Em algum tempo e lugar muito distantes, talvez no passado, talvez no futuro, durante a noite, uma pequena cidade apagou suas luzes. As pessoas saíram a rua e caminharam, marcharam, como formigas que mudam de formigueiro, até a praça central. A praça onde ficava a única igreja, uma pequena construção de pedra, com apenas uma torre que não devia passar dos nove metros de altura.

Lá, em frente à igreja, as pessoas começaram a cantarolar, murmurar o mesmo cântico, em uma sincronia surpreendente, uma melodia calma e pacifica, mas, ao mesmo tempo, medonha e opressora. A igreja era o único lugar da cidade que emitia alguma luz.

As portas da igreja se abriram. Dois padres saíram lá de dentro, carregando lamparinas e iluminando a noite sem lua. Todos que estavam lá olharam os padres, com olhos fixos e assustadores. Sem parar com a cacofonia macabra. Os padres se assustaram, um deles se desequilibrou, com tamanha sincronia que o povo apresentara, tanto no canto quanto nos movimentos. Eles se balançavam levemente de um lado para o outro, os padres observaram. Um deles andou em direção à multidão, o outro, que havia se desequilibrado, ficou no chão, de joelhos, rezando e tremendo de medo.

O padre chegou perto, levantou a lamparina. Podia ver os rostos, na primeira fileira de pessoas, todas pareciam ter mais de 30 anos de idade, usavam ternos, vestidos, calças jeans, camisas de cores claras. O outro, começou a rezar ainda mais rápido. A multidão era de rostos assustados, bocas trêmulas, dando a impressão de que a cacofonia não partia das pessoas, olhos arregalados, vermelhos e secos, como se não fechados há horas. O padre andou para dentro da multidão, nas cinco próximas fileiras, crianças, muitas crianças, não muito novas, não muito velhas, imaginando um mínimo de sete anos de idade e um máximo de treze. Ele reconheceu algumas.

O padre que estava ajoelhado levantou-se, tremendo e gritou, com uma voz trêmula e aguda: — Thomas! – E seu colega olhou para trás. Trêmulo, o que ficara na porta da igreja apontava para o meio da multidão. Padre Thomas olhou para a direção em que seu companheiro apontava e viu, ao longe dentro da multidão uma luz dourada brilhando fracamente. A multidão deu espaço para Thomas, que começou a andar vagarosamente em direção a luz. Depois de andar por mais ou menos trinta metros, a fonte de luz já podia ser discernida, era uma criança, bem jovem, devia ter uns três anos de idade.

Perto da criança a luz brilhava forte e poderosa, mas algo continha aquela luz, uma aura negra cercava e prendia toda a luz ali. O padre começou a andar mais rápido. Quando chegou perto da luz, tropeçou em alguém e caiu aos pés da criança.

Padre Thomas tentou se levantar, um pé desceu sobre seu ombro e, com muita força, o empurrou de volta ao chão. O sacerdote olhou para seu agressor, era um homem jovem, magro e alto, os olhos eram tão azuis que nem pareciam reais, a pele era cinza, como se nenhum sangue circulasse por dentro dele, o cabelo era loiro e curto. O jovem colocou um cigarro na boca e o acendeu estalando os dedos. A criança segurou a mão do jovem e lágrimas vermelhas começaram a correr pelo rosto do pequeno ser.

Atrás da criança, escondido dentro da aura negra, uma figura alta com olhos flamejantes encarava o padre com um ódio inimaginável. O padre se rendeu ao medo e ao pavor, soltando a bexiga e urinando nas calças. A figura abriu um sorriso branco e largo e uma voz feminina ecoou por dentro da mente do padre – Covarde!

Um grito chegou aos ouvidos de padre Thomas e ele reconheceu a voz de imediato, era o padre que ficou para trás. Mas Thomas não podia agir, o garoto, mesmo magro, era muito forte, e nem parecia se esforçar para prender o padre ao chão. As lágrimas tomaram a face do sacerdote, que não conseguia mais observar as figuras que o cercavam.

