modo algum, também não era a garota mais bonita do mundo, mas estava na média muito bem, seria um desperdício ela tomar tal poção. Mas de qualquer maneira, um cliente é um cliente, e eu não sou do tipo que rejeita os pedidos dos clientes.

Mandei ela entrar e esperei fazer o pagamento para lhe entregar a poção.

“Agora me escute bem menina, você jamais deve beber essa poção, ou sequer deixa-la encostar na sua carne, ou a carne de qualquer outra pessoa! Entendeu?”, ela balançou a cabeça afirmativamente. “Assim que chegar em casa, derrame todo o conteúdo do frasco em uma tigela de madeira ou de barro, coloque ao lado da sua cama e vá dormir rápido. Quando você acordar, todo o conteúdo da tigela terá sumido, e você terá sua nova forma. Logo após isso, quebre a tigela e o frasco da poção, e jogue ambos no lixo.”

“Entendi, seguirei essas instruções à risca. Entretanto, eu tenho algumas perguntas, as pessoas notarão que em um dia eu estava assim e no outro estava belíssima não? E tem algum efeito colateral? Não vai me fazer parar de respirar no meio da noite certo?”, ela perguntou. Admito, foram as perguntas mais inteligentes que algum cliente proferiu nessa loja.

“Não, com isso você não tem que se preocupar, com a poção será como se você sempre tivesse sido assim, e as pessoas só repararam agora. A mente humana é facilmente enganada. Efeitos colaterais, sim, tem. Mas garanto que não é nada que você precise se preocupar em vida, apenas sua alma será prejudicada. Ah, e o óbvio, uma vez que você decidir fazer isso, não tem volta”, respondi contando novamente as notas que ela me deu, e guardando no caixa.

“Minha alma?! Como assim?”

“A alma é a coisa mais pura e bela que você possui, e já que você quer se tornar bela por fora, terá que fazer uma troca equivalente. Sua alma ficará feia, digamos assim. Se tornará impura. Se quiser desistir, ainda dá tempo, mas lembre-se que não faço devoluções”, eu falei.

“Não, já fui longe demais para desistir. Eu quero que todos eles paguem. Além do mais, eu não acredito em ‘alma’”, ela disse fazendo aspas com as mãos. Engraçado, não acredita em alma, mas em uma poção sim. “Bem, muito obrigada senhorita Venefica, acho que não voltaremos a nos ver se tudo der certo, então adeus.”

“Adeus Paula, e mais um último conselho, a beleza as vezes enlouquece as pessoas.”

“Não se preocupe, não vou deixar isso me subir à cabeça”, ela se despediu mais uma vez e saiu.

Assim que ela fechou a porta deixei algumas palavras escaparem, “não estou preocupada com a sua loucura.”

~♦~

Eram três da madrugada quando eu ouvi batidas incessantes na porta da loja. Como eu morava no apartamento em cima da loja, aquilo não me deixaria dormir, portanto abri a janela e vi uma mulher batendo desesperada, seja qual fosse a emergência dela, teria de esperar até de manhã.

“Ei! Pare de bater, são três da madrugada, a loja só abre as sete!”, eu gritei para a mulher que olhou para o alto, e então eu a reconheci.

“Helena?! Senhorita Helena é você?! Me ajude, por favor”, ela gritou de volta. Era Paula.

Eu corri para baixo e abri o mais rápido que pude e abri porta, deixando ela entrar, mas antes de fecha-la totalmente consegui ver mais de dez vultos que vinham nesta direção.

“Paula, me diga, mas que bosta está acontecendo?”, ela estava chorando de novo, mas dessa vez era um choro mais delicado. Talvez para combinar com a nova aparência.

“Eu vou começar a explicar do começo para você. Assim que eu sai da sua loja, eu fui para casa e fiz como você ordenou, peguei um velho jarro de barro da minha vó e coloquei a substância dentro, também cumpri todos os outros passos. Aparentemente, tinha dado tudo certo, eu havia acordado, e quando me olhei no espelho, me senti a própria Afrodite.

“Quando cheguei na escola no dia seguinte, tudo tinha dado certo, eu tinha uma legião de fãs aos meus pés, até as garotas quiseram se aproximar de mim. Eu humilhei Marcus na frente de toda escola, estava tudo perfeito. Até todo essa legião começar a ficar obcecada demais, de repente eles simplesmente começaram a brigar. E não estou falando de um simples bate boca, eles começaram uma luta livre no meio da rua, e o motivo era; Quem iria ficar comigo?

