Valerion - a Busca por Yggdrasil
3 A espada de Tyr
A multidão recuou quando Kaelvor avançou.
De um lado, o homem miserável caído no chão, gritando de dor e segurando o braço sangrando.
Do outro, Tyr, o Cavaleiro de Hyperion, imóvel, sua armadura dourada refletindo a luz do fim da tarde.
Parecia que o próprio sol o vestia.
— Você… — Kaelvor cuspiu no chão, as mãos em chamas. — Você não passa de um carrasco fantasiado de deus.
Os guardas que acompanhavam a escolta se agitaram. O povo prendeu a respiração.
Ninguém ousava enfrentar um Cavaleiro Sagrado. Ninguém.
Mas Kaelvor não era “ninguém”.
Ele abriu os braços, e o fogo estourou em volta dos punhos.
O calor fez a multidão recuar mais alguns passos.
Tyr finalmente falou, com voz grave que ecoava dentro do elmo.
— Um andarilho sem fé. Um mendigo que cospe no nome de Hyperion. Você é apenas poeira sob meus pés.
Kaelvor sorriu.
— Poeira que queima.
Ele avançou com fúria, o fogo subindo pelos braços, e golpeou com força contra o Cavaleiro.
O impacto ecoou pela rua como um trovão, mas o que se ouviu logo depois foi o som seco do fogo batendo contra a armadura.
Nada.
Tyr nem se moveu.
Kaelvor tentou de novo, desta vez com mais força, jogando uma rajada de fogo direto no peito dourado.
As chamas lamberam a armadura… mas o ouro sagrado brilhou ainda mais forte, repelindo o calor como se fosse um espelho.
O Cavaleiro ergueu a espada lentamente, quase sem pressa, como quem apenas cumpria uma tarefa rotineira.
Kaelvor desviou no último segundo, e a lâmina cortou o ar com um som pesado.
— Você é insolente demais para continuar vivo. — Tyr disse, sem emoção.
Kaelvor rangeu os dentes.
Seus pés queimavam o chão enquanto circulava, tentando encontrar uma brecha.
Num movimento rápido, ele concentrou fogo nos punhos, socou de novo, e conseguiu.
Um arranhão.
Pequeno, quase invisível, mas um arranhão na armadura de Tyr.
O povo soltou um murmúrio de espanto.
Até mesmo os guardas recuaram um passo.
Tyr parou.
Olhou para o risco dourado em seu peito.
Silêncio absoluto tomou a rua.
Então, o Cavaleiro respirou fundo.
E a calma se transformou em fúria.
— Um verme ousa manchar a armadura da luz. — Sua voz agora era um rugido abafado pelo elmo. — Que sua morte sirva de exemplo.
Ele avançou, e dessa vez Kaelvor não conseguiu reagir.
A lâmina cortou seu peito com força brutal, abrindo um rasgo profundo.
O mundo girou. O calor das próprias chamas desapareceu.
Kaelvor caiu de joelhos, o sangue escorrendo pelo corpo.
As pessoas se afastaram ainda mais, aterrorizadas.
Tyr limpou a espada no ar e continuou sua marcha, sem olhar para trás.
Antes de desaparecer, deixou apenas suas palavras:
— Considere-se afortunado. Você morreu pelas mãos de Tyr, Cavaleiro Sagrado de Hyperion. Morra em paz.
O som dos cascos se afastou, levando consigo a escolta dourada.
A multidão, ainda em choque, não ousou ajudar.
Kaelvor tombou na poeira, o corpo todo ensanguentado.
Horas depois, abriu os olhos.
Estava deitado em uma cama limpa, em uma casa silenciosa.
Seu peito doía como se ainda estivesse sendo cortado, mas o ferimento estava coberto por folhas e ataduras bem cuidadas.
— Você quase morreu — disse uma voz calma.
Era o homem da taverna, aquele que tomava chá.
Estava sentado em uma cadeira ao lado, olhando para Kaelvor como quem examina uma planta rara.
— Enfrentar um Cavaleiro Sagrado foi estupidez. Você não tinha chance. — A voz dele não era de julgamento, mas de certeza.
Kaelvor respirou fundo, tossiu sangue, mas riu com dificuldade.
— Tolo ou não… consegui arranhar a armadura dele.
O homem não sorriu.
Apenas o observou em silêncio, com seus olhos claros e elegantes.
Kaelvor então fechou os olhos novamente, exausto.
Mas a chama em seu coração ainda ardia, mais forte do que nunca.
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