Vampire²
2 Capítulo 2 - Pescoços são perigosos
— Posso entrar? — perguntou Alice, com um sorriso brilhante e olhos com uma intensa cor vermelha.
Se eu estivesse completamente são, eu teria percebido que aquela não era a Alice. Quer dizer... Era, mas ela não estava no seu normal. Mas os socos que eu levara meio que mexeram com o meu bom senso.
— P-pode entrar, Alice — respondi, enquanto eu abria a janela, perguntando a mim mesmo se eu estava sonhando, já que pessoas normais não flutuam fora de janelas, no terceiro andar de prédios.
Mas, ao olhar bem, percebi que Alice não estava flutuando, e sim voando. Ela tinha grandes asas negras, que se retraíram no momento que ela se agachou para passar pela janela.
Ao entrar, Alice ficou de pé, e começou a olhar para mim. Eu ainda estava um pouco confuso e meio-acordado, mas até eu no meu estado consegui ver que tinha algo errado.
— A-Alice... V-você tem asas? — perguntei.
— Ah, isso? — disse ela, com aquela voz mais grossa que eu ouvira mais cedo — Isso não é nada. O mais importante é que eu quero tomar o seu sangue. Você deixa?
— ... Oi?
As peças estavam começando a se encaixar. Como eu, um viciado em monstros, não percebeu antes? Todas as esquisitices dela... Ela não era humana. E, ao pedir o meu sangue, tudo finalmente fez sentido.
— Meu sangue... — eu disse — Você é uma vampira.
— É, bem, isso aí. — respondeu Alice — Eu geralmente me controlo, tomo minhas poções e tal. Elas substituem o sangue, sabe? Até me protegem da luz do Sol. Mas hoje, quando seu sangue me acertou... Algo mudou. Eu não estou me sentindo eu mesma desde então. Eu só penso em morder seu pescoço. Cê deixa, cara?
Eu quase caí no chão, mas fui salvo por minha cama. Eu tinha me apaixonado por uma vampira. Antes de pensar na logística daquilo tudo, meu instinto humano começou a gritar "CORRE, CORRE, PELO AMOR DE TUDO QUE É MAIS SAGRADO, CORRE!", mas, como eu disse, meu bom senso havia me deixado naquele dia.
E, por mais perigoso que aquilo tudo soava, eu confiava em Alice. Era difícil não me sentir seguro perto de uma garota que tem me protegido de valentões por anos.
— E... Se você m-morder meu pesco-coço... E tomar o meu s-sangue... Eu vou morrer? — perguntei.
— Nãããão, claro que não! — Alice respondeu, rindo alto — Você acha que eu, depois de todo esse tempo, te mataria sem mais nem menos? Eu te amo, cara!
Meu corpo congelou. Eu não sabia se aquilo foi algum poder de vampiro, ou se foram apenas palavras, mas até meu instinto humano resolveu se calar.
— E-então... Vai. Toma o meu sangue. — respondi, decidido — Acho que esse é o melhor jeito de eu te agradecer por tudo que você fez até agora.
— Para de ser tão dramático, Evan! — disse Alice, rindo — É só uma tomação de sangue entre amigos, nada demais!
Alice pulou em minha direção, e pousou na cama. Suas asas abriram, derrubando meu criado-mudo. Ela segurou meus ombros, e, num movimento rápido e certeiro, abocanhou meu pescoço.
Eram como se duas agulhas tivessem penetrado a minha pele. Eu sentia que aquilo deveria doer, mas eu na verdade não sentia dor alguma. O que eu sentia, na verdade, era meu sangue saindo.
Antes daquela noite, eu não tinha ideia de quanto sangue eu poderia perder antes de acabar perdendo a consciência, mas agora eu sabia, pois alguns segundos depois da mordida de Alice, eu havia desmaiado.
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O Sol começara a raiar, e, por minhas cortinas estarem abertas, os quentes raios amarelos da manhã adentraram o meu quarto, ofuscando meus olhos.
Eu acordei com uma tremenda dor de cabeça, sem saber direito o que havia acontecido durante a noite. Aquilo tudo foi tão surreal, que meu cérebro decidiu agir como se tudo tivesse sido um sonho. Um estranho e fantasioso sonho.
Minha amiga não poderia ser uma vampira. Minha pessoa preferida não poderia ser também o meu monstro preferido, eu não tinha nascido com tanta sorte.
Mas, ao mexer o meu ombro, eu senti uma pequena dor e, ao olhar para meu pescoço, vi duas marcas redondas, cobertas de sangue seco.
Eu estava pronto para chutar a minha sanidade pela janela, mas então eu decidi olhar para baixo.
E, caída no chão, estava Alice.
Seus cabelos, pretos como carvão, estavam bagunçados como sempre. Ela vestia uma bermuda amarela, e uma camiseta branca que era grande demais para seu corpo. Um look normal para ela.
As asas, claro, não eram.
Enormes asas negras que me lembravam as de um morcego esparramadas pelo tapete. Elas eram incrivelmente reais, o que me fez pensar que eu realmente não estava delirando, e aquilo não era uma fantasia.
Ao olhar mais de perto, vi que ela estava roncando. E, ao abrir sua boca, vi duas enormes presas, bem maiores do que elas eram regularmente, cheias de sangue seco.
— A... Alice... ALICE! — gritei, tentando acordá-la.
— O QUÊ ONDE QUANDO — gritou ela, assustada — Ah, Evan, é só você... Caramba, não me acorda desse jeito por nada...
— Por... Nada? — perguntei, apontando para suas asas.
Alice olhou para suas costas, e viu para o que eu estava apontando. Ela olhou de volta para mim, e focou no meu pescoço.
— ... Opa. — disse ela, sorrindo — Eu acho que temos um problemão aqui.
— Problemão? Por mim, a gente poderia comemorar! Por que você nunca me disse que era uma vampira?
— Porque eu queria deixar para trás essa vida de vampiro! Ser parte da minha família é um saco! Eu queria apenas ser uma garota comum, vivendo uma vida comum... Com você!
Meu coração pulou uma batida.
— M-mas você sabe que eu não espalharia a notícia! Quer dizer... Agora que você me mordeu, eu vou virar um vampiro também, não é? Eu te ajudo a esconder o seu segredo, você me ajuda a esconder o meu!
Alice ficou calada. Começou a assobiar, olhando para o teto, enquanto mexia com suas mechas bagunçadas.
— ... Qual é o problema? — perguntei.
Então, sem mais nem menos, Alice saiu correndo do meu quarto, rápida como um raio.
Tentei correr atrás dela, mas ela já tinha passado pela porta da frente, onde minha mãe tinha acabado de chegar do trabalho.
— Uau, o que deu nela? — perguntou minha mãe. — E... Por que seu pescoço está com dois furos?
Sem saber o que responder, eu corri de volta para o meu quarto. Quando eu estava prestes a deitar na cama para pensar direito no que tinha acontecido, eu vi a hora. Eu estava atrasado.
Troquei de roupa feito um louco, encontrei minha mochila e saí correndo. Antes mesmo de minha mãe conseguir falar alguma coisa, eu disse, enquanto corria:
— Tchau mãe, te amo, to indo pra escola!
Fechei a porta da frente, e corri pelo corredor até chegar na porta de Alice. Bati várias vezes, mas ela não atendia. Eu não sabia se ela estava lá, ou para onde tinha ido, mas mesmo assim, decidi avisá-la que eu estava saindo:
— Alice, eu to indo para a escola, eu te encontro lá!
Meu coração palpitava feito louco. Minha amiga era uma vampira. Ela tinha me mordido, e eu viraria um vampiro também! Esse seria o melhor ano escolar de todos, com certeza!
Mas, como é de costume, meu velho amigo destino decidiu que minha vida não poderia ser apenas um mar de rosas.
Chegando na escola, tive o cuidado de usar as golas da minha camiseta de manga longa para tentar esconder as mordidas de Alice. Eu nem tive tempo de tomar banho, então até o sangue ainda estava lá, por isso eu tinha que ter cuidado para não ser visto. Não é como se alguém fosse falar comigo de qualquer jeito, já que os alunos estavam todos nas salas, pois eu tinha chego atrasado. Tudo que eu tinha que fazer era atravessar o corredor, em direção a minha sala de aula. Chegando lá, Alice provavelmente estaria sentada ao meu lado, e conversaríamos normalmente, como sempre fazemos.
— EI, PANACA! — gritou uma voz grave, atrás de mim.
É, ninguém disse que a vida era fácil.
Me virei para encarar um cara que parecia ser o dobro do valentão que havia me socado ontem. Minhas pernas já me avisaram: "Vamos tremer o dobro de ontem, então!".
Ele tinha o mesmo corte de cabelo tosco do irmão, fios longos que iam até seu ombro, mas estavam tão mal cuidados que pareciam uma peruca feita com fios de vassoura. Ele vestia uma calça camuflada, e uma jaqueta bem surrada.
— Cadê a sua amiga? — perguntou ele — A que bateu no meu irmão.
— Eu não sei onde a Alice está. — consegui responder, apesar de minha voz ter desafinado bastante.
— Então você serve. — disse ele, enquanto me agarrava pelo pescoço.
Naquele momento, eu estava com mais medo de ele ver as mordidas do que de apanhar, o que era um sentimento novo para mim. Levantei minha gola o máximo que eu pude, e me preparei para levar uma bifa. Mas o destino parecia não estar para brincadeiras hoje, pois minha sorte pioraria dali para frente.
O valentão estava com o punho fechado, mas subitamente, sua mão se afrouxou do meu pescoço. Eu fiquei confuso, mas parecia que ele estava mais do que eu.
— Quem são vocês duas? — perguntou ele, olhando para alguém atrás de mim.
Eu fiquei extremamente feliz, pois achei que duas professoras haviam chego para me resgatar. Mas, quando eu me virei, vi que aquelas duas com certeza não eram professoras.
Duas garotas que pareciam ter a minha idade estavam de pé, criando uma simetria perfeita entre elas. Ambas pareciam ter ascendência japonesa; Suas peles eram tão brancas quanto a minha, e seus longos e finos cabelos pretos foram cortados de tal maneira que ambas tinham um penteado milimetricamente igual. Seu olhar era frio, e suas roupas faziam elas parecerem duas espiãs do governo: Jaquetas justas e pretas, junto com calças igualmente justas e escuras. Elas vestiam tênis comuns, o que era um pouco estranho. Uma delas tinha uma tiara vermelha, enquanto a outra tinha um lenço amarelo amarrado no pescoço.
Naquele momento, eu estava tão perdido quanto o valentão. Mas minha confusão deu lugar ao medo, quando a garota do lenço começou a andar em nossa direção e disse, com uma voz doce e ao mesmo tempo ameaçadora:
— Ele é nossa presa, grandão.
O grandão olhou confuso para as duas, e disse:
— Eu vou espancar ele primeiro. Espera a sua vez.
Nisso, algo tão impressionante quanto duas espiãs japonesas adolescentes aparecerem em sua escola aconteceu: O pescoço da garota com o lenço começou a crescer.
Era como ver pasta de dente saindo da embalagem, mas ao invés de pasta, era um pescoço inacreditavelmente longo.
O valentão soltou um "Mas o quê?", que era exatamente o que eu ia dizer. Mas, antes de ele soltar qualquer outra frase, a cabeça da garota, que agora serpenteava como uma minhoca louca, simplesmente começou a cair, e pousou em sua mão.
E então, como quem joga uma bola de boliche, a garota lançou sua própria cabeça no valentão, e, com um golpe certeiro em seu estômago, ele caiu duro no chão. O pescoço da garota do lenço começou a se encurtar, até ele estar com o tamanho normal.
Eu não sabia se eu agradecia a garota do lenço, ou se eu corria. Como meu bom senso ainda estava lá em casa, eu acabei dizendo:
— Ei... Obrigado pela força. Prazer, meu nome é Evan.
— Viemos aqui para te matar, Evan. — disse a garota da tiara. — Mas já que você se apresentou, faremos o mesmo. Eu me chamo Hitomi.
— Eu sou Misaki. — se apresentou a garota do lenço — Muito prazer, Evan-san. E agora, como prometemos, vamos matá-lo.
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