Vampires Will Always Hurt You
4 I'm Done Denying The Truth To Anyone
Notas iniciais
Tudo que Michael precisava era deitar-se em sua cama e dormir o resto do dia. Mas não, a ingratidão das pessoas era tão grande que alguém estava batendo em sua porta com tamanha força e desespero justo quando ele já havia terminado seus afazeres. O sol já começara a nascer e a cidade já estava segura, então por que o desespero?
Um pouco irritado –e preocupado também – caminhou até a porta, abrindo-a de supetão, e recebendo sobre seu peito o peso de alguém o abraçando.
-Mikey... –a palavra saiu abafada em seu peito.
-Gerard? –espantou-se. Afastou o irmão, segurando seus ombros, passou os olhos de cima a baixo tentando ingerir e processar o estado em que se encontrava: o cabelo sempre bem penteado estava jogado por todo o lado, o rosto estava sujo e a roupa rasgada, imunda com terra, sangue. Os lábios estavam machucados e ele tremia e chorava ao mesmo tempo. Nunca, em toda sua vida Mikey viu Gerard naquele estado, nem quando ficaram órfãos chorou assim.
-Meu Deus, Gerard! – exclamou o puxando para dentro. Fechou a porta enquanto o outro puxou para si mesmo uma cadeira e sentando-se, cabeça baixa, chorando. – O que aconteceu? –perguntou Mikey de joelhos a sua frente.
-Eu o ajudei, Mikey! Eu o ajudei! Não! – parou repentinamente – Não ajudei, praticamente ordenei que fizesse aquilo.
-Quem, Gerard? Fizesse o que? –perguntou. Não queria deixar que seus olhos prestassem atenção no sangue, e nem que seu cérebro o enviasse a mensagem do que aconteceu de verdade. Não podia ser o que estava imaginando.
-Ele – respondeu entre soluços. – O Bert.
-Quem? –perguntou Mikey. Em segundos pareceu absorver a informação. Seus olhos encheram-se de horror. – Não. Não é... não pode ser. – tentava manter-se calmo. Levantou-se devagar, recuando alguns passos, olhar fixo na figura miserável de Gerard. – O que aconteceu, Gerard? -perguntou. Seu tom era duro e frio, queria culpá-lo por seja lá o que tinha feito, já que estava relacionado àquela besta. Teria continuado o repreendendo se Gerard não tivesse erguido os olhos, e em meio as lágrimas, tivesse enxergado culpa.
- Havia um coroinha, Mikey. Não sei o que ainda estava fazendo lá, provavelmente guardando os paramentos, eu não sei! Mas ele estava lá... e nos viu. – seu olhar clamava piedade.
-Viu? O que ele viu? – perguntou. Não queria se deixar tomar pelo pânico, mas não conseguia ordenar seus pensamentos no momento.
-Toda noite, Mikey, toda noite permito que Bert... – começou, mas foi interrompido quando o irmão o puxou pela gola da camisa preta. Naquele momento pareceu esquecer-se totalmente do respeito pela clégima, abrindo o colarinho da camisa de Gerard com violência, que não protestou. Havia marcas antigas, marcas recentes, marcas daquela mesma noite. Mikey pareceu horrorizar-se, afastando-se novamente, dessa vez com ar derrotado.
-O que ele fez com o menino? – perguntou. Gerard havia controlado o choro, a respiração.
-Eu... ele o matou. O ajudei a esconder o corpo. – disse quase em um sussurro.
-Droga, Gerard! –exclamou. Caminhava de um lado para o outro com as mãos na cabeça. –Você não vai voltar para lá! Dê-me as chaves, vou buscar suas coisas e você ficará aqui. Direi ao Bispo que adoeceu, e darei um jeito de espelhar para a cidade que é contagioso. – parou, olhando Gerard. –Me prometa que não vai deixar que ele entre aqui! Não pode mais vê-lo, Gerard. Não pode.
O mais velho somente assentiu, não tinha escolha, Mikey era a única pessoa que o iria ajudar, e se dizia que aquilo era o que deveria ser feito, então o faria.
Mas quanto a não encontrar-se mais com Bert... Isso seria complicado.
Mexeu mais uma peça e soltou um suspiro involuntário.
- Algum problema, – o vampiro loiro perguntou – Ray?
