Valerion - a Busca por Yggdrasil
39 Porta-corpo
Soraja e Ephiron despertaram com um gosto amargo na boca. O mundo estava escuro, apenas iluminado por pequenas tochas presas às paredes de pedra. O teto era baixo, as sombras se esticavam em formas grotescas, e o frio cortava como navalhas.
As correntes tilintavam em seus pulsos e tornozelos. Ambos estavam amarrados a pilares de granito, incapazes de mover-se. No entanto, o que mais chamava a atenção não era o cárcere, mas as paredes.
Quadros. Dezenas de quadros, alguns pintados à mão, outros emoldurando pedaços de tecido antigo, brasões e símbolos de batalhas passadas. Em todos, uma figura se repetia: uma jovem de cabelos prateados, postura altiva e olhar feroz, usando uma armadura que refletia como cristal.
— Quem é ela? — murmurou Soraja, a voz rouca.
Antes que Ephiron pudesse responder, uma porta rangeu. Os dois olharam, tensos, quando a figura entrou: a velha senhora que lhes havia oferecido o chá, agora sem o manto humilde. Estava coberta por joias antigas e segurava um cajado decorado com símbolos de serpentes.
— Finalmente despertaram. — Sua voz era seca, mas havia algo de orgulho em cada palavra. — Estava ansiosa por este momento.
Ephiron cerrou os punhos. — Você… nos envenenou.
— Apenas coloquei vocês para descansar. — A velha caminhou pelo salão, passando as mãos enrugadas pelos quadros. — Muitos já esqueceram meu nome. Mas eu ainda sou Anastásia, a Amazona Negra da Armadura Platina.
Soraja arregalou os olhos. — Amazona negra?
Anastásia sorriu, revelando dentes amarelados. — Fui a primeira delas. Velaska me escolheu para brilhar ao lado de seus cavaleiros, mas nunca me deu o título de Valete que merecia. Fui usada, celebrada, e depois esquecida.
Ela se virou, e por um instante sua figura enrugada pareceu se sobrepor à da jovem dos quadros. — Mas agora, o destino me trouxe vocês. A rebelde sem chave. Anorith vai gostar de saber do seu destino — Seu dedo acusador apontou Soraja. — E o filho renegado de um Ás. — Voltou-se a Ephiron.
O cavaleiro apertou os dentes. — Não pronuncie esse nome.
— Ah, mas eu sei quem você é. — Anastásia riu, seca como ossos quebrando. — O filho perdido de um Ás de Hyperion. Que presente para mim! Se eu levar vocês dois a Velaska, ela restaurará minha juventude. Me dará o título de Valete que sempre mereci.
Soraja respirou fundo. — Não vamos deixar isso acontecer.
Ephiron puxou as correntes, fazendo a parede tremer. — Me solte e veremos quem será esquecido.
A velha apenas bateu o cajado no chão. O solo estremeceu, rachando. Das fissuras, duas formas começaram a se erguer: golens colossais de pedra, seus corpos ocupando quase todo o porão. Suas cabeças batiam no teto, e cada passo era um trovão.
— Conheçam meus guardiões. Eles nunca me abandonaram. —
O primeiro golpe veio como uma avalanche. Ephiron conseguiu se soltar no último instante, quebrando as correntes com a força de sua lança sombria. Ele pulou sobre o golem, perfurando a cabeça de pedra com o poder de suas sombras. O monstro estremeceu, cambaleou, mas não caiu.
Soraja se debateu, a raiva subindo. — Não… eu não vou ficar parada!
Concentrou-se. Sentiu o metal ao redor, as fechaduras e dobradiças invisíveis. Uma porta se formou à sua frente, materializando-se no vazio. Com um movimento brusco, ela arrancou a maçaneta e, como se fosse um soco inglês, quebrou as correntes.
— Finalmente. —
Soraja ergueu-se e esticou a mão esquerda. O segundo golem investiu, mas num movimento rápido, uma pequena porta surgiu na palma de sua mão, sugando a criatura para dentro do vazio. "Porta-corpo".
— Onde… ele foi parar? — murmurou Ephiron, impressionado.
Soraja sorriu, o suor escorrendo na testa. — Um dia eu te conto.
O primeiro golem ainda lutava contra Ephiron, mas estava cambaleando. Ephiron aproveitou e lançou sua lança sombria contra o peito exposto. O monstro desmoronou em poeira.
Anastásia gritou furiosa, o rosto se contorcendo. — Malditos! Vocês não sabem o que estão enfrentando!
Ela tentou fugir, mas Soraja a alcançou primeiro. Usando a maçaneta como arma, golpeou seu cajado, quebrando-o em duas partes. Ephiron a segurou, imobilizando-a contra a parede.
— Você não vai a lugar nenhum. —
Soraja respirava ofegante, mas seus olhos brilhavam de satisfação. Ela ergueu a pequena porta em sua mão, ainda vibrando.
— “Porta-corpo”. — explicou, como se descobrisse a técnica naquele instante. — Eu posso criar portas no meu próprio corpo, e controlá-las. Essa, por exemplo, guarda o golem que capturei.
Ephiron arregalou os olhos. — Então você realmente pode escolher o destino das portas?
Soraja sorriu, cansada. — Talvez não de todas… mas das que fcrio em meu corpo, sim.
Eles amarraram Anastásia, que agora tremia mais de ódio do que de medo.
— Vocês vão pagar. Velaska nunca permitirá que escapem. Ela já sabe quem vocês são. —
Soraja e Ephiron trocaram olhares. Havia uma compreensão silenciosa entre os dois, um elo nascido do caos.
Soraja apertou a porta-corpo em sua mão. — Talvez seja hora de descobrirmos para onde esse caminho vai nos levar.
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