Velas e ventanias
8 Mistério S.A.
Maura estava na cozinha segurando uma caneca de chocolate quente nas mãos e olhando muito interessada para o conteúdo lá dentro. O líquido escuro estava fumegando, o vapor quente quase alcançando seu rosto. Ela se lembrou do dia anterior, do almoço que tivera com Jane... e Stevens. As frases não paravam de rodar na sua cabeça e aquilo a irritava. Stevens poderia ser uma pessoa legal, assim como Jane falara, mas algo não convencia Maura. Talvez fosse porque a outra lhe chamara pelo apelido que tanto odiava, ou talvez... Ela nem sabia dizer a razão, talvez não tivesse nenhuma outra além dessa. O fato é que a loira nunca sentiu seu território tão invadido por alguém do jeito que sentiu no dia anterior por Stevens. Ela apertou os dedos na caneca e desejou que a outra não aparecesse novamente para o almoço, que não se colocasse entre ela e Jane, e que elas pudessem conversar sobre suas coisas sem ninguém para atrapalhar. Era isso. Oh Maura, você está sendo tão imatura, ela se repreendeu. Mas a imagem de Stevens rindo e pegando na mão de Jane atravessou sua cabeça e ela sentiu novamente aquela irritação, era como se sua própria mente estivesse jogando contra ela. Ela sabia o que era isso, só não queria admitir para si mesma. Na verdade, ela não queria se permitir sentir isso porque até onde ela sabia, não estava em lugar de sentir tal coisa. Estava?
'O chocolate quente não vai se beber sozinho, Maur.' Jane falou com a voz rouca e tirou Maura de seus pensamentos. A loira quase soltou a caneca com o sobressalto, não tinha notado a presença da morena até então.
'Jane, eu... Ahn... Bom dia.'
'Bom dia.' Respondeu a morena, as sobrancelhas erguidas. 'Você está bem?'
'Sim... Sim. Eu só estava... Você sabe, divagando...'
'É, okay... Sobre o quê?' Ela preparou uma caneca de chocolate para ela.
Ótimo. Maura não conseguia mentir, mas encontrou uma saída.
'O almoço.' Era uma meia-verdade, afinal de contas.
'Já está pensando no almoço? Você nem tomou seu café da manhã ainda, mas que saco sem fundo!' E Jane riu.
'Hum...' Maura juntou um lábios num bico para pensar. 'Estava pensando que talvez... Eu e você poderíamos ir no Dirty Rober. Você disse que queria conhecer o novo cardápio.' Ela sugeriu.
'Ótimo, combinado. Eu vou me trocar agora.' Ela estava saindo com a caneca de chocolate ainda nas mãos.
'Jane!' Maura chamou antes que a outra sumisse pelo corredor. Ela voltou alguns passos e enfiou a cabeça na cozinha.
'Sim?'
'Pod-Poderia ser somente eu e você?' Ela encontrou um tanto de coragem, mas ainda assim fez muito esforço para não se perder nas palavras.
'É claro, Maur.'
...
'É uma casa no campo, perto do rio. Ele disse que lá perto há uma casa abandonada, mal assombrada.'
Jane levantou as sobrancelhas em descrença. 'Mal assombrada, Frost? Oh certo, agora somos a Mistério S.A. Hey Scoob, cadê você, meu filho?' Ela imitou a voz de Salsicha perfeitamente e todos riram.
'Eu só estou dizendo. Talvez a gente devesse dar uma olhada.'
A morena suspirou. Não podemos deixar passar nada. 'Ainda que pareça ridículo, Frost, eu vou.'
'Leve Maura com você.' Acrescentou Korsak. Jane se virou e o fitou.
'Por que?'
'Para recolher alguma evidência, caso apareça. Você sabe...'
'Assim nós ficamos com a papelada.' Disse Korsak, rápido demais. Jane desconfiou que alguma coisa estivesse acontecendo. Quem gosta de fazer papelada? Estudou os dois por um minuto.
'Okay. O que está rolando aqui?'
'Eu não sei o que você quer dizer.' Frost deu uma de perdido. Korsak apenas juntou os lábios e os levou para perto do nariz, balançando a cabeça em não. Era óbvio que algo estava acontecendo, ela ainda só não sabia o que era. Korsak e Frost estavam agindo estranho já havia algum tempo, como se estivessem guardando um segredo ou armando algo. Ou ela estava apenas imaginando coisas? Mais cedo ou mais tarde ela descobriria, agora tinha trabalho a fazer, além do que, teria que persuadir Maura para acompanhá-la até o sítio. Ela balançou a cabeça em sim e disse 'Okay' como se tivesse se contentado com a resposta e o assunto estivesse encerrado.