Algo tocou o queixo do padre e puxou seu rosto para cima fazendo com que ele olhasse para a criança, ela já não mais chorava, mas o rosto ficou marcado pelas lágrimas. A criança agora emitia uma luz alaranjada, como se aquele dourado tivesse sido manchado pelo sangue das lágrimas de antes. O padre começou a ouvir uma voz, dessa vez masculina, e ela vinha da criança, mas não de sua boca, era como se a mente da criança falasse com a mente do padre.

— Senhor, eu pequei. – A voz era grave, mas, ao mesmo tempo, suave e macia, boa de se ouvir.

O jovem tirou o pé de cima do ombro do padre, se agachou, pegou o padre e o colocou de joelhos em frente a criança. Agora o padre podia ver melhor a figura sorridente atrás da criança, era um homem alto e muito forte, parecia ser careca e ter a pele negra, estava vestindo um terno preto, camisa branca e gravata também preta, como um segurança de shopping. A figura não mais sorria. O padre sentiu a presença de mais alguém atrás dele, mas não ousou olhar para trás, mas não foi por medo, mas por que os olhos castanhos da criança pareciam hipnotizar a alma do sacerdote para que ele não olhasse para qualquer outro lugar.

O padre respondeu a voz que vinha da criança:

—Me diga, filho, que pecado cometeu? – A voz do padre estava trêmula, assim como o todo o corpo dele.

—Eu fiz Lilith, a moldei da minha própria carne, assim, ela era muito melhor que aquele homem de barro. Eu dei à Eva o presente da vontade, do desejo e da razão e ela o passou à Adão e eles ao mundo. Eu corrompi Sodoma e Gomorra, um trabalho benfeito. Eu viajei pelos ventos ajudando os povos, dei conhecimento a eles. Esse é meu pecado, esse é o pecado dos que vem das trevas.

O padre não soube o que dizer, não soube o que fazer, algo naquelas palavras o fez travar. Não importa o quanto sua mente tentasse, o corpo estava totalmente travado. A noção de tempo do padre estava ficando estranha, ele não sabia se ficou escutando aquela voz por alguns segundos ou se foram por vários anos.

A luz emitida da criança começou a ficar dourada novamente. Ela suspirou e olhou para o céu. Nuvens escuras começaram a se concentrar sob a cidade e trovões rasgaram os céus com suas luzes arroxeadas.

A voz masculina voltou a falar, mas dessa vez veio dos lábios da criança.

— Sabe, padre, eu gostaria de conversar mais, mas temos assuntos a resolver. – A criança olhou para o jovem que agredira o padre antes. – Himeros, é hora.

Himeros jogou o cigarro no chão e o apagou com o pé. O padre observou que aquele não era o primeiro que ele apagava, várias bitucas já se acumulavam perto dos pés do jovem. Himeros soprou a fumaça vagarosamente para fora da boca, criando figuras disformes e hipnotizantes. A fumaça que saia dele não era a do cigarro, não podia ser, havia muita fumaça saindo do corpo do jovem. A fumaça era leve, podia-se ver por dentre ela com facilidade. A fumaça se espalhou rápido, em minutos ela cobriu a praça toda. Mas havia algo mais na fumaça, com o tempo, ela começou a mudar de cor, primeiro para rosa, depois roxo, vermelho, amarelo, azul, verde. O cheiro também mudou, de cheiro de cigarro barato para um aroma que não existe na Terra, era doce, parecia de alguma flor, mas também não parecia natural. Parecia mágico.

A névoa colorida e cheirosa, e mágica, penetrou nas narinas e chegou aos pulmões da população agrupada ali. Porém, ela evitava o padre, a criança, o ser que estava atrás da criança e a figura que estava em pé atrás do padre.

