Velas e ventanias

10 Com sol ou com chuva


Foi impulsivo. Ela simplesmente decidiu que a casa estava vazia demais e que precisava muito da companhia de Jane naquela noite, não a companhia de Ian, alguém que aparecia quando entendesse, que a levava para a cama e sumia dias depois. Ela não iria fazer mais aquilo consigo mesma, da onde ela via, agora, ela parecia ter sido usada. Antes ela não se importava porque estava apaixonada por ele, de um jeito que doía. Então ele aparecia, ficava dois dias, três, com sorte. Ele se divertia, sussurrava coisas ao ouvido enquanto possuía Maura. Ela se derretia, porque afinal de contas era Ian, afinal de contas eles trabalharam juntos, vivenciaram tantas coisas juntos. É claro que Ian gostava dela. É claro que naquela noite, depois do sexo, ele a abraçou e disse coisas bonitas e como sentia falta dela. E, é claro, que quando Maura perguntou se dessa vez ele ficaria a resposta foi igual a todas as outras: estou de partida amanhã. No final, ele sempre escolhia o trabalho. No final, Maura acabava sendo deixada para trás, sem notícias dele por meses. Não é como se uma ligação fosse impossível, apesar dos lugares em que ele trabalhava. Ele simplesmente sumia.

Então, dessa vez, quando ele anunciou que a estadia seria curta — mais uma vez — Maura tomou a decisão que precisava ter tomado antes. Pediu educadamente, como sempre, para que ele saísse de sua casa. Ela sabia dos riscos que corria ao abrigar um fugitivo. Era algo mais em que havia se metido que não poderia admitir. Maura Isles não quebrava regras. E também não aceitava ser a segunda opção de alguém. Ou terceira, quarta... Como ela poderia saber? Ele pareceu magoado — mas apenas por um momento — e então pegou suas roupas e deixou a casa.

Ela chorou por uns minutos. Talvez por raiva, ou ainda porque de certa forma doía se sentir idiota, tola. Ian jamais poderia lhe oferecer aquilo que ela queria, e talvez tenha sido a convivência com Jane que, de algum jeito, tenha ensinado isso a ela. Ela merecia alguém que sempre estivesse lá quando ela precisasse. Alguém que a abraçaria no final de um dia ruim, ou que risse com ela ou que simplesmente lhe fizesse companhia em silêncio. E era por isso que ela estava dirigindo para casa de Jane.

Usada. Ela remoeu a palavra enquanto dirigia para casa de Jane. Usada, usada, usada. Agora estava tão claro. Ela arquejou em raiva enquanto desligava o carro. A loira passou a mão pelo cabelo e abriu a porta, o ar gelado da noite penetrou pela calça de ginástica e pela blusa de manga longa. O material era fino de mais para encarar o frio, mas durante o percurso até lá não tinha sentido nada — apenas raiva.

Ela se apressou para as escadas e entrou no prédio. No momento em que alcançou a porta de Jane ela estava tremendo. Ela levou a mão na madeira e bateu. Era tarde, se Jane estivesse dormindo ela usaria a chave que a morena havia lhe dado, mas iria tentar bater primeiro. Depois de um tempo considerável, Maura tentou outra vez. Ela cruzou os braços em frente ao peito e esperou. Até que ouviu passos vindo de dentro e Jane resmungando.

'Pelo amor de Deus, são duas da m... Maura?' Ela parou de falar assim que viu a mulher lá fora. Os olhos se arregalaram. 'O que aconteceu?'

A loira piscou os olhos rapidamente. Duas da manhã? O que ela estava pensando? Sabia que era tarde, mas não tão tarde assim. Quanta imprudência de sua parte. Ali, sob a presença de Jane a mulher sentiu os olhos se encherem de lágrimas. O que tinha de errado com ela? Ela tentou falar alguma coisa mas as palavras estavam presas.

'Maura, querida, você tá bem?' Jane deu um passo pra frente e tentou tocá-la, mas a loira começou a falar, então o gesto morreu no meio do caminho.

'Eu...' Olhos verdes se encontraram com castanhos.

'Maura, entra. Vem.' Jane gesticulou a passagem e Maura obedeceu. Quatro passos e ela estava dentro do apartamento — só não imaginou que Jane tivesse companhia.

'Helena.' Ela murmurou.

Jane pareceu desconcertada por um momento. Primeiro porque Maura estava visivelmente atormentada e segundo que, que diabos, como ela iria explicar isso pra Maura?