'Vou procurar Maura. Até logo Velma e Daphne.'
...
'Você tem certeza que é esse o lugar?'
'Bom, foi o que Frost disse.' Jane estava dirigindo numa estrada de terra, procurando por uma casa que aparentemente não existia. Ela olhou ao redor, de ambos lados só havia mato e algumas árvores espalhadas no meio do campo. 'Vamos continuar mais um pouco.'
'Nós deveríamos consultar o GPS.' Maura sugeriu.
'Maura, eu sei onde estamos indo.'
A loira inclinou a cabeça para ela como se dissesse sabe mesmo?
'É apenas um pouco mais longe do que eu imaginei.' Ela se defendeu.
'O dia está escurecendo.'
'Não se preocupa, nós vamos dar só uma olhad... Santa mãe de Deus!'
Maura olhou para frente assustada com o tom de Jane. A alguns metros de distância uma forte neblina cobria o chão. De onde vinha aquilo? A morena diminuiu a velocidade, mas continuou em frente. Um instante depois, na linha do horizonte brotou uma casa antiga, também cercada por neblina. Jane estacionou e abriu a porta do carro, um ar gelado e cortante bateu no seu rosto.
'Eu disse, é aqui.'
Maura concordou com a cabeça, se sentindo um pouco intimidada com o cenário. Era uma casa à moda antiga, de madeira, agora cinza por causa do abandono. Na frente dela uma escada de madeira guiava até a varanda, e nela havia uma porta e de cada lado uma janela, os vidros quebrados.
'Frost diz que é mal assombrada.' Sussurrou Jane, preparando a arma.
'O que?! Por que não me disse antes?'
'Você tá com medo?' Ela caçoou, Jane sabia que Maura não temia – talvez nem acreditasse – em tais coisas.
'É claro que não. E eu duvido muito que armas mundanas possam matar fantasmas.' Disse Maura, provocando Jane.
'Bem, você trouxe a água benta?' Ela rebateu e Maura simplesmente espremeu os olhos. 'Muito bem, eu vou na frente. Você fica logo atrás de mim e toma cuidado.'
As duas caminharam lentamente até a frente da casa, Maura agradecida por ter colocado suas botas de cano alto. O frio era mais intenso ali devido a toda vegetação ao redor. Jane, com a arma em punho, seguia na frente e fez um sinal com a cabeça antes de começar a subir a escada. Estava tudo em absoluto silêncio até que ela subiu no primeiro degrau e a tábua rangeu. Ela apertou os olhos amaldiçoando a madeira velha e seguiu em frente, degrau por degrau, cuidando para que Maura estivesse à sua cola. A sua preocupação era que se houvesse alguém ali dentro, ela poderia ter alertado por conta do barulho. Espiou pela janela. Lá dentro estava escuro e ela não pôde ver nenhuma movimentação. Ela segurou a maçaneta da porta e hesitou por um momento. Talvez não devesse estar sozinha ali. Talvez precisasse de ajuda de outro policial. E se alguma coisa acontecesse a Maura? Ela não estava armada, ela mal sabia dar um soco, por Deus! Ela respirou fundo e ponderou. E se ela mandasse Maura de volta para o carro? Ela ficaria sozinha! Droga, Rizzoli! Ela fez um sinal para a loira que a encarava com curiosidade.
'Você está com medo, Jane?' Perguntou ela, incerta. A outra revirou os olhos.
'Não, escuta. Fique em alerta, e se alguma coisa acontecer, Maura, corra para o carro. Eu tenho uma arma lá, no porta-luvas.'
'Por que você não entregou para mim?'
Jane virou o pescoço. 'Porque eu não quero que você me mate.'
A loira fez que sim com a cabeça.
Okay.
Jane empurrou a porta que também rangeu, embora não tão alto quanto a escada. Mais do que depressa mirou a arma em várias direções. Nada. Ninguém. Adentrou. A casa tinha um cheiro de mofo, poeira e algo que Jane não pôde distinguir. Assim que as duas entraram, Maura encostou a porta lentamente. O ambiente era sombrio, o hall guiava para uma sala escura, os móveis que restavam estavam cobertos por lençóis que, outrora brancos, agora eram carmins e rasgados. O chão era de um assoalho escorregadio, talvez por conta da sujeira. Os olhos negros de Jane rondavam cada parte do ambiente, e uma vez que concluiu que nada de útil havia ali, se dirigiu para o próximo cômodo. Maura colada atrás, lanterna em mãos.