Durante o tempo que o padre ficou perto daquelas figuras, daqueles seres, ele praticamente esqueceu da multidão que o cercava, mas um som alto, vindo da multidão o despertou da quase hipnose que o acometia. Som de ossos quebrando e de carne sendo amassada. O Som ficava cada vez mais violento.

O padre levantou, buscando forças das maiores profundezas de seu ser e de sua fé, e começou a procurar a fonte do som. Olhou para trás e viu o ser que havia ficado ali enquanto ele estava ajoelhado. Era um homem alto, gordo e careca, com uma barba ruiva e muito longa, os olhos eram azuis como os de Himeros. Na mão direita o homem carregava uma machadinha suja de um líquido vermelho e na esquerda uma garrafa de vinho aberta.

O som mudou. Não era mais apenas de ossos e carne, mas agora também haviam suspiros, gemidos de prazer. Thomas correu. Correu para dentro da multidão, empurrando as pessoas e buscando a fonte daquele som horrendo. O padre passou por fileiras de pessoas que pareciam inacabáveis, até que chegou no meio da praça, era dali que o som vinha, ali a fumaça era muito mais densa. No meio da fumaça adensada, uma montanha de corpos nus que se entrelaçavam em violência e luxuria, alguns homens lutavam uns com os outros, por cima dos homens que lutavam, mulheres e jovens esfregavam seus corpos uns nos outros, numa orgia grotesca e sem ritmo.

O padre ficou estático, apenas observava sem reação àquela cena, um tanto quanto, diabólica. Algo tocou a mão do padre e o retirou do transe, era a criança de aura dourada. O padre sentiu paz, ternura, amor, mas misturado a isso havia terror, medo, avareza, e isso vinha da criança. A criança apontou para a massa de carne dançante.

O corpo de Thomas começou a pesar, um cansaço repentino, vindo das profundezas do nada. Caiu de joelhos. A mão da criança ainda apertava a sua. O padre olhou para onde a criança apontava, ela apontava para um homem gordo, com a barba ruiva e olhos de um azul impossível, o mesmo que antes carregava a machadinha, agora, porém, ele dançava em volta dos corpos com uma jovem de cabelos negros, presenteada com belos cachos, magra, a pele morena, tão bela quanto os anjos, ambos, a jovem e o gordo, estavam nus.

Quando perceberam a presença da criança, o homem gordo e a jovem pararam de dançar, mas continuavam animados, o homem gordo continuou a rodopiar por ali, atirando vinho para o alto, tal vinho que, para o padre, parecia sair de pleno ar, como se as próprias mãos do homem jorrassem a substancia. Já a jovem saltitou em direção aos dois, o corpo nu parecia cortar o ar com a sua perfeição. Um perfume doce tomou conta da mente do padre, um cheiro único e natural.

A jovem se aproximou do padre, para que ele percebesse que o cheiro era dela, e foi isso que ele fez, suspirou profundamente, deixando o perfume tomar conta dos pulmões e soltando o ar vagarosamente, para aproveitar cada momento. Mais uma vez o padre suspirou, dessa vez o perfume se misturara a um cheiro amargo, um cheiro humano, de suor e de tesão. Ereção. O padre estava excitado, o cheiro foi suficiente, ele desviou o olhar, o rosto vermelho com a vergonha, uma vergonha adolescente. Ele sentiu vontades que nunca antes passaram por sua mente, vontade de beber, de ficar nu, de dançar, sentiu prazer. Sentiu luxuria.

