Kaelvor recobrou os sentidos lentamente. Seu corpo ardia de dor, e o som das correntes pesadas arrastando-se pelo chão ecoava em seus ouvidos. Ao abrir os olhos, percebeu-se preso em um salão vasto, iluminado por tochas altas e estátuas douradas de Hyperion. Soraja estava ao seu lado, também acorrentada, os ombros feridos, mas com o olhar firme.

À frente deles, dispostos em semicírculo, estavam oito cavaleiros reais, armaduras reluzindo como estrelas douradas. Entre eles, os três Cavaleiros Negros que os haviam capturado se destacavam pela aura opressora: Deymos, o Olho Fendido, alto e de presença sufocante, cuja cicatriz atravessava o elmo como uma fenda; Mornath, o Gélido, imóvel como uma estátua de gelo, olhos sem vida; e Eryne, a Serpente, esguia e letal, cujas lâminas lembravam presas prontas a morder.

Kaelvor ergueu a cabeça, cuspindo sangue, mas com os olhos ardendo em brasas. — Podem me acorrentar, podem me humilhar… mas nada mudará. Eu vou queimar a Yggdrasil.

Um dos cavaleiros deu um passo à frente, a voz metálica ecoando sob o elmo:

— Alguns homens, na iminência da morte, esbravejam palavras corajosas. Esses são os melhores de matar.

Os oito cavaleiros ergueram suas armas em uníssono, como um ritual de execução. A luz refletida em suas lâminas cegava.

Soraja fechou os olhos, o coração disparado. — Kaelvor… foi uma honra lutar ao seu lado.

As espadas desceram.

Um estrondo abalou o salão. As lâminas foram lançadas pelos ares como se atingidas por uma onda invisível, e as correntes que prendiam Kaelvor e Soraja se partiram em estilhaços.

No centro, uma sombra se ergueu, caminhando entre eles com passos pesados. O impacto de sua presença fez o ar vibrar.

— Quem ousa? — bradou o cavaleiro que liderava a execução.

A sombra se dissipou, revelando uma armadura negra marcada pelo tempo. O elmo, com fendas flamejantes, refletia a luz das tochas.

Kaelvor arregalou os olhos. — Você… Ephiron.

Deymos avançou, furioso. — Traidor! Sua insolência é imperdoável!

O salão inteiro estremeceu quando ele completou:

— Ainda mais vinda de ti… filho de um Ás de Hyperion.

O silêncio caiu como um manto. Nem mesmo os cavaleiros reais se moveram. Todos fixaram o olhar em Ephiron, como se uma verdade proibida tivesse sido exposta.

Kaelvor engoliu em seco. Filho de um Ás? Aquilo mudava tudo.

Ephiron ergueu lentamente as mãos, retirando o elmo. Pela primeira vez, seu rosto foi revelado: cabelos longos e negros, uma expressão austera, e olhos de cores distintas — um azul profundo e um dourado radiante. Nos dois orbes opostos havia o peso de linhagem divina, mas também o fardo de um homem em guerra consigo mesmo.

— Sim — disse ele, a voz ecoando grave. — Sou filho de um Ás. Mas não sou servo cego dos deuses.

Os cavaleiros reagiram com incredulidade. Apenas Eryne, a Serpente, não moveu-se. Seu olhar rubro vacilou, e ela deu um passo à frente.

— Ephiron… ainda se lembra de nós? — A voz dela não era de ódio, mas de lembrança. — Lutamos lado a lado. Você me chamava de irmã.

Ephiron não respondeu, mas seu silêncio pesou mais que qualquer palavra.

Kaelvor avançou um passo, mesmo ferido. — Então lute conosco, Ephiron. Não contra nós.

Ephiron virou o rosto em sua direção, firme. — Eu não lutei para salvá-lo. Mas não suportei ver a mentira continuar.

Deymos interrompeu, brandindo a lâmina. — Chega! Um traidor, dois hereges… todos morrerão aqui.

Os oito cavaleiros se prepararam novamente. A tensão era insuportável.

Ephiron se colocou diante de Deymos, o Olho Fendido. As sombras de sua armadura se agitaram, como se respirassem. Kaelvor e Soraja se posicionaram lado a lado contra os outros cinco cavaleiros reais.

— Soraja… — Kaelvor disse, o corpo coberto de sangue. — Três contra o mundo.

Ela fechou os punhos, o olhar duro.

— Então que seja.

A batalha explodiu.

Kaelvor lançou o Falcão Flamejante, atingindo dois cavaleiros, mas o terceiro contra-atacou, empurrando-o de volta com uma lança dourada. Soraja invocou uma porta e arrancou a maçaneta, usando-a como soco inglês, derrubando dois inimigos de uma só vez. Mas um terceiro atingiu seu ombro com a lâmina, fazendo-a cambalear.

Os golpes ecoavam como trovões. Kaelvor tentava concentrar-se para liberar a Fênix Flamejante, mas cada vez que se erguia era contido pelas defesas impecáveis dos cavaleiros. Soraja, exausta, usava portas como escudos improvisados, bloqueando golpes pesados.

No centro, Ephiron e Deymos trocavam golpes que estremeciam o salão. A cada colisão, o chão rachava. Mornath, o Gélido, juntou-se a Deymos, e logo Eryne, a Serpente, também cercava Ephiron. Ele resistia, mas a cada ataque múltiplo sua defesa se enfraquecia.

Kaelvor conseguiu erguer a Fênix, as chamas se espalhando em um clarão. Por um instante, três cavaleiros foram lançados contra as colunas. Soraja invocou rapidamente uma porta e empurrou um dos cavaleiros, se livrando dele. Porém, o outro a golpeou no ombro, a fazendo cair de joelhos logo em seguida. Ela se lembrou da maçaneta em sua mão. Com seu porte físico preparado, golpeou o queixo do último cavaleiro, que já estava mesmo sem o elmo. Ele caiu desnorteado.

Eles haviam vencido os cinco cavaleiros reais — mas estavam em frangalhos.

Quando voltaram os olhos para Ephiron, viram-no cercado, sua armadura partida, os três Cavaleiros Negros prontos para o golpe final.

— Ephiron! — gritou Kaelvor.

Ele olhou para Kaelvor, sangue escorrendo pelo canto da boca, mas não recuou.

Kaelvor se virou para Soraja, desesperado. — Abra uma porta, agora!

Ela hesitou. — Não sei para onde vai dar!

— Não importa! —

Com as últimas forças, Soraja abriu uma porta luminosa atrás deles. No mesmo instante, Kaelvor correu, agarrou Ephiron e o jogou pela passagem.

A porta se fechou com estrondo, deixando apenas o eco de suas presenças desaparecer no ar.


O nome de Ephiron ecoava como uma maldição:

o Filho do Ás.

Notas finais
Acima dos valetes, existem os Ás. Apenas um Ás para cada Deus. Eles são os únicos que falam diretamente com os deuses, repassando suas ordens aos valetes e cavaleiros. É raro até os valetes os verem, e muitos cavaleiros nunca viram um Ás.