Velas e ventanias
3 Por vontade própria
Já fazia meia hora que Jane estava dirigindo quando finalmente encostou o carro em uma rua que coincidia com o endereço que Korsak havia lhe dado. Maura pareceu aliviada. Em todo caminho advertira Jane sobre a alta velocidade, sobre as freadas bruscas, sobre não passar o sinal vermelho. A morena rebatia com 'é para compensar os minutos que você perdeu se arrumando'. Maura começou a falar alguma coisa sobre o número de acidentes causados por intolerância no trânsito, mas Jane levantou uma sobrancelha e lançou um olhar mortífero para ela, o que a fez se calar imediatamente. Ela não precisava de uma Jane furiosa, e precisava ainda menos de uma Jane furiosa sem os olhos na estrada. Seria um desastre.
Jane pulou para fora do carro e deu uma olhada em volta. Aquele era o endereço correto. De um lado da rua, a selva de concreto; casas e prédios e escolas. Do outro lado o rio que cortava a cidade ao meio. Jane pegou o celular e leu a mensagem de novo. Estranho. Rua certa, número certo. Ela até podia ver o pequeno prédio de tijolos vermelho com um jardim florido na frente que Korsak dera como referência, mas não havia nenhum corpo ali.
'Acho que estamos no lugar errado', disse ela em voz alta, tentando achar um corpo cercado por policiais perto do jardim.
'Acredito que você esteja procurando no lugar errado.' Afirmou Maura.
Jane se virou para encará-la. A médica estava sorrindo e já colocando as luvas. Jane franziu as sobrancelhas e quando a loira lhe apontou com a cabeça um grupo de policiais parados mais a frente, do outro lado da rua, Jane jogou a cabeça pra trás e resmungou.
'Você deve tá brincando!'
Maura deu de ombros. Ela raramente brincava. As duas se encaminharam até o local, passaram por baixo da fita amarela depois de cumprimentarem o policial e se identificarem.
Não havia corpo nenhum na grama, mas uma boa parte do terreno estava isolada. Maura caminhou até a borda, onde encontrava uma cerca que corria por metros e metros adiante, evitando que pessoas e animais pulassem ou caíssem no rio. Olhou para baixo.
'Oh não... Jane, você precisa ver isso.'
A detetive já estava logo atrás.
'Santo Deus...' Elas trocaram olhares. Jane observou a imagem por todo um minuto, perplexa. 'Aquilo realmente é...?'
Maura fez que sim com a cabeça.
'Oh, Deus.'
'Hey, sis', disse Frank atrás de Jane. Tirada tão repentinamente do estado de concentração ao observar o horror que via lá em baixo, ela pulou de susto.
'Frank! Que diabos?'
'Você viu? Não é de dar arrepios?' Ele disse em voz baixa, temendo que algum outro policial pudesse ouvi-lo.
'É, é sim... Maura? Maura! Onde você tá indo?' A mulher estava atravessando as barras de ferro e Jane teve um pressentimento de que Maura não tinha sido uma criança que subia em árvores, ou que pulava cercas, o que significava que ela não tinha experiência nenhuma em fazer aquilo que estava tentando.
'Maura, o que você acha que tá fazendo? Hey, esse rio é poluído! Você não vai querer...'
'Tudo bem Jane, eu só quero dar uma olhada de perto.'
'Que tal fazer isso no necrotério?'
A ME segurou na barra de ferro e inclinou o corpo pra frente. O terreno decaía de tal jeito que ela soube que nunca desceria ali de salto alto, tão pouco com nenhum outro calçado. Era um barranco, não muito alto, mas o corpo lá em baixo era inacessível por esse caminho. Flutuando no rio, uma jangada de madeira ficara presa de alguma forma ali na margem. Em cima dela, Maura viu o cadáver de uma mulher deitado, friamente posicionado com as mãos cruzadas sobre o peito, as pernas esticadas. Rosas vermelhas e murchas contornavam o corpo e se contrastavam contra o vestido branco. No cabelo, uma única margarida branca fazia notar o delicado rosto que parecia estar descansando. O rio balançava levemente a jangada como se estivesse ninando a criatura adormecida. Era uma cena bizarra onde morte e serenidade se casavam estranhamente, embora Maura soubesse que nada de tranquilo poderia ter acontecido para aquela mulher acabar ali daquele jeito. Era uma imagem perturbadora e a médica balançou a cabeça em reprovação ao que via. Algo dentro de si a deixou em alerta e ela se sobressaltou ao sentir seus punhos sendo segurados por mãos.