As mãos do padre alcançaram as pernas da jovem, a pele macia fazia massagem nas mãos calejadas do padre. A jovem deu um passo em direção ao padre, ficando quase colada ao corpo do homem. Ele continuou movendo as mãos, apreciou cada pedaço, as coxas, as panturrilhas, os pés. Padre Thomas olhou para o rosto da jovem, ela olhava para ele com sede, sede dele. Thomas não demorou para entender a mensagem, apertou os glúteos da jovem e a puxou para mais perto, fechou os olhos e deixou que sua língua fizesse o resto. Ele nem precisava pensar, seus instintos moviam sua língua pela vagina da jovem, a jovem suspirava e liberava gemidos que, ao chegar aos ouvidos do padre, faziam com que ele gemesse. A jovem tocou a nuca do padre e o puxou pelos cabelos, erguendo-o, ele era um pouco mais alto que ela. A jovem o beijou. As mãos do padre passearam pelo corpo da jovem, como errantes em busca de um destino, até que uma delas encontrou um dos seios e a outra foi até a nuca da jovem. O padre ainda mantinha os olhos fechados. A jovem empurrou o padre, que caiu no chão. O impacto que fez com que ele lembrasse que ele não estava sozinho ali, a criança estava ao seu lado e milhares de pessoas os cercavam.

Abriu os olhos. Não havia mais praça, fumaça, pessoas, também não havia mais cheiros e sensações. Calma. A mente do padre ficou calma, mas seu coração ainda batia rápido. O padre agora estava em pé no altar da igreja. Observando a figura de Jesus presa à uma cruz, o sangue escorrendo pela face e pelas costelas e os músculos atrofiados do corpo magro de um pobre coitado. O coração acalmou-se. Thomas sentiu pena, pena daquele ser ali pendurado, tudo que ele disse fora ignorado, as pessoas não ouviam sua mensagem de compaixão e amor, preferiam olhar a figura, adorar o ídolo. Todos seguem figuras e ídolos, não mensagens. Por vários minutos padre Thomas olhou a figura de Jesus, até que os sinos tocaram, tirando Thomas daquele transe pacifico. O padre virou-se, não estava na sua igreja, essa era grande, com vitrais altos, um longo salão, o piso tinha desenhos de flores vermelhas, dos ramos das flores saiam espinhos, duas grandes portas de madeira separavam o interior do lugar do que quer que existisse do lado de fora.

Thomas andou pelo salão, passando a mão pelos bancos de madeira, preparados com apoios para quando os fiéis tivessem que se ajoelhar perante o Senhor. Haviam muitos bancos, bancos demais. Thomas andava e andava, mas parecia nunca sair do lugar. Nervosismo tomou conta do padre. Thomas olhou para atrás, o altar estava longe, então ele havia saído do lugar, mas aquele salão era tão enorme que parecia que ele não andava. Então, Thomas andou, andou muito. Em momentos ele entoava canções, em outros dava saltinhos, como se brincasse de amarelinha. O padre sentia a infância novamente, quando ele fugia de sua mãe para não ter que ir à missa. Fazia anos que ele não via os pais, foi abandonado quando tinha 13 anos, os pais falavam que ele não tinha salvação, que estava perdido para sempre, e olhe só agora, era padre, uma nobre profissão, um ajudante do povo. Lágrimas correram pelo rosto do padre. Ele não mais sentia a alegria da infância, mas sentia a frustração da adolescência, a frustração de querer ser mais e não conseguir, de se apaixonar com facilidade, mas ser ignorado pelo mundo a sua volta. Andava de cabeça baixa pelos corredores, lágrimas molhando o chão do enorme salão.

A tristeza e a frustração transformaram-se em cansaço, não físico, mas mental. As lágrimas cessaram. A cabeça começou a doer, uma dor explosiva, que vinha de dentro para fora, destruindo o que havia no caminho. Caiu de joelhos, colocando as mãos na cabeça, agarrando-se nos cabelos e soltando um grito silencioso, de quem sente a dor mas esconde de quem ama e não deseja ser ajudado. Ele deitou no chão e agonizou, soltava suspiros e grunhidos reclamando da dor. Estendeu a mão, na busca de algo, ou alguém, mesmo sabendo que não haveria ajuda, porém, sua mão foi impedida por uma forma solida, que não tocava no chão, de madeira, mas firme como uma rocha.

