A multidão recuou quando Kaelvor avançou.

De um lado, o homem miserável caído no chão, gritando de dor e segurando o braço sangrando.

Do outro, Tyr, o Cavaleiro de Hyperion, imóvel, sua armadura dourada refletindo a luz do fim da tarde.

Parecia que o próprio sol o vestia.

— Você… — Kaelvor cuspiu no chão, as mãos em chamas. — Você não passa de um carrasco fantasiado de deus.

Os guardas que acompanhavam a escolta se agitaram. O povo prendeu a respiração.

Ninguém ousava enfrentar um Cavaleiro Sagrado. Ninguém.

Mas Kaelvor não era “ninguém”.

Ele abriu os braços, e o fogo estourou em volta dos punhos.

O calor fez a multidão recuar mais alguns passos.

Tyr finalmente falou, com voz grave que ecoava dentro do elmo.

— Um andarilho sem fé. Um mendigo que cospe no nome de Hyperion. Você é apenas poeira sob meus pés.

Kaelvor sorriu.

— Poeira que queima.

Ele avançou com fúria, o fogo subindo pelos braços, e golpeou com força contra o Cavaleiro.

O impacto ecoou pela rua como um trovão, mas o que se ouviu logo depois foi o som seco do fogo batendo contra a armadura.

Nada.

Tyr nem se moveu.

Kaelvor tentou de novo, desta vez com mais força, jogando uma rajada de fogo direto no peito dourado.

As chamas lamberam a armadura… mas o ouro sagrado brilhou ainda mais forte, repelindo o calor como se fosse um espelho.

O Cavaleiro ergueu a espada lentamente, quase sem pressa, como quem apenas cumpria uma tarefa rotineira.

Kaelvor desviou no último segundo, e a lâmina cortou o ar com um som pesado.

— Você é insolente demais para continuar vivo. — Tyr disse, sem emoção.

Kaelvor rangeu os dentes.

Seus pés queimavam o chão enquanto circulava, tentando encontrar uma brecha.

Num movimento rápido, ele concentrou fogo nos punhos, socou de novo, e conseguiu.

Um arranhão.

Pequeno, quase invisível, mas um arranhão na armadura de Tyr.

O povo soltou um murmúrio de espanto.

Até mesmo os guardas recuaram um passo.

Tyr parou.

Olhou para o risco dourado em seu peito.

Silêncio absoluto tomou a rua.

Então, o Cavaleiro respirou fundo.

E a calma se transformou em fúria.

— Um verme ousa manchar a armadura da luz. — Sua voz agora era um rugido abafado pelo elmo. — Que sua morte sirva de exemplo.

Ele avançou, e dessa vez Kaelvor não conseguiu reagir.

A lâmina cortou seu peito com força brutal, abrindo um rasgo profundo.

O mundo girou. O calor das próprias chamas desapareceu.

Kaelvor caiu de joelhos, o sangue escorrendo pelo corpo.

As pessoas se afastaram ainda mais, aterrorizadas.

Tyr limpou a espada no ar e continuou sua marcha, sem olhar para trás.

Antes de desaparecer, deixou apenas suas palavras:

— Considere-se afortunado. Você morreu pelas mãos de Tyr, Cavaleiro Sagrado de Hyperion. Morra em paz.

O som dos cascos se afastou, levando consigo a escolta dourada.

A multidão, ainda em choque, não ousou ajudar.

Kaelvor tombou na poeira, o corpo todo ensanguentado.

Horas depois, abriu os olhos.

Estava deitado em uma cama limpa, em uma casa silenciosa.

Seu peito doía como se ainda estivesse sendo cortado, mas o ferimento estava coberto por folhas e ataduras bem cuidadas.

— Você quase morreu — disse uma voz calma.

Era o homem da taverna, aquele que tomava chá.

Estava sentado em uma cadeira ao lado, olhando para Kaelvor como quem examina uma planta rara.

— Enfrentar um Cavaleiro Sagrado foi estupidez. Você não tinha chance. — A voz dele não era de julgamento, mas de certeza.

Kaelvor respirou fundo, tossiu sangue, mas riu com dificuldade.

— Tolo ou não… consegui arranhar a armadura dele.

O homem não sorriu.

Apenas o observou em silêncio, com seus olhos claros e elegantes.

Kaelvor então fechou os olhos novamente, exausto.

Mas a chama em seu coração ainda ardia, mais forte do que nunca.