As portas de Valerah se fecharam atrás deles, e por um instante o deserto ficou para trás, silenciado.

Tiberan caminhava ao lado de Ignara, ainda ofegante pela viagem. À frente, os irmãos de Nymira carregavam Kaelvor apressados, guiando-os pelas ruas estreitas da vila.

Valerah parecia uma cidade comum, mas logo Tiberan percebeu algo diferente.

Em cada esquina, em cada casa, havia pessoas realizando pequenos feitos que ele jamais vira em tal quantidade.

Um ferreiro aquecia o metal não com fornalha, mas com as próprias mãos incandescentes.

Uma mulher soprava vento para afastar a poeira da rua, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Crianças brincavam, saltando de muro em muro com passos leves demais para mortais comuns, como se a gravidade as tratasse diferente.

Um velho passava a mão sobre uma tigela de água suja, e o líquido clareava até ficar cristalino.

Tiberan parou, atônito.

— Todos eles…?

O arqueiro, que ainda caminhava ao lado, respondeu em tom baixo:

— Sim. Todos aqui carregam a fagulha.

— Mas… — Tiberan franziu o cenho. — Isso é impossível. Valerions são raros. Nas cidades, mal se encontra um ou dois, e quase nunca têm dons fortes.

O guerreiro da espada, que caminhava atrás, completou com amargura:

— Nas cidades, qualquer Valerion que mostra talento verdadeiro é levado para servir como Cavaleiro Sagrado. Os que ficam, escondem o que podem, vivem como párias, ou usam seus dons para coisas triviais.

Ele olhou ao redor, como se orgulhoso:

— Aqui, em Valerah, não temos medo de mostrar quem somos.

Tiberan sentiu um arrepio.

Nunca tinha visto tantos dons reunidos, mesmo que a maioria fosse simples ou inútil em batalha.

E pela primeira vez, entendeu por que a cidade havia sido poupada: Phytonia talvez não tivesse destruído Valerah porque ela era o berço de onde os Valerion surgiram.

Mas se isso era verdade… por que deixá-la esquecida, em vez de controlá-la?

Ele não teve tempo de perguntar.

Foram levados até uma casa simples, no centro da vila.

Dentro, Nymira já os esperava.

Apesar da tosse e da fragilidade, ela tinha preparado um espaço no chão de terra batida.

No centro, havia um pequeno círculo de pedras, e sobre ele, uma tigela com água pura.

Os irmãos colocaram Kaelvor ali.

O veneno já dominava quase todo o corpo dele — sua pele estava cinza, os lábios arroxeados.

Tiberan engoliu em seco.

— Se ele morrer… tudo terá sido em vão.

Nymira se ajoelhou, suas mãos frágeis repousando sobre a tigela.

Ela fechou os olhos.

Lágrimas escorreram, e quando tocaram a água, ela começou a brilhar como prata líquida.

A tigela transbordou, formando um pequeno poço luminoso.

— Minhas lágrimas não me curam — sussurrou Nymira, tossindo. — Mas podem curar os outros.

Os irmãos a ajudaram a erguer Kaelvor, mergulhando-o no poço até o peito.

A pele dele começou a brilhar, as veias escuras recuando lentamente, como raízes queimadas pela luz.

Sua respiração se estabilizou um pouco.

Tiberan fechou os olhos, aliviado.

Mas seu alívio durou pouco.

Do lado de fora da vila, Ignara ergueu as orelhas.

Um rosnado grave ecoou em sua garganta.

Tiberan saiu, seguindo seu olhar.

No horizonte, via-se uma figura caminhando calmamente pelo deserto em direção a Valerah.

Cada passo levantava poeira. Cada passo soava como um tambor.

Quando a figura se aproximou da luz das tochas, Tiberan viu a armadura.

Negra, espessa, lembrando o casco de um escaravelho.

Os olhos por trás do elmo brilhavam como fogo amarelado.

Ele parou diante do portão, a lança presa às costas, e falou em voz grave, que ressoava como se viesse do próprio chão:

Foram vocês que ousaram manchar a honra dos Cavaleiros Sagrados?

Os guardas da vila hesitaram, engolindo em seco.

O homem deu mais um passo à frente.

— Recebi ordens diretas. Valerah não será esquecida desta vez.

Ele ergueu a mão, e a areia diante dele se partiu como se fosse vidro.

— Hoje, esta cidade será destruída.

Tiberan sentiu seu coração disparar.

Ignara latiu, chamas explodindo de seu corpo.

Os guerreiros de Valerah correram para as muralhas, armas em mãos.

E o cavaleiro negro se apresentou, sua voz como um trovão fúnebre:

Sou Drael, o Escaravelho Negro de Phýton.

— E trago o fim para todos vocês.

Notas finais
Nymira se pronuncia "Nimíra". Ela é uma garotinha pequena, com cara assustada, cabelos escuros e longos e vestes azuis.