Valerion - a Busca por Yggdrasil
15 O Valete
O silêncio após o Falcão Flamejante durou apenas um instante.
A vila inteira assistia, atônita, ao herege de Hyperia de pé, chamas ardendo ao redor do corpo.
Drael, o Escaravelho Negro, ainda estava de pé, mas sua armadura fumegava onde as brasas tinham queimado o casco impenetrável.
Ele ergueu o rosto, seus olhos brilhando com fúria.
— Um plebeu ousa me ferir… — Sua voz reverberou como trovão. — Vou esmagar você até não restar cinzas!
Com velocidade surpreendente para alguém tão pesado, Drael avançou.
Seu punho negro atingiu o chão onde Kaelvor estava, abrindo uma cratera.
Mas o jovem desviou por pouco, rolando e contra-atacando com um soco em chamas.
O impacto iluminou a noite, mas o cavaleiro apenas cambaleou, rindo.
— Seu fogo é insolente. Não passa de uma fagulha contra a noite eterna!
Kaelvor apertou os dentes.
— Então queime na minha fagulha!
Ele concentrou o fogo em suas mãos, moldando asas flamejantes novamente.
Drael investiu com uma cabeçada, mas Kaelvor saltou sobre ele, descendo com os punhos ardendo contra o casco.
O golpe rachou a armadura, uma fenda vermelha surgindo no ombro do cavaleiro.
— IMPOSSÍVEL! — Drael rugiu, sua voz ecoando como mil martelos.
O Escaravelho Negro se enfureceu.
Golpe após golpe chovia contra Kaelvor, cada um forte o suficiente para reduzir muralhas a pó.
O jovem desviava como podia, seu corpo já machucado, o sangue escorrendo de cortes profundos.
Mas seus olhos não recuavam.
Eles ardiam como sóis em miniatura.
— Não importa quantas vezes me derrubem… eu sempre vou levantar.
Ele ergueu o punho. — Porque eu vou encontrar Yggdrasil… e queimá-la!
O último golpe explodiu.
Falcão Flamejante!
A ave de fogo saiu dos braços de Kaelvor com o dobro de força, alçando voo pelos céus e mergulhando contra Drael.
O impacto atravessou o corpo do cavaleiro, a explosão levantando labaredas e poeira.
Quando a fumaça baixou, Drael estava de joelhos.
Sua armadura, rachada em vários pontos, soltava fumaça negra.
Ele ainda tentou se erguer, mas as pernas cederam.
O escaravelho tombou de costas, derrotado.
Por um instante, a vila vibrou em gritos.
Cidadãos, irmãos de Nymira, até os feridos ergueram os punhos.
Eles haviam visto algo impossível: um plebeu, um herege, derrotando um Cavaleiro Sagrado.
Tiberan, ensanguentado, apoiou-se em uma árvore, esboçando um sorriso cansado.
Ignara ergueu o focinho e uivou, chamas dançando no ar.
Kaelvor caiu de joelhos, ofegante, mas ainda com o fogo em seus olhos.
Ele havia vencido.
Horas depois, a vila tentava se recompor.
Nymira, ainda muito debilitada pelo esforço, agradeceu aos três heróis.
— Se não fosse por vocês… Valerah não teria resistido.
Kaelvor a olhou em silêncio. Ele queria agradecer, mas não sabia como.
Era a segunda vez que alguém colocava a própria vida em risco para salvá-lo.
Em seu peito, a cicatriz parecia queimar mais do que nunca.
Tiberan colocou a mão em seu ombro.
— Precisamos ir. Agora somos fugitivos de Phytonia… e depois dessa batalha, logo enviarão outros.
Kaelvor assentiu, e Ignara caminhou até eles, pronta para partir.
Os irmãos de Nymira também se aproximaram, oferecendo provisões.
Havia uma sensação de despedida, de alívio após o pesadelo.
Mas o alívio durou pouco.
De repente, o céu ficou escuro.
Não como uma nuvem ou tempestade.
Era como se uma sombra tivesse descido sobre Valerah.
No centro da vila, uma figura surgiu.
Um homem alto, trajando um manto negro adornado com linhas douradas.
Sua presença era esmagadora, superior à de qualquer Cavaleiro Sagrado.
Seu rosto estava coberto por uma máscara branca, e em suas mãos, uma longa bengala de cristal.
Ele olhou para os destroços da vila, para o corpo derrotado de Drael, e riu baixo.
— Então é isso que resta da honra dos Cavaleiros? Patético.
Com um gesto simples da mão, ele ergueu uma esfera de cristal.
Luz emanou dela, e em instantes, toda a cidade de Valerah foi envolta em um globo translúcido.
Casas, pessoas, muralhas, tudo.
A esfera começou a encolher, como se esmagasse a vila em si mesma, diminuindo até caber na palma de sua mão.
Os gritos dos cidadãos ecoavam dentro do cristal como vozes distantes.
— Ora, ora… — disse o homem, sorrindo por trás da máscara. — Finalmente capturei essa cidade. Agora poderei estudar os Valerion bem de perto.
E fechou a mão sobre o globo.
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