Thomas olhou para frente e viu aquilo que buscou com tanto esforço, a porta de saída. Pelo menos era o que parecia, mas não havia como ter certeza de que aquela porta o levaria realmente para fora. Tudo que vinha pelos vãos da porta eram luz e ar quente. Padre Thomas se arrastou, buscou apoio na maçaneta da enorme porta, levantou com dificuldade, suas forças voltavam vagarosamente, ficou de joelhos primeiro, para depois de alguns minutos descansando, finalmente, ficar em pé. Tocou a maçaneta, de algum modo, ele sabia que a porta não estaria trancada. Girou a maçaneta, mas não abriu a porta, a dúvida sobre o que haveria do outro lado fazia com o que padre hesitasse. O padre olhou para trás, para o crucifixo no altar e, como instinto, girou a maçaneta e a porta abriu.

Quando Thomas se virou para olhar para fora, ele se viu em uma longa planície, com quilômetros de campos, ao longe, densas florestas cercavam o lugar. Thomas demorou a perceber que a igreja não existia mais em suas costas, atrás dele havia agora um enorme carvalho. Padre Thomas começou a circular o tronco da gigantesca arvore, quando reparou que não estava sozinho, observando a grandiosa arvore, estava um jovem, estatura mediana, cabelo longo, de fios dourados, olhos cor de mel, pele tão branca que parecia que aquele ser era a própria palidez, o jovem trajava uma armadura completa, prateada e com alguns detalhes em ouro verde, no tórax, um tabardo marcado com um carvalho verde num fundo negro. O jovem emitia a mesma luz dourada que a criança da praça. A presença do jovem desconcertava o padre, era uma presença poderosa, opressora, mas, ao mesmo tempo, pacifica e amorosa. Padre Thomas não sabia se devia se aproximar ou se deveria ficar onde estava, ou, até mesmo, ir para longe.

— Venha, padre – o jovem disse. A voz era de um tom calmo, e persuasivo. – Não há o que temer.

A fala repentina assustou o padre, o coração acelerou por alguns segundos, mas o padre fez o que o jovem pediu. Se aproximou, ficou ao lado do jovem e olhou a grande arvore com atenção. Viu ali um certo charme, uma beleza diferente das coisas mundanas, uma beleza além do natural.

— Você é a criança, não é? – O padre perguntou sem desviar o olhar do enorme carvalho.

— Não, eu não sou aquela criança – a resposta era sincera.

— Qual seu nome? – Thomas perguntava sem pensar, as palavras saindo de sua boca como as águas que caem nas cachoeiras.

— Nome? – O jovem sorriu. – Ainda não tenho nome. Todavia, um dia serei chamado de Merlin.

O nome não era o que o padre esperava, Thomas esperava o nome de algum demônio, de algum deus pagão ou até mesmo de um anjo, mas não, o nome dito ao padre foi o do mago das antigas histórias de Rei Arthur. O jovem poderia estar enganando o padre, jogando seus jogos demoníacos.

Não, o padre sabia, ele podia sentir, aquele era, ou melhor, seria o nome dele.

O jovem virou de costas para a arvore. O padre tentou fazer o mesmo, mas foi interrompido pelo jovem, que tocou o ombro de Thomas, fazendo com que ele sentisse o frio do metal das manoplas prateadas. Thomas observou melhor o garoto, ou melhor, analisou a aura do garoto, ela transmitia as mesmas sensações que a criança, mas era muito mais intenso, muito mais vivo e límpido e as sensações ruins eram praticamente anuladas por um sentimento de ternura e compaixão que fariam qualquer ateu começar a acreditar que deuses existem. O jovem olhou fixamente para os olhos de Thomas, como alguém que olha a pessoa que ama, porém, o olhar do jovem não tinha sentimento, era vazio, tão vazio que Thomas achou que ia cair lá dentro. E caiu. A escuridão tomou conta de sua mente.