- Ah... Meus filhotes, como sempre... – Ray respondeu se recostando na cadeira forrada de veludo. – aprontando a todo momento...
Bob mexeu em seu peão negro.
- Às vezes me pergunto sobre as razões de você ter tantos vampirinhos para se preocupar. – fez uma careta ao perceber que o movimento havia sido mal calculado.
- Eu poderia alegar muitos motivos. Inventar milhares de significativas histórias – sorriu se aproveitando da brecha no jogo do oponente – mas de fato, foi por simples e puro medo da solidão...
- Apenas isso? – Bob tentava reparar a má jogada.
- Na verdade... Houve muitos fatores, mas que acabam se resumindo nisto. – Ray entrelaçou os dedos, procurando uma nova jogada para o xadrez e, ao mesmo tempo, consultou a memória para trazer de volta algumas lembranças importantes. – Logo depois que deixei nosso mestre, comecei a vagar por muitos lugares, procurando motivos para o meu ser vampiro. Gostava de viajar para muitos países diferentes. Visitei muitas das obras mortais mais importantes... A arte me reconforta, você sabe – Sorriu, e Bob retribui em seguida. — Mas isto exigia muito dinheiro, é claro. Nunca fui um vampiro que mata apenas para roubar, mas era bem do tipo que matava alguém para que este roubasse para mim. – riu -. Robert veio a calhar neste momento.
- Bert, O Desfigurador?
- Exato. – confirmou – era um grande golpista. Pesquisei sobre ele a fundo. Descobri, meio por acaso, que se sustentava aplicando grandes golpes em velhas viúvas ricaças, e em cavalheiros que procuravam saciar algum tipo de desejo reprimido – riu baixinho, usando a mão para abafar.
- E destes existem aos montes!
- Naturalmente. Bert era muito esperto e ágil, um enganador nato. Frio e muito ambicioso também, não reclamou nada quando lhe ofereci a vida eterna, ficou, inclusive, bem ansioso. Adaptou-se fenomenalmente bem e me foi bem útil. Roubava tudo e todos que eu lhe ordenava, em troca de... Não sei, acho que nunca lhe dei nada que merecesse seu esforço. – parou um pouco e pareceu refletir. – enfim, nunca reclamou! Foi meu primeiro filhote.
- E porque vieram os outros? – Bob esquecera um pouco do jogo.
- Acontece que Bert não era o que eu esperava. Mal nos encontrávamos, não conversávamos, não convivíamos, e isto faz uma diferença fundamental pra mim – sorriu para o vampiro loiro – Eu sentia muito falta de sua companhia, desde que havia abandonado as terras de nosso amo. – Bob esticou o braço e tocou, de leve, com as costas da mão, o rosto de Raymond.
- Não deveria ter nos deixado... – afagou o rosto do vampiro de traços latinos e recolheu a mão em seguida.
- Eu precisava... – e encarou os olhos de Bob muito profundamente.
Desde pequenos foram criados juntos Gerard, Michael e ela. Lembrava-se muito bem do dia em que Sra. Way morreu, deixando as duas crianças, que não fazia muito haviam perdido o pai, sozinhas no mundo. Suspeitaram de alguma estranha peste que havia atingido o povoado. Ninguém entendia de onde ela provinha, principalmente com sintomas tão peculiares. As vítimas não pareciam doentes antes, eram encontradas já mortas, com apenas dois pequenos furos como ligação entre um caso e outro. Demorou muitos anos para que pudessem entender o que aquilo significava — a pior de todas as pestes — os chupadores de sangue.
Gerard completara apenas doze anos e o irmão sete. Se não fosse pela Sra. DuPort e sua filha Marie, que apesar do pouco que tinham os criaram decentemente, teriam sido abandonados na rua.
Quando atingiu dezesseis anos era notável a enorme vocação de Gerard ao sacerdócio. Era um garoto devotado e estudioso, além de muito sensível com tudo aquilo que “estava incomodando a ordem do Senhor”. Infelizmente isto implicava em uma quantia de dinheiro que nem ele, nem Sra. DuPort possuíam. Foi então que, novamente com ajuda da inseparável Marie, os Way montaram um curioso empreendimento: Os Contra-Vampiros. Naquela época já havia sido descoberto o motivo das estranhas mortes e munidos de vontade de vingança e necessidade criaram uma pequena equipe de segurança das casas da área portuária de New Orleans. Michael Way, com seus onze anos, saía pelas noites rodeando os pobres casebres, apito na boca, para qualquer aviso. Juntaram uns trocados e com a ajuda de alguns estrangeiros que desembarcavam e embarcavam por lá todos os dias, Gerard foi em busca de seu sonho.