'Hey, Dr. Isles.' A mulher abriu um sorriso para ela. Ela estava sentada no sofá, uma xícara de chá, agora vazia, repousava no seu colo.

Maura olhou de Jane para a mulher. 'Me desculpem, eu não queria... Eu não sabia que você tinha companhia, Jane.'

'Tudo bem, Maura. Quer me contar o que aconteceu?' Jane colocou as mãos nos ombros da amiga.

'Eu... Acho melhor, talvez...' Ela gesticulou com as mãos, visivelmente transtornada. 'Talvez eu... deveria voltar amanhã.' Ela sugeriu.

'Não, não. Eu já estava de saída.' Helena disse educadamente, para o alívio de Jane. 'A noite foi longa.'

Quando Maura estreitou os olhos Jane sentiu a necessidade de acrescentar, 'É, chegamos da vigília agora mesmo.'

'Te vejo amanhã.' A mulher colocou a xícara na mesa, andou até Jane e beijou-lhe o rosto. Um beijo no rosto, um gesto um tanto quanto íntimo para alguém que Jane tinha acabado de conhecer. Um tanto demorado para ser apenas amigável. Maura passou a língua pelos lábios novamente e reprimiu, pela segunda vez naquela noite, a vontade de chorar.

Jane fechou a porta cuidadosamente e fechou os olhos por um minuto. Droga. Não era pra Maura saber assim. Quer dizer, não é como se Helena e ela tivessem alguma coisa, mas isso, a essa hora, era absolutamente sugestivo. De qualquer forma, Maura estava ali agora, e para a preocupação de Jane, algo estava a incomodando terrivelmente. Ela se virou para a loira que, agora que ela olhou bem, parecia um tanto quanto pequena essa noite.

'Maura, o que houve?' A voz saiu rouca.

'Me desculpa mesmo, Jane. Eu não sabia que você tinha alguém aqui. Deus, isso nem são horas de aparecer na casa de alguém! Eu só... Eu nem olhei a hora, eu só precisava sair de casa e vir aqui, eu sinto muito se estraguei alguma coisa.'

'Maura.' Jane a interrompeu porque ela estava falando rápido demais e Jane estava começando a não entender nada. Ela colocou a mão nas costas da mulher e sentiu o quão gelada ela estava. E tremendo. 'Meu Deus, Maur... Você tá tremendo de frio. Vem aqui.' A morena pegou uma coberta e passou sobre seus ombros, embrulhando Maura dentro dela, e então acariciou seus ombros por cima da coberta, as mãos correndo para cima e para baixo. 'Pronto, logo você fica quente de novo.'

Pronto. Ali estava tudo o que Maura precisava. Alguém para lhe cobrir numa noite gelada. Alguém que tomasse conta dela enquanto ela não podia. Isso que Jane fazia, Ian jamais poderia fazer por ela. As lembranças da noite fizeram os olhos lacrimejarem e na terceira vez ela não conseguiu evitar que as lágrimas começassem a cair.

'Maura?' Jane perguntou preocupada, agora que a mulher estava chorando, o coração acelerando ao próprio sofrimento da outra. 'Querida, eu...' Ela suspirou e colocou Maura em seus braços. Ela não tinha a mínima idéia do que causou Maura a agir desse jeito, e tudo o que ela podia fazer era tentar amenizar isso. 'Shhh... Eu tô aqui com você.' Ela apertou os braços em volta de Maura e a outra se encolheu, quase se afundando em Jane, a cabeça enterrada em seu peito. Ela esperou em silêncio enquanto Maura chorava silenciosamente, considerando que por enquanto era tudo o que podia fazer, até que finalmente Maura se dispôs a falar.

'Merda.' Ela murmurou.

Jane arregalou os olhos. 'Linguagem, Dr. Isles.' Jane abriu um sorriso quando Maura riu, a voz carregada pelo choro.

'Desculpa, Jane.' Ela falou baixinho enquanto mudou a cabeça no peito de Jane para uma posição mais confortável.

'Pára de se desculpar, Maur, e me conta o que aconteceu. Ou me diz como posso te ajudar.' Ela foi se soltar para dar uma boa olhada na loira, mas ao passo que Jane se afastou, Maura andou para frente e não deixou que a morena a soltasse.

'Não.'

Jane paralisou o movimento. 'Não quer me contar?'

'Não quero que você me solte.'

'Oh...' Jane apertou os braços em volta dela novamente.

Uma vez sã e salva ali, Maura começou a falar. 'É sobre Ian.'

Jane revirou os olhos. Ela nunca foi com a cara do sujeito. 'O que ele fez dessa vez, Maur?'

'Apareceu em casa. Eu pedi pra ele ir embora, Jane.'

'Pediu? Eu achei que você gostasse dele.' Isso tinha surpreendido Jane. Ela acariciou o cabelo da loira.

'Gostava. Muito. E acho que é por isso que a decepção agora é tão grande, de saber que todo esse tempo... Eu me sinto usada.' Ela acrescentou com a voz magoada.

Jane sorriu orgulhosa de Maura. Finalmente ela tinha entendido. Finalmente Ian não iria brincar mais com ela. Ele parecia um cara legal, mas Jane sabia que ele nunca corresponderia às expectativas de Maura, e ela sempre ficava para trás, machucada. Finalmente Maura enxergou por si só. Jane não tinha idéia de como tinha acontecido, mas era uma vitória de qualquer forma.

'Hey, Maur?' A mulher segurou o seu queixo e Maura não conseguiu resistir ao pedido. Ela olhou para cima. 'Isso é progresso. E eu sei que dói, mas acredita em mim... Vai ficar melhor.'

Jane beijou sua testa e ela fechou os olhos. Foi um beijo demorado. Foi 'eu estou aqui por você', e 'eu tomo conta de você' e tantas outras coisas que Maura apertou os olhos numa tentativa inútil de conter mais lágrimas. O toque de Jane era tão gentil, tão verdadeiro que a fez chorar. Maura odiava toda essa sensibilidade, porque ela tinha sido criada para ser independente, forte, mas aqui nos braços de Jane ela não conseguia mais fingir toda a segurança que outras pessoas viam nela. Ela era forte, mas era frágil na mesma medida e soava tão bem ter Jane para cuidar dela.

'Você merece alguém muito melhor, Maur.' Ela escutou a outra dizer, os lábios tão perto dos delas e de repente Maura descobriu que a razão pela qual estava chorando não era mais Ian, era porque Jane estava dizendo que ela podia encontrar outra pessoa, mas ela não queria, e ela também não queria que Jane encontrasse outra, e era porque outra pessoa estivera mais cedo no apartamento de Jane, outra pessoa que, ela temia, pudesse estragar ou diminuir isso que Jane e ela tinham. Mais uma vez, ela encostou a cabeça no peito da morena, se sentindo derrotada. 'Jane.' Ela murmurou, e o medo saiu disfarçado de tristeza, o suspiro foi interpretado como cansaço, enquanto na verdade era para ter sido um 'não me deixa'.

'Maura, tá tão tarde, e você... Meu Deus, Maura, porque você não colocou uma roupa adequada? Você tava quase congelando.' Jane a abraçou mais forte, uma mão mantendo a cabeça dela no lugar. 'Você tá cansada, não tá?'

Aí estava Jane tomando conta dela novamente. Ela balançou a cabeça em sim.

'E se a gente for dormir?' Era uma sugestão, porque Maura sabia que Jane era gentil demais. Ela pensou por um momento.

'Será que eu posso ficar aqui?' Ela perguntou timidamente.

'O que? É claro que você vai ficar aqui. Eu não deixaria você ir embora nesse frio nem se você fosse a Elsa!'

Maura olhou totalmente perdida na referência.

'Ah, deixa pra lá...' Jane acrescentou quando viu o olhar da loira. 'A gente precisa fazer uma introdução nos filmes da Disney. Mas não hoje.'

'Obrigada.'

Jane sorriu para ela. 'Você não precisa agradecer, Maur. É isso que amigos fazem.' Ela se soltou completamente de Maura. 'Vamos deitar e se aquecer, não quero que você pegue um resfriado.' Ela colocou uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha de Maura.

'Okay.'

Maura caminhou para o quarto com Jane, e a morena pediu para que Maura deitasse para que ela pudesse estender as cobertas. Assim que terminou, ela mesma se enfiou de baixo delas, bem próxima a Maura.

'Amanhã preciso ir na estação, mas é só pra fazer um relatório sobre hoje. Vai ser rápido, desde que não encontramos nada. Posso ir à tarde, então, Maur... tenta dormir até um pouco mais tarde?'

'Uhum.'

'Ótimo.' Ela apagou a luz do abajur, o quarto ficou escuro rapidamente.

'Jane?'

'Oi?'

'Você e Helena... Vocês estão juntas?' Maura não conseguiu se segurar.

Jane deu uma risadinha sarcástica e agradeceu que as luzes estavam apagadas, assim Maura não iria ver seu rosto vermelho.

'Não. Bem... Nós nos beijamos. Uma vez. Hoje. Mas não estamos juntas, Maura.'

A loira suspirou. 'Eu não sabia que você, bem, que você namorava mulheres.'

'Haha.' Jane riu em desespero. Ela não tinha namorado nenhuma mulher. Nunca pensara isso. Então ela tentou esconder o desconforto por trás da piada. 'O que você acha que está fazendo na minha cama?'

E então ela se deu conta do que tinha acabado de dizer. Se seu rosto estava vermelho antes, agora estava certamente em chamas. Ela podia ver o quarto se iluminando ao redor dele.

'Foi uma piada.' Ela se justificou e Maura riu do desconforto evidente dela.

'Eu sei.' Maura jogou, sem pensar, um braço em cima da barriga de Jane. As duas congelaram.

Ambas estavam dizendo e fazendo coisas incoerentes naquela noite. Mesmo assim, Maura manteve o braço ali.

'Nós não estamos juntas.' Jane disse, mais para ela do que para Maura.

'Você gosta dela? Quer dizer, eu sei que vocês se conheceram há pouco mas...' Ela perguntou temendo a resposta.

'Ela é legal, Maur. Mas não sei se gosto como deveria.' Ela sorriu tristemente, porque Deus, como outra pessoa poderia significar tanto para ela quanto Maura significava? E Maura tinha acabado de dar um fora em Ian. Quais eram as exigências de Maura? Quer dizer, será que um dia ela teria chances?

'Desculpa por atrapalhar.' A loira disse, desejando que o dia não tivesse acontecido. Tinham acontecido coisas erradas demais.

Jane suspirou. 'Maur, pára com isso. Você não atrapalhou nada. Você nunca atrapalha, Maur. Entendeu?'

A loira balançou a cabeça em sim.

'Maur?'

'Aham, entendi.' Ela falou dessa vez, porque antes esqueceu que estavam no escuro.

'Eu nunca imaginei você com outra mulher. Com uma mulher, quero dizer.' Maura acrescentou depois de um tempo de silêncio, corrigindo a palavra errada que lhe escapou pelos lábios.

'Nem eu.' Porque eu sempre me imaginei com você. Ela acrescentou num pensamento, frustrada demais por causa de Maura. Por causa de si mesma. Talvez ela deveria abrir o jogo. Talvez fosse hora de dizer o que sentia. Maura não parecia se incomodar com ela namorando mulheres. Mas talvez isso, o fato de ela gostar de Maura, abalasse a amizade delas. Que covardia, Rizzoli. Ela suspirou de novo. Talvez mesmo agora não fosse o momento. Maura estava abalada por causa de Ian. Ela não precisava da atenção essa noite. Maura era quem precisava, era ela quem precisava de cuidados.

Jane se virou na cabeça e seus pés quentes esbarraram nos gelados da loira. 'Meu Deus, você veio andando no gelo?' Ela riu.

Maura retraiu os pés. 'Descobri essa noite que preciso de pantufas novas, e quentes.'

Jane puxou os pés de Maura com os seus e entrelaçou eles. 'Acredito que assim eles vão esquentar mais rápido, correto?'

Maura sorriu. 'Você não precisa fazer isso.'

'Tudo bem, amanhã quando a gente estiver assistindo Frozen eu vou te lembrar desse favor quando você começar a reclamar.'

Maura deu risada. 'Não se atreva, foi você quem se ofereceu.'

Jane suspirou, fingindo estar ofendida.

'Tá, ok. Eu posso assistir o que quer que você queira. Mas não abusa.'

'Eu jamais faria isso.'

'Como se eu não te conhecesse, Jane.'

'Ainda bem que eu te conheço também.' A morena retrucou.

Era verdade. Os defeitos e as qualidades uma das outras estavam expostas, eram conhecidas, e elas conseguiam viver bem assim.

'Hey, Maur.' Jane pegou a mão de Maura que estava na sua cintura e entrelaçou os dedos e deu um apertãozinho. 'Amanhã é um novo dia.'

Maura sorriu à consideração da amiga e devolveu o aperto na mão. 'Espero que seja ensolarado.' Ela acrescentou num sussurro.

'Se não for, eu divido meu guarda-chuva com você.'

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.