O padre caia, ou achava que caia, num poço sem fim, um poço de sombras e de morte. A visão era inútil naquele poço, mas o olfato e a audição funcionavam bem. Ao longe, Thomas podia ouvir murmúrios, poucos sons sussurrados aos ventos, sem direção ou ouvinte, também chegava ao nariz do padre o cheiro de velas de cera. Eternidades se passaram e Thomas ainda caia, de repente, os murmúrios viraram vozes, várias vozes, ritmo, elas tinham ritmo, era um canto, Thomas reconheceu o canto, era a multidão, o padre voltava para o pesadelo de antes, para o acumulo demoníaco dos pecados que se aglomeravam em sua porta.

A luz retornou aos olhos do padre, uma luz forte, como se mil lanternas apontassem para sua face. Os olhos foram se acostumando aos poucos, as formas começaram a fazer sentido. Thomas estava novamente em frente ao grande carvalho, mas agora era noite e uma tempestade açoitava os céus com trovões. Olhou em volta, estava de volta na praça, as pessoas ainda estavam ali, hipnotizadas por aqueles seres estranhos, e a fumaça também. Padre Thomas virou-se de costas para a grande arvore e deu um passo, seu pé afundou na lama, a lama ali não era apenas água e terra, havia sangue. Antes de dar os próximos passos, algo incomodou o padre, nunca antes houve um carvalho naquela praça. Padre Thomas voltou a olhar para a arvore, a criança estava lá, sentada em um galho baixo, balançando as pernas como se estivesse se divertindo com a situação de estar ali, de poder alcançar o chão.

Thomas sentiu raiva, raiva de si mesmo, daquela situação, daquela impotência, raiva além do que ele já havia sentido até aquele momento. Raiva. Ódio. Ira. Gritou com todas as forças que ainda restavam. O grito cortou a tempestade e pareceu afetar as pessoas ali, todas olharam para o padre, com expressões vazias de sentimento, só o cântico preenchendo suas faces.

Da multidão surgiu um homem muito alto, corpo musculoso, pele negra, cabeça raspada, vestia apenas uma calça de moletom e estava descalço, olhar raivoso. O mesmo que estava atrás da criança. O homem veio em direção ao padre, sem correr, mas com passos rápidos. Se aproximava rápido demais, a lama não incomodava seus passos, quando chegou bem próximo do padre, cumprimentou-o com um soco no rosto. O soco do homem era forte como uma marretada, jogando o padre na lama. Thomas estava com raiva, adrenalina corria livremente por suas veias, o soco causou danos, mas não causou dor. Na lama, o padre sorriu, um sorriso torto, de ódio. Levantou-se rápido e olhou para o homem, desafiando-o. Outro soco, de baixo para cima, acertou o nariz, jogando-o para trás. O padre levantou novamente, o rosto sujo de lama e sangue, um pouco do sangue era dele mesmo, o nariz estava estourado, a bochecha se cortou, o lábio inchado e, ainda assim, o olhar do padre não se abalava, continuava cheio de ódio e desafios ao grande homem. Os pingos da chuva eram grossos e machucavam a face, mas mal conseguiam fazer algo com a sujeira que impregnava as roupas. Thomas cambaleou para frente, afetado pelos golpes, oportunidade que não foi desperdiçada pelo desafiado, outro soco, dessa vez, um direto, alvejando as têmporas. Um trovão cortou os céus, iluminou a noite negra por um curto milésimo de segundo, mas foi suficiente para o padre ter uma visão do que se escondia por trás do homem que o agredia. Por um milésimo de segundo o padre Thomas viu aquele mesmo homem, mas agora trajando uma couraça que um dia já foi prateada e brilhante, mas agora era cinza e apagada, usava um elmo parecido com os dos espartanos, fechado, queixada pontuda, no topo, uma crista vermelha, na mão que açoitava o padre, um martelo de batalha, na outra, um escudo dourado de forma circular. Outro soco acerta-o, esse foi muito mais forte, jogou o padre para trás novamente. Thomas tentou levantar, mas não conseguiu, os olhos começaram a pesar, ele iria desmaiar. Com os olhos semiabertos, Thomas viu que o homem que o agredia vinha em sua direção, já preparando o golpe de misericórdia. Muitos trovões começaram a cair, abafando qualquer outro som. O homem se ajoelhou em cima do padre e preparou seu golpe, uniu as mãos e as ergueu. Quando começou o movimento que poria fim a vida de padre Thomas o homem foi interrompido por um grito.

