Valerion - a Busca por Yggdrasil
61 Fogo Primordial
A raiz vermelha ardia como um vulcão prestes a explodir. O corpo de Ephiron ainda jazia imóvel, a chama azul que o envolvera consumida no sacrifício. O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer grito: apenas o crepitar das brasas lembrava que o mundo ainda não havia sucumbido.
Kaelvor segurava o irmão nos braços, o olhar transbordando ódio e dor. As asas negras do Benu incandescente tremulavam, instáveis, como se refletissem seu coração em fúria. Ele ergueu os olhos e encarou Alenor. O Ás da Chama Eterna, ainda de pé apesar das feridas, respirava com dificuldade. O rosto marcado pelas correntes queimadas parecia mais humano naquele instante — e mais velho.
— Você matou meu irmão. — Kaelvor sussurrou, mas a voz saiu como um trovão.
— Ele escolheu o sacrifício. — Alenor respondeu, firme, mas os olhos tremiam. — Sempre soube que Ephiron seria forte o bastante para carregar seu próprio destino.
Kaelvor se ergueu, colocando o corpo do irmão sobre o chão de brasas. Aproximou-se, cada passo riscando a raiz em chamas.
— Não ouse falar de destino. — cuspiu as palavras. — Você nunca foi pai. Nem dele… nem meu.
Alenor respirou fundo. Pela primeira vez, as correntes se afrouxaram em suas mãos, os olhos se voltando para os dois filhos mortos e vivos diante dele.
— Vocês não entendem. Desde o dia em que nasceram, eu vi o que carregavam. Ephiron era a chama que não devia ter existido. Você, Kaelvor, era a centelha que Hyperion deixou ao mundo. Eu só queria… protegê-los do que a Yggdrasil guarda.
Kaelvor parou. Por um instante, quis ouvir. Mas a lembrança de tudo que perdera pesou mais. Shis palavras cortaram como aço:
— Não me interessa seu medo. Não me interessa sua proteção. Eu vou queimar a Yggdrasil, e com ela, os deuses falsos que você serve.
As asas negras se abriram com violência, incinerando o chão. Alenor ergueu novamente as correntes, e o cosmo dourado da Chama Eterna brilhou como um sol em erupção.
O duelo começou.
Kaelvor lançou-se à frente, uma rajada do Falcão Flamejante transformada pelo poder do Benu incandescente. As chamas negras avançaram, mas Alenor girou as correntes, criando uma barreira de fogo dourado que dissolveu o ataque. O impacto reverberou por toda a raiz, fazendo fragmentos de brasas caírem como chuva ardente.
— Você carrega meu sangue! — rugiu Alenor. — Se me enfrentar até o fim, estará negando sua própria chama!
Kaelvor sorriu, um sorriso amargo. — Prefiro apagar essa chama do que viver na sua sombra.
Ele disparou novamente, agora multiplicando as asas negras em dezenas de fragmentos flamejantes. Alenor se defendeu, mas uma das labaredas rasgou sua armadura e marcou seu ombro. O Ás contra-atacou, as correntes incandescentes avançando como serpentes flamejantes, prendendo Kaelvor em um nó de fogo.
Kaelvor gritou, as correntes queimando sua pele, mas a fúria dentro dele se intensificou. As asas negras explodiram, quebrando o laço e lançando Alenor para trás.
— Eu não sou seu filho! — rugiu Kaelvor, os olhos queimando como sóis negros. — Nunca fui, nunca serei.
Alenor caiu de joelhos, mas ergueu-se novamente, o corpo coberto de feridas. Os olhos, no entanto, carregavam lágrimas.
— Filhos… eu só queria que sobrevivessem.
Kaelvor não ouviu. O cosmo ao seu redor explodiu em magnitude, a forma do Benu incandescente envolvendo-o por completo. Ele parecia uma fênix negra reencarnada, as asas cobrindo o horizonte da raiz. O calor era tão intenso que até as chamas de Alenor se curvavam diante dele.
— Chamas de Benu! — gritou Kaelvor.
Uma torrente de fogo negro, denso como a própria noite, avançou contra o pai. Alenor ergueu as correntes, mas não houve defesa suficiente. O impacto o lançou contra a parede da raiz, rachando o chão, o ar, tudo ao redor.
Ainda assim, o Ás não tombou. De pé, respirava com dificuldade, mas manteve o olhar firme.
— Vocês são meu orgulho… — murmurou, sangue escorrendo de seus lábios. — Mas ainda são cegos.
Kaelvor preparava-se para o golpe final, mas uma lembrança lhe cortou a mente: Ephiron sorrindo, estendendo a mão para ele, chamando-o de irmão. A chama azul que se apagara ainda parecia brilhar ali, na memória.
— Eu vou cumprir a promessa dele. — disse Kaelvor, a voz trêmula de emoção. — Vou destruir essa mentira. Nem você, nem os deuses, podem me impedir.
Ele ergueu os braços, e as chamas negras do Benu incandescente cresceram até preencherem toda a raiz. O fogo rugia como um oceano de destruição.
Alenor deu um passo à frente, apesar do corpo quase despedaçado. — Então venha, filho. Mostre-me se é capaz de carregar o fogo primordial.
Kaelvor rugiu, o Benu incandescente se erguendo atrás dele, asas negras de fogo abertas, o olhar queimando em ódio.
— Eu não sou seu filho! — bradou, a voz se confundindo com o estrondo das chamas. — Não sou sombra de nenhum deus que nunca existiu! Eu sou Kaelvor, e vou queimar este mundo até revelar a verdade!
O impacto final dos dois poderes se encontrou no centro da raiz, uma colisão de luz e escuridão que pareceu querer dividir o próprio céu. O ar se partiu em ondas de calor, e por um instante todos ali sentiram como se o destino inteiro do mundo tivesse sido colocado à prova.
Quando a luz se dissipou, um silêncio mortal caiu sobre o campo de batalha.
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