A passos lentos cruzavam novamente o hall, era indispensável que mirassem o foco da luz no chão para evitar uma queda; lá se encontravam objetos velhos, folhas e pedaços de madeira esparramados por ele. O cômodo mais próximo seria a cozinha, e mais ao lado, um corredor se perdia na escuridão. Jane deu um passo à frente decidida a entrar na cozinha, mas parou abruptamente fazendo com que Maura esbarrasse nela. A loira abriu a boca para protestar, mas Jane ergueu um dedo pedindo silêncio. O coração batia num compasso mais acelerado. Apurou os ouvidos e estalou os olhos. Lá estava, de novo. Maura ouviu também. Um uivo vinha do fundo do corredor. Primeiro fraco, depois mais forte. Oh, droga. Ela apontou a arma e o foco da lanterna para o fundo procurando a fonte do barulho, mas não encontrou nada.
'É só o vento, provavelmente.' Maura sussurrou, a voz mais grave do que o normal. Jane concordou com a cabeça, e transtornada, continuou caminhando.
Lá fora o sol se punha rapidamente, e a escuridão estava tomando conta do céu que antes era azul. Dentro da cozinha, Jane abria uma porta ou outra do velho armário. Nada de novo, nenhuma embalagem que indicasse que alguém estivera ali. O cheiro de mofo e os ácaros incomodavam o nariz da morena. Maura estudava tudo o que podia, em cima da mesa encontrara velas derretidas em antigos castiçais, combinando com a aparência da casa: frios, sujos e apagados. Nada de útil. Faltavam agora os cômodos de trás. Jane fez sinal para ela para que seguissem em frente, mas um som chamou a atenção da loira.
'Jane,' ela sussurrou 'você ouviu isso?'
Para o desespero de Jane, sim. Som de pés. Pés apressados circundando a casa, mais precisamente a frente da casa que era separada agora por apenas uma parede. Aterrorizada, a primeira coisa que Jane pensou e fez, foi jogar Maura contra a parede, entrar em sua frente e apontar a arma para a entrada da cozinha. Deus, que má idéia ter vindo sem reforço. Ela sentiu as mãos da loira segurarem firme em sua cintura, a respiração batendo em seu pescoço tão acelerada quanto a sua própria. Agora os passos estavam mais altos e além deles... um grunhido. Que diabos era aquilo? O coração de Jane quase saiu pela boca quando um vulto negro cruzou a janela. Agora ele estava indo em direção à porta. Ela calculou corretamente porque em seguida ouviu um baque. A porta havia sido escancarada e aquilo estava vindo de encontro a elas, ela tinha certeza. O problema é que agora estavam em desvantagem, por causa da ausência da luz direta do sol a casa por dentro havia se transformado num borrão de cinza e preto. Merda. Merda. Merda. Instantes depois um vulto apareceu na entrada da cozinha. Não tinha forma humanóide, parecia um...
'Oh, Deus!' Maura murmurou e puxou Jane contra seu corpo. 'O que é isso?'
'Shhh..' Foi tudo o que a morena disse. Ela amaldiçoou Frost. Se ele não tivesse atiçado seu medo, se ele ao menos estivesse ali junto com ela. Ela balançou a cabeça em descrença. No que estava pensando? Fantasmas não existem Rizzoli! Ela fixou os olhos agora na figura, as sobrancelhas juntas. Estava disposta a disparar. Bastava um movimento e então... A figura rosnou para elas. Rosnou. Aquilo era um cão selvagem? Um cachorro? Era grande demais para ser um cachorro. Talvez fosse um lobo. Fosse o que fosse, Jane já não estava mais com tanto medo e quase riu de si mesma. Um fantasma?! Ela mirou no animal, o dedo no gatilho, mas então ele simplesmente deu meia volta e saiu correndo da casa. Ela ainda continuou segurando a arma na mesma posição depois de um tempo, foi Maura quem abaixou seus braços.
'Eu acho que ele se foi, Jane.' Ela sussurrou, ainda amedrontada.
'Eu acho que sim. Você deu uma boa olhada naquilo?'