'Maura, isso realmente não é uma boa idéia. Que ridículo, volta já pro lado de cá.'
'Você acha que a gente pode alugar um barco para tirar o corpo daí?'
'A gente?' respondeu Jane enquanto cuidava para que a médica não despencasse dali, 'eu vou direto pra delegacia e você também, para o seu necrotério. Os outros policiais cuidam disso aí.'
Com a ajuda de Jane, Maura voltou para o outro lado da grade. 'Eu nunca vi um assim.' Ela refletiu em voz alta, agora já segura, os olhos estudando a vítima lá em baixo.
'Nem eu... Nem eu.' Um momento se passou. 'Maura, você sabe dizer quanto tempo ela está aqui?'
'Impossível de dizer só de olhar assim. Preciso...'
'Checar de perto no necrotério, medir a temperatura do fígado. Sei.'
Maura sorriu, orgulhosa da amiga. 'Muito bem, Jane. Entretanto, posso dizer que pelo pouco que observei, seu estado de decomposição não é avançado. O que nos dá um período de no máximo 24 horas. É claro que fica difícil dizer com precisão, o tempo frio e a água gelada do rio ajudam na desaceleração do processo.'
'Ok, então... Sem a hora da morte.'
'Posso dizer aproximadamente, mas somente quando...'
'Eu sei, quando examiná-la no necrotério.'
'Sim.'
'Frank, peça para catalogarem tudo o que acharem como evidência, tudo o que puderem me mandar. Peça para tirarem fotos, de vários ângulos se for possível, e peça para encaminharem o corpo para o necrotério.'
'Tudo bem, sis.'
'E Frank... O mais rápido possível. Os curiosos já estão se juntando.'
Os outros dois acompanharam o olhar de Rizzoli. O número de pessoas em torno da faixa amarela havia aumentado consideravelmente. Da extremidade onde a faixa fora amarrada na grade de ferro, havia três homens tirando fotos.
Jornalistas. Malditos jornalistas, pensou Rizzoli. Eram como urubus que ficavam rodeando em busca do banquete. Sobreviviam da desgraça alheia, deixavam que outros fizessem o trabalho sujo e se alimentavam do horror que era deixado para trás.
Jane suspirou. Ela sabia que nessa cena onde o corpo fora encontrado pouca coisa, ou nada, seria relevante para o caso. Demorariam no mínimo mais meia hora para tirarem o corpo dali e mais meia hora até chegar ao necrotério. O que ela poderia fazer por hora era tentar descobrir a identidade da vítima e daí teria um ponto de partida.
'Maura, vamos embora. Nosso dia de folga está oficialmente arruinado.' Ela acrescentou resmungando.
...
'O que diabos é isso?' Frost olhava espantado para as fotos que Jane pendurava no quadro da delegacia, ele acabara de chegar.
'Isso foi o que encontraram no rio hoje cedo.' Respondeu Rizzoli, estudando as imagens, procurando por alguma pista. Frost, secretamente, deu graças a Deus por não ter sido capaz de visitar o local mais cedo. Teve que fazer aquele exame físico que havia adiando há tempos. A imagem da vítima colocada daquela forma lhe causou repulsão.
'Já temos alguma coisa?'
'Não... As fotos acabaram de chegar. Não encontramos nenhum documento no local, nada.'
'É óbvio que é um homicídio. Duvido que alguém fosse capaz de fazer isso consigo mesmo.'
Rizzoli balançou a cabeça em concordância. 'Estava esperando que você pudesse passar o rosto dela no sistema.'
'Posso fazer isso. Vou procurar por pessoas desaparecidas também, num período de um mês. Pode ser um tiro no escuro, mas é melhor do que nada.'
'É sim. Enquanto isso vou checar se Maura já tem algo, a causa da morte ou qualquer outra coisa que possa nos ajudar.
'Ok.' Disse Frost com um sorriso no rosto. Rizzoli franziu o cenho e colocou a mão na cintura.
'O que?'