Neste meio tempo, enquanto estudava para ser padre, muitas coisas aconteceram. Mikey assumiu o controle do negócio, fazendo profundas modificações. Não cumpria mais um papel apenas de proteção a comunidade e sim de busca e extermínio. Transformaram-se, então, nos Caça-Vampiros. Não que tenham matado muitos durante todos os anos de operação – na verdade foi apenas um que se encontrava um tanto alterado após beber em um bêbado – mas a promessa continuava de pé: Mikey não descansaria até acabar com o último daquela maldita espécie. Seu ódio foi alimentando-se aos poucos pelas desgraças alheias que lhe chegavam aos ouvidos e pela própria imagem que tinha de quando a mãe se foi.
Enquanto enxergava tudo o que acontecia, Marie nutriu um amor infinito pelo jovem. Em seus sonhos mais secretos via-se casada com Michael, cuidando dele para que não se perdesse no mundo da noturna New Orleans. Michael retribuía seu amor desajeitado, mas isto não a impediu de continuar zelando por sua vida, e pela de Gerard também, assim que retornou do seminário, assumindo a igreja do velho padre morto.
Portanto, não pensou duas vezes em estar ali logo que recebeu a mensagem. Estava preocupada, o garoto que havia entregado o recado disse que Mikey frisou que era de extrema urgência. Fez o sinal da cruz quando pensou que talvez algo de grave tivesse acontecido... A porta se abriu revelando o mais jovem Way, o rosto parecendo mais branco e preocupado, os cabelos despenteados cobrindo seus olhos, os óculos tortos... Como era bonito seu futuro noivo.
- Entre, Marie – disse indicando o interior da casa, ela entrou. Mikey olhou para os dois lados antes de fechar a porta atrás de si.
Raymond continuava seu relato à Bob, que neste momento olhava para o tabuleiro, sem ter muita saída.
– Passei a procurar, inconscientemente por alguém que preenchesse o vazio que ficou sem você. E em um bar, certa noite, encontrei aquele que seria o meu preferido durante tanto tempo.
- O rebelde?
- Ah, sim...- Ray suspirou — Frank era um rapaz ambicioso, sedento por saber e ao mesmo tempo humilde e bom. Era sincero, trocamos algumas palavras e pude entender logo seu maior conflito interno...
Bob encontrou uma brecha no jogo, comendo um peão do oponente com sua torre.
- A história do irmão?
- Pois é. – empregou um tom hostil ao confirmar — Era tudo que eu buscava: Frank ansiava por aprender, e eu por ensinar. Tomei-o como aprendiz. Quando lhe transformei já era alguém por quem nutria grande afeição. – devorou a torre de Bob — Lhe mostrei toda a arte de nossa existência, não que haja alguma, claro. E tudo transcorria perfeitamente.
- E então algo saiu errado, não é mesmo?
- O maior problema foi meu egoísmo, como sempre – auto criticava-se, mas sem remorso no rosto – Eu o amava muito, assim como ele me amava. Mas havia outro alguém em seus pensamentos, eu podia lê-los. – suspirou pesadamente – Frank era irremediavelmente apaixonado por Benjamin, seu irmão mais velho.
Os olhos de Ray fixaram-se no tabuleiro durante algum tempo. Fez uma expressão de rancor como se o rosto de Ben estivesse refletido ali.
- Ele, naturalmente, não admitia isto para si mesmo. – continuou – e então achei que era melhor que nunca descobrisse isso. Mexi em seus pensamentos. – admitiu.
- Hipnose?
- Similar. Entrava em sua mente e semeava um grande ódio. Ódio o suficiente que faria Frank querer acabar com tudo. E assim ele o fez. Assassinou o irmão.
Bob perdera a concentração no jogo novamente.
- E não foi o suficiente?
- Por um longo tempo pensei que seria. Vivíamos juntos, nos fazíamos companhia. Mas eu cometi mais dois grandes erros.