Mas Maura não teve tempo de responder. Escutaram uma voz masculina gritar lá de fora 'você'. A detetive se apressou e seguiu em frente a passos duros, mirando a arma com a mão esquerda; com a direita ela segurava a mão de Maura para se certificar de que a loira estava acompanhando-a.
Lá de fora na varanda, elas avistaram um homem barrigudo resmungando com seu cachorro.Agora elas conseguiam definir o que aquilo era. E era o maior cachorro que Jane vira na vida. Furiosa, ela gritou para o homem.
'Você,' a arma ainda apontada 'quem é você? O que faz aqui?'
O homem, assustado demais para o gosto de Rizzoli, ergueu as mãos e pediu para que ela não atirasse.
'Responda minhas perguntas.' Ela o pressionou.
'Meu nome é Garry. Eu moro na fazenda ao lado. Olha, eu só vim buscar meu cachorro, a gente tava voltando pra casa e ele pulou do carro e veio para cá. Eu segui ele, mas precisei vir de vagar por conta da estrada. Ele corre feito louco.'
Jane tirou seu distintivo e mostrou para o homem. 'É um cachorro bem grande.'
'Você é policial? Graças a Deus.' O homem baixou os braços.
'Detetive.' Ela corrigiu.
'Detetive. É um Dog Alemão. Sinto muito se ele perseguiu vocês, ou qualquer coisa do tipo. Ele é manso, não morde ninguém. Não mordeu vocês, mordeu?' Ele perguntou, embora a resposta fosse óbvia. O cão estava sentado ao seu lado, língua de fora e rabo abanando, parecendo levemente feliz.
Rizzoli balançou a cabeça e quase sorriu com a imagem que a fez lembrar de Jo Friday.
'Não, mas nos deu um baita susto.' Ela admitiu.
'Sinto muito por isso.'
'Tudo bem. Preciso ver sua identidade.'
O homem concordou e colaborou. Os dados conferiam, Jane não pensou em nenhum motivo para segurá-lo. Quando voltasse para a delegacia mandaria Frost correr o nome dele no sistema.
'Muito bem, pode se mandar daqui.'
'Obrigado. E que mal lhe pergunte, o que vocês fazem aqui?'
'Nós estamos investigando.' Agora foi Maura quem disse.
'Essa casa? Vocês sabem que ela é mal-assombrada? As más línguas dizem que em alguma noites as luzes se acendem e escutam -se berros.' Ele disse, um tanto acanhado.
'Ouvimos dizer. Não encontramos nada lá dentro. Me fala uma coisa, há quanto tempo você mora por aqui?'
'A minha vida toda.' Ele respondeu. Jane calculou que deveria ser pelo menos uns trinta e cindo anos.
'Você sabe quem morou nessa casa?'
'Com certeza. Uma mulher maluca. Joanna, me lembro bem. Tinha umas três crianças, nenhuma era dela, era o que diziam.'
Jane olhou para Maura.
'Você sabe o sobrenome?'
'Joanna Flinc.'
'Obrigado. Pode se mandar agora.' O homem fez que sim com a cabeça, juntou o cachorro pela coleira, entrou no carro e foi embora. Jane esperou até que ele se fosse e depois se virou para Maura.
'Você está bem?' Ela perguntou, acariciando os braços da loira.
'Sim, agora sim, mas aquilo foi totalmente... Assustador.'
Jane riu e concordou. 'Completamente. Não conto para ninguém se você não contar.'
E agora era a vez de Maura sorrir. Aquele sorriso lindo que Jane se desdobrava, quando necessário, para ver dançando em seu rosto.
'Vamos para casa Maur, não gosto disso aqui. A noite já tá caindo e temos que fazer o caminho de volta ainda.'
A loira concordou e começaram a andar de volta para o carro.
'Você acha que é verdade? Que há algum tipo de movimentação nessa casa?' Maura perguntou.
'Nós podemos mudar de assunto, Maur? Estamos sozinhas aqui, e essa história de fantasma tá começando a me assustar.'
'Eu estou me referindo à movimentação de pessoas, Jane!' Ela disse quando entrou no carro e bateu a porta.
'Uma idéia me passou pela cabeça. Talvez a gente devesse fazer uma noite de vigília, só por via das dúvidas. '
'Eu e você?'
'Sim, e podemos pedir pizza também.' Ela caçoou e depois disse séria. 'Eu e o resto do pessoal. Você fica na sua casa, Maur.'
'Oh...'
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