'Nada.' Ele disse depois de limpar a garganta, o sorriso se desfazendo na mesma hora. Ela balançou a cabeça sem entender, virou os calcanhares e entrou no elevador.
...
O necrotério sempre pareceu um refúgio seguro para Maura. Era tranquilo, silencioso e vazio de pessoas vivas. Geralmente a única companhia que tinha naquele lugar era algum cadáver. Mas Maura era boa com cadáveres. Eles se entendiam; ela falava por eles, falava com eles, eles ouviam, não julgavam, não machucavam-na. Comumente ela se sentia confortável sozinha ali, mas nesse dia algo a deixara inquieta. Não sabia dizer exatamente o que era e não queria pensar sobre isso, então ela fez o que tinha que fazer. Vestiu o macacão preto, amarrou o cabelo em um rabo de cavalo firme. Quando o corpo da vítima chegou, ela o despiu os trajes molhados, coletou uma amostra de sangue e mandou para análise. Estava prestes a começar a incisão em Y quando Jane entrou no lugar.
'Hey, Maur...'
Concentrada, a médica se assustou. 'Jane!'
'Não quis te assustar. Você tá bem?'
'Uhum.'
'Ok... Já temos algo?'
'Eu estava prestes a começar a incisão. Jane... Você não acha que tá faltando algo aqui?' Maura apontou para o tórax da vítima.
'Ahn... Um coração batendo saudavelmente?' Ela disparou com o sarcasmo. Maura jogou a cabeça para o lado.
'Também. Mas eu estava me referindo... Bom, não há nenhum ferimento à vista.'
Jane sorriu.
'Eu notei. Sem causa da morte?'
Por um momento pareceu que Maura fosse dizer algo, mas então continuou no silêncio.
'Maura, eu sei que você odeia dar palpites, mas podemos fazer uma suposição?'
'Jane, eu não acho que...'
'Ok. Meu palpite é de que ela foi envenenada.'
'Preciso dos exames para ter certeza.'
Jane ergueu uma sobrancelha, impaciente.
'Estrangulada?'
'Não há marcas consistentes com estrangulação ou enforcamento no pescoço.'
'Uma a menos. Afogada?'
Maura abriu um sorriso. 'Os lábios e as unhas roxas indicam que ela pode ter sido asfixiada.'
'Ok! Morte por asfixia, então!'
'Não descartei a possibilidade de envenenamento, nem de parada cardíaca.'
Jane grunhiu, frustrada. Um instante depois, o celular vibrou.
'Oh!, Frost tem notícias da vítima. Conseguiu um nome, finalmente!'
'Bom.' Disse Maura. Ela estava agora totalmente ereta, bisturi na mão. Jane ficou olhando para ela a espera de algo, alguma resposta. Nada.
'Maura?'
'Jane.' A médica ergueu as sobrancelhas, olhou para a detetive e em seguida para a porta de saída. Jane acompanhou seu olhar sugestivo.
'Você tá me expulsando?' Jane perguntou em baixo tom fingindo estar ofendida.
'Você não me deixa trabalhar.' Maura tentou esconder o sorriso, mas Jane sempre a deixava exposta demais, ela não conseguia fingir na sua frente.
'Bem, eu só tô de saída porque Frost tá me esperando e não porque você tá me expulsando.' Ela rebateu, andando para a saída.
Maura odiava adivinhar e Jane adorava provocar, adorava vê-la se contorcendo quando obrigada a dar palpites sobre algo, era engraçado. Não. Não era engraçado. Era fofo. Essa era a palavra correta. Era fofo o modo como Maura tentava se explicar, quando ficava sem jeito, quando travava uma luta interior enquanto procurava as palavras corretas e educadas para dizer que só podia concluir algo através de fatos, de métodos científicos. Sim, era fofo o modo como Maura sorria para ela quando raramente entendia as provocações. O que? Merda, Rizzoli. Não! Ela balançou a cabeça, já estava no corredor quando se lembrou de uma coisa. Voltou alguns passos e enfiou a cabeça pela porta do necrotério.
'Maura?'
A médica ergueu a cabeça e olhou para ela. Já havia feito o primeiro corte da incisão.
'Sim, Jane?'
'Nos vemos no almoço?'
'Sim.' Maura sorriu para ela. Jane retribuiu o sorriso e fechou a porta.
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