O salão tremeu quando o cavaleiro se levantou.

Sua armadura era como um casulo de trevas, e cada movimento fazia as sombras se estenderem pelo chão, como se o próprio lugar respirasse junto dele.

Seus passos ecoaram como trovões, cada um mais pesado que o anterior.

— Então são vocês… — a voz dele reverberou, grave e arrastada, como se viesse de dentro de um túmulo. — Os vermes que ousaram derrotar Selindra e Drael.

Kaelvor cerrou os punhos, o fogo começando a arder em seus braços.

— E você é quem? Outro cão dos deuses?

O cavaleiro parou diante deles, erguendo o elmo ligeiramente, revelando olhos ardendo em vermelho.

— Eu sou Ephiron. O Exilado.

Ele apertou a mão contra o peito da armadura, onde cicatrizes negras pulsavam.

— Condenado pelos próprios deuses por crimes que nem vocês poderiam compreender.

Soraja empalideceu, a chave gigante em suas costas tremendo junto com seu corpo.

— Não… não pode ser… Eu já ouvi histórias. Diziam que ele foi expulso até da graça de Phýton, condenado a vagar na escuridão. Um monstro que não deveria existir.

Ephiron sorriu de forma cruel.

— Monstro? Talvez. Mas ainda assim… mais forte do que qualquer um de vocês.

Ele avançou de súbito.

O primeiro golpe foi contra Kaelvor, que mal teve tempo de erguer os braços. O impacto o lançou contra uma coluna de pedra, que ruiu sobre ele.

Nymira gritou.

Soraja reagiu, erguendo a chave e girando-a como uma maça.

Ela acertou o ombro de Ephiron com toda a força, o chão estalando sob o impacto.

Mas a armadura nem arranhou. Ephiron apenas a olhou, entediado, e empurrou-a com um soco que a fez voar contra a parede.

Tiberan tentou então, invocando vinhas espinhosas que brotaram do solo. Elas se enrolaram nas pernas do cavaleiro, flores de veneno se abrindo sobre os espinhos.

Por um instante, parecia que o haviam prendido.

Mas as sombras de Ephiron se contorceram e rasgaram as vinhas, consumindo-as como se fossem feitas de papel.

Ele ergueu a mão, e tentáculos de escuridão se lançaram contra Tiberan, chicoteando-o até o chão.

Ignara correu, saltando com as caudas em chamas. Ela atingiu o elmo de Ephiron com fogo direto.

O cavaleiro apenas virou o rosto, a chama refletindo em seus olhos vermelhos.

Com um movimento brusco, agarrou a raposa pelo pescoço e a lançou contra uma pilha de escombros.

— Patéticos. Vocês não compreendem a diferença de poder.

Nymira tropeçou para trás, frágil e indefesa.

Ephiron girou a lâmina negra em sua direção.

— A começar por você.

O golpe desceu — mas Kaelvor, ainda sangrando, se ergueu da pilha de pedras e se atirou na frente dela.

O impacto da espada negra ricocheteou contra seu braço em chamas.

Ele rangeu os dentes, resistindo com toda a força.

— Eu não vou deixar você tocar nela!

Ephiron o encarou com um brilho frio nos olhos.

— A heresia vive em você, garoto. Mas heresias são apagadas.

Com um chute, o lançou longe.

Soraja, desesperada, começou a criar portas ao redor. Uma, duas, três… cada uma surgindo em pontos diferentes do salão.

Ela gritou, lágrimas nos olhos:

— Rápido! Entrem! Não podemos vencê-lo! Fujam!

As portas brilhavam, pulsando como janelas para outros destinos.

Tiberan, sangrando, foi o primeiro a se arrastar até uma delas.

Ignara, mancando, correu para outra com Nymira nas costas.

Kaelvor hesitou.

Ele não queria fugir. O fogo em seus olhos pedia para continuar lutando.

Mas antes que pudesse reagir, Ephiron o empurrou com violência para dentro de uma das portas.

E, num gesto inesperado, o próprio cavaleiro atravessou junto.

Soraja, caída no chão, ergueu os olhos e viu cada porta se fechando em sequência.

Ela mesma foi sugada pela última, sem conseguir escolher o destino.

No salão, apenas o silêncio permaneceu.

O grupo havia sido separado.

E Kaelvor agora estava sozinho, preso em um destino incerto… lado a lado com Ephiron, o Exilado.

Notas finais
Até o momento, sabemos que o exército dos deuses é composto por cadetes, soldados, cavaleiros reais e valetes. Porém, existe uma patente "escondida", chamada de "cavaleiros negros". Eles continuam sendo cavaleiros, abaixo dos valetes. Mas, por possuirem poderes destrutivo superior aos cavaleiros comuns, não rondam as cidades e ficam responsáveis por missões especiais.