Soraja e Ephiron despertaram com um gosto amargo na boca. O mundo estava escuro, apenas iluminado por pequenas tochas presas às paredes de pedra. O teto era baixo, as sombras se esticavam em formas grotescas, e o frio cortava como navalhas.

As correntes tilintavam em seus pulsos e tornozelos. Ambos estavam amarrados a pilares de granito, incapazes de mover-se. No entanto, o que mais chamava a atenção não era o cárcere, mas as paredes.

Quadros. Dezenas de quadros, alguns pintados à mão, outros emoldurando pedaços de tecido antigo, brasões e símbolos de batalhas passadas. Em todos, uma figura se repetia: uma jovem de cabelos prateados, postura altiva e olhar feroz, usando uma armadura que refletia como cristal.

— Quem é ela? — murmurou Soraja, a voz rouca.

Antes que Ephiron pudesse responder, uma porta rangeu. Os dois olharam, tensos, quando a figura entrou: a velha senhora que lhes havia oferecido o chá, agora sem o manto humilde. Estava coberta por joias antigas e segurava um cajado decorado com símbolos de serpentes.

— Finalmente despertaram. — Sua voz era seca, mas havia algo de orgulho em cada palavra. — Estava ansiosa por este momento.

Ephiron cerrou os punhos. — Você… nos envenenou.

— Apenas coloquei vocês para descansar. — A velha caminhou pelo salão, passando as mãos enrugadas pelos quadros. — Muitos já esqueceram meu nome. Mas eu ainda sou Anastásia, a Amazona Negra da Armadura Platina.

Soraja arregalou os olhos. — Amazona negra?

Anastásia sorriu, revelando dentes amarelados. — Fui a primeira delas. Velaska me escolheu para brilhar ao lado de seus cavaleiros, mas nunca me deu o título de Valete que merecia. Fui usada, celebrada, e depois esquecida.

Ela se virou, e por um instante sua figura enrugada pareceu se sobrepor à da jovem dos quadros. — Mas agora, o destino me trouxe vocês. A rebelde sem chave. Anorith vai gostar de saber do seu destino — Seu dedo acusador apontou Soraja. — E o filho renegado de um Ás. — Voltou-se a Ephiron.

O cavaleiro apertou os dentes. — Não pronuncie esse nome.

— Ah, mas eu sei quem você é. — Anastásia riu, seca como ossos quebrando. — O filho perdido de um Ás de Hyperion. Que presente para mim! Se eu levar vocês dois a Velaska, ela restaurará minha juventude. Me dará o título de Valete que sempre mereci.

Soraja respirou fundo. — Não vamos deixar isso acontecer.

Ephiron puxou as correntes, fazendo a parede tremer. — Me solte e veremos quem será esquecido.

A velha apenas bateu o cajado no chão. O solo estremeceu, rachando. Das fissuras, duas formas começaram a se erguer: golens colossais de pedra, seus corpos ocupando quase todo o porão. Suas cabeças batiam no teto, e cada passo era um trovão.

— Conheçam meus guardiões. Eles nunca me abandonaram. —

O primeiro golpe veio como uma avalanche. Ephiron conseguiu se soltar no último instante, quebrando as correntes com a força de sua lança sombria. Ele pulou sobre o golem, perfurando a cabeça de pedra com o poder de suas sombras. O monstro estremeceu, cambaleou, mas não caiu.

Soraja se debateu, a raiva subindo. — Não… eu não vou ficar parada!

Concentrou-se. Sentiu o metal ao redor, as fechaduras e dobradiças invisíveis. Uma porta se formou à sua frente, materializando-se no vazio. Com um movimento brusco, ela arrancou a maçaneta e, como se fosse um soco inglês, quebrou as correntes.

— Finalmente. —

Soraja ergueu-se e esticou a mão esquerda. O segundo golem investiu, mas num movimento rápido, uma pequena porta surgiu na palma de sua mão, sugando a criatura para dentro do vazio. "Porta-corpo".

— Onde… ele foi parar? — murmurou Ephiron, impressionado.

Soraja sorriu, o suor escorrendo na testa. — Um dia eu te conto.

O primeiro golem ainda lutava contra Ephiron, mas estava cambaleando. Ephiron aproveitou e lançou sua lança sombria contra o peito exposto. O monstro desmoronou em poeira.

Anastásia gritou furiosa, o rosto se contorcendo. — Malditos! Vocês não sabem o que estão enfrentando!

Ela tentou fugir, mas Soraja a alcançou primeiro. Usando a maçaneta como arma, golpeou seu cajado, quebrando-o em duas partes. Ephiron a segurou, imobilizando-a contra a parede.

— Você não vai a lugar nenhum. —

Soraja respirava ofegante, mas seus olhos brilhavam de satisfação. Ela ergueu a pequena porta em sua mão, ainda vibrando.

— “Porta-corpo”. — explicou, como se descobrisse a técnica naquele instante. — Eu posso criar portas no meu próprio corpo, e controlá-las. Essa, por exemplo, guarda o golem que capturei.

Ephiron arregalou os olhos. — Então você realmente pode escolher o destino das portas?

Soraja sorriu, cansada. — Talvez não de todas… mas das que fcrio em meu corpo, sim.

Eles amarraram Anastásia, que agora tremia mais de ódio do que de medo.

— Vocês vão pagar. Velaska nunca permitirá que escapem. Ela já sabe quem vocês são. —

Soraja e Ephiron trocaram olhares. Havia uma compreensão silenciosa entre os dois, um elo nascido do caos.

Soraja apertou a porta-corpo em sua mão. — Talvez seja hora de descobrirmos para onde esse caminho vai nos levar.