— Já chega!

Uma voz poderosa, tão poderosa que a própria natureza se curvou ante tal poder e fez cessar os trovões e a chuva, fez calar o coro maldito cantado pelas pessoas da cidade, fez o vento soprar a fumaça hipnotizante de Himeros para longe e encheu o padre de vida. Mas não foi suficiente, o padre desmaiou. Sons tomaram conta da mente de Thomas, sons de fogo, de metal batendo em metal, gritos guturais em idiomas esquecidos, ou ainda nem criados e, por fim, a voz calma de Merlin conversava com a voz que interrompe tempestades.

Branco. Branco cercava Thomas. Paredes brancas. Janela aberta. Um quarto branco. Luz do sol. Um quarto de hospital. A cabeça de Thomas doía como se ele estivesse com a mais forte das ressacas. Pequenos fios penetravam as artérias do padre, por eles, fluía soro, uma mistura de nutrientes para não deixar a pressão sanguínea variar, no nariz, mais fios, estes tinham oxigênio. Apenas um fino lençol cobria o corpo machucado, era verão, afinal. Passos fora do quarto, talvez enfermeiros. Parecia ser manhã. A barriga reclamou, acompanhada de um sentimento repentino de fome. Padre Thomas olhou ao redor, procurando algo para chamar enfermeiros. A visão dele não estava boa, embaçava quando ele se movia e demorava a focar. O padre não precisou procurar muito, uma enfermeira entrou no quarto, não parecia jovem, mas também não era velha, era baixa, um pouco acima do peso, mas muito bonita, o cabelo era castanho, amarrado em um coque. Ela pareceu surpresa ao ver o padre acordado.

— Ah, bom dia, padre. Como se sente? – Disse a enfermeira, com uma mistura de surpresa e atenção. Típico de enfermeiros.

— Bom dia, enfermeira – Thomas respondeu baixinho, colocando a mão na cabeça, de forma delicada. – Minha cabeça ainda dói, mas tirando isso, só a fome me incomoda – finalizou a frase com um sorriso simpático.

A enfermeira saiu apressada, dizendo que logo traria comida. O padre achou que ela iria enche-lo de perguntas, mas ele ficou aliviado que ela não o fez. Ele levantou e caminhou até a janela. Da janela dava para o centro da cidade, um aglomerado de prédios comerciais, outdoors e lojas, mas em meio a todo esse caos, ainda haviam algumas poucas casas, que resistiam à modernidade, provocando uma mistura colorida entre passado e futuro. Da janela em que o padre estava podia-se ver a praça da igreja, e lá estava o grande carvalho, no centro da praça, se destacando entre as outras arvores. As pessoas caminhavam lá em baixo como formigas levando comida para o formigueiro. Caminhavam como se nada estranho tivesse acontecido na cidade.