“Eu tentei acalma-los, dizer que não precisava de tudo aquilo. E do nada, eles concordaram comigo, disseram que eu poderia ser de todos. Eu comecei a me afastar assustada. E então ouvi claramente um deles falando ‘vamos corta-la em vários pedacinhos, e cada um fica com um pedaço, afinal, tamanha beleza não pode pertencer a somente uma pessoa’. Desde então eles tem me perseguido com facas e eu apenas consigo fugir.”

Quando ela acabou a história, eu estava sorrindo. “Então, valeu a pena? Tudo isso por uma vingancinha?”, ela balançou a cabeça negativamente, “quero que veja mais uma coisa”, peguei um espelho de bolso e entreguei para ela.

“Me desculpe senhorita Venefica, mas a última coisa que eu quero agora é ver meu reflexo”, ela tentou afastar o espelho, mas eu empurrei novamente para ela.

“Apenas abra, o espelho de uma bruxa sempre mostra a verdade.”

Ela fez como eu mandei, e assim que olhou, suas mãos começaram a tremer, seus olhos se arregalaram, e ela o soltou, deixando cair no chão, antes de um grito estridente sair de sua garganta.

“Olhe o que você fez menina!”, eu gritei, “Se tiver quebrado serão sete anos de azar. Bem, não é como se você fosse viver mais sete anos de qualquer jeito”, e me abaixei para recolher o espelho, que por sorte estava intacto.

“O que é isso?! É um monstro assustador e nojento! É algum tipo de brincadeira?”, Paula gritou.

“Isso, minha querida, não é nada mais do que você mesma. Sua alma. Está tão podre e dilacerada quanto a de um assassino serial. Veja o que sua sede de vingança fez em você.”, ela balançava a cabeça negando. Não conseguia acreditar.

“Por favor... Me ajude!”

“Isto é impossível. Eu te avisei que uma vez que fosse até o fim não teria volta”, eu falei duramente, e neste momento, ouviu-se batidas nas portas, a legião de fãs dela estava clamando pela deusa. “Parece que temos alguns convidados. Olhe, eu não posso reverter o feitiço, mas eu posso tentar fazer um...”, antes de conseguir completar a frase ouvi um baque e senti uma ardência crescente na minha bochecha. A vadia havia me batido.

“Isso é culpa sua! Você vende algo tão perigoso, como se fosse normal. Você não me avisou sobre nada disso! Eu vou te matar!”, ela gritava sem parar.

Eu segurei no braço dela e comecei a arrasta-la até a porta. “Você é muito estúpida mesmo! Não te avisei? Faça me rir. Eu avisei, você não escutou. Tudo por sede de vingança! E agora, você quis se vingar de mim não foi? Achou que foi uma injustiça, e que eu merecia ser punida. Você deveria ter aprendido que a vingança só fode sua vida. Mas se não aprendeu da primeira vez, não tem segunda chance!”, eu abri porta e a atirei pra fora com violência, onde sua pequena legião poderia pega-la sem problema.

Subi novamente para meu quarto, e me apoiei na janela, para ver o que aconteceria, eles arrastaram ela até um beco, onde o massacre aconteceu. Ela foi esquartejada em vários pedaços, mas o barulho foi suficiente para que algum dos vizinhos chamasse a polícia, entretanto quando eles chegaram, cada garoto estava saindo com seu pedaço pessoal de Paula.

Foi nesse instante que eu presenciei uma das cenas mais nojentas em todas minhas vidas, eles não queriam se separar dos seus pedaços de maneira alguma, portanto quando os policiais tentaram tirar deles, eles simplesmente comeram os pedaços dela.

Não posso dizer que não dormi naquela noite, pois já havia visto cenas tão ou até mais nojentas que aquelas, e muito menos me sinto culpada pelo que fiz a Paula, eu não sou uma boa pessoa, nem sou má.

Eu realizo os pedidos deles, e o que acontece depois disso, simplesmente não é da minha conta. Se alguém quiser reclamar, minha adorável patrocinadora — a morte — está sempre disponível.

Notas finais
Espero que favoritem e comentem. Caso vejam algum erro que eu deixei escapar na correção, por favor avisem. Até o próximo capítulo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.