Vampire²
8 Capítulo 8 - Fadas e emboscadas
Começamos a andar pela floresta imensa, que aparentemente, nos levaria até a tal da Vila das Bruxas.
Olhei no meu celular, e eram dezesseis horas. Eu não sabia se conseguiríamos passar pela floresta antes do anoitecer, então apertamos o passo.
Eu estava tentando retomar nossa conversa, pois eu não sabia o que poderia acontecer até chegarmos ao nosso destino. Se numa escola eu poderia ter sido morto pelo pescoço de uma garota, o que diabos poderia acontecer numa perigosa floresta?
Os mosquitos não me deixavam em paz, mas eu tentava puxar conversa. O que não era fácil, pois Alice estava incrivelmente animada.
— CARA, eu não acredito que eu to finalmente levando você pra Vila das Bruxas! É como um sonho virando realidade! — disse ela.
— Como é esse lugar? — perguntei — Deve ser incrível, para você estar animada assim.
— Bem, é legalzinho. — respondeu ela — Tem muitas bruxas lá.
— Mas?
— MAS LÁ TAMBÉM TEM A EMMA SAFIRA! — gritou Alice, dando pulinhos de alegria.
— Emma Safira? — perguntei, confuso — Isso é uma pedra ou algo assim?
Alice riu, me dando um tapinha que quase me derrubou.
— Não, bobinho! Emma Safira é o nome da minha amiga de infância e bruxa pessoal!
Assobiei.
— Uau, você tem uma bruxa particular? O que ela faz?
— É ela que faz as minhas poções!
Pensei um pouco, lembrando das tais poções que Alice tomava desde criança. Ela até tinha trazido algumas para a viagem, mas eu nunca entendi direito para quê ela tomava elas.
— E o que elas fazem? — perguntei.
— Ah, um monte de coisas! É uma misturinha que a Emma criou para mim. Deixa eu lembrar... ela me protege da luz do Sol, por exemplo.
Eu havia finalmente entendido como Alice conseguia ser uma vampira, e ainda sim, frequentar a escola de manhã.
— Fora que ela também me ajuda a controlar minha força. A força de um vampiro não é brincadeira, comparada com a de um humano. Eu provavelmente quebraria tudo na escola se não fossem por elas!
— Caramba.
— Além disso, elas funcionam como comida! Vampiros geralmente têm de tomar sangue pra sobreviver, e não comer como os humanos. Mas com as poções da Emma, eu me alimento sem ter que tomar o sangue de ninguém!
— Exceto o meu, ontem.
— Hehe, o seu caso foi um pouco especial.
— Especial como?
— Eu queria tomar o seu sangue faz um tempo. Sabe, transformar você em meu parceiro de sangue. Mas eu não podia, por causa disso tudo. — explicou Alice, enquanto movia os braços em direção à floresta — Ter que sobreviver até chegar na Mansão Umbra... não era algo que eu queria ter que fazer você passar.
— Entendi...
— Mas quando seu sangue espirrou na minha boca, fez com que... algo acordasse em mim. Um instinto selvagem. Foi loucura.
— Aí nessa loucura... acabamos... fazendo tudo aquilo.
— É, eu te mordi, e agora estamos nessa.
— Mas... por quê? — perguntei.
— Por que o quê?
— Por que você queria me transformar num parceiro de sangue? E o que diabos é um parceiro de sangue?
— Então... — começou Alice, que, dessa vez, foi a interrompida.
*viuuuuuuuum*
Ouvimos um zumbido incrivelmente alto, passando pelos nossos ouvidos.
— Mas o quê? Isso é o som de um mosquito? — perguntou Alice.
— Se for, é um mosquito enorme!
*viuuuuuuuuum*
*PÁ*
A coisa que estava fazendo o som me acertou na bochecha, e eu quase caí com o impacto.
— EI! — gritei.
A coisa parou no ar, e pudemos ver o que era.
Alguns dias antes, eu teria me dado alguns tapas para entender o que estava acontecendo, e se o que eu estava vendo era real.
Hoje? Eu apenas levantei uma sobrancelha.
— Uma... fada? — perguntei.
A fada era um pequeno ser humanóide, que brilhava azul. Era mais ou menos do tamanho de um caderno em altura, e era basicamente um mini-humano, com antenas e asas de um inseto, que batiam rápido como as de um beija-flor.
Seus cabelos eram uma montanha de cachos como os meus, mas eram brancos, assim como o corpo inteiro da fada.
Seus olhos eram como os de um inseto, o que me deixavam um pouco esquisito de olhar para eles.
— Olá! — disse a fada.
— Ahn... oi? — eu disse, relutante.
— Eaí...? — disse Alice, também relutante.
— Vocês vieram de longe, né? — perguntou a fada.
— Sim. — respondi.
— Contanto que vocês não ameacem a floresta, vocês são bem-vindos! — explicou a fada, do nada.
Fiquei um pouco confuso, mas a fada era fofa. Algo nela me fazia ficar em paz, como se ela fosse o ser mais inofensivo do mundo.