A enfermeira voltou com a comida, um prato com sopa e um copo de suco de laranja, deixou em uma mesinha perto da cama, desejando ao padre um bom café da manhã. O padre agradeceu, sentou na cama, puxou a mesinha para perto e começou a comer. A sopa era de frango com algum tempero que o padre não reconhecia, mas era boa. O suco estava um pouco quente, mas nada que incomodasse muito o sabor. Depois de comer, o padre explorou o quarto. Para chegar na porta de saída, era preciso passar por um curto corredor, neste corredor havia uma porta, que o padre logo descobriu que levava ao banheiro. Padre Thomas entrou lá e foi até o espelho, observou seus machucados, cortes pequenos nas bochechas e nos lábios, nariz estava enfaixado, provavelmente quebrado, um curativo cobria o supercílio esquerdo. O padre abriu a boca, para olhar os dentes, sua mandíbula doeu e ele teve que fechar a boca antes de conseguir ver os estragos, mas ele conseguiu ver que um canino inferior estava quebrado. Esses machucados só deixaram mais claro na mente do padre que aquilo foi real, porém, ninguém parecia lembrar, ou pelo menos, se lembrava, não parecia se incomodar com o ocorrido.

O dia passou rápido, algumas pessoas mais ligadas à igreja vieram ver o padre, nenhuma comentou o ocorrido, nenhuma sequer parecia lembrar. Perto do fim da tarde, um policial entrou no quarto, fez algumas perguntas, mas não sobre o que realmente aconteceu, o policial falou sobre um assalto à igreja, disse que mataram o outro padre a machadadas e que encontraram Thomas desacordado nos degraus do altar, segurando folhas do velho carvalho. Essa afirmação deixou o padre intrigado, ele falou como se o carvalho estivesse ali há muito tempo, pelo jeito que o policial falava, estava lá antes de ele ter nascido. Mas o padre não sabia responder direito as perguntas, tudo que ele pode responder foi sobre o homem que o agrediu, o qual ele não conseguia lembrar direito, todavia, sempre que o padre pensava no homem, o nome de Ares, o deus grego da guerra, vinha até sua mente. O resto, as pessoas, o coro, a orgia, os embates, a criança, Himeros, tudo isso ficou para o padre. A conversa com o policial também ajudou Thomas a se localizar nos dias, havia passado uma semana inteira.

Padre Thomas precisava passar mais uma noite no hospital, seria liberado no outro dia pela manhã. A noite chegou rápido, mas o sono esqueceu de vir visitar o padre. Sua mente se incomodava com tudo que havia acontecido, mas, principalmente, com a criança dourada e com o jovem que chamou a si mesmo de Merlin.

Quando o padre percebeu, já era manhã e ele acordava, pegou no sono sem perceber. O padre ligou uma pequena televisão que ficava pendurada no canto do quarto, nada de interessante, mas o som daquilo era melhor que o silencio. Pelo horário na TV, já passavam das dez e meia da manhã. Às onze, um médico entrou no quarto, veio para dar um último exame nos ferimentos. Nada de errado, ele podia ir embora. Alguém havia trazido roupas limpas para ele. Thomas tirou a camisola branca do hospital e colocou a roupa que deixaram ali para ele, uma camisa branca, bermuda e chinelos.

Thomas saiu do hospital sem pressa, era um dia bonito, que devia ser aproveitado com calma. Mas não era sua casa que o padre queria ver. O padre caminhou pelas ruas vagarosamente, cumprimentando todos a quem reconhecesse, jovens, adultos, idosos, até cães. O padre caminhou até a praça que fica em frente à igreja, seguiu vagarosamente pelas calçadas que cortavam a praça em um mosaico colorido pela natureza, o verde das folhas, o colorido das flores, o cinza dos prédios. Parou no centro da praça, onde agora se erguia um carvalho, e observou a grande arvore. Naquele momento ele sentiu o mais puro dos amores, o amor pelo mundo que o cerca e a união com as pessoas que esse amor proporciona, o amor mais maternal e mais humano. Seus lábios desenharam um tímido sorriso. Depois de uma noite de pesadelos e pecado, uma manhã de ternura. Mas padre Thomas sabia que a partir daquele dia, nada, nunca mais, seria o mesmo.

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