Valerion - a Busca por Yggdrasil
9 Tiberan decide lutar
Kaelvor estava estendido no chão, inconsciente, o corpo tomado por tremores. A pele dele começava a empalidecer, como se o veneno de Selindra já tivesse entrado em suas veias.
Os prisioneiros recuaram para os cantos das celas, alguns chorando, outros murmurando orações desesperadas.
Tiberan estava parado, imóvel, com os punhos cerrados.
Por toda sua vida, tinha obedecido.
Obedecido às leis de Phytonia, ao culto de Phýton, aos rituais que pregavam perfeição e disciplina.
Ele sempre acreditou que essa ordem mantinha o equilíbrio do mundo.
Mas ali, diante dos olhos dele, um guarda que tinha mostrado compaixão estava morto.
E agora, o único homem que ousava desafiar os deuses jazia à beira da morte, vítima de um veneno cruel.
— Vai fugir também? — A voz de Selindra cortou o ar, fria. — Pode se ajoelhar, botânico. Reconheça a ordem de Phytonia e não terá o mesmo destino.
Tiberan respirou fundo.
Seu instinto dizia para ceder. Era isso que sempre fizera.
Mas então ouviu um soluço. Dona Maela estava ajoelhada, abraçando Korin, tentando protegê-lo.
Os outros prisioneiros olhavam para ele, desesperados, como se buscassem um fio de esperança.
E naquele momento, algo mudou dentro de Tiberan.
Pela primeira vez, ele não viu Phytonia como ordem.
Viu Phytonia como prisão.
— Não. — Sua voz foi baixa, mas firme.
Selindra arqueou a sobrancelha, surpresa.
— Como disse?
Tiberan ergueu a mão. Entre seus dedos brotaram raízes finas, que se expandiram pelo chão de pedra como serpentes vivas.
Seus olhos, antes sempre serenos, agora brilhavam com fúria.
— Passei minha vida acreditando que o sistema de Phytonia era justiça. — A voz dele aumentava. — Mas justiça não prende crianças. Não condena idosos. Não mata os que ainda acreditam na compaixão.
As raízes se tornaram vinhas grossas, estourando pelas fendas da pedra. Espinhos surgiram, afiando-se como lâminas.
— Hoje, eu luto. Não pelo reino. Não pelos deuses. Mas por eles. — Ele apontou para os prisioneiros. — Meu povo.
Selindra riu, fria.
— Botânico insolente. Vai desafiar uma Amazona Sagrada? Vai morrer tão rápido quanto o outro.
Tiberan não recuou.
— Então que morra alguém aqui hoje. Mas não será eu.
As vinhas avançaram como chicotes, tentando atingir Selindra.
Ela girou a lança, cortando algumas com facilidade, mas outras se enrolaram em seu braço. O veneno de sua arma pingava nas plantas, corroendo-as, mas elas cresciam de novo, mais fortes, mais numerosas.
Os prisioneiros começaram a se erguer atrás das grades, os olhos brilhando de esperança.
Kaelvor permanecia inconsciente, sua respiração fraca.
E Tiberan, pela primeira vez em sua vida, sentia não apenas calma ou estudo — sentia ódio.
Um ódio que o fez lutar.
Fale com o autor