— ... Espera um pouco. — disse Alice. — Eu nunca vi fadas nesta parte da floresta.
— Sério? — perguntei — Ah, mas olha pra ela! Deve ter sido só uma coincidência. Ela só veio nos avisar e nos dar as boas-vindas, não é?
— Claro! — ao dizer isso, outras fadas começaram a aparecer, zumbindo.
Elas brilhavam em várias cores diferentes. Desde laranja até verde e rosa. Dançando pelo ar, ver todas aquelas fadas nos dando boas-vindas era uma linda visão. Mas Alice continuava confusa.
— Sério, Evan. Eu já peguei esse caminho diversas vezes, e elas nunca aparecem por aqui. — explicou Alice, cautelosa.
— Mas do que você tá falando? — eu disse — Elas só vieram dançar!
A partir daqui, algo parecia estranho comigo. Eu mantive todas as lembranças do que aconteceu, mas eu parecia não estar em controle das minhas ações. Como se alguém estivesse sussurrando em meu ouvido para eu fazer algo que eu sabia que eu não deveria fazer. Uma dessas coisas foi ignorar os avisos de Alice.
— Foi você mesmo que me disse pra... me disse pra... — Alice começou a dizer, antes de parar, e começar a admirar as fadas, que derrubavam um pó brilhante enquanto dançavam.
— Agora, é tarde. — disse a Fada para Alice. — Vocês vão dançar pela floresta, ao nosso ritmo, e serão pegos. Seu teste — continuou a Fada, mas agora olhando para mim — acaba aqui, senhor Evan Dias.
Alice e eu fomos andando sem rumo pela floresta, guiados pela dança hipnótica das fadas. Seguramos a mão um do outro, quase que como um apelo do nosso subconsciente para ficarmos próximos, mas além disso, estávamos totalmente sem controle.
Eu pude ouvir uma fada dizendo ao longe, quase como se eu estivesse dentro d'água:
— A dona Izanami ainda não preparou tudo!
"Izanami?" pensou o pouco de consciência que ainda me restava. Aquilo não soava como o nome de alguma lenda. Soava mais como um nome próprio.
Mas saber o nome do monstro não nos ajudaria nada naquela situação. Precisávamos pensar em algum jeito de escapar das fadas... Mas quanto mais eu pensava, mais meus pensamentos se perdiam dentro do meu corpo confuso.
— Droga! — gritou a fada azul — Vamos mantê-los aqui por um tempinho!
Nisso, a dança pareceu mudar um pouco. E ao invés de estar quase desacordado, meu corpo começou a se esquentar.
— Acordem o subconsciente deles, e deixem eles aí parados por um tempo! — ordenou a fada azul.
Nisso, a dança mudou novamente, e algo acordou dentro de mim.
— Evan! — gritou Alice.
— Alice! — gritei, enquanto ambos corremos em direção um do outro.
— Eu... — começou Alice, com seu rosto corado — eu acho que eu te a...
— ESPERA! ESPERA! — gritou a fada azul, fazendo as outras pararem de voar — ELES VÃO SE BEIJAR! NÃO VAMOS DEIXAR ESSE SAFADO QUE NEM PASSOU NO TESTE ENCOSTAR NA LADY ALICE!
E, por um breve momento, eu senti que a hipnose havia parado, e eu estava no controle do meu corpo novamente. Alice parecia ter acordado do transe também, ela começou a piscar várias vezes, tentando lembrar onde ela estava.
— Acho que a gente deveria correr — disse ela. Meu coração, que estava calmo por conta do pó das fadas, começou a bater rápido.
Eu e Alice estávamos de mãos dadas, incrivelmente próximos um do outro. Eu podia sentir sua respiração, e eu sabia que ela sentia a minha.
Eu sabia que nós deveríamos usar aquela oportunidade para correr. Mas, mesmo estando são, meu corpo não se mexia.
Eu lembrei de todas as vezes que fomos interrompidos. Éramos algo mais que amigos agora, éramos parceiros de sangue! E, apesar de eu ainda não saber direito o que era aquilo, eu sabia que o que tínhamos era especial, e eu torci para Alice sentir o mesmo.
Ela não se mexeu, assim como eu. Eu podia ouvir, ao longe, as fadas gritando comigo. "Sai de perto dela!", "Você não foi aprovado!" e mais várias frases nos rodeavam, mas, com medo do futuro e do que nos aguardava nele, nem a urgência da situação poderia tirar aquilo de mim.
Eu poderia me arrepender muito daquilo. Mas eu senti que se não fosse naquela hora, eu poderia nunca ter outra chance, dependendo do que estava nos esperando naquela floresta.
O rosto de Alice se aproximou do meu, e eu me aproximei do dela, ficando nas pontas dos meus pés.
E nos beijamos, para a raiva de uma nuvem de fadas brilhantes, que começaram a derrubar seu pó novamente em nossas cabeças, dessa vez, fazendo eu e Alice perder totalmente a consciência.
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