Bob não emitiu som, e Raymond continuou.
- Primeiro pensei que havia matado a imagem de Ben da cabeça de Frank, mas na verdade a fortaleci. Constantemente o encontrava refletindo sobre isto, e depois de um tempo sua mente ficou mais fechada para mim.
- E o outro erro?
- Com toda a empolgação que viver junto de alguém tão humano como Frank acabei me esquecendo que não estávamos sozinhos: esqueci-me de Bert. – apontou o tabuleiro, indicando que era a vez do outro – Não lhe dava mais a atenção e isto contribuiu para que a antipatia que sentia por Frank aumentasse ainda mais.
- Ciúmes.
- Talvez. – declarou – As brigas ficaram freqüentes. Eles discordavam de todo e qualquer assunto, principalmente em relação a nossa condição. Era inaceitável para Bert que Frank se alimentasse com o sangue imundo e sem sabor dos animais.
- E o que transformou isso em um erro tão terrível assim?
- Com ódio, após uma discussão, Bert “deixou escapar” para Frank sobre minha “pequena” intervenção no caso de seu irmão. Frank me perguntou se era verdade, estava furioso. Não pude negar.
- Mas você podia! Mesmo sem ler a mente tem um eficiente poder de persuasão! –Bob pareceu incomodado com a história.
- Não, Bob. Eu não podia. O amava muito para enganá-lo novamente. – não possuía emoção alguma em seu tom de voz. – então ele deixou esta casa, me deixou.
Bob o encarou durante uns cinco segundos e em seguida chacoalhou a cabeça.
- Não entendo... Mas ele continua na cidade, não é? Por que tão próximo?
- Tenho duas suspeitas e confesso que nenhuma me agrada, — o olhar de rancor novamente voltou – e ambas tem a participação do jovem Michael Way, que por sinal apresenta uma incrível semelhança física com Benjamin.
- Ele está apaixonado?
- Sim, eu acho – pela primeira vez Bob notou algo a mais em sua voz, — e isso sucinta na segunda hipótese.
- O que seria?
- Por amor, ele seria capaz de se aliar ao caça-vampiros... E nos destruir. – tristeza. Era isso que Bob notara em sua voz.
- E Bert? O que fez com ele?
- Eu me zanguei. Mas entendi que a culpa era toda minha. Nunca dei atenção ao Bert igual a que dava a Frank.
- Você é o melhor vampiro que conheço. — Bob concluiu repentinamente.
- Não, sou o pior de todos.
Fez-se um silêncio mortal.
- O que houve? – Marie perguntou com uma pontada de desespero, enquanto retirava o lenço dos cabelos loiros. — O que aconteceu, Michael? Está ferido? – as mãos se estenderam tímidas para tocá-lo, mas ele recuou alguns passos, o rosto impassível. A sala estava muito escura, com apenas uma vela iluminando.
Ele pareceu pensar durante algum tempo se era seguro lhe revelar tal motivo. Suspirou pesadamente. Com as mãos nos ombros de Marie, a forçou a sentar na cadeira que tinha no cento da sala, junto à mesa. Em seguida deu duas voltas em si e parou na frente da bela garota.
- Marie... O que você sente por mim – ela se enrijeceu na cadeira – e pelo meu irmão?
Relaxando um pouco, e sem entender o porquê de tal pergunta, respondeu:
- Deus sabe o quanto os amo.
- Obrigado – sentiu-se compelido a dizer.
- Não precisa agradecer – abaixou o rosto, envergonhada – por quê? – disse ainda com a cabeça baixa.
- Peço para que não grite. – a informação foi tão sem nexo que, em confusão, não notou que algo saiu das sombras da sala.
Um homem não muito alto, caminhou tranquilamente até a luz, parecendo flutuar. Quando o brilho da vela atingiu-lhe o rosto, Marie teve que se segurar de verdade para não gritar, mas isto não a impediu de levantar-se rapidamente cambaleando um pouco para trás e batendo em Mikey.
- Meu Deus! Michael! – se virou, encarando o rapaz – Um deles! Aqui! Aqui! – tentava controlar o tom, mas era impossível.
Seus olhos percorreram o cômodo e encontraram uma estaca abandonada no chão, perto de seu pé. Abaixou-se pegando a depois. Com ela segura entre as mãos, estendeu em direção ao vampiro. Não imaginou que tivesse tanta coragem assim.
- Não, Marie! – Michael se pôs entre ela e o vampiro. – ele não fará nada! Solte!
E a estaca escorregou de seus dedos, caindo no chão.
Ainda chocada com o que estava acontecendo se assustou ao ouvir que o estranho ser começava a rir.
- Já lhe disse, Michael, estacas não me fazem mal. – e disse baixo em seguida – Mas obrigado por se preocupar.
Mikey pareceu confuso por um momento, mas chacoalhou a cabeça e se dirigiu para a garota, que agora se encontrava sentada no chão, chorando.
- Marie, calma... – a puxou para cima a envolvendo com um braço. Ela sentiu o corpo se aquecer repentinamente. Notou que o sinistro rapaz lançou um olhar gelado e um incômodo arrepio lhe percorreu a espinha. Ela não havia gostado dele. E nem ele dela.
- Xeque. – Ray anunciou.
- Ah, droga! – Bob exclamou comicamente fazendo Ray rir e tirar toda a tristeza que estava em seu rosto há apenas alguns segundos. – E os outros, Ray? O forte e o maluco?
Ray levou as mãos às têmporas.
- É até engraçado! – disse irritado, mas com deboche, e tomou fôlego para retomar a história – Após o afastamento de Frank e a recém frieza de Bert, que procurou companhia em um próprio filho das trevas, tudo pareceu perder o sentido para mim. Encontrei-me vagando solitário novamente. Procurei por alguém que pudesse preencher um pouco do vácuo de dentro do meu peito.... E isto só podia me levar a um lugar...
Bob o fitou curioso com o que viria a seguir.
- A zona portuária de New Orleans – e acrescentou ao notar a incompreensão do outro – Okay, não era pra ter sentido. – Bob gargalhou. – Xeque.
- Droga!
Raymond sorriu.
- Impossibilitado de encontrar alguém tão ágil em pensamento, ambicioso e dedicado como Frank, procurei por outras características que ele possuía... Beleza, meu caro! – Bob riu novamente. – Jeph Howard era um estivador do porto. Pobre, trabalhador, um homem duro e familiar. Era casado e sua esposa esperava um bebe. Acho que este foi o ato mais egoísta que pude ter cometido na vida! Eu e meu egoísmo, novamente... – parou um momento como se refletisse sobre aquilo. – Enfim, não era sua capacidade moral que me atraiu, e sim seu físico. Nunca em meus tantos anos encontrei um corpo tão bem trabalhado como aquele. – Sua voz soou mais melosa que o usual.
- Tanto assim?
- Sim, muito. Atraiu-me completamente. O procurei e apareci para ele como um ser sobrenatural. Como o bom cristão que era, se aterrorizou a principio com minha imagem, mas esta também lhe trouxe muita curiosidade. Prostituiu-se para mim algumas vezes antes de se entregar por inteiro em troca de uma vida saudável que ofereci para sua família.
- Ele vendeu sua mortalidade?
- Sim.
- E você realmente ajudou sua esposa?
- Naturalmente! – mexeu em seu bispo e acrescentou sem emoção – mas não adiantou muita coisa. Ela foi a primeira vítima de seu marido recém transformado. – Bob pareceu levemente chocado – é, até hoje não entendo o porquê de ele ter feito isto... – Ray completou pensativo.
- Um tanto maluco, não acha? – Bob sorriu.
- Sim, mas não tanto quanto meu ultimo filhote. – Ray se deixou rir – Ai, ai, ai, deliro toda vez que me recordo desta embaraçosa história.
Como você deve adivinhar, eu não me satisfiz com o belíssimo Jepha. Dessa vez minha busca passou do carnal para o espiritual. Algumas dúvidas suscitavam em minha cabeça e passei a buscar a origem daquilo que eu era e que nosso mestre nos explicou de maneira tão deficiente... Acho que é uma fase de meia-idade vampírica, algo assim. — riu brevemente — Certa tarde, enquanto caminhava pelas ruas tranqüilas de uma cidadela qualquer me deparei com uma estranha figura. Um homem vestido de túnica branca se ajoelhou em minha frente, abaixou-se e beijou meus pés, me chamando de ‘Iluminado’ a seguir.
Bob explodiu em gargalhadas.
- Eu sei! Parece ridículo! – Ray tentou se explicar, rindo também.
- Não parece, foi! – o vampiro não conseguia parar de rir.
- Xeque! – Ray se vingou.
- Como você faz isso toda hora?? – Bob se indignou.
- Posso continuar? – e continuou, mesmo que Bob não tenha respondido. – Eu sei que parece ridículo, — e lançou um olhar castrador para que Bob se contivesse – Mas eu não soube o que pensar. Imediatamente o peguei e o encaminhei para um lugar mais reservado. Parecia extasiado, me contou sobre outros como eu que sempre apareciam para ele. Fiquei curioso com aquela informação, afinal, havia vampiros na região!
- Ai, Ray... – Bob recomeçava a rir.
- Posso continuar? – ralhou.
- Claro, claro – abafou um risinho.
- Ele pediu que eu desse o “presente sagrado”, e foi o que fiz.
- Tão fácil assim? Você realmente se descontrola quando há um messias em sua frente!
- Como eu dizia, eu o fiz. – ignorou o outro — Acho que ele não esperava por isso, mas não reclamou. De fato gostou bastante das sensações que aquela condição lhe proporcionava. Morei durante um tempo com ele em um quarto de hotel. Presenciei os mais bizarros hábitos que eu já havia visto. O “tal estranho”, ele recusava dizer seu nome, gostava de pequenos e bizarros esportes. Passava horas arremessando bagos de uva na cabeça de pedestres. Eu já começava a me arrepender quando descobri certa noite quem ele realmente era. Branden Steineckert havia fugido do hospício onde sua família o havia internado.
- Acho que isso explica a túnica branca – Bob passava mal de tanto rir.
- Não me orgulho disso, mas também não me arrependo. Com o tempo Branden tornou-se mais agradável. Hum... talvez agradável não seja a palavra certa. Começou a articular melhor, raciocinar melhor... Acho que ficou bem depois de se ver livre dos choques elétricos e drogas fortes. Transformou-se em ótima companhia para Jepha e, obviamente, um motivo de preocupação constante.
-Por que diz isso?
- Ah! – Ray fez um largo movimento com os braços – São imprudentes! Preciso manter meus olhos neles sempre! E quando assim não faço...
Bob riu alto, tão alto que o som fez um grande eco no salão. Após desculpar-se pelo barulho desnecessário, percebeu que estavam completamente sozinhos.
Mikey a obrigou, novamente, a sentar-se e ajoelhou-se em sua frente.
- Descobri não faz muito tempo uma coisa que ia contra tudo que eu acreditava. – disse — Estes seres negros têm alma, Marie. São capazes de serem bons ou ruins. – e ele olhou para Frank, que ainda estava parado no centro da sala – Frank é... um bom vampiro. – a frase pareceu extremamente absurda, tanto para Marie quanto para Michael, e até mesmo para o próprio Frank soou estranho.
- Mas... Michael...
- Te chamei aqui porque sei de seus sentimentos por meu irmão e eu – novamente foi tomada de nervoso – E sei que faria o que for para nos ajudar. E agora, minha doce amiga, precisamos como nunca precisamos antes.
Viu honestidade e tristeza em sua face. Quis abraçá-lo, mas teve o estranho pressentimento, notando a presença do vampiro, que talvez isso fosse lhe custar a própria vida.
- O que terei que fazer?
Michael sorriu por um segundo e depois retornou a sua face preocupada.
- Como eu disse, há vampiros que podem ser bons, mas há infinitamente mais aqueles que podem ser ruins. E um destes persegue meu irmão.
- Meu Deus!
- O que quero que você faça é que fiquei aqui, com Gerard, durante todo o tempo que puder. Observe-o, o alimente, dê o que ele quiser, mas, sob nenhuma hipótese, deixe que saia de casa. – frisou esta parte, apertando forte os ombros da garota — Se algo acontecer, — apanhou algo no bolso e a entregou – apite alto para me chamar. –emocionou-se ao ver o antigo apito de quando eram crianças. – Promete?
Pegou o apito e o apertou junto ao peito.
- Prometo.
- E tem mais uma coisa... – Mikey levantou-se, virando o rosto. Aquilo seria difícil. – Se alguém da cidade perguntar, você não sabe de nada. Todos pensam que Gerard está muito doente e não pode sair, confirme isto. E diga também que ele se mostra muito sensibilizado com o garoto morto... – Mikey parou de repente. Não havia deixado escapar sem querer, tinha premeditado dizer aquilo.
Tudo ficou silencioso, como se esperassem por algo que ela tivesse que dizer.
- O garoto desaparecido... está morto? – Michael confirmou com a cabeça – E Gerard...?
- Marie, — ele a cortou — se fizer estas perguntas terá de ouvir suas respostas. Se não as fizer não precisará carregar tal fardo também. – a levantou e encarou seu olhar assustado, com força — Seguiria o que digo sem questionar?
Novamente ficaram em silêncio. Os olhos de Marie desviaram dos de Michael e fixaram-se em Frank. Ele observava a cena de fora, parecendo muito receoso. Finalmente, ela entendeu o que estava acontecendo. Pode compreender e tomar sua decisão.
- Nunca vou te abandonar. – disse, olhos ainda fixos em Frank, provocando-o. — Sigo qualquer coisa que queira, Michael. – voltou a sua atenção novamente para o jovem e o abraçou. Way, ainda sem jeito, a envolveu com os braços e a trouxe para mais junto ao peito. Marie abriu os olhos e enxergou o vampiro ainda parado em seu lugar, o rosto tomado de uma emoção bem familiar: consumia-se de ciúmes. Marie apertou ainda mais Michael.
Não o abandonaria agora, não agora que tinha outro concorrente. Não permitiria que Mikey a deixasse para ficar com tal peste. Sorriu vitoriosa ao sentir a mão direita dele acariciando seus longos cabelos.
Os olhos de Frank eram puro ódio. E ela pode ouvir uma voz adentrando sua cabeça e dizendo em tom letal:
“Morra”.
Eram Rivais.
- Esta casa me parece bem silenciosa, onde estão todos? – Bob indagou, incomodado pelo silêncio seguido de sua gargalhada.
- Robert... Hum, vi quando chegou ontem, quase no amanhecer, ele parecia bem cansado e preocupado... – respirou pesado — Acho que o que eu mais temia aconteceu e estamos prestes a presenciar uma grande revolução.
- Aquelas preocupações novamente? Você acredita realmente que ele esteja ligado a alguém tão perigoso para nós?
- Robert está apaixonado. Ele ainda não reparou, óbvio. É muito estúpido e insensível para admitir isto para si mesmo. — Ray sorriu sarcástico — E por experiência própria sei que quando envolvido por algum conflito sentimental, Bert pode passar dos limites e estragar tudo... – Bob compreendeu a que ele se referia. – Frank provavelmente está em algum lugar da cidade sofrendo pelo jovem que crê ser seu irmão em alma. E me odiando, naturalmente. – suspirou aborrecido – Os outros dois não dão as caras desde ontem. Devem ter aprontado algo e dormido em um cemitério qualquer. No entanto sinto que daqui alguns instantes, teremos suas companhias.
E foi só terminar de pronunciar a ultima palavra para que pudessem ouvir um barulho de algo se quebrando no andar superior.
- Chegaram. Já avisei milhões de vezes para que não se alimentassem em bêbados! -demonstrou desaprovação balançando a cabeça negativamente.
Mas Bob não disse nada, ainda pensava na tal revolução que Ray mencionara.
- Não sei... A idéia de um combate direto entre mortais e imortais me parece injusta... – disse impossibilitado de manter aquele comentário em sua cabeça, onde Ray não podia mais lê-los.
- Injusto? Espero que esteja se referindo a desigualdade que nós sofreremos.
- Raymond, não seja tolo, — Bob sorriu — sabemos o quanto nossa força e capacidade de convencimento são superiores à deles.
Ray parou um instante encarando o amigo.
- Sim, somos superiores nisto – seu rosto era sério, frio – mas também somos superiores em um bem ainda mais poderoso...
Bob não interrompeu, sabia que ele completaria.
- Nossa capacidade de amar está em um grau inatingível a eles — sorriu friamente – e qualquer um sabe, até mesmo você, tolo amigo, como o amor pode ser o mais forte, persuasivo e destruidor, entre os sentimentos. O pior de todos os males. – e com um rápido movimento, tocou em uma de suas peças – Xeque mate.
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