Valerion - a Busca por Yggdrasil
50 Determinação!
O som dos portões de ferro rangendo ecoava pelos corredores úmidos do palácio de Hyperion. As tochas tremeluziam em paredes de pedra marcadas pelo tempo, como se até o próprio castelo tivesse medo de guardar aquele segredo. Lá embaixo, nas profundezas do calabouço, Baarto se encontrava acorrentado. O velho guerreiro, que outrora fora apenas um ancião ranzinza vivendo em sua cabana, agora revelava o peso do título que carregava: Valete de Hyperion, aposentado, mas jamais esquecido.
Ele mantinha a cabeça erguida, mesmo com o corpo fraco pelo cativeiro. O barulho de passos ecoou, firmes e poderosos, como tambores de guerra. Quando a porta de ferro se abriu, uma luz dourada inundou a cela. Dela surgiu Alenor, o Ás da Chama Eterna, carregando em sua presença uma autoridade quase divina. Seus longos cabelos escuros reluziam como fogo, e sua armadura, marcada por símbolos solares, refletia a luz das tochas com intensidade ofuscante.
— Então é aqui que escondem o velho cão — disse Alenor, a voz grave preenchendo cada espaço do calabouço. — O discípulo ingrato, aquele que ousou abandonar o chamado dos deuses.
Baarto abriu um sorriso torto, cuspindo sangue no chão. — E veja só… o herói de Hyperion, o campeão da chama. Já está tão ocupado obedecendo ordens que desceu até um velho moribundo para se sentir útil?
Os olhos de Alenor estreitaram-se. Ele se aproximou, parando a apenas alguns passos do prisioneiro. — Você treinou Kaelvor. E agora ele ousa desafiar os deuses. Você plantou essa semente de rebeldia nele.
Ao ouvir o nome de seu pupilo, Baarto sentiu a centelha em seu peito arder. — Eu o encontrei quase morto, envolto em brasas e carvão incandescente. Eu o salvei quando ninguém mais quis estender a mão. Não me venha falar de paternidade. Você o abandonou. Eu o guiei.
Alenor fechou os punhos. — Cale-se, velho. Você não entende. Kaelvor é uma fagulha que pertence ao sol. Ele é meu filho.
— Não! — rugiu Baarto, erguendo-se com esforço, as correntes tilintando em protesto. — Você perdeu o direito de chamá-lo assim quando virou as costas. Não venha agora reivindicar um destino que nunca foi seu.
O ar tremeu. As correntes que prendiam Baarto se romperam num estalo, consumidas por chamas douradas que nasceram em seus punhos. Sua forma envelhecida foi substituída por uma presença colossal: músculos firmes, cicatrizes antigas, e correntes presas aos punhos como se fossem extensões de sua carne. Os olhos do velho ardiam como carvões acesos. Era Baarto, o Valete de Hyperion, em sua verdadeira forma.
— Você não pode decidir o destino daquele que abandonou. Eu o salvei. Eu o treinei. Não queira se passar por pai agora — disse ele, a voz reverberando como trovão.
Alenor, sem recuar, abriu os braços e deixou que sua chama eterna se espalhasse pelo ambiente. O calabouço tremeu. — Então que as chamas decidam quem é digno de guiá-lo.
O choque foi instantâneo. As correntes de Baarto avançaram como serpentes de ferro incandescente, mas Alenor as bloqueou com muralhas de fogo puro. Cada golpe reverberava como marteladas em metal aquecido, fazendo o castelo vibrar. O teto começou a ceder, pedras caindo ao redor, mas nenhum dos dois se importava.
Baarto rugia como um leão enfurecido, usando não apenas força bruta, mas a experiência de décadas. Ele manipulava as correntes em arcos amplos, criando redemoinhos de ferro flamejante, tentando prender o Ás. Mas Alenor era implacável. A cada corrente lançada, ele respondia com colunas de fogo celestial que derretiam o metal.
— Você envelheceu, Baarto — disse Alenor, a cada passo avançando, forçando o rival a recuar. — O mundo pertence aos novos guerreiros. Kaelvor será moldado pela chama divina, queira você ou não.
— Se ele for moldado, que seja pela própria escolha! — retrucou Baarto, girando as correntes e prendendo Alenor por um instante. O Ás rugiu quando as correntes se fecharam em torno de sua cintura, esmagando a armadura. — Kaelvor não é sua chama, não é sua arma. Ele é o fogo que escolhe onde queimar!
Alenor gritou, explodindo em energia. As correntes se derreteram como cera, e Baarto foi arremessado contra a parede, rachando a pedra. O velho cuspiu sangue, mas se ergueu novamente. A cada segundo, suas forças se esgotavam, mas sua determinação só aumentava.
Ele avançou mais uma vez, punhos cerrados. As correntes queimavam, consumindo até mesmo sua pele. Ainda assim, ele continuou. Um soco certeiro atravessou a barreira de fogo de Alenor e atingiu seu rosto. Pela primeira vez, o Ás cambaleou.
— Kaelvor não é seu filho… — Baarto disse, arquejando, quase sem forças. — Ele é o filho do mundo. E se alguém vai decidir seu destino, será ele mesmo.
Alenor limpou o sangue do canto da boca, e seu olhar endureceu. — Palavras bonitas. Mas o destino não é feito de palavras. É feito de fogo.
O golpe final veio como um sol em erupção. A sala inteira foi tomada por chamas douradas. Baarto, mesmo de joelhos, ergueu as correntes em sua última defesa. O impacto foi brutal, lançando-o contra as grades retorcidas do calabouço. Quando a fumaça se dissipou, Baarto estava caído, derrotado.
Mas ele sorria. Mesmo queimado, mesmo com as forças se esvaindo, ergueu o olhar para Alenor. — Eu fiz o que tinha que fazer. O resto… agora pertence a eles.
Alenor ficou em silêncio, encarando o corpo caído do velho Valete. Havia respeito no fogo de seus olhos. Talvez até um traço de culpa.
Baarto fechou os olhos, respirando com dificuldade. Sua chama se extinguia, mas não sua vontade. Ele havia passado o fardo, havia dado aos jovens a responsabilidade de carregar o fogo.
— Kaelvor… — murmurou, antes que a escuridão o tomasse. — Queime como você quiser…
E o calabouço mergulhou em silêncio, iluminado apenas pelas brasas que ainda ardiam nas correntes abandonadas. Baarto, caiu.
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