O som metálico dos primeiros embates ecoou como trovões na arena. Arkanis, com seus cristais orbitando como satélites, avançou contra Tiberan e Nymira. Cada passo que dava fazia o chão se enrijecer em fragmentos brilhantes, que tentavam prender seus pés. Tiberan reagiu soltando vinhas afiadas, tentando conter os cristais, mas eles cortavam como lâminas.

— Não adianta, garoto das flores — disse Arkanis, com um olhar frio. — Nada que brote pode resistir à perfeição do cristal.

Nymira, mesmo com o braço tomado pela mancha negra, ergueu a água ao redor do próprio corpo. Criou dois homúnculos líquidos que se lançaram contra o Valete. Arkanis apenas sorriu, abriu os dedos e lançou estilhaços que atravessaram os homúnculos, dissolvendo-os como se nunca tivessem existido. Nymira gemeu de dor — não era apenas sua criação que se desfazia, mas também um reflexo da sua própria vitalidade.

Do outro lado, Soraja e Kaelvor encaravam Anorith. O último chaveiro girava sua chave no ar, abrindo pequenos portais que distorciam a realidade. Cada vez que Kaelvor lançava chamas, elas eram sugadas para dentro das portas e redirecionadas contra eles mesmos.

— Vocês não entenderam ainda? — disse Anorith, com calma. — Eu decido o destino. Vocês são apenas peças que caminham onde eu quiser.

Kaelvor rosnou, envolto pelas suas chamas carmesins. — Então eu vou queimar até os caminhos que você abre!

Soraja, de punhos cerrados, avançou também, mas cada vez que se aproximava, uma nova porta surgia diante dela. Anorith observava sem pressa, como quem testava crianças.

Enquanto isso, Ephiron enfrentava sozinho Lorvek. O Valete da Explosão movimentava-se como uma tormenta flamejante, cada soco gerando ondas de impacto que rachavam a arena. Ephiron se defendia como podia, erguendo sua lâmina/lança, mas cada golpe o fazia recuar mais.

— É isso o que você se tornou? — zombou Lorvek, com desprezo. — Um guerreiro que troca aço por sentimentos? Você desonra o nome de Hyperion, desonra seu pai, desonra até mesmo a fagulha divina que recebeu ao nascer.

Ephiron cuspiu sangue e sorriu. — Não sou mais o filho de Alenor. Sou aquele que desafiará até mesmo Hyperion.

O choque entre os dois parecia incendiar o ar, mas, pouco a pouco, Lorvek demonstrava sua superioridade. Cada ataque de Ephiron era desviado ou engolido por uma explosão maior.

No centro da arena, os três combates se intensificaram. Tiberan, exausto, viu Nymira cair de joelhos, a mancha negra agora se espalhando pelo ombro. Ele tentou erguê-la, mas Arkanis lançou uma prisão cristalina sobre eles. — Belos esforços. Mas tudo que nasce, um dia morre. Vocês não são exceção.

Kaelvor rugiu, invocando sua Fênix Flamejante, que rompeu por um instante as distorções de Anorith. O pássaro de fogo rasgou o ar, queimando as bordas das portas. Anorith ergueu as sobrancelhas, surpreso por um instante, mas então sorriu. — É isso que eu queria ver. Continue queimando, garoto. Continue, e talvez você mesmo se destrua.

Soraja aproveitou o momento para invocar uma porta pesada, erguendo-a como um escudo. Conseguiu abri-la contra a vontade do chaveiro, mas o portal apenas levou a um vazio escuro. Ainda assim, foi suficiente para empurrar Anorith alguns passos para trás.

Ephiron, sangrando, tentou reunir forças para um contra-ataque, mas Lorvek acertou-lhe um soco explosivo que o jogou contra a parede. O filho de Alenor caiu de joelhos, parte da armadura se despedaçando. — Levante-se! — rugiu Lorvek. — Mostre-me que ainda é digno de carregar o nome de Hyperion!

Aos poucos, as batalhas foram se inclinando para um mesmo destino. Um a um, os Valerions caíam. Tiberan desmaiou, o corpo coberto por cortes de cristal. Nymira, quase sem forças, tentou se erguer, mas desabou ao lado dele, tossindo sangue. Soraja resistiu, mas acabou sendo presa entre duas portas que se fecharam sobre ela, esmagando-lhe as forças. Kaelvor foi o último a cair. Sua fênix rugia, mas Anorith manipulou a chave, redirecionando as chamas até que elas explodissem contra o próprio corpo do jovem. Kaelvor caiu de joelhos, respirando com dificuldade, antes de desmaiar.

Ephiron ainda resistia, cuspindo sangue e tentando golpear Lorvek, mas foi atingido por uma explosão que o lançou ao chão, inconsciente.

O silêncio dominou a arena. Os Valetes, em pé, observaram os heróis derrotados.

— E assim termina a rebeldia — disse Arkanis, erguendo sua lança de cristal.

Anorith girou a chave, abrindo portais diante de cada corpo. — Vamos deixá-los em paz para morrer. — Um a um, os Valerions foram sugados pelos portais, desaparecendo no vazio.

Quando a arena ficou vazia, o mundo voltou a se mover. Dias depois, em vilas e cidades, notícias corriam como vento:

— Os rebeldes foram derrotados. —

— Os Valetes esmagaram os hereges. —

— O mundo voltou à ordem. —

Em Hyperia, Tyr, curvado, ouviu as palavras com um misto de alívio e desespero. Dona Maela e Korin murmuravam entre si, sem saber se acreditavam. Baarto, em silêncio, fechou os olhos e suspirou, como quem sabia que ainda não era o fim. Alenor, com sua imponência, apenas ergueu o olhar para o céu.

E em uma caverna escura, Lorien, o irmão de Tiberan, permanecia imóvel, ainda enredado nas vinhas que o mantinham vivo. A notícia ecoava, mas seus olhos parados nada refletiam.

O tempo passou. Semanas. O mundo parecia resignado, como se a chama da rebeldia tivesse sido extinta.

Mas, em uma terra distante, um fogo se erguia. Uma árvore comum queimava em chamas intensas. E diante dela, um jovem de cabelos vermelhos, o braço marcado por cicatrizes, ergueu o punho.

— Muito em breve… — sua voz era grave, ardente — a Yggdrasil será reduzida a fumaça.

A fagulha não estava apagada. Ela apenas aguardava a hora certa de se tornar incêndio.