Valerion - a Busca por Yggdrasil
58 O Destino Final de Sammael
O vazio era frio. Não havia chão, nem céu, apenas fragmentos suspensos como pedaços quebrados de espelhos flutuando em escuridão líquida. Soraja respirava com dificuldade, o peito arfando, a mão ainda segurando a chave dourada que Anorith lhe deixara. À frente, Sammael caminhava como se estivesse em casa, os olhos brilhosos, serenos, quase satisfeitos.
— Bem-vinda ao entre-mundos — disse ele, como se fosse um anfitrião. — O lugar para onde vão aqueles que não possuem mais destino. Aqui não há tempo, nem espaço. Apenas ecos do que poderia ter sido. Aqui nós viveremos eternamente. Então, é melhor nos darmos bem.
Soraja cerrava os dentes. Sabia que havia vencido, mas o gosto era amargo. Não era uma vitória; era um sacrifício. Ela prendeu a si mesma junto do Ás, abrindo mão da liberdade para que Tiberan e os outros pudessem prosseguir. O peso desse pensamento a esmagava mais do que a gravidade que não existia ali.
De repente, uma fragrância doce flutuou pelo ar. Soraja ergueu os olhos, surpresa. Não havia vento naquele vazio, mas pequenos pontos dourados começaram a se espalhar ao redor, brilhando como vaga-lumes. O pólen. O coração dela disparou.
— Tiberan… — murmurou, lágrimas brotando nos olhos.
O pólen dançava no vazio, alcançando sua mão, sua pele, sua chave. Era como se, em meio às dimensões, ele tivesse encontrado um caminho até ela. Soraja fechou os olhos, apertou a chave contra o peito e sorriu. Ele estava vivo.
Quando abriu novamente os olhos, seu semblante era outro. Determinado. Segurou a chave dourada e a girou, traçando um arco no ar. O vazio se contorceu, e diante dela surgiu uma rachadura dourada, a promessa de um caminho de volta.
Sammael franziu o cenho, a calma pela primeira vez abalada.
— Não pode ser. Nenhum porteiro poderia manipular esse lugar. — Ele estreitou os olhos para a chave. — Então é isso… Anorith te deu a herança proibida.
Soraja não respondeu. Apenas atravessou o portal.
Do outro lado, ela surgiu de joelhos, ofegante, no mesmo salão de raízes vivas da Yggdrasil. O ar fresco a golpeou como uma lufada de vida. E ali, de pé apesar das feridas, estava Tiberan. Ele sorriu ao vê-la, e por um instante, o peso do entre-mundos pareceu desaparecer.
— Você voltou. — disse ele, com a voz fraca.
— E nunca mais vou embora. — respondeu Soraja, levantando-se.
Mas o alívio durou pouco. O ar atrás dela se rasgou como tecido sendo partido. Sammael atravessou o portal, ileso, a presença dele fazendo a raiz inteira estremecer.
— Não se engane — disse o Ás, com a voz agora mais grave. — O destino não pode ser negado.
Tiberan avançou ao lado de Soraja, erguendo o broto sagrado. O pólen começou a se espalhar pelo ar, iluminando as raízes. Mas seus olhos tinham algo de sombrio, uma decisão tomada. Soraja percebeu e sentiu o coração afundar.
— Não! Você não pode estar pensando nisso! — gritou ela, mas já sabia.
Com um gesto lento, Tiberan fez o solo pulsar. As raízes se abriram, e do centro nasceu uma flor de beleza inumana. Pétalas lilases, cintilantes, refletindo mil cores impossíveis. A raiz do sussurro.
O perfume invadiu o salão, mais forte que qualquer incenso. Soraja cambaleou, atordoada pela perfeição da flor. Mas Sammael… Sammael caiu de joelhos. Seus olhos, antes tão firmes, se arregalaram em êxtase. Lágrimas escorriam por seu rosto.
— A flor… impossível… ela é proibida… nem mesmo os deuses ousaram… — balbuciava, a voz quebrada entre reverência e terror.
Soraja rangeu os dentes, desesperada. — Tiberan, você se amaldiçoou…
Ele não respondeu, apenas manteve a flor viva com suas últimas forças. Sammael, paralisado diante da beleza proibida, não reagia. Era a brecha que precisavam.
Soraja respirou fundo. Sua chave brilhou em sua mão, mas ela não a usou para abrir uma porta comum. Em vez disso, girou-a contra as costas do próprio Sammael. Um brilho dourado se expandiu, e o corpo do Ás estremeceu.
— O que você fez? — ele gritou, mas sua voz já se distorcia.
Uma porta-corpo se abriu nas costas dele. Diferente das outras, essa não levava a lugar nenhum. Era um buraco negro, sugando tudo, inclusive a essência do próprio Ás. Sammael tentou se agarrar às raízes, mas a atração era inevitável. Primeiro os braços, depois as pernas, até que o torso começou a ser puxado.
— O destino… não… pode ser… quebrado… — foram suas últimas palavras antes de ser sugado por completo, sua existência apagada como se nunca tivesse sido.
O salão ficou em silêncio. O Ás fora sugado por uma porta em seu próprio corpo.
Soraja caiu de joelhos, tremendo, o corpo exausto. Tiberan desabou ao lado dela, a flor proibida já murchando em suas mãos. Ele sorriu fraco, mesmo sabendo da maldição que agora corria em suas veias.
— Conseguimos… — disse ele, a voz quase um sussurro.
Soraja segurou a mão dele, os olhos marejados. — Não me faça isso de novo, ouviu? Não se sacrifique sozinho.
Ele riu baixo, tossindo. — Você também não fez a mesma coisa?
Ela não conseguiu conter as lágrimas. Apertou a mão dele, e pela primeira vez desde que receberam a missão de alcançar a Yggdrasil, sentiu que talvez pudessem, juntos, escrever um destino diferente daquele que o mundo tentava impor.
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