Valerion - a Busca por Yggdrasil
35 O Filho do Ás
Kaelvor recobrou os sentidos lentamente. Seu corpo ardia de dor, e o som das correntes pesadas arrastando-se pelo chão ecoava em seus ouvidos. Ao abrir os olhos, percebeu-se preso em um salão vasto, iluminado por tochas altas e estátuas douradas de Hyperion. Soraja estava ao seu lado, também acorrentada, os ombros feridos, mas com o olhar firme.
À frente deles, dispostos em semicírculo, estavam oito cavaleiros reais, armaduras reluzindo como estrelas douradas. Entre eles, os três Cavaleiros Negros que os haviam capturado se destacavam pela aura opressora: Deymos, o Olho Fendido, alto e de presença sufocante, cuja cicatriz atravessava o elmo como uma fenda; Mornath, o Gélido, imóvel como uma estátua de gelo, olhos sem vida; e Eryne, a Serpente, esguia e letal, cujas lâminas lembravam presas prontas a morder.
Kaelvor ergueu a cabeça, cuspindo sangue, mas com os olhos ardendo em brasas. — Podem me acorrentar, podem me humilhar… mas nada mudará. Eu vou queimar a Yggdrasil.
Um dos cavaleiros deu um passo à frente, a voz metálica ecoando sob o elmo:
— Alguns homens, na iminência da morte, esbravejam palavras corajosas. Esses são os melhores de matar.
Os oito cavaleiros ergueram suas armas em uníssono, como um ritual de execução. A luz refletida em suas lâminas cegava.
Soraja fechou os olhos, o coração disparado. — Kaelvor… foi uma honra lutar ao seu lado.
As espadas desceram.
Um estrondo abalou o salão. As lâminas foram lançadas pelos ares como se atingidas por uma onda invisível, e as correntes que prendiam Kaelvor e Soraja se partiram em estilhaços.
No centro, uma sombra se ergueu, caminhando entre eles com passos pesados. O impacto de sua presença fez o ar vibrar.
— Quem ousa? — bradou o cavaleiro que liderava a execução.
A sombra se dissipou, revelando uma armadura negra marcada pelo tempo. O elmo, com fendas flamejantes, refletia a luz das tochas.
Kaelvor arregalou os olhos. — Você… Ephiron.
Deymos avançou, furioso. — Traidor! Sua insolência é imperdoável!
O salão inteiro estremeceu quando ele completou:
— Ainda mais vinda de ti… filho de um Ás de Hyperion.
O silêncio caiu como um manto. Nem mesmo os cavaleiros reais se moveram. Todos fixaram o olhar em Ephiron, como se uma verdade proibida tivesse sido exposta.
Kaelvor engoliu em seco. Filho de um Ás? Aquilo mudava tudo.
Ephiron ergueu lentamente as mãos, retirando o elmo. Pela primeira vez, seu rosto foi revelado: cabelos longos e negros, uma expressão austera, e olhos de cores distintas — um azul profundo e um dourado radiante. Nos dois orbes opostos havia o peso de linhagem divina, mas também o fardo de um homem em guerra consigo mesmo.
— Sim — disse ele, a voz ecoando grave. — Sou filho de um Ás. Mas não sou servo cego dos deuses.
Os cavaleiros reagiram com incredulidade. Apenas Eryne, a Serpente, não moveu-se. Seu olhar rubro vacilou, e ela deu um passo à frente.
— Ephiron… ainda se lembra de nós? — A voz dela não era de ódio, mas de lembrança. — Lutamos lado a lado. Você me chamava de irmã.
Ephiron não respondeu, mas seu silêncio pesou mais que qualquer palavra.
Kaelvor avançou um passo, mesmo ferido. — Então lute conosco, Ephiron. Não contra nós.
Ephiron virou o rosto em sua direção, firme. — Eu não lutei para salvá-lo. Mas não suportei ver a mentira continuar.
Deymos interrompeu, brandindo a lâmina. — Chega! Um traidor, dois hereges… todos morrerão aqui.
Os oito cavaleiros se prepararam novamente. A tensão era insuportável.
Ephiron se colocou diante de Deymos, o Olho Fendido. As sombras de sua armadura se agitaram, como se respirassem. Kaelvor e Soraja se posicionaram lado a lado contra os outros cinco cavaleiros reais.
— Soraja… — Kaelvor disse, o corpo coberto de sangue. — Três contra o mundo.
Ela fechou os punhos, o olhar duro.
— Então que seja.
A batalha explodiu.
Kaelvor lançou o Falcão Flamejante, atingindo dois cavaleiros, mas o terceiro contra-atacou, empurrando-o de volta com uma lança dourada. Soraja invocou uma porta e arrancou a maçaneta, usando-a como soco inglês, derrubando dois inimigos de uma só vez. Mas um terceiro atingiu seu ombro com a lâmina, fazendo-a cambalear.
Os golpes ecoavam como trovões. Kaelvor tentava concentrar-se para liberar a Fênix Flamejante, mas cada vez que se erguia era contido pelas defesas impecáveis dos cavaleiros. Soraja, exausta, usava portas como escudos improvisados, bloqueando golpes pesados.
No centro, Ephiron e Deymos trocavam golpes que estremeciam o salão. A cada colisão, o chão rachava. Mornath, o Gélido, juntou-se a Deymos, e logo Eryne, a Serpente, também cercava Ephiron. Ele resistia, mas a cada ataque múltiplo sua defesa se enfraquecia.
Kaelvor conseguiu erguer a Fênix, as chamas se espalhando em um clarão. Por um instante, três cavaleiros foram lançados contra as colunas. Soraja invocou rapidamente uma porta e empurrou um dos cavaleiros, se livrando dele. Porém, o outro a golpeou no ombro, a fazendo cair de joelhos logo em seguida. Ela se lembrou da maçaneta em sua mão. Com seu porte físico preparado, golpeou o queixo do último cavaleiro, que já estava mesmo sem o elmo. Ele caiu desnorteado.
Eles haviam vencido os cinco cavaleiros reais — mas estavam em frangalhos.
Quando voltaram os olhos para Ephiron, viram-no cercado, sua armadura partida, os três Cavaleiros Negros prontos para o golpe final.
— Ephiron! — gritou Kaelvor.
Ele olhou para Kaelvor, sangue escorrendo pelo canto da boca, mas não recuou.
Kaelvor se virou para Soraja, desesperado. — Abra uma porta, agora!
Ela hesitou. — Não sei para onde vai dar!
— Não importa! —
Com as últimas forças, Soraja abriu uma porta luminosa atrás deles. No mesmo instante, Kaelvor correu, agarrou Ephiron e o jogou pela passagem.
A porta se fechou com estrondo, deixando apenas o eco de suas presenças desaparecer no ar.
O nome de Ephiron ecoava como uma maldição:
o Filho